28 junho 2006

155 - SERÁ QUE NOS LIVRAMOS DA FAMA?

Já lá vai algum (longo) tempo desde que aqui escrevi pela última vez e não pensava voltar a fazê-lo tão cedo. Muito menos pensei que, depois de tanto tempo de inactividade, começasse por escrever sobre futebol. Não o faço por estar particularmente afectado com a onda de histeria do Mundial da Alemanha, mas por ser difícil contornar a agressividade da imprensa e da própria população inglesa face à selecção portuguesa de futebol. Aliás, aproveito, desde já, para felicitar os jogadores da selecção por saberem responder, com orgulho da sua nacionalidade, a uma série de provocações da imprensa internacional, com especial destaque para a imprensa inglesa.
Parece que a selecção está rotulada de agressiva. Os jogadores da selecção têm a fama de fazer "jogo sujo" e de recorrer a todo o tipo de truques para ganhar jogos. Em Inglaterra, essa fama não é, aliás, exclusiva da selecção portuguesa mas também dos clubes portugueses, os quais jamais poderiam eliminar equipas inglesas das competições da UEFA sem recurso aos referidos truques. Assim, o jogo Portugal-Holanda foi ideal para alimentar ainda mais essa fama portuguesa. Como sempre, devemos rebater as injustiças com factos e, de preferência, com números. Já alguns apontaram o facto de a selecção nacional ter cometido apenas 10 faltas em todo o jogo com a Holanda, o que constitui talvez o menor número de faltas cometidas num só jogo por uma selecção neste Mundial da Alemanha. Mas isso não chega. Temos de olhar melhor para os números disponíveis nos relatórios da FIFA.
Os números relativos aos jogos dos oitavos de final são os seguintes:

País: Faltas cometidas; Cartões amarelos; Cartões vermelhos; Posse de bola (%)
Alemanha: 16; 1; 0; 63;
Suécia: 20; 4; 1; 37;
Argentina: 23; 2; 0; 51;
México: 28; 4; 0; 49;
Inglaterra: 13; 3; 0; 49;
Equador: 24; 3; 0; 51;
Portugal: 10; 9; 2; 38;
Holanda: 15; 7; 2; 62;
Itália: 17; 3; 1; 41;
Austrália: 26; 3; 0; 59;
Suíça: 24; 1; 0; 55;
Ucrânia: 20; 0; 0; 45;
Brasil: 18; 2; 0; 48;
Gana: 24; 6; 1; 52;
Espanha: 29; 1; 0; 61;
França: 23; 3; 0; 39.

Para avaliarmos qual a equipa de facto mais faltosa é necessário dividir tempo de posse de bola de cada equipa pelo número de faltas cometida pela equipa adversária, o que permite avaliar o intervalo de tempo médio entre faltas consecutivas da equipa adversária. Um outro indicador importante é o quociente entre o número de cartões amarelos e vermelhos (contabilizam-se apenas os vermelhos directos) e o número total de faltas de cada equipa. Em seguida listam-se estes indicadores para as equipas que disputaram os oitavos de final do Mundial de Futebol.

País: Período entre faltas consecutivas; % de admoestação
Alemanha: 2 min. 05 seg.; 6,3;
Suécia: 2 min. 50 seg.; 20,0;
Argentina: 1 min. 55 seg.; 8,7;
México: 1 min. 38 seg.; 14,3;
Inglaterra: 3 min. 32 seg.; 23,1;
Equador: 1 min. 50 seg.; 12,5;
Portugal: 5 min. 35 seg.; 90,0;
Holanda: 2 min. 17 seg.; 46,7;
Itália: 3 min. 07 seg.; 23,5;
Austrália: 1 min. 25 seg.; 11,5;
Suíça: 1 min. 41 seg.; 4,2;
Ucrânia: 2 min. 29 seg.; 0,0;
Brasil: 2 min. 36 seg.; 11,1;
Gana: 1 min. 48 seg.; 25,0;
Espanha: 1 min. 13 seg.; 3,4;
França: 2 min. 23 seg.; 13,0.

Estes resultados são muito interessantes e permitem várias leituras.
Uma delas permite contestar peremptoriamente as declarações do seleccionador holandês Van Basten. De facto, se existe equipa que não está constantemente a quebrar o jogo adversário com faltas é a nossa.
Por incrível que pareça, estes resultados também indicam que, em geral, quanto mais faltas uma equipa cometer, menor será a probabilidade de ter os seus jogadores admoestados com cartões amarelos ou vermelhos.
Os ingleses tentarão rebater estes dados afirmando que a fama de Portugal não foi construída neste jogo com a Holanda mas nos jogos que tem vindo a disputar ao longo dos últimos anos. Talvez, mas se olharmos para os jogos da fase de grupos deste Mundial, constatamos que a selecção nacional cometeu em média 23 faltas por jogo, o que corresponde, para os tempos de posse de bola das equipas adversárias, a uma falta por cada 1 minuto e 44 segundos, em média. No que respeita a cartões, os jogadores portugueses foram admoestados em 13,2% das faltas que cometeram. Quando comparamos estes valores com a média dos jogos dos oitavos de final, excluindo-se o jogo Portugal-Holanda, concluímos que a selecção nacional é de facto mais faltosa do que a média (2 minutos e 24 segundos entre faltas consecutivas) e que não é prejudicada pelos árbitros relativamente às outras selecções (12,6% de faltas "premiadas" com cartão). Se os resultados de Portugal na fase de grupos confirmam a fama dos jogadores portugueses, então também Espanha, Ucrânia, Alemanha, Austrália, Gana, Equador, México e Argentina têm selecções de extrema agressividade.
Espero que esta informação possa repor a verdade sobre lealdade dos jogadores portugueses.
Finalmente, quanto aos cartões mostrados pelo árbitro do jogo entre Portugal e Holanda, penso que foram todos bem mostrados e que ainda ficaram mais uns quatro ou cinco por mostrar aos jogadores holandeses. Não me parece que o árbitro deva ser criticado pelos responsáveis da FIFA. Talvez fosse melhor que um jogo com 22 intervenientes fosse controlado por mais do que 4 árbitros, tal como acontece noutros desportos com muito menor número de intervenientes. Também não há justificação para a teimosia da FIFA e da UEFA em recusar a utilização de dispositivos de apoio à arbitragem, tais como imagens de vídeo, sensores electrónicos para situações de fora de jogo ou de bolas sobre as linhas, entre outros. Enquanto estas medidas não forem implementadas, o futebol nunca será um jogo justo. Até lá, recomendo aos jogadores portugueses que cometam uma falta a cada dois minutos. Sempre dá para ir libertando a tensão com faltas mais ligeiras e isentas de admoestação. Também devem tentar libertar-se das faltas dos jogadores ingleses durante mais de 5 minutos, pois assim há garantia de que essas faltas serão seguidas do respectivo cartão.

04 fevereiro 2004

154 – DIVULGAÇÃO (II)


Bárbara Rebelo é uma jovem pintora cujo percurso venho acompanhando desde sempre. Depois de sete exposições realizadas, das quais saliento a sua última exposição individual, que teve lugar na Real Fábrica, em Lisboa, em 2001, Bárbara Rebelo volta agora a expor o seu trabalho depois de um interregno de dois anos motivado pelo nascimento do seu primeiro filho.
Bárbara Rebelo nasceu em Luanda, em 1973, e cresceu no seio de uma família onde a arte esteve sempre presente sob várias formas de expressão, mas fundamentalmente através da pintura do seu avô paterno, consagrado pelos seus retratos das pessoas e das paisagens de Angola. O ambiente familiar de Bárbara Rebelo estimulou o seu quase inevitável gosto pela pintura e foi assim que se iniciou o seu percurso autodidacta. Desde que, em 1991, esta pintora (e também Designer de Interiores) expôs pela primeira vez os seus trabalhos, a evolução artística e a afirmação de um estilo muito próprio têm sido significativas e a pesada herança artística do seu avô (Albano Neves e Sousa), de quem recordo a “Rapariga da Gabela”, ficou definitivamente para trás.




Se tiverem disponibilidade, recomendo uma visita à sala de exposições da Residencial Monte Alentejano, em Montemor-o-Novo, onde, a partir das 16 horas do próximo sábado (7 de Fevereiro), Bárbara Rebelo realizará a sua primeira exposição individual deste ano. Se, por qualquer motivo, não puderem deslocar-se a Montemor-o-Novo, poderão sempre apreciar a pintura de Bárbara Rebelo no dia 17 de Abril, numa exposição colectiva que terá lugar no Clube Nacional de Artes Plásticas, em Telheiras (Lisboa). Lá mais para o fim do ano, Bárbara Rebelo participará noutra exposição colectiva, a qual decorrerá no Auto Clube Médico Português, em Lisboa, no dia 7 de Setembro. Estão ainda agendadas uma exposição individual, no Centro de Arte Contemporânea da Amadora, e uma exposição colectiva, na sede da Ordem dos Médicos, em Lisboa, cujas datas de abertura divulgarei oportunamente.
Entretanto, deixo-vos três exemplos do que poderão ver nestas exposições:


Bandarina (óleo sobre tela)


Força Bruta (óleo sobre tela)


Mestiço (óleo sobre tela)

ANS

153 - DIVULGAÇÃO (I)


Respondendo a um pedido do Paulo Gorjão, divulgo o desafio que ele fez a todos aqueles que lêem blogs para que escrevam pequenos textos (com 50 a 125 palavras) descrevendo o que será a blogosfera portuguesa daqui a um ano.
Na próxima segunda-feira (9 de Fevereiro), todos os textos que forem enviados para o e-mail do Bloguítica (bloguitica@hotmail.com) serão publicados naquele blog.
Como lembra o Paulo Gorjão, no post 326 do Bloguítica, «será certamente interessante ler os textos para a semana que vem e, sobretudo, relê-los em Fevereiro de 2005».
Espero que o Paulo Gorjão não se arrependa desta iniciativa. Nem quero imaginar o que seria se todos os bloggers nacionais aderissem. Vou já escrever o meu texto, mas não sei se conseguirei fazê-lo com menos do que 125 palavras...

ANS

03 fevereiro 2004

152 – MIKLOS FEHÉR


Uma semana depois da morte de Miklos Fehér, já pouco ou nada resta para comentar sobre este triste acontecimento. No entanto, como já aqui assumi a minha veia “benfiquista”, penso que também devo prestar a minha homenagem póstuma a este jogador da equipa de futebol sénior do Sport Lisboa e Benfica (SLB). No entanto, só o faço no blog porque não estou em Portugal. Antes de vir para Liverpool, costumava ir ao antigo estádio da Luz para assistir a todos os jogos do meu clube. Se ainda estivesse em Portugal, hoje iria ao novo estádio da Luz e prestaria a minha homenagem a Fehér entre os adeptos benfiquistas.
Penso que a melhor forma de homenagear Miklos Fehér é com palavras honestas. Por isso, não retratarei o jogador húngaro como um herói, mas apenas como um jovem de apenas 24 anos de idade que já mostrara que nunca viria a ser um jogador de futebol de grande nível, pelo menos em Portugal. De facto, desde que chegou ao nosso país, em 1998, Miklos Fehér representou quatro clubes diferentes (Futebol Clube do Porto, Sport Comércio e Salgueiros, Sporting Clube de Braga e SLB) e estava em vias de ser emprestado pelo SLB novamente ao Sporting de Braga ou a um outro clube (falava-se da União Desportiva de Leiria e do Boavista Futebol Clube). Esta instabilidade é reveladora das dificuldades sentidas pelo futebolista ao longo dos anos que passou em Portugal. Talvez não seja a melhor altura para recordar esta realidade, mas a verdade é que se Miklos Fehér não tivesse morrido daquela forma chocante, daqui a alguns anos, além de alguns aficionados especiais (como é o caso dos editores do blog Caderneta da Bola), mais ninguém em Portugal saberia quem era o portador da camisola 29 na equipa de futebol profissional do SLB na época de 2003/04.
Infelizmente, Fehér não poderá provar que eu estou enganado porque morreu subitamente, no estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, enquanto representava o SLB num jogo da Super Liga frente ao Vitória Sport Clube. Como forma de homenagear o jogador e de garantir a sua memória, a camisola 29 da equipa de futebol do SLB nunca mais será envergada. Parece que o Museu do SLB terá também um espaço reservado ao futebolista. Penso que o clube decidiu bem. Estes dois gestos são os únicos que garantem que Fehér não será recordado apenas como aquele futebolista do Benfica que morreu subitamente durante um jogo. Penso que Fehér gostaria de ser recordado como um jogador da casa, como um funcionário que fez amigos no clube, na equipa e, quem sabe, entre alguns adeptos. Fehér gostaria de ser recordado como um jovem que jogou futebol no estádio da Luz, como um avançado que marcou golos pelo SLB, como um jogador temperamental que viu cartões amarelos e vermelhos, como alguém que fez vibrar as bancadas do estádio da Luz, umas vezes por irritação, outras por frustração e tristeza e outras ainda por contentamento e alegria. Espero que o espaço Fehér no Museu do Benfica ilustre todas estas situações com imagens apropriadas e que a camisola 29 seja relegada para segundo plano. Dar muito destaque à camisola de Miklos Fehér seria o mesmo que exibir uma relíquia mortuária. Seria desvalorizar o jogador e valorizar o acontecimento trágico que foi a sua morte. Se a morte de Fehér nos ensina alguma coisa, essa coisa é precisamente o valor da vida. E por isso, são os factos da vida de Fehér que têm de ser lembrados.
No dias que se seguiram à morte de Fehér, apercebi-me (mesmo à distância) que a população portuguesa foi bastante abalada pelo acontecimento. No estrangeiro também se falou do assunto, mas a morte à distância e em diferido parece que já não choca tanto. Eu estou no estrangeiro, mas sou português e benfiquista e, ainda por cima, sabia quem era Miklos Fehér. Por isso, as imagens da sua morte chocaram-me bastante. Pensei que depois dessas imagens, os portugueses começassem a encarar a sua vida e o futebol de uma forma diferente. Estava enganado. Bastou uma semana para que os dirigentes, técnicos e jogadores do Sporting Clube de Portugal e do Futebol Clube do Porto, juntamente com os jogadores, adeptos e dirigentes do Vitória e do Boavista, mostrassem que está tudo na mesma. Bastou uma semana para que todas as homenagens a Fehér entretanto realizadas por dirigentes, jogadores e aficionados do futebol perdessem todo o sentido. Bastou uma semana para que todos aqueles abraços comovidos a Luís Filipe Vieira (que cheguei a confundir com algum familiar muito próximo de Miklos Fehér) revelassem a sua verdadeira essência. Eram apenas lágrimas de crocodilo.
Os portugueses ficaram abalados porque assistiram à morte súbita de um jovem supostamente mais saudável do que a maioria de nós. Os portugueses ficaram chocados porque foram apanhados de surpresa. De facto, ninguém está preparado para a morte. Nem quando ela é anunciada. Aposto que todos pensaram que aquilo poderia (e pode) acontecer a qualquer um de nós ou a alguém de quem gostamos. Penso que talvez tenha sido o esse o pensamento mais assustador associado àquelas imagens. Alguns terão também pensado que ali estava mais uma prova de que a vida é o mais importante. Estes terão ainda pensado que gastam demasiado tempo e energia com questões que se tornam insignificantes quando a morte surge. Por isso, alguns terão decidido gozar mais a vida com aqueles que amam.
Num país com tanto aficionado pelo futebol e com tanto estádio novo, eu esperaria encontrar famílias nos estádios. Desta forma, o ambiente que rodeia os jogos de futebol seria muito mais acolhedor e convidativo. Seria uma verdadeira festa do futebol, com alegria, segurança e boa disposição. Se assim fosse, os adeptos poderiam gozar mais a vida junto daqueles que gostam. Como consequência, os adeptos esqueceriam os seus problemas de uma forma saudável e talvez até conseguissem transmitir um ambiente de maior fair-play para o interior do relvado.
Fui um idiota. Pensei que a morte de Fehér pudesse levar as pessoas a empenharem-se em transformar novamente o futebol numa excelente forma de convívio em torno de um jogo que pode ser muito bonito. Como é óbvio, estava muito enganado. Os adeptos querem continuar preocupados com as mesquinhices da sua vida. Aliás, como as suas preocupações não lhes chegam, interiorizam as preocupações dos riquíssimos profissionais do futebol como se fossem suas. Fazem-no durante toda a semana, absorvendo jornais desportivos diários que giram em torno das mesquinhices do futebol profissional. Depois, no fim-de-semana, em vez de tentarem o convívio familiar que foi relegado para segundo plano durante a semana de trabalho, vão sozinhos para os estádios. Chegam lá tristes, irritados e insatisfeitos. E nem sabem porquê. Pensam que talvez seja apenas porque são portugueses. Este nosso complexo de nacionalidade serve para tudo. Assim que o jogo começa, começam também as críticas, as lamúrias e a vitimização. Ou é o jogador A que, ao falhar a segunda jogada, é acusado de não fazer nada direito e logo de seguida é furiosamente aconselhado a regressar à sua terra, ou é o jogador B que, ao fazer a primeira falta, é acusado de ser um psicopata violento que apenas foi contratado para lesionar os adversários, ou é o árbitro que é tendencioso e que tem uma relação de ódio com o clube C desde que nasceu, ou é o fiscal de linha (agora pomposamente chamado de árbitro auxiliar) que está a precisar de visitar urgentemente um oftalmologista, ou é o treinador que é teimoso e não vê o que o estádio inteiro está a ver, ou é o presidente do clube que é um ladrão que só compra maus jogadores por preços exorbitantes (embolsando pelo menos metade desses valores) ou é o famigerado “sistema” que é controlado pelo clube D que agora até tem não sei quantos lacaios na Liga de Clubes e no Conselho de Arbitragem. Esta lengalenga repete-se durante o jogo inteiro, sendo interrompida uma vez por outra por cânticos de apoio à equipa que marcou um golo há dois minutos, ou melhor por um ou dois cânticos, com menos de dez palavras cada um, porque não há paciência para criar um ambiente de festa à volta do jogo. O objectivo do futebol é provocar sofrimento. No fim do jogo, esse objectivo foi plenamente atingido. Os adeptos abandonam o estádio em pior estado psicológico do que quando lá chegaram. Entretanto, há sempre alguns que beberam mais do que deviam (como diria Fernando Negrão, são jovens que ainda estão longe daquilo que se pode considerar como o “saber beber”) ou que fumaram mais do que deviam (será que Fernando Negrão também acha que se pode aprender a fumar haxixe?) e se envolveram em “confrontos de claques” com a consequente chuva de pedras e cadeiras. Estas situações são tão normais que até existe a expressão “confronto de claques”. Até parece que foi para isso que as claques foram criadas. Talvez a organização do Euro 2004 possa contratar as claques para efectuarem as funções das polícias de choque que se encontrarão em manifestações e greves durante o campeonato europeu de futebol. A insegurança é, de facto, um problema nos estádios de futebol e é mais um factor negativo que piora o estado de espírito dos aficionados. Por causa da insegurança e do mau ambiente, os adeptos não trazem a família aos estádios. Os adeptos mais lúcidos também deixam de ir porque há coisas mais interessantes para fazer como, por exemplo, ir passear para os centros comerciais. Os menos lúcidos, entre os quais me incluo, continuam a ir sozinhos ao estádio, sem saber exactamente o que estão ali a fazer.
Se a morte de Fehér não alterou nada, então perco de vez as minhas esperanças de assistir a jogos de futebol num ambiente saudável. Aliás, receio deixar de gostar de ir ao estádio da Luz. Em casa, mudo de canal quando a televisão me presenteia com reality shows. Talvez tenha de fazer algo semelhante relativamente aos estádios de futebol. Afinal, tudo o que gira à volta do futebol não é mais do que aquela irritante interiorização de todas as componentes públicas da vida de jovens de poucos recursos e sem formação que, de um momento para o outro, se tornam milionários e passam a ser os ídolos de milhares de pessoas. A única explicação que encontro para a necessidade que as pessoas têm de ídolos é a frustração das suas próprias vidas, mas daí até compreender o que leva alguém a insultar ou agredir um árbitro, um dirigente, um jogador ou um simples adepto, vai uma enorme distância. Eu gosto muito do Benfica. Não sei porquê, mas gosto. Talvez seja porque, quando tinha quatro anos de idade, conseguia ver o estádio da Luz a partir do meu prédio. Gosto quando a equipa de futebol ganha. Tenho saudades de ver o SLB sagrar-se campeão nacional de futebol. Mas quando isso não acontece, o mundo não acaba. É só um jogo. Se existe alguém que pode perder alguma coisa são os profissionais de futebol, mas esses já ganham tanto (mesmo quando não ganham nada), que tudo o que possam porventura perder não me preocupa minimamente. Nunca conseguirei perceber porque razão existem tantos adeptos que encaram as derrotas ou os resultados menos bons como autênticos desastres para as suas vidas pessoais. Todos devemos gostar de ganhar, todos devemos procurar a vitória em tudo o que fazemos, mas no futebol profissional não somos nós que jogamos (só se for na Bolsa de Valores, mas as hipóteses de escolha são tão poucas e a rentabilidade das acções das Sociedades Anónimas Desportivas é tão miserável que nem coloco essa hipótese). De onde vem então toda aquela raiva? Não sei, não consigo perceber.
Desejava apenas que fôssemos mais civilizados nos estádios, que lêssemos mais do que apenas jornais desportivos, que combatêssemos os maus comportamentos nos estádios, que trouxéssemos as famílias para os estádios e que apreciássemos o futebol como um jogo e não como um negócio. Desejava que deixássemos os problemas financeiros e todos os outros problemas do futebol para os profissionais e que desfrutássemos do jogo em si mesmo. Desejava que discutíssemos as tácticas e que apreciássemos as jogadas e os pormenores técnicos. Em suma, desejava que fizéssemos (todos) do futebol um espectáculo realmente convidativo. Se fizéssemos tudo isso, então estaríamos a homenagear verdadeiramente o futebolista Miklos Fehér.

ANS

02 fevereiro 2004

151 – POLÍTICOS E JORNALISTAS – SERÁ QUE SÃO DIFERENTES?


Nos últimos tempos a comunicação social tem-se queixado bastante de sucessivos ataques à liberdade de imprensa efectuados pela classe política no poder. Isto aconteceu, por exemplo, em Itália, em Portugal e no Reino Unido. Neste último país, a celeuma surgiu após a divulgação do relatório Hutton. Parece que a comunicação social britânica (e não só) considera que este relatório faz uma análise demasiado tendenciosa das situações que conduziram à morte de David Kelly. Segundo a generalidade da comunicação social, o relatório de Lorde Hutton não se limita a ilibar rapidamente o Governo britânico de toda e qualquer responsabilidade naquela morte e no eventual exagero do relatório sobre as armas de destruição em massa iraquianas (o qual justificou a entrada do Reino Unido na guerra contra o Iraque). De facto, são muitos os comentários (escritos e falados) que estranham a forma intensiva como o relatório Hutton analisou a conduta da BBC enquanto estação de televisão (do Estado). São muitos os jornalistas, comentadores e colunistas que se afirmam chocados pelo facto de Lorde Hutton afirmar que a comunicação social não tem o direito de comunicar informações que, embora sendo de elevado interesse público, contenham falsidades e coloquem em causa a integridade de outros, entre os quais Lorde Hutton incluiu explicitamente os políticos. Para Lorde Hutton, sempre que uma investigação jornalística puder colocar em causa a integridade pessoal e a reputação de alguém, deverá ser sujeita a um sistema de verificações exaustivo por parte dos editores de modo a garantir que o texto final seja o mais correcto possível e isento de falsidades. De acordo com o relatório Hutton, não foi esta a conduta de Andrew Gilligan nem dos seus superiores hierárquicos na BBC.
Não percebo qual é o espanto da classe jornalística. Já todos sabíamos que existiam falhas importantes na reportagem de Andrew Gilligan, desde a identificação da sua fonte como um elemento dos serviços secretos britânicos até à forma “imprecisa” como as revelações de David Kelly foram transcritas. Já todos sabíamos que a BBC tinha falhado na protecção da sua fonte. Já todos sabíamos que o relatório Hutton não poderia deixar de criticar a conduta da BBC.
Também não percebo qual é o espanto relativamente às recomendações de Lorde Hutton. É que eu sempre pensei que as investigações jornalísticas que pudessem colocar em causa o bom nome de cidadãos só eram publicadas quando fossem baseadas em provas suficientemente sólidas. Será que afinal não é assim? Alguns políticos portugueses, desde Manuel Alegre ao Presidente da República, passando pelo Presidente da Assembleia da República, parecem achar que não e, talvez por esse motivo, sugerem que a comunicação social não aborde casos sob investigação judicial. Lorde Hutton não sugere nada que se pareça com isto, mas mesmo assim a comunicação social britânica considerou o seu relatório como um ataque à liberdade de imprensa. Houve até quem fizesse comparações com a situação de concentração da comunicação social que se verifica em Itália ou com a censura governamental russa. Se, por um lado, penso que a comunicação social está a “apimentar” as declarações de Lorde Hutton, por outro lado não me esqueço que são as investigações jornalísticas que conduzem, na maior parte das vezes, à identificação de situações ilegais associadas a Governos, instituições, empresas ou cidadãos. São as investigações jornalísticas que permitem levantar dúvidas e controlar o desempenho dos diversos elementos que compõem as sociedades democráticas, confrontando-os com os seus deveres legais e morais. As investigações jornalísticas são uma das maiores garantias de sobrevivência dos sistemas democráticos e, por esse motivo, não poderão nunca ser limitadas. Apenas se pode exigir que essas investigações não destruam a reputação de inocentes. Mas os jornalistas também erram. Quando isso acontece, eles devem assumir as suas responsabilidades como qualquer profissional de outras áreas. Se não o fizerem de livre vontade, deverão ser obrigados a fazê-lo pelos tribunais. Penso que já é assim que as coisas acontecem. Ou não é? Se é, porque razão não me lembro de nenhuma campanha nas televisões e na imprensa escrita para limpar o nome de alguém que tenha visto a sua reputação injustamente destruída por esses mesmos órgãos de comunicação social? De facto, a comunicação social é exímia em destruir pessoas com base na mínima suspeita. Tal acontece através de muitas primeiras páginas e páginas interiores de jornais e de muitas horas de televisão e rádio dedicadas à exploração das mais leves suspeitas. Será que esta conduta é correcta? Talvez não, mas a verdade é que talvez permita aprofundar as investigações através da descoberta de mais factos importantes, os quais poderão ser utilizados em eventuais julgamentos em tribunal. E quando os tribunais ilibam os acusados? O que faz a comunicação social nestes casos? Bem, a resposta é simples. As televisões apresentam uma curta notícia logo a seguir ao intervalo dos noticiários e a imprensa escrita limita-se a publicar um desmentido com letras minúsculas numa pequena caixa estrategicamente colocada perto de diversos anúncios. Será que esta é a conduta correcta? Não! Definitivamente, não é. Em vez de se tentar limitar a liberdade de imprensa, penso que se devem tentar criar condições de igualdade para a colocação de dúvidas e suspeições e para a sua eliminação. Sugiro, por exemplo, que a comunicação social seja obrigada a dedicar à reabilitação do bom nome daqueles que tenham sido injustamente acusados exactamente o mesmo espaço que tenha entretanto dedicado à sua acusação. Acredito que a comunicação social teria muito mais respeito por esta medida do que pelas actuais sanções previstas na lei.
O Governo britânico foi ilibado pelo relatório Hutton e não exigiu nada comparado com o que eu sugiro. Consciente de que o relatório Hutton não é um veredicto de tribunal que confira ao Governo britânico qualquer direito a uma indemnização por parte da BBC, Tony Blair limitou-se a exigir um pedido de desculpas formal da BBC. A classe jornalística nunca se deu bem com pedidos de desculpa e uniu-se em torno da ex-direcção da BBC, a qual foi entretanto “humilhada” por Alastair Campbell (para usar as palavras de uma certa comunicação social). Ao mesmo tempo que esta comunicação social criticava a atitude arrogante e vingativa de Alastair Campbell e (por arrasto) do Governo britânico, aproveitava para desfazer a integridade pessoal de Lorde Hutton, bem como a sua independência política. Sinceramente, não sei quem está a ser mais arrogante e vingativo. Não sei se é o Governo britânico ao exigir um pedido formal de desculpas por parte da BBC ou se é a imprensa (escrita e falada) por, arrogantemente, não aceitar recomendações à sua conduta de investigação e por, vingativamente, desprezar agora as qualidades morais e a isenção de Lorde Hutton (características imensamente elogiadas na imprensa quando ele foi escolhido para conduzir este inquérito).
Parece-me que afinal os jornalistas e os políticos são muito semelhantes. As duas classes profissionais afirmam o que mais lhes convém consoante as cirscunstâncias e, de certa forma, alimentam-se uma da outra. Vejamos o que aconteceu no caso do inquérito Hutton. O Governo britânico foi acusado por um jornalista da BBC de apimentar o relatório sobre as armas de destruição em massa iraquianas com o objectivo de garantir a participação na guerra com o Iraque. Na sequência da notícia, a fonte de Andrew Gilligan suicidou-se e foram levantadas dúvidas sobre a responsabilidade do Governo britânico no sucedido. Se, por um lado, tínhamos uma estação de televisão que acusava o Governo britânico de falsificar relatórios e de conduzir um funcionário ao suicídio, por outro lado, tínhamos esse mesmo Governo acusando a estação de televisão do Estado de publicar notícias falsas e de conduzir uma fonte ao suicídio. Como se deveria ter resolvido esta questão? Com uma ou mais acções em tribunal. Foi isso que aconteceu? Não. O Governo britânico (não muito convencido da sua inocência) preferiu instaurar um inquérito ao sucedido. A BBC (não muito convencida da sua inocência) preferiu esperar pelos resultados do inquérito, o que aconteceu na passada quarta-feira. Até essa data, a comunicação social foi elogiando Lorde Hutton ao mesmo tempo que adivinhava as conclusões do relatório. Parece que, como não tinham sido encontradas quaisquer armas de destruição em massa no Iraque, todos esperavam a confirmação da suspeita sobre a culpa do Governo britânico no alegado exagero do relatório sobre essas mesmas armas. Isso não aconteceu e a comunicação social ficou aparentemente furiosa. O Governo britânico aproveitou então para ganhar vantagem numa questão que já vinha sendo explorada pela imprensa desde Junho de 2003. Tratou-se, porém, de uma curta vantagem. A comunicação social em peso veio alegar que o relatório Hutton não foi isento e que a liberdade de imprensa estava a ser colocada em causa. Como resposta, o Governo britânico terá de nomear uma direcção da BBC indiscutivelmente independente e será obrigado a rever favoravelmente o financiamento da estação de televisão. Desta forma, todos ganham. O Governo livrou-se de duas questões polémicas sem ter de enfrentar um tribunal. A BBC também se livrou do tribunal e, ao mesmo tempo, reforça a sua "independência" do Governo e recolhe benefícios ao nível do financiamento. A restante comunicação social garantiu mais de meio ano de material para encher os jornais e noticiários televisivos.
Pode-se tentar constestar esta tese perguntando o aconteceria se o relatório Hutton indicasse que o Governo britânico tinha efectivamente apimentado o relatório sobre as armas de destruição em massa iraquianas? Será que todos ganhariam? Não. O actual Governo britânico não teria sobrevivido e a comunicação social teria sido arrogante e vingativa (desta vez na vitória) e contribuiria para “humilhar” o mais possível Tony Blair. Mas isso nunca poderia acontecer com um relatório patrocinado pelo Governo, pois não?
Pode-se ir um pouco mais longe e supor que, no meio disto tudo, alguém ficava a perder mais do que os outros. Suponhamos que essa pessoa conseguiria levar o caso para os tribunais. O que aconteceria? Parece-me que o relatório Hutton contempla esta hipótese e até sugere qual o veredicto que deveria resultar dos tribunais. Os culpados seriam os serviços secretos britânicos, mais precisamente John Scarlett. De acordo com o relatório Hutton, John Scarlett sentia-se tão pressionado pelo Governo britânico que, “subconscientemente”, exagerou uma informação “já antiga” e “não confirmada” da oposição iraquiana. Lorde Hutton poupou John Scarlett ao afirmar que ele agiu “subconscientemente”, mas mostrou a todos quem será o bode expiatório no caso de este assunto não morrer aqui. Convém lembrar que Lorde Hutton usou esta expressão logo depois de ter afirmado que ninguém poderia saber o que se passava na cabeça de David Kelly e, por esse motivo, o Governo britânico não poderia ter responsabilidades na morte do especialista em armas de destruição em massa. Parece-me evidente que aquela expressão só foi ali colocada por Lorde Hutton porque as outras opções eram bem piores.
Já que refiro bodes expiatórios, aproveito para recordar que os serviços secretos (ou de inteligência) já estão habituados a esse papel. Foi o que aconteceu após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, quando esses serviços foram acusados de não terem dado a devida importância a informações que poderiam ter ajudado a evitar os ataques. Foi o que aconteceu nos EUA com a justificação da Administração (em período de campanha eleitoral) para o facto de ainda não terem sido descobertas armas de destruição em massa no Iraque. Parece que afinal os serviços secretos foram enganados por Saddam Hussein. O ex-ditador já não tinha armas de destruição em massa mas queria que todos acreditassem que ele as tinha. (Continuo sem perceber porque razão continuam a inventar estas histórias – ainda mais rebuscadas do que as minhas – para justificar a intervenção militar no Iraque. Existiram tantos motivos importantes e justos que já abordei noutros posts. Qualquer um deles explicaria porque é que o Mundo é um pouco melhor sem Saddam Hussein.)
Mas o melhor de todos os bodes expiatórios é, sem dúvida, Abdul Qadeer Khan, o “pai” do programa nuclear paquistanês. No Verão de 2002, Colin Powell avisou o General Pervez Musharraf que Abdul Khan estava a exportar a sua tecnologia para a Coreia do Norte. (Será que isto teve alguma influência no apoio paquistanês às recentes intervenções militares americanas no Médio Oriente?) Nos últimos dois meses, surgiram sinais de que Abdul Khan também terá exportado tecnologia nuclear para a Líbia e para o Irão. Numa altura em que o Coronel Khadafi deixou de ser terrorista para passar a ser “amigo” e num período de campanha eleitoral nos EUA, durante o qual não convém criar muita tensão com o regime de Teerão (até porque a situação política interna do Irão já está bastante tensa), nada melhor do que desviar as atenções para Abdul Khan. Não se trata de desviar as atenções para um país, mas sim para um homem. Um único homem passou a ser responsável pelas armas nucleares de todo o “eixo do mal”! É fantástico. Também é curioso que agora o problema já não resida na aquisição e posse de armas nucleares, mas sim na venda e na exportação de tecnologia. O que dizer então dos EUA e de vários Estados europeus? Veja-se o exemplo dado, na semana passada, pelo posicionamento político da França face à China...
Sinceramente, uma comunicação social que se deixa manipular desta forma pelos políticos não se pode queixar de ataques à liberdade de imprensa. Estou cada vez mais convencido que estas duas classes profissionais se alimentam uma da outra.

ANS

01 fevereiro 2004

150 – O MEU PERIGOSO CORTA-UNHAS


Passaram já dois anos e quatro meses desde o fatídico dia 11 de Setembro de 2001. Nesse dia estava em Lisboa e planeava viajar daí a cerca de uma semana. Com todas as medidas extraordinárias de segurança que foram impostas nos aeroportos logo a seguir aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, cheguei a pensar que teria de adiar a minha viagem. Felizmente, tal não foi necessário.
Tive de chegar ao aeroporto mais de duas horas antes do voo. Nesses primeiros dias do pós-11 de Setembro, era necessário apresentar o passaporte e o bilhete para se entrar no aeroporto. Lá dentro, a quantidade de polícias armados com metralhadoras inspirava tudo menos segurança. Depois de um check-in demorado, durante o qual me pediram para abrir as malas para inspecção, lá fui para as filas do controlo de passaportes e de bagagens de mão. Quando chegou a minha vez, não tive quaisquer problemas porque apenas levava um computador portátil, com alguns Compact Discs e canetas. Finalmente, após um período de tempo que teria sido suficiente para efectuar cerca de 300 quilómetros de auto-estrada, entrei no avião. Voltaram a pedir-me o passaporte e o cartão de embarque, não fosse eu ter ali chegado de pára-quedas. Confesso que receei que o funcionamento dos aeroportos nunca mais voltasse à normalidade. Para quem, como eu, viaja bastante, a hipótese de perder mais de duas horas dentro de um aeroporto em cada viagem é aterradora. Felizmente, as coisas melhoraram muito desde essa data.
É um facto que as coisas melhoraram, mas ainda existem resquícios do 11 de Setembro de 2001. Há poucos dias fui a Paris. Pela primeira vez, depois de 75 voos realizados desde a data dos ataques terroristas em Nova Iorque, fui obrigado a abrir a bagagem de mão para retirar o corta-unhas que costumo levar sempre que viajo. Já sabia que, desde os ataques terroristas de 11 de Setembro, os corta-unhas eram considerados objectos perigosos e, como tal, interditos aos passageiros de aviões comerciais. No entanto, sempre pensei que a perigosidade dos corta-unhas advinha da lima com aquela extremidade em forma de gancho que a maioria destes objectos possui. Sempre pensei que o meu corta-unhas, que não possuía esta lima, não era um objecto perigoso. Pensei eu e pensaram os funcionários da segurança dos catorze aeroportos que utilizei desde Setembro de 2001. Afinal estávamos todos enganados. O funcionário da segurança do Aeroporto John Lennon, em Liverpool, é que sabia. Com a arrogância típica dos porteiros de discoteca e demais funcionários de segurança, ele limitou-se a retirar-me o corta-unhas sem sequer tentar explicar porque razão é que aquele objecto era mais perigoso do que um Compact Disc, uma caneta ou uma lapiseira, um atacador de sapato, um cinto, uma fivela de cinto ou de relógio, ou até uma chave, entre muitos outros objectos de uso corrente.
Numa altura em que se estão a cancelar voos devido a uma ameaça “credível” de terrorismo, não quero aumentar a lista dos objectos potencialmente perigosos no interior dos aviões comerciais, mas se nos lembrarmos que os terroristas têm treino militar e que este deverá incluir formação em luta corpo-a-corpo, porque razão é que os objectos que referi não poderão ser utilizados por um terrorista? Eu não percebo nada deste assunto, mas penso que são inúmeros os objectos que os passageiros podem transportar consigo para o interior dos aviões que são potencialmente mais perigosos do que um corta-unhas.
Para evitar comentários, aviso que já comprei outro corta-unhas...

ANS

16 janeiro 2004

149 – QUANTO VALE A LUA? A QUEM PERTENCE A LUA?


Quando ouvi falar pela primeira vez das ambições espaciais da actual Administração norte-americana, não prestei nenhuma atenção porque assumi imediatamente que se tratava de uma daquelas manobras demagógicas que caracterizam os períodos de campanha eleitoral. Pensei que esta Administração quisesse aproveitar o aniversário do acidente do vaivém espacial Columbia (que ainda está muito fresco na memória da população norte-americana) para anunciar a reforma da NASA. Este anúncio deveria surgir no âmbito de um projecto capaz de mobilizar o apoio de uma população traumatizada pelo terrorismo e obcecada pela forma como os outros a vêem. Convém lembrar que depois do acidente do vaivém espacial Challenger, em 1986, a Administração da época decidiu, com o apoio da população, aumentar o orçamento da NASA, o qual estava muito debilitado pela ressaca da vitória norte-americana na “corrida espacial” com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e pela proximidade do final da "Guerra Fria".
A conjuntura política da década de 60, em plena "Guerra Fria", foi decisiva para o sucesso do extremamente ambicioso programa de alunagens Apollo, iniciado por John F. Kennedy como resposta ao primeiro vôo espacial tripulado (conseguido pelos soviéticos em 1961 - Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar no Espaço). Durante a “corrida espacial” nunca faltaram verbas para o programa Apollo (com um custo anual equivalente a 0,8 % do PIB norte-americano daquela época), mas depois de seis alunagens em apenas quatro anos (1969 a 1972) a “corrida” estava definitivamente ganha e tanto o apoio político como os fundos acabaram subitamente. Três missões lunares foram canceladas com os veículos de vôo já construídos. Não fora a alteração da conjuntura política (e os elevadíssimos custos do programa Apollo) e teriam existido condições para materializar rapidamente os projectos (datados da década de 50) que visavam a construção de uma base lunar e a realização de viagens tripuladas a Marte.
Agora, quarenta e cinco anos depois da missão Apollo 11, George W. Bush (GWB) pretende voltar a aumentar o orçamento da NASA, com vista à realização de um programa espacial cujo principal desígnio a médio-prazo são as viagens tripuladas à Lua. Segundo GWB, em 2015, os Estados Unidos da América (EUA) deverão voltar a colocar astronautas na Lua, onde, três anos mais tarde, será construída uma base de apoio para uma viagem tripulada a Marte (a qual só deverá acontecer depois de 2030). A reduzida gravidade lunar (equivalente a um sexto da gravidade terrestre) facilita muito o lançamento de uma missão a Marte e a outras zonas do Sistema Solar.
Talvez por se encontrar em período de campanha eleitoral, GWB minimizou os custos deste programa espacial e propôs um reforço anual do orçamento da NASA de “apenas” mil milhões de dólares (cerca de 158 milhões de contos ao câmbio actual) durante os próximos cinco anos. De facto, numa altura em que o défice norte-americano tem estado na ordem do dia, não convém nada estimar com realismo os custos deste “novo” programa espacial. Ou seja, o orçamento da NASA não deverá exceder os politicamente defensáveis 0,25 % do PIB norte-americano (cerca de 27 mil milhões de dólares). É claro que é difícil acreditar neste orçamento quando, como refere o Público de ontem, só os custos de manutenção anual dos actuais vaivéns espaciais (que continuarão a funcionar por mais cinco anos, pelo menos) atingem cerca de quatro mil milhões de dólares. Já no início dos anos 90, o orçamento da NASA era de 15 mil milhões de dólares (a preços de 1990), sendo a quase totalidade desta verba destinada à manutenção de uma frota de quatro vaivéns espaciais e à construção de uma estação orbital. O artigo do Público refere ainda que a maior parte dos peritos estima que o “novo” programa espacial terá um custo de centenas de milhões de dólares. Por outro lado, convém lembrar que em 1994 já se previa a construção de uma base lunar em 2015 (no âmbito de um programa espacial iniciado em 2002), para a qual se estimava um custo de cerca de 30 mil milhões de dólares (a preços de 1990). Uma vez que a construção da base lunar só está prevista para o período de 2018 a 2020, o custo estimado em 1994 parece poder ser facilmente suportado pelo orçamento agora proposto por GWB. Nem seria necessário esperar 15 anos...
De facto, não percebo porque razão necessita a NASA de mais de uma década para repetir algo que foi realizado há mais de 40 anos atrás com tecnologia muito inferior àquela que actualmente existe. A experiência que foi acumulada com as alunagens do início de década de 70, associada ao desenvolvimento tecnológico dos últimos 45 anos, permitirá com certeza reduzir bastante os custos e a dificuldade de construção e utilização de uma base lunar. Por outro lado, sempre pensei que a NASA não tivesse quaisquer dificuldades em colocar astronautas na Lua. Talvez os actuais vaivéns espaciais pudessem ser facilmente adaptados para esse efeito. Porém, uma coisa é dispor de um veículo capaz de colocar astronautas na Lua e outra coisa, completamente diferente, é dispor de veículos de transporte aptos para a tarefa de construção de uma base lunar. Foi com base neste raciocínio que admiti que o horizonte de 2015 se destinasse ao desenvolvimento destes novos veículos espaciais. Mas GWB afirmou que os planos da NASA incluem também o envio de robots à Lua durante os próximos cinco anos. Qual é o objectivo destas missões não tripuladas? De certeza que não estão relacionadas com os novos vaivéns espaciais. Servirão para escolher o melhor local para a base lunar? Servirão para efectuar os estudos geotécnicos essenciais para o dimensionamento da base lunar? Se assim for, porque razão é que as viagens espaciais não tripuladas são suficientemente boas para recolher a informação necessária à construção de uma base lunar e não o são para recolher informações de outros planetas. O Spirit parece estar a demonstrar precisamente o contrário. E já que me refiro a Marte, porque razão precisa a NASA de esperar até depois 2030 (mais de uma década depois da construção da base lunar) para lançar a expedição a Marte? Será por questões orçamentais? Será que os veículos espaciais também terão de ser alterados? Ou existirão outras razões, como por exemplo a necessidade de desenvolver e rentabilizar a base lunar a médio-prazo?
De acordo com o Público, GWB levantou a ponta do véu mas não disse tudo. O Presidente norte-americano referiu a existência de recursos minerais na Lua tais como depósitos de água sob os pólos lunares, ou outros elementos úteis ao fabrico de combustível de foguetões e outras aplicações tecnológicas valiosas.
Há quem acredite que, no futuro, as actividades espaciais se possam a suportar a si próprias, dispensando o financiamento público. Tal acontecerá se alguma matéria-prima lunar obtiver uma procura tal que possibilite reduzir os custos de extracção e transporte com base numa lógica de economia de escala associada à produção e utilização frequente e contínua de muitos veículos. Uma das matérias-primas lunares que pode criar estas condições é o hélio-3. Este gás (praticamente inexistente na Terra) é não radioactivo e pode ser usado para a produção de energia através de um processo de fusão nuclear com deutério (isótopo de hidrogénio não radioactivo existente no mar). Este processo de fusão nuclear é completamente limpo (não radioactivo) e inesgotável (na Lua existe hélio-3 em quantidade suficiente para manter o consumo energético terrestre durante 7000 anos).
O hélio-3 existe na Lua na forma sólida. Como a gravidade da lua é seis vezes menor do que a da Terra, um tanque (ou balão) que na Terra pesasse, por exemplo, 30 toneladas, pesaria apenas 5 toneladas na Lua e poderia ser movido facilmente até à entrada na atmosfera terrestre com o auxílio de motores solares reutilizáveis como os do satélite SMART-1. Durante a aproximação à Terra, esses tanques (ou balões) ficariam sujeitos ao calor da atmosfera terrestre e o hélio-3 no seu interior passaria ao estado gasoso com uma expansão lenta do gás que permitiria uma descida lenta dos tanques (ou balões) até à superfície terrestre.
Uma vez que as reservas de petróleo têm uma duração bastante limitada, parece-me natural que os EUA procurem novas fontes energéticas. O hélio-3 parece ser uma fonte bastante atractiva. Se, a médio/longo-prazo, a sua extracção e transporte para a Terra tiverem um custo concorrencial com o custo do cada vez mais escasso petróleo, o que pode ser conseguido robotizando uma grande parte do processo, então os EUA terão feito a aposta certa e terão evitado uma série de problemas económicos, políticos e até militares com uma série de países produtores de petróleo. Talvez a actual situação no Médio Oriente tenha motivado esta decisão. Ou não... Tal como escrevi no início do texto, talvez se trate apenas de pura demagogia eleitoralista. Mas suponhamos que a proposta é séria. Será que a pressa americana em colocar homens na Lua está relacionada com problemas de propriedade territorial? Nunca tinha pensado nisto. Quanto vale a Lua? A quem pertence a Lua?

ANS

15 janeiro 2004

148 – NEW YEAR'S RESOLUTIONS


Este é o primeiro post do Carimbo em 2004, por isso, antes que seja demasiado tarde, desejo a todos os eventuais leitores do Carimbo um excelente ano. Também quero aproveitar para agradecer a todos os que enviaram e-mails com votos de boas festas, dos quais destaco o Leonel Vicente, o Luís Tito, o CMC e o Rui Semblano.

O início do ano é a altura ideal para rever as “new year's resolutions” do ano transacto. Pensei que já tinha feito este exercício, mas enquanto lia a história da blogosfera portuguesa no ano de 2003 (excelentemente compilada pelo Leonel Vicente), encontrei (com surpresa) o primeiro post do Carimbo e percebi que afinal havia mais promessas merecedoras de julgamento. De facto, há um ano atrás, eu nem sequer sabia o que era um blog, pelo que considero as promessas feitas no post inaugural do Carimbo como uma adenda às minhas “new year's resolutions” de 2003. Parece-me que, em geral, consegui cumprir as promessas feitas nesse post. Falhei apenas a promessa explícita de postar com regularidade e a promessa implícita de transformar O Carimbo num blog colectivo. Estes desejos desvaneceram-se assim que me habituei às corrompedoras vantagens do poder absoluto. É com esse poder que substituo os dois últimos parágrafos do post inaugural do Carimbo pelo seguinte texto:

O autor deste “blog” continuará a ser o carimbador de serviço e tentará não perder a oportunidade de marcar com a sua modesta opinião qualquer assunto que o justifique. Os seus carimbos continuarão a ser apenas sinais para chamar a atenção sobre algo e não deverão nunca ser considerados como marcas de ferrete, cuja intenção é apenas difamar e denegrir.
“Postarei” pouco, mas “postarei”.


Estas são as “new year's resolutions” do Carimbo para 2004.

ANS

24 dezembro 2003

147 - CARIMBO WHISHES YOU ALL A HAPPY CRIMBO


Não costumo enviar cartões, e-mails ou mensagens de telemóvel com votos de feliz Natal. Não o faço porque prefiro falar directamente com os meus familiares e amigos. Infelizmente, não conheço pessoalmente a maioria dos "amigos" que fiz na blogosfera e, por esse motivo, tenho de utilizar o Carimbo para vos desejar a todos um feliz Natal.

ANS

11 dezembro 2003

146 - CANÇÕES de 1973 (XIX)


Para estrear o capítulo "F" desta série escolhi Frank Sinatra. No final de 1973, a "voz" prestou uma homenagem a Jim Croce (que falecera nesse ano num acidente de avião). A canção escolhida por Frank Sinatra foi Bad, Bad Leroy Brown, que tinha sido lançada por Jim Croce no álbum Life And Times em Janeiro de 1973.


BAD, BAD LEROY BROWN

Now the south side of Chicago
Is (It's) the baddest part of town
And if you (you're gonna) go down there, you better (just) beware
Of a man (cat) named Leroy Brown

Now Leroy (Brown) he's trouble
And he stands about six feet four
All the downtown ladies call him: "treetop lover"
The studs they call him: "Sir"

(Yeah) He's bad, bad Leroy Brown
Meanest (baddest) man (cat) in the whole damn town
Badder that old King Kong
(And( (He's) Meaner that a junkyard dog

Now Leroy he's a gambler
And he likes (digs) his (those) fancy clothes
He likes to wave his (that) (great big / big fat) (shinny) diamond ring(s)
Under (In front of) everybody's nose

He's got a custom Continental
He's got an Eldorado too
He's got a 22 (32) gun in his pocket for fun
He's got a razor in his (the razor in the) shoe

(Yeah) He's bad, bad Leroy Brown
Meanest (baddest) man (cat) in the whole damn town
Badder that old King Kong
(And (He's) Meaner that a junkyard dog

Now Friday - 'bout a week ago
Leroy shootin' dice
And at the end (edge) of the bar, sat (was) a lady (chick) named Dorris (Morris)
Man she sure looked nice

And (Well/Then) he layed his eyes upon her
That's when the big scene (trouble soon) began
And Leroy Brown he learned a lesson 'bout messin'
With the wife of a jealous man

(Yeah) He's bad, bad Leroy Brown
Meanest (baddest) man (cat) in the whole damn town
Badder that old King Kong
(And) (He's) Meaner that a junkyard dog

By Jim Croce



ANS

145 - FENÓMENOS BLOGUÍSTICOS


Na blogosfera acontecem fenómenos estranhos, cuja verdadeira dimensão e justificação me ultrapassa.
Há alguns meses atrás reparei num blog, na janela dos Frescos, cujo nome era muito semelhante a "Terras do Nunca". Pensei logo que se tratava de alguém a querer tirar proveito da fama do Terras do Nunca. Por causa disso não o visitei. Hoje descobri que talvez esse blog tivesse sido colocado por engano na lista de blogs portugueses. Poderia ser um destes três blogs brasileiros: Terra do Nunca (1), Terra do Nunca (2) e A Terra do Nunca. Dou o benefício da dúvida...
Há cerca de um mês foi criado o blog Bimba Ininteligí­vel. Este blog pretende ser uma sátira do famoso Bomba Inteligente. Não irei revelar se penso tratar-se de uma sátira bem ou mal conseguida e também não revelarei se a considero de bom ou de mau gosto. Mas não deixo de questionar quais serão os motivos que levam alguém a dedicar uma boa parte do seu tempo à adaptação de textos de um blogger (ou de uma blogger, como é o caso da Carla Hilário de Almeida)?
Finalmente, ontem fiquei a conhecer, primeiro pelo Technorati e depois pelo Mar Salgado, que este último blog tem agora um duplicado de nome Luí­s D'Elvas. Consigo pensar em diversas razões para criar a duplicação de um blog, mas não me lembro de nenhuma que justifique a publicação do duplicado.
Será que os blogs que se dedicam ao estudo da blogosfera conseguem explicar estas situações?

ANS

144 – MAIS AGRADECIMENTOS XI


Já passou mais de um mês desde que, no dia 5 de Novembro, publiquei o último post de agradecimentos (post 130 do Carimbo). Pois é, tenho escrito muito pouco. Afinal não estou tão viciado nisto como pensava. Mentira. Tal como escrevi no post 64, já estive bastante viciado. Estava tão viciado que até escrevi que a blogosfera se deveria chamar Associação dos Blogoólicos Anónimos ou, simplesmente, ABA. Nessa altura também escrevi que admitir o problema era o primeiro passo para a cura do vício. De facto, depois desse primeiro pequeno passo, fui controlando melhor o ímpeto bloguístico e agora só escrevo de vez em quando. É claro que existem outros factores (externos à blogosfera) que também têm contribuído para este abrandamento do ritmo de escrita. Um deles foi o trabalho acumulado que teve (e ainda tem) de ser posto em dia e o outro foi o normal aumento das solicitações de carácter social no mês que antecede o Natal. Nesta altura, além dos tradicionais almoços e jantares da Natal organizados pelos colegas de trabalho, existem ainda as festas organizadas pelas comunidades emigrantes, as quais se vão sucedendo até que todos regressem aos respectivos países para as férias de Natal.
Com uma cura destas, tão agradável como eficaz, não admira que, de uma forma algo egoísta para os que lêem este blog (perdoem-me a imodéstia), eu tenha frequentado pouco a blogosfera durante as últimas semanas. No entanto as recaídas são sempre possíveis, ou melhor, são até bastante prováveis. Felizmente, quando elas acontecerem, em vez de andar aqui a escrever sobre o meu vício e as minhas experiências de “ressaca”, já poderei ir àquele cantinho, criado pelo Rui M.C. Branco e por uma giesta, onde os viciados deste mundo virtual português tentam a terapia de grupo. Refiro-me, como é óbvio, à BlogA!?. Este é, como sabem, um blog associativo que reúne diversos blogoólicos (anónimos ou não) como membros ou meros observadores, entre os quais se encontram muitos dos bloggers com quem tenho tido mais contacto bloguístico. Parece que padecemos todos do mesmo mal. Será um mal? Não sei. Mas sei que, como penso que acontece com o Leonel Vicente do blog Memória Virtual, quando visito a BlogA!? sinto-me em “casa”. Por isso, aqui ficam os meus sinceros agradecimentos aos membros da BlogA!?. Além disso, os membros fundadores desse blog merecem também os meus parabéns pelo nome que encontraram para essa associação virtual. Não há dúvida que BlogA!? é muito mais expressivo e original do que ABA...

No post 130 do Carimbo agradeci ao Ai Jasus! por ter incluído O Carimbo na sua lista de evangelizadores, mas não tinha reparado que tinha sido caracterizado como «um benfiquista na Diáspora em Inglaterra». É uma boa descrição mas eu acho que até escrevo pouco sobre futebol e muito menos sobre o Benfica. Vamos lá a ver como é que correm os dezasseis avos de final da Taça UEFA agora que entraram na competição mais oito equipas oriundas da Liga dos Campeões. Pode ser que o Sport Lisboa e Benfica tenha sorte e jogue com o Gençlerbirligi SK. O Ai Jasus! também tem razão quando refere que eu faço parte da comunidade portuguesa em Inglaterra, mas devo lembrar que eu me encontro em Liverpool, onde além do restaurante “Algarve”, do pub “Lisbon” e de cerca de uma dezena de estudantes de doutoramento, a representação portuguesa é quase inexistente. Prefiro afirmar que faço parte de uma comunidade portuguesa no estrangeiro do que afirmar que estou na Diáspora. É que esta palavra faz-me sempre pensar que, se a dispersão forçada dos judeus da Palestina (que ocorreu ao longo dos séculos) não fizesse parte da história, o terrorismo de hoje poderia não ser uma realidade ou, por outro lado, talvez continuasse a existir com outra justificação. Inclino-me mais para a segunda hipótese...

O Paulo Gorjão utilizou a expressão “filho pródigo a casa torna” no post 861 do Bloguítica para assinalar o meu regresso à blogosfera. Obrigado, mas acho que é precisamente ao contrário. É quando estou na blogosfera que, prodigamente, esbanjo tempo de trabalho, mesmo sabendo que não posso esbanjar muito porque a hipótese de voltar para casa dos pais não é sequer uma hipótese remota. Já agora, fiquei "preocupado" com o post 1250 do Bloguítica. Espero que essa contagem decrescente não seja como a do já terminado blog A Formiga de Langton. Mas, caro Paulo, se for uma dessas fatídicas contagens decrescentes, faço-me desde já convidado para essa bica que me parece estar implicitamente combinada com o Luís Novaes Tito.

O Rui M.C. Branco contribuiu para a “agradável atitude narcisista” que refiro no post 134 do Carimbo ao fazer suas as (minhas) palavras do último parágrafo do post 132 do Carimbo. Obrigado. Lembro que este agradecimento tem um sabor especial porque o Rui MC Branco foi o primeiro blogger com quem travei um debate através da blogosfera. Ai o Presidente de todos os portugueses... Gostaria de ter voltado a escrever sobre ele depois daquela entrevista concedida à RTP, à Rádio Renascença e ao Público no dia 27 de Outubro. No entanto, não tive tempo para isso e ainda bem porque me livrei certamente de algumas “adufadas”, como o Rui M.C. Branco gosta de escrever.

O Primeiro Ministro Henrique colocou O Carimbo na sua lista de eleitores depois de um curto debate (por e-mail) sobre o eventual referendo do Tratado de Constituição para a Europa. Obrigado pela hiperligação e, principalmente, pelo debate.

O Rui, do blog 3tesas não pagam dívidas também colocou O Carimbo na sua lista de blogs recomendados e ainda fez eco do post 138 do Carimbo. Muito obrigado.

Quero ainda agradecer aos blogs Acanto, Bimba Ininteligível, Blogo Social Português, Castor de Mármore, GANG, Grande Superfície, Irreflexões, Mar de Abrantes, Notas Verbais, Pickpocket, Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Universos Críticos por incluírem O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados.

Também tenho de agradecer ao Rui Albuquerque pelas excelentes leituras que me proporcionou com o seu Cataláxia. Compreendo demasiado bem o esforço e a concentração que um doutoramento exige. No entanto, ainda espero poder ler alguns posts esporádicos. O Assembleia também fechou, mas, como os posts de Manuel Alçada podem continuar a ser lidos no Cruzes Canhoto!, a perda não é tão grande como a do Cataláxia.

Para terminar este longo post de agradecimentos, faço aqui uma referência ao Gatopardo. Este admirador de Giuseppe Tomasi di Lampedusa agradece-me por ter sido o primeiro leitor do seu blog, mas salienta que eu faço agradecimentos «por tudo e por nada» e que detesta a série “Canções de 1973”. Penso que não devo rebater a crítica aos agradecimentos porque estes resultam sempre de uma decisão pessoal que eu tomo baseado em factos que podem ser insignificantes para o Gatopardo mas que não o são para mim. Quanto à série “Canções de 1973”, devo esclarecer que eu também não gosto de algumas das canções já apresentadas, mas a verdade é que uma boa parte delas ainda são bem conhecidas hoje em dia. Acho que este é um feito notável e que merece ser salientado. Por isso, lamento desapontar o Gatopardo, mas esta série vai continuar. Desta vez, ao contrário do que escreveu Giuseppe Tomasi di Lampedusa («Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi»), tudo ficará na mesma sem que nada tenha de mudar. O Gatopardo também acha que eu leio o seu blog «na diagonal». Não vou confirmar nem desmentir, mas acho que, já agora, o Gatopardo poderia escrever sobre o seu blog o mesmo que Giuseppe Tomasi di Lampedusa escreveu sobre a sua própria obra "Il Gattopardo”: «Bisogna leggerlo con grande attenzione perché ogni parola è pesata ed ogni episodio ha un senso nascosto».

ANS

04 dezembro 2003

143 - SE O DINHEIRO NÃO FOSSE TÃO PESADO...


De acordo com a TSF, Saddam Hussein terá pedido mil milhões de dólares ao Banco Central do Iraque para "lutar contra a agressão norte-americana". Parece que o Banco Central do Iraque acedeu prontamente ao pedido e entregou 920 milhões de dólares e 90 milhões de euros a um dos filhos do ditador e ao seu Ministro das Finanças. De acordo com a TSF, um agente americano encarregue das investigações no Iraque afirmou que o dinheiro terá sido entregue em malas blindadas, ou seja, a entrega foi feita em "cash".
Da forma como a notícia está escrita, até parece que se tratava de duas ou três malas com dinheiro. No entanto, a quantia em causa é tão exorbitante que não me parece que pudesse ser movimentada em malas.
Suponhamos que os 920 milhões de dólares foram movimentados em notas de 100 dólares, as quais pesam 1 grama e têm as seguintes dimensões: 155,96 x 66,29 x 0,11 mm. Suponhamos também que os 90 milhões de euros foram transportados em notas de 500 euros, as quais pesam 1,278 gramas e têm as seguintes dimensões: 160 x 82 x 0,11 mm. Com base nestas hipóteses, foram transportadas 9,2 milhões de notas de 100 dólares e 180.000 notas de 500 euros. No total, foram então supostamente transportadas (em malas) 9,38 milhões de notas, com um peso total de 9,43 toneladas e um volume de 10,65 m3 (igual ao volume de uma sala cúbica de 2,20 metros de lado). Assumindo que cada mala tinha 50 kg, teriam sido necessárias 189 malas!
De acordo com a notícia da TSF, grande parte do dinheiro já foi localizado, faltando apenas encontrar 132 milhões de dólares (1,32 toneladas de notas de 100 dólares). Pois é. Parece que Saddam e os seus homens apenas levaram o que podiam carregar durante a fuga! De acordo com a TSF, dos cinquenta e dois homens mais procurados pelas tropas norte-americanas no Iraque, dezoito (incluindo Saddam Hussein) ainda não foram encontrados. É bem possível que cada um deles tenha fugido com 73 kg de dinheiro (cerca de 7,3 milhões de dólares). Com estes recursos financeiros, estes fugitivos têm boas hipóteses de escapar à perseguição norte-americana...

ANS

01 dezembro 2003

142 – COERÊNCIA (II)


Esta é a segunda vez que abordo o tema da coerência. Já o tinha feito no post 126 do Carimbo, no qual apontei a incoerência das estatísticas sobre economia e finanças efectuadas pelas mais diversas instituições. Além disso, também lembrei a necessidade de manutenção da política de controlo do défice orçamental que tem vindo a ser seguida (ou talvez apenas publicitada) pelo Governo português. Escrevi, nessa altura, que o objectivo de 2,8 % do PIB para o défice assumido no Orçamento de Estado (OE) para 2004 me parecia pouco coerente com essa política. De facto, tendo em conta os significativos desvios que a execução orçamental tem apresentado relativamente às estimativas iniciais, a meta do OE para o défice orçamental de 2004 apresentava um grau de risco considerável.
Como esperava, não tardaram a aparecer estimativas mais pessimistas do que as do Governo como é, por exemplo, o caso das que foram apresentadas pela Comissão Europeia no final de Outubro deste ano. Segundo estas estimativas, o défice orçamental português será de 3,3 % do PIB em 2004 (excedendo o valor de referência de 3 % fixado pelo PEC - Pacto de Estabilidade e Crescimento) e crescerá para 3,9 % do PIB em 2005 (afastando-se ainda mais do valor de referência do PEC). A Comissão Europeia prevê também que o rácio da dívida pública atinja 60 % do PIB em 2005. Isto representa um retrocesso de vários anos. Lembro que em 1998 (após a assinatura do Tratado de Amesterdão) as orientações gerais das políticas económicas da União Europeia assumiam a redução do rácio da dívida pública como sendo o grande objectivo português para esse ano, o que viria efectivamente a acontecer com uma redução da dívida de 59,1 % do PIB em 1997 para 55 % do PIB em 1998. No entanto, este é um caso excepcional porque, em geral, as orientações gerais das políticas económicas da União Europeia (e os Programas de Estabilidade e Crescimento que lhes estavam associados) nunca foram cumpridas com grande rigor. Este é um problema comum a vários países que aderiram à moeda única, entre os quais se encontra Portugal.
Vejamos então o caso português com mais atenção. O Programa de Estabilidade e Crescimento (PE) para 1999 previa um défice orçamental entre 1,9 % e 2,1 % do PIB em 1999 e entre 1,3 % e 1,8 % do PIB no ano 2000. No entanto, o défice orçamental nesses dois anos foi efectivamente de 2,8 %. Apesar do erro do ano anterior, no PE para o ano 2000 voltou-se a prever um défice orçamental para esse ano de apenas 1,5 % do PIB. No mesmo PE previa-se ainda uma aceleração da economia portuguesa face a 1999 e, afinal, o PIB cresceu apenas 3,7 % face a um crescimento de 3,8 % em 1999 (ou seja, a economia abrandou ligeiramente). Em 2001, o PE português apontava para um crescimento do PIB de 3,3 % nesse ano e de 3,2 % nos anos seguintes. No entanto, o PIB cresceu apenas 1,6 % em 2001 e 0,4 % em 2002. Ou seja, nos anos de 1999 a 2002, o PIB português desacelerou a um ritmo médio ligeiramente superior a 1 % ao ano. O PE para 2001 previa ainda um défice orçamental de 1,1 % do PIB nesse ano e de 0,7 % do PIB em 2002. Infelizmente, no ano de 2001 o défice foi realmente de 4,2 % do PIB! Em 2002, conseguiu-se uma redução do défice para 2,7 % do PIB à custa de receitas extraordinárias. É claro que no PE para 2002 (da responsabilidade do actual Governo), os desvios continuaram teimosamente a aparecer como aconteceu, por exemplo, com a previsão de um défice orçamental de 1,8 % do PIB para esse ano (valor superior aos 0,7 % do PIB previstos em 2001, mas muito inferior aos 2,7 % do PIB correspondentes ao verdadeiro valor do défice). De acordo com o PE para 2002, o crescimento do PIB previsto para esse ano era de 1,8 % e seria de 2,5 % no ano seguinte. Sabemos agora que as estimativas mais recentes apontam para um recuo do PIB de 0,8 % em 2003! O PE para 2002-2005 apontava (ambiciosamente) para o equilíbrio orçamental em 2004 e para um orçamento excedentário de 0,4 % do PIB em 2005! Como referi no início deste post, as estimativas da Comissão Europeia divulgadas em Outubro deste ano são bem piores. O PE para 2003 já foi mais pessimista do que o PE para 2002, mas ainda apontava para um défice orçamental de 2,4 % do PIB em 2003, o qual se deveria reduzir para 1,9 % do PIB em 2004 e para 1,1 % do PIB em 2005. Ou seja, este PE foi ainda muito optimista quando comparado com as últimas previsões da Comissão Europeia. No PE para 2003, o crescimento do PIB previsto para esse ano era ainda de 1,3 %. Para 2004 e 2005 previa-se um crescimento do PIB de 2,7 % e 3,1 %, respectivamente. No entanto, no OE para 2004, a taxa de crescimento do PIB português aparece já revista em baixa para um valor entre 0,5 % e 1,5 %. As estimativas da Comissão Europeia são coerentes com as do Governo e apontam um crescimento do PIB português de 1 % em 2004 e de 2 % em 2005. É fácil constatar que existe uma "grande coerência" entre as estimativas e a realidade. Se isto é o que se consegue com recurso a métodos científicos rigorosos, imagine-se o que seria com métodos simples de previsão...
Relembro que, desta vez, Portugal não é um caso único. Esta falta de coerência entre as diversas estimativas e os valores reais dos indicadores em causa tem-se verificado com vários países que aderiram à moeda única, dos quais saliento a Alemanha e a França. Se a retoma da economia não for efectiva e se a tendência para o agravamento das estimativas, que se tem verificado desde o ano 2000, se mantiver, são expectáveis resultados ainda piores para 2004. Ou seja, além da Alemanha e da França, é bem possível que também Portugal e Itália apresentem um défice orçamental superior a 3 % do PIB. A verificar-se esta hipótese, estes dois países poderão beneficiar da (péssima) decisão de não aplicação do procedimento relativo aos défices excessivos à França e à Alemanha. A Irlanda e a Grécia, apesar do excelente desempenho económico que têm apresentado, também apoiaram essa decisão. Neste caso, a chantagem franco-alemã sobre os fundos estruturais dos quais estes países ainda dependem (tal como Portugal) terá sido o principal motivo desse apoio. Claro que a Grécia, com uma dívida pública superior a 100 % do PIB nunca poderia fazer grandes exigências sobre o cumprimento das regras do PEC. A mesma razão deverá servir para a Bélgica. A dimensão e a localização geográfica do Luxemburgo são razões mais do que óbvias para o seu apoio às pretensões da Alemanha e da França. Sobram a Espanha, a Holanda, a Áustria e a Finlândia. Estes países também sentiram a recessão económica, mas estavam preparados para ela porque equilibraram a tempo os seus orçamentos de modo a terem margem de manobra durante a recessão (é para isso que servem os 3 % definidos pelo PEC). Estes países cumpriram o PEC e agora, com toda a justiça, esperavam que aqueles que o não cumpriram fossem sancionados. Parece que os governantes desses países foram enganados pela fábula da cigarra e da formiga (que nos chamava a atenção para a necessidade de trabalhar no Verão para poder comer no Inverno) contada, no século XVII, pelo francês La Fontaine (seria mesmo francês?).
Devo esclarecer que não concordo com a medida mais grave do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a qual obriga os países em falta a efectuarem um depósito (não remunerado) até um máximo de 0,5 % do PIB. Ainda que este depósito seja devolvido se o défice for corrigido nos dois anos seguintes, parece-me que esta medida ainda agrava mais o problema dos défices excessivos. Porém, esta medida foi acordada em Dublin e em Amesterdão por todos os Estados que aderiram à moeda única, entre os quais se incluem a França e a Alemanha (que foi, desde o início, o país mais interessado no PEC). Por uma questão de coerência e legitimidade, não é sensato mudar as regras a meio do jogo como, arrogantemente, fizeram a Alemanha e a França. Por outro lado, nem era a aplicação desta medida mais grave que estava agora em causa, mas sim a aplicação dos passos iniciais do procedimento relativo aos défices excessivos, os quais me parecem bastante razoáveis. De facto, parece-me importante que a Comissão Europeia controle a execução orçamental dos países em situação de défices excessivos e isso pode ser feito através da análise de relatórios produzidos regularmente por esses países. Nos casos em que se verifique um agravamento da situação, ao invés de obrigar os Estados em falta a efectuarem a pagarem uma “multa”, seria mais lógico permitir que a Comissão Europeia tivesse algum poder de decisão nas políticas nacionais de redução ou aumento da carga tributária e de emissão de títulos. É claro que a Alemanha e a França, os "grandes defensores do interesse comunitário europeu", jamais aceitariam tamanha interferência nas suas políticas internas. É uma questão de coerência... Recordo que estes países nem sequer aceitam informar (ou notificar) a Comissão Europeia sobre o andamento da execução orçamental.
Neste momento, aqueles que ainda acreditavam na bondade das propostas franco-alemãs para a União Europeia ficaram totalmente esclarecidos. O que move estes países são apenas os seus interesses nacionais. Infelizmente, os outros países não foram menos egoístas e deixaram-se conduzir pela chantagem e pela perspectiva de um relaxamento do PEC. Fizeram mal. Teria sido interessante aproveitar esta situação para explicar à Alemanha e à França o significado do chavão da "igualdade entre os Estados". Isso não foi feito agora e dificilmente o será no futuro, até porque a proposta de Constituição Europeia apresentada pela Convenção Europeia é "coerente" com o princípio da igualdade entre Estados (que afirma defender) e é até por isso que reforça bastante o poder dos grandes Estados!
Enfim, parece-me que está demonstrada qual é noção que os europeus têm de coerência. Essa noção não é nova. Pelo contrário, ela é até bastante “coerente” com aquela que foi descrita por Luís de Camões em meados do século XVI:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança.
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


ANS

27 novembro 2003

141 – TERROR A ESMO


Desde o princípio do mês que queria voltar a escrever sobre o terrorismo. Tudo começou com a divulgação dos resultados de um inquérito efectuado em meados de Outubro para o Eurobarómetro. Nesta sondagem, com o título "O Iraque e a paz no mundo", foram inquiridos 7515 cidadãos de países da União Europeia. De acordo com o Público de 9 de Novembro, os inquiridos foram confrontados com uma lista de países, dos quais deveriam seleccionar aqueles que pensavam constituir uma "ameaça à paz no mundo". Israel, seleccionado por 59 % dos inquiridos, foi o país mais escolhido, seguindo-se o Irão, a Coreia do Norte e os EUA, os quais foram escolhidos por 53 % dos inquiridos. Apenas cerca de 30 % dos inquiridos escolheram a China e a Rússia.
Estes resultados já foram comentados por António Ribeiro Ferreira, num artigo publicado a 6 de Novembro no Diário de Notícias, e por Miguel Sousa Tavares (MST), num artigo publicado no dia seguinte no Público. MST assumiu que se identifica totalmente com os resultados do inquérito e que, portanto, concorda com a maioria dos europeus que encaram o terrorismo e os conflitos no Médio Oriente como uma consequência directa da ocupação israelita dos territórios palestinianos. MST foi mais longe e afirmou que já há vinte anos que pensa assim. Pois é. MST é mais um daqueles que já sabe a causa e a solução de todos os males desde há vinte anos. MST pede ainda desculpa por pensar que «se houver terceira guerra mundial, ela surgirá por causa de Israel e da sua continuada cegueira e tentação de resolver o problema palestiniano, não através de um qualquer acordo de paz, mas através [...] da "solução final" - do extermínio político, cívico e, se necessário, humano dos palestinianos». Pois é. Há vinte anos atrás, MST já pensava assim. Parece que MST se apercebeu do "perigo israelita" durante as invasões do Líbano, em 1978 (para garantir a segurança fronteiriça) e entre 1982 e 1985 (para eliminar as infraestruturas da ainda assumidamente terrorista OLP). Nessa altura, MST tinha trinta e poucos anos. Se MST fosse aí um vinte anos mais velho, talvez pudesse afirmar que já pensava assim desde 1948, quando a Liga Árabe iniciou a Guerra da Independência; ou desde 1951, quando o Egipto recusou o acesso israelita ao Canal do Suez e quando os palestinianos começaram a lançar ataques a partir da Faixa de Gaza e da Cisjordânia (o que levou à ocupação israelita destes territórios em 1956); ou desde 1965, quando a OLP/Fatah iniciou as suas actividades de guerrilha/terrorismo com o apoio do Egipto, da Síria e da Jordânia (o que conduziu, em 1967, à Guerra dos 6 Dias, da qual resultou a ocupação israelita da Península de Sinai, do que restava da Faixa de Gaza, dos Montes Golan, do leste de Jerusalém e do que restava da Cisjordânia); ou desde 1970, quando a OLP tentou assumir o poder na Jordânia; ou desde 1972, quando o Grupo Setembro Negro assassinou barbaramente 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique; ou desde 6 de Outubro de 1973 (feriado do Yom Kippur), quando a Síria e o Egipto organizaram um ataque simultâneo nos Montes Golan e na Faixa de Gaza, respectivamente; ou desde 1976, quando terroristas palestinianos sequestraram um Airbus da Air France com 98 judeus a bordo; ou desde 1981, quando o presidente egípcio Anwar Sadat foi assassinado depois de, menos de três anos antes, ter assinado os acordos de Camp David. Esta “pequena” lista de eventos ilustra bem o “perigo israelita”! De facto, MST tem razão. Se o Mundo quiser evitar a "terceira guerra mundial", apenas terá de impedir que Israel responda aos ataques militares ou terroristas que os palestinianos e alguns países árabes vizinhos têm vindo a perpetrar desde há mais de cinco décadas. Esta é, aliás, a atitude que MST esperaria de qualquer outro país do mundo. Aqueles que, como MST, advogam para Israel (e só para Israel) uma política santa como a de Jesus Cristo (“Amai os vossos inimigos. Se alguém vos bater, oferecei a outra face.”), estão na verdade a negar a legitimidade do Estado de Israel, a qual, recorde-se, foi reconhecida pelos próprios palestinianos, pela voz de Yasser Arafat, em 1988 (há menos de vinte anos). Porque será que MST e os que pensam como ele não advogam os mesmos princípios cristãos (que não seriam aplicados por nenhum Estado cristão) para os árabes e palestinianos que, segundo esses cristãos exemplares, têm toda a legitimidade em responder com ataques terroristas à opressão israelita?
MST acha que os acordos de paz só não resultam porque «Israel seguiu sempre a táctica leninista de um passo atrás, dois à frente. Primeiro, dá dois passos à frente, depois aceita recuar um. Com isso, leva os incautos, informados pela imprensa pró-israelita americana, a acreditar que Israel também está disposto a fazer concessões para a paz». Tem piada que MST se tenha referido apenas à imprensa pró-israelita americana. Será que não existe imprensa pró-israelita europeia? Pois é. Embora MST não concorde com a forma como António Ribeiro Ferreira cataloga a imprensa europeia, ele aceita (por omissão) que a maioria das notícias e comentários divulgados pela comunicação social europeia têm, de facto, um cariz "pacifista, anti-americano e anti-semita". Parece que MST se encontra entre os que ostentam aquilo a que o Público de ontem se referia como um visível anti-semitismo de esquerda que se mistura com o anti-americanismo como fundamento para uma teoria da conspiração (é uma verdadeira “kabbala”), segundo a qual os judeus constituem uma superpotência económica que controla os EUA e as suas políticas de domínio mundial.
MST acha que a política israelita das últimas quatro décadas se tem baseado em alargar as áreas ocupadas e em aumentar o número de colonatos instalados em território palestiniano, com um consequente aumento do número e da gravidade dos atentados cometidos contra os direitos humanos dos palestinianos. Para MST, esta é a razão do terrorismo, porque, «quando levados ao desespero e ao limite da humilhação», é natural que os adolescentes ou as jovens mulheres palestinianas se envolvam num cordão de granadas e se façam explodir num autocarro ou num café de Jerusalém. Para MST, isto é tudo lógico e natural. O que não é lógico nem natural é que Israel responda aos inocentes ataques terroristas. Não, para MST as respostas militares israelitas são uma violação dos acordos de Oslo e de qualquer esperança de paz. Para MST, os únicos terroristas são os israelitas e a prova é o assassinato de Yitzhak Rabin por um judeu ultra-ortodoxo, o qual foi imediatamente associado por MST à extrema-direita que agora está no poder em Israel.
Em primeiro lugar, acho que MST está enganado quando afirma que os judeus ultra-ortodoxos estão no poder em Israel. Ou muito me engano ou o Governo israelita é composto por uma coligação entre o Likud (partido conservador com 38 lugares no Knesset e que defende a existência do Estado da Palestina separado de Israel por um muro), o Shinui (partido secular centrista com 15 lugares no Knesset e que também defende o Estado da Palestina desde que os palestinianos recusem voltar a Israel), a União Nacional (coligação de três partidos de direita que recusam retirar dos territórios ocupados e que, no seu conjunto, ocupam 7 lugares no Knesset) e o Partido Nacional Religioso (partido religioso com 6 lugares no Knesset e que também recusa retirar dos territórios ocupados). Não me parece que este Governo seja extremista (80% dos seus membros defendem o Estado da Palestina). E não é, com certeza, mais extremista do que o anterior Governo de Unidade Nacional, onde apenas cerca de 60% dos seus membros defendiam o Estado palestiniano. Esse Governo era formado pelo Partido Trabalhista (partido que tinha 24 lugares no Knesset e que defende a retirada imediata dos territórios ocupados e a construção de um muro ao longo da “Linha Verde”, ou seja, das fronteiras existentes em 1967), pelo Likud (que tinha 19 lugares), pelo Shas (partido religioso ultra-ortodoxo que tinha 17 lugares no Knesset e que defende o aumento do número de colonatos), pela União Nacional (que tinha 7 lugares), pelo Yisrael Ba’alyia (partido associado aos imigrantes russos do centro-direita que tinha 4 lugares no Knesset e que defende, antes de mais, uma democratização da Palestina supervisionada por Israel e pelos EUA), pelo Am Ehad (partido de esquerda que tinha 2 lugares no Knesset e que, pasme-se, se opõe ao Estado Palestinano). Aliás, ao contrário do que aconteceu durante o anterior Governo de Unidade Nacional, onde não existiam partidos árabes no Knesset, na actual composição do Knesset têm assento três partidos árabes, os quais ocupam, no seu conjunto, 8 lugares. Será que isto seria possível num Estado árabe com uma minoria judaica? Claro que sim. Tenho a certeza que MST consegue identificar facilmente uma série de exemplos de tratamento democrático das minorias nos Estados árabes do Médio Oriente...
Em segundo lugar, MST parece esquecer-se que todas as ideologias e religiões têm seguidores fundamentalistas. Um desses fundamentalistas foi o assassino de Yitzhak Rabin e deve ser considerado apenas como um assassino e não como um terrorista. Ou será que o assassino do Rei D. Carlos I de Portugal era um terrorista? Ou será que o assassino de J. F. Kennedy era um terrorista? Ou será que os assassinos de Olof Palme e de Anna Lindh eram terroristas? Tanto o assassínio de políticos como o terrorismo contra alvos civis inocentes são crimes horrendos, mas são diferentes e não devem ser confundidos. De qualquer forma, MST é obrigado (pelos factos) a concordar que o principal culpado pelo insucesso dos acordos de Oslo foi Yasser Arafat «por não ter imposto esse acordo às várias fracções palestinianas». Mas claro que, para MST, isso foi apenas um desvio temporário e desculpável de Yasser Arafat nos seus inegáveis esforços pela paz. A Autoridade Palestiniana continua a não fazer nada para impedir a Intifada ou os ataques de grupos terroristas sediados em países árabes vizinhos, mas MST prefere condenar os «assassinatos selectivos, com a destruição das casas dos suspeitos de colaborarem com o Hamas ou a Jihad Islâmica». MST culpa Sharon e Shimon Peres (a quem apelida de «verdadeiro traidor dos ideais de Yitzhak Rabin») pela escalada de violência, pelo «isolamento e ocupação prolongada de povoações palestinianas» e pela «construção do muro» que, segundo ele, «substituiu a ideia inicial de separação física das duas comunidades por razões de segurança por uma oportunidade, mais uma, de redesenhar as fronteiras do Estado de Israel à custa de território palestiniano, desviando-se quando necessário do seu traçado original para englobar, dentro do território israelita, toda a miríade de colonatos constituídos à revelia dos acordos de Oslo e das resoluções da ONU». Talvez MST devesse culpar também os Estados árabes vizinhos que patrocinam o terrorismo com o objectivo de criar instabilidade na região. Essa instabilidade é, para esses países, o melhor disfarce para as suas ditaduras, para o seu fundamentalismo religioso e para o seu desrespeito pelos direitos humanos. Essa instabilidade (que esses Estados, tal como MST, associam ao "perigo israelita") é a melhor desculpa para se investir em mais armamento e para se continuar a roubar fundos estatais que seguem directamente para as fortunas pessoais dos governantes. É claro que esse armamento pode sempre ser usado como forma de pressão sobre outros países do Médio Oriente que produzem petróleo, os quais, por sua vez, têm de se armar para se defenderem. Com tudo isto, quem perde são as populações árabes. Tal como escrevi no post 21 do Carimbo, os únicos que têm uma visão global para o Médio Oriente são os israelitas e Shimon Peres é um dos que mais tem lutado por esse objectivo. Tal como ele descreve no seu livro O Novo Médio Oriente (1993), ele luta por uma efectiva cooperação entre Estados e povos, a qual deverá trazer desenvolvimento económico e humano. É muito importante para as populações do Médio Oriente que se invista numa utilização inteligente dos recursos do petróleo daquela região, garantindo (como sugere Shimon Peres) por exemplo uma equitativa distribuição de água e, portanto, de riqueza. MST acha que Shimon Peres não tem razão quando afirma que "o terror está condenado porque não traz quaisquer sinais de futuro, alimenta-se do ódio do passado". Para MST, é precisamente ao contrário: «o terror a que os palestinianos lançam mão alimenta-se do ódio do presente, causado pelo terror israelita, e subsiste exactamente porque não há, para os palestinianos, qualquer sinal de esperança no futuro». Então e o terror dos árabes dos países vizinhos? Também é provocado pelo “terror israelita”? O que é que leva um saudita, um iraquiano, um sírio, um libanês, um turco ou um iraniano a cometer um atentado suicida do qual pode até resultar a morte de compatriotas? Será pelo que sofreram às mãos dos israelitas? Mais uma vez, MST não tem sucesso na sua tentativa de desculpabilização do terrorismo. Esta é a via errada para resolver o problema pois só o agrava. Se os israelitas cedessem ao terrorismo, estariam a ceder a uma chantagem muito violenta e criariam um precedente para futuros ressurgimentos do terrorismo sempre que se verificasse um desentendimento político entre Israel e os vizinhos árabes (incluindo a Palestina).
Infelizmente, MST acha que devemos todos ceder às chantagens, por mais violentas e desumanas que estas sejam. Por isso é que MST insiste na tal “kabbala” e associa a política externa americana aos interesses israelitas. Para MST, a agenda para a política externa de Bush consistia em «apoiar Israel em qualquer circunstância e demitir-se de forçar qualquer acordo de paz no Médio Oriente; invadir o Iraque, ocupá-lo e exercer um direito de controlo sobre as suas reservas de petróleo, como salvaguarda perante uma eventual instabilidade declarada na Arábia Saudita; e levar até ao extremo necessário o confronto do Ocidente com o mundo árabe e muçulmano, sob pretexto de combate ao terrorismo, mesmo correndo o risco de o agravar». Volto a fazer a pergunta que já fiz no post 21 do Carimbo: será que se a Operação Tempestade no Deserto (1ª Guerra do Golfo, em 1991) tivesse sido continuada por uma segunda operação militar do género daquela a que estamos agora a assistir no Iraque, teria sido possível evitar o alastramento do fundamentalismo islâmico? Será que teria sido possível aplicar as ideias de Shimon Peres? Não nos esqueçamos que, nessa altura, a França e a Alemanha não teriam tido a possibilidade de inviabilizar uma decisão americana de ocupação do Iraque. Será que não dar sequência à Operação Tempestade no Deserto não foi uma oportunidade perdida por uma cedência de Bush (pai) à chantagem do terrorismo?
MST e Vital Moreira, entre outros, adoptam a solução mais fácil (e que, normalmente, não é solução) e defendem a cedência à chantagem do terrorismo, condenando a política americana e culpando-a pelos novos ataques terroristas. Para eles, os EUA foram os primeiros culpados do 11 de Setembro de 2001. Para eles, os EUA não têm feito o suficiente para pressionar Israel a ceder na questão do traçado do muro de segurança. Para eles, a tentativa de derrube da ditadura de Saddam Hussein, seguida de uma rápida transição para um governo iraquiano apoiado militarmente pelos EUA, é um mero pormenor. O que interessa é insistir em afirmar que os americanos estão a ocupar ilegalmente o Iraque (o que dá sempre a ideia de que a ocupação é definitiva) e que ainda não encontraram armas de destruição maciça. Esquecem-se que se a França e a Alemanha não tivessem criado tantos problemas aos americanos e não tivessem feito o jogo de Saddam Hussein e de Tarek Aziz, talvez os americanos pudessem ter entrado mais cedo no Iraque e talvez pudessem ter encontrado alguma coisa. Eu não desejo outra guerra no Médio Oriente, mas continuo a achar que o que está agora a acontecer relativamente ao programa nuclear iraniano é, de certa forma, parecido com o que aconteceu com o Iraque. Talvez o desfecho seja semelhante e talvez os líderes iranianos o saibam. Talvez por isso continuem a ser os principais patrocinadores do terrorismo na tentativa de chantagear (pelo medo) os europeus anti-americanos.
Como escreveu José Manuel Fernandes, seria melhor que se fizessem grandes manifestações contra o terrorismo. Seria melhor que se apoiasse o combate americano ao já incontrolável terrorismo antes que este se transforme num ainda mais incontrolável “terror a esmo”.

ANS