02 agosto 2003

34 - PERDER A CONFIANÇA NUM MINISTRO NÃO É O MESMO QUE PERDER UM PORTA-MOEDAS


Finalmente, o Almirante Mendes Cabeçadas (AMC) vem pôr ordem na casa. Afinal o chefe militar de mais elevada autoridade na hierarquia das Forças Armadas é mesmo o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. De acordo com o AMC, só ele e os Chefes de Estado-Maior dos ramos podem representar com legitimidade os interesses das Forças Armadas. Isto é óbvio e espero que o Presidente da República (PR) e o Primeiro Ministro (PM) assim o entendam e se recusem a receber o General Ramalho Eanes.
Quanto ao General Silva Viegas, se tinha "queixas" a fazer ao PM, porque não as fez todas antes de se demitir (parece que falou com o PR)? Também poderia ter optado por transmitir as suas preocupações apenas ao AMC. Em vez disso preferiu jantar com um grupo de ex-Chefes de Estado-Maior do Exército e nomear Ramalho Eanes para falar com o PR e com o PM. Como se não bastasse ainda revela à comunicação social que "perder a confiança num ministro da defesa não é o mesmo que perder um porta-moedas." Espero ter ouvido bem. Depois, o General Silva Viegas explicou que perder a confiança num ministro "é um somatório de vários factos e não vale a pena estar aqui a discriminar os factos se, se calhar, cada um por si não ditaria essa consequência. O que está em causa é que as forças armadas dão um contributo importante para a política externa do paí­s neste momento, para além de serem um foco de estabilidade nacional. Têm o reconhecimento público por parte das autoridades polí­ticas e também lhe devem ser dados, para além desse reconhecimento público, os meios adequados às missões que lhe são pedidas."
Depois destas declarações ficámos todos a saber que:

1) Perder a confiança num ministro da defesa não é o mesmo que perder um porta-moedas (uma nova versão da famosa tirada de Lili Caneças: "Estar vivo é o contrário de estar morto");

2) Afinal parece não houve perda de confiança no Ministro da Defesa, mas sim um acumular de desentendimentos;

3) O Chefe de Estado-Maior do Exército fala em nome do conjunto das Forças Armadas.

Só tenho um comentário a fazer: Independentemente de o General Silva Viegas ter razão ou não nos seus desentendimentos com o Ministro da Defesa, estas atitudes são simplesmente ridículas!

ANS

01 agosto 2003

33 - TURISMO DE PÉ-DESCALÇO


Esta é uma das expressões que mais se costuma ouvir sobre o turismo em Portugal. Veio-me à memória por causa de um artigo do The Guardian, no qual se caracterizava o turista médio britânico.
Este turista padrão gasta em média cerca de 1600 euros nas férias de Verão (800 euros com alojamento, transporte e alimentação e outro tanto em compras). Por curiosidade, tentei verificar os gastos médios do turista britânico que visita Portugal. Com base em dados estatísticos do ano 2000, conclui-se que os britânicos deixam em Portugal um pouco menos de 800 euros no total, ou seja, cerca de metade do que o turista médio britânico gasta em férias.
A conclusão é óbvia. O turista britânico em Portugal é mesmo pé-descalço.

ANS

32 - MAIS UM DIA EM LIVERPOOL


Tenho lido vários comentários sobre o calor abrasador que se faz sentir em Portugal. Infelizmente, não me posso queixar do mesmo, antes pelo contrário, talvez devesse queixar-me do frio e da chuva. Hoje parece que o tempo começa finalmente a melhorar em Liverpool. Mas é estranho, ao contrário do que costuma acontecer quando o sol aparece, a cidade está vazia. Se calhar é por ser Agosto. Parece que este mês nos traz, a nós que permanecemos nas cidades, um pouco de solidão. É nestas alturas que mais me impressiona percorrer a Stanley Street, onde é frequente deparar com a cena ilustrada pela fotografia abaixo:



A escultura representa Eleanor Rigby (lembram-se da canção dos Beatles?) e é uma homenagem a todas as pessoas sós.

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

All the lonely people
Where do they all come from ?
All the lonely people
Where do they all belong ?

Father McKenzie writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near.
Look at him working. Darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father McKenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?


Por John Lennon e Paul McCartney

ANS

31 julho 2003

31 - CUBA


Miguel Portas (MP) escreve hoje no Diário de Notí­cias sobre Cuba e a eventual queda do regime Castrista. Diz MP que
"A durabilidade do regime cubano não é um caso de polí­cia. Se Cuba ainda hoje, passados quase 15 anos sobre a queda do Muro, resiste, é porque teve uma revolução que o foi e se soube identificar com uma ideia de dignidade nacional, de construção independente e soberana.". Para reforçar esta afirmação, MP diz ainda ainda que visitou "a ilha, de motu proprio e «antes que se afundasse». Estava muito longe de qualquer paraí­so terreal, mas ainda «era minha». Aquilo tinha os elementos da doença de Leste, mas ainda não o era. Ponhamos a coisa de modo simples: quando o Muro caiu, não verti qualquer lágrima, senti os acontecimentos como uma oportunidade para «começar de novo». Com Cuba não seria capaz de tal distanciamento."
É fantástico. Também eu visitei a ilha (em Abril de 1996) e tive o cuidado de conversar com a população e de tentar perceber o seu modo de vida e as suas opiniões sobre o regime. Ao invés do voto idealista de pobreza que MP descreve, só vi medo, pobreza forçada, degradação e todos os consequentes vícios dos regimes comunistas do leste europeu. Se calhar a ilha já se tinha «afundado».
No entanto, apesar de MP ter uma percepção da realidade cubana totalmente diferente da minha, também ele aceita que o regime não sobreviverá por muito mais tempo: "E todavia, o ocaso do regime está inscrito nas estrelas. Quando verdadeiramente precisar do povo encontrar-se-á a sós com exércitos de funcionários. Eis o drama. Certo, há o embargo. Além de criminoso, é a principal dificuldade para quem procure cruzar o socialismo com democracia. Mas os embargos não explicam tudo. Não explicam os retrocessos sociais e económicos dos últimos anos, a arrogância do poder unipessoal, a repressão, as penas de morte e as teorias «preventivas» em voga no PC cubano. Não. Aquilo não é «um problema dos camaradas de lá». Aquilo é connosco. Se o desejo de liberdade se vira contra o socialismo é porque ele já deixou de o ser e nem disso tem consciência. A História absolveu Fidel uma vez. Não absolverá segunda."
Concordo, de uma forma geral, com a conclusão de MP (o que é muito raro), mas quero deixar claro que, pela minha parte, nunca absolvi nem absolverei Fidel Castro.

ANS

30 - INCÊNDIOS FLORESTAIS


João Miranda, do Liberdade de Expressão, faz a seguinte pergunta:

"Se 88 % das florestas portuguesas pertencem a privados, porque é que o Estado é que é responsabilizado pelo combate aos incêndios?"

Lembro a João Miranda que se ocorrer um incêndio na sua casa (que tal como a maioria do património edificado português, também não pertence ao Estado), este será combatido pelo Estado, nomeadamente pelos corpos de bombeiros do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), agora incluí­do no Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil.
Não sei se João Miranda conhece alguma forma de financiamento exclusivamente privado de serviços que garantam, por exemplo: o combate a incêndios; o socorro às populações em caso de incêndios, inundações, desabamentos, abalroamentos e em todos os acidentes, catástrofes ou calamidades; o socorro a náufragos e buscas subaquáticas; o socorro e transporte de sinistrados e doentes, incluindo a urgência pré-hospitalar; a prevenção contra incêndios em edifí­cios públicos, casas de espectáculos e divertimento público e outros recintos durante a realização de eventos com aglomeração de público; e o exercício de actividades de formação cí­vica, com especial incidência nos domínios da prevenção contra o risco de incêndio e outros acidentes domésticos.
Se conhecer, peço-lhe que me avise.
Outro exemplo: a Polí­cia de Segurança Pública (PSP) também é um agente de protecção civil como o SNB. Se João Miranda for assaltado porque será o Estado (que não foi lesado pelo assalto) responsável por deter o assaltante?
No entanto, João Miranda poderá ter razão no que se refere à prevenção de fogos florestais. Assim como qualquer cidadão paga (na aquisição de habitação) pelo projecto de segurança contra riscos de incêndio e pela aplicação em obra das medidas estipuladas nesse projecto, além do seguro contra riscos de incêndio, também os proprietários de áreas florestais deveriam ser responsabilizados pela prevenção de incêndios, nomeadamente em termos de infra-estruturas florestais e de apoio a meios de combate a incêndios, de limpeza de matos e de vigilância móvel terrestre. Não sei se este tipo de responsabilização já existe.

ANS

29 - NOTÍCIA FICTÍCIA


As bolsas internacionais abriram com uma forte queda das acções da Nokia. Segundo os analistas, tal situação deve-se à perda de confiança por parte dos investidores, a qual foi motivada pela transcrição da escuta telefónica a Ferro Rodrigues ontem revelada pela comunicação social. A parte mais importante desta escuta, que se refere a uma conversa entre Ferro Rodrigues (FR) e António Costa (AC) ocorrida a 29 de Junho, é a que a seguir se transcreve:

"AC: Que é o seguinte: É pá, eu acho que é preciso insistir num tema de grande preocupação, que é, é pá, o procurador-geral ao invés do que deu a entend... do que tinha mostrado disponibilidade, ahh, na conversa...

FR: É pá, não achas melhor ter esta conversa noutro telefone?

AC: Tá bem! Então liga-me!
"

Fica assim provado que FR mentiu. De facto, no passado dia 20 de Julho, quando confrontado pela comunicação social com a hipótese de ainda se encontrar sob escuta, FR exibiu o seu telemóvel da Nokia perante as câmaras e afirmou: "Este telefone é o mesmo que continuo a utilizar desde sempre e não mudei nem o aparelho nem o número". Continuando a exibir o telemóvel, o secretário-geral socialista garantiu que iria continuar a utilizar aquele aparelho "como se não estivesse sob escuta. Ou seja, utilizando a minha liberdade de poder exprimir-me com os meus camaradas, com a minha famí­lia e com os meus amigos". As afirmações de FR tiveram como efeito um aumento da confiança dos investidores numa marca imune a escutas telefónicas, o que originou uma forte subida das acções da Nokia nos mercados bolsistas internacionais. A revelação de que afinal FR utiliza outro telefone para evitar ser escutado provocou, hoje, a queda destas acções.
Entretanto, está já em curso uma investigação no sentido de verificar se FR negociou em futuros da Nokia. Isto porque se fecharam hoje alguns contratos de futuros envolvendo vendas de acções da Nokia a preços muito baixos para ontem, mas muito altos para hoje.

ANS

30 julho 2003

28 - SISMOS


O território nacional tem já uma longa história no que diz respeito a sismos. Por exemplo, no século XX ocorreram três sismos importantes: o sismo de Benavente (1909), o sismo de Fevereiro de 1969 e o sismo da Terceira (1980). Quanto aos sismos de maior magnitude, dos quais o mais importante foi o sismo de 1 de Novembro de 1755, é possí­vel verificar uma periodicidade de cerca de 200 anos visto que os outros grandes sismos ocorreram em 1353 e 1531. Este panorama sismológico, com um período de retorno aparentemente grande entre sismos de elevada magnitude, contribui para que a população se "esqueça" da forte probabilidade de uma ocorrência deste tipo.
Só assim se justifica que as campanhas de prevenção (sobre as medidas a tomar por cada indivíduo durante um sismo) apenas ganhem notoriedade depois de os sismos (ainda que pequenos) ocorrerem. Recordo o que aconteceu há alguns atrás, quando ocorreram os sismos de Northridge (nos EUA, a 17 de Janeiro de 1994) e de Kobe (no Japão, a 17 de Janeiro de 1995). O grande impacto desses sismos deu iní­cio a uma discussão sobre a segurança das construções face à acção sí­smica. Além do carácter mediático dessa discussão (nos primeiros tempos após a ocorrência dos sismos), verificou-se também (felizmente) um fortalecimento da discussão que já existia ao ní­vel técnico e cientí­fico. Na sequência dessa discussão (patrocinada pelo Serviço Nacional de Protecção Civil) foram propostas em 1995 as seguintes acções prioritárias para a redução dos riscos sí­smicos em Portugal:

1 - Inventariação das pontes e viadutos mais importantes para assegurar os fluxos de tráfego e trajectos de emergência nas áreas metropolitanas;

2 - Estabelecimento de um programa de actuação para as Estruturas Importantes, Perigosas e Especiais (hospitais por exemplo);

3 - Formação de pessoal e preparação de material de apoio necessário a fazer face à ocorrência de um sismo;

4 - Revisão, por parte das autoridades administrativas, da situação do licenciamento das obras;

5 - Estabelecimento, por parte das autoridades administrativas, de cenários de desastre que orientem a preparação de Planos de Emergência.

Este trabalho tem sido feito e, na sequência do mesmo, algumas obras de reforço já tiveram lugar (dou como exemplo alguns viadutos da 2ª Circular em Lisboa). No entanto, embora estas medidas sejam muito importantes para diminuir o risco sí­smico, elas aplicam-se essencialmente a infra-estruturas e a equipamentos públicos.
Por outro lado, temos o património edificado de âmbito privado, o qual se baseia, em grande parte dos casos, em projectos de estabilidade baratos, incompletos e de qualidade duvidosa ou até em ausência de projecto. É praticamente impossí­vel prever o comportamento destas construções na eventualidade de um sismo de grande magnitude.
De facto, todos conhecemos alguém que construiu ou está a construir um edifí­cio (pode ser uma simples vivenda). Se lhes perguntarem como escolheram o projectista, a resposta será algo como: "Escolhi um que era muito mais barato que os outros e, ainda por cima, fazia o projecto muito mais depressa e com garantias de uma rápida aprovação camarária". A Engenharia Civil é uma actividade que envolve um risco muito grande e não pode conviver com esta imoralidade.
Relativamente a isto, parece-me que a Ordem dos Engenheiros ainda tem muito a fazer. A Ordem dos Arquitectos, por exemplo, conseguiu recentemente fazer aprovar a obrigatoriedade da inscrição como membro efectivo daquela entidade para se ser autorizado a desenvolver projectos de Arquitectura. Na Ordem dos Engenheiros, em particular no que se refere à especialidade de Engenharia Civil, essa medida não é suficiente. O facto de a Engenharia Civil ser multidisciplinar (Estruturas, Construção, Geotecnia, Hidráulica, etc...) tem de ser considerado. Por outro lado, a Engenharia Civil é uma actividade de carácter técnico-cientí­fico, o que obriga a uma constante actualização de conhecimentos. Não me parece que isto se consiga apenas assistindo a um ou outro seminário, ao qual se vai para evitar um dia de trabalho, rever colegas e almoçar de borla. É necessário controlar a qualidade dos projectos porque os termos de responsabilidade exigidos actualmente aos projectistas não resolvem tudo (e se forem termos de irresponsabilidade?). Sugiro que todos os projectistas tenham, em cada ano, pelo menos um dos seus projectos (seleccionado aleatoriamente) sujeito a revisão por uma entidade competente composta por profissionais muito qualificados.

ANS

27 - MAIS AGRADECIMENTOS


É com muita satisfação que verifico que JMF do Terras do Nunca refere no post ESTADO DAS COISAS que gostou de visitar O Carimbo. Aproveito para sugerir o termo "chamada" como substituto da palavra post.
Agradeço ao Ter Voz por incluir O Carimbo na sua rubrica Toma Lá... Dá cá... e registo ainda a chamada de atenção do Adufe no post FLEXÕES NA BLOGOESFERA (não será na blogosfera?), o qual reproduzo por inteiro:

"O Blogger, o IExplorer ou um qualquer desígnio do todo poderoso html obriga-nos, habitantes da blogoesfera, a um exerciciozinho periódico:
Vai de fazer flexões! O estranho é que em vez do acima-a-abaixo temos um: restaurar, maximizar, restaurar, maximizar...
Esta é perfeitamente original. E são cada vez mais os blogues a oferecerem dicas de ginástica.
N'O Carimbo, por exemplo, já temos informação no template:
Se não conseguir ver a totalidade da página vá ao canto superior direito da janela e faça restaurar seguido de maximizar."


Caro Rui, um pouco de ginástica faz sempre bem e, por essa razão, mantenho a recomendação mas altero a frase em questão para um menos original "se não conseguir ver a totalidade da página pressione o botão de maximização/restauro do tamanho da janela". De qualquer forma, aceito outras sugestões.

ANS

29 julho 2003

26 - A PRIMEIRA SEMANA


O Carimbo inicia hoje a sua segunda semana de existência. Para trás ficam 7 dias de uma agradável experiência. Tomei conhecimento do mundo dos blogs (tenho alguma dificuldade em utilizar termos como "blogosfera") através da reportagem da Visão, mas só comecei a ler os ditos blogs a partir da segunda quinzena de Julho. Li e gostei tanto que, na noite de 21 para 22 de Julho, resolvi criar o meu próprio blog.
Uma nova leitura das sugestões da Visão foi suficiente para me orientar nos passos iniciais. Depois começaram os problemas, como por exemplo a escolha de um nome para o blog (não é fácil encontrar nomes disponí­veis). Uma vez ultrapassado este problema, passei efectivamente à construção do Carimbo: escolhi o template adequado, abri uma nova conta hotmail exclusiva do Carimbo e instalei um contador de visitas. Só mais tarde me iria deparar com o problema da inclusão de imagens, o qual ficou resolvido depois de uma pesquisa de propriedades nas imagens de O Latinista Ilustre, o qual me lembrava ter sido referido por Pacheco Pereira no Abrupto relativamente a esta questão.
Finalmente estava em condições de publicar o primeiro post, ao qual dei o tí­tulo de INAUGURAÇÃO. Nesse post refiro-me ao Carimbo como um blog colectivo. De facto, quando iniciei o blog convidei alguns amigos a participar e eles aceitaram o convite. Infelizmente, até hoje só eu contribuí­ com textos para O Carimbo. Confesso que os primeiros textos foram difí­ceis. De facto, não é a mesma coisa escrever artigos de carácter técnico (dirigidos a uma comunidade muito restrita de pessoas) e escrever num blog sobre aquilo que pensamos da actualidade. Escrever neste blog é como pensar em voz alta, tão alta que pode ser ouvida por todos aqueles que (em qualquer lugar do mundo de língua portuguesa) se deparem com o Carimbo. E isso pode acontecer hoje, amanhã ou depois. No entanto, os meus pensamentos de hoje não são necessariamente os mesmos de amanhã. Por exemplo, há dias em que, olhando para trás e analisando os posts que deixei no Carimbo, tenho vontade de apagar tudo. Também há outros dias em que os textos voltam a fazer sentido. Não sei o que se passa com os outros bloggers, mas este sentimento é estranho para mim.
Parece que existe um código de conduta para bloggers, no qual se assume que texto postado não é apagado. No entanto, como o Expresso (quando for grátis incluo a hiperligação) já demonstrou, os códigos de conduta existem para ser quebrados. Quero com isto dizer que no Carimbo mando eu e, se eu achar que determinado post deve desaparecer, desaparece mesmo. O meu código de conduta resume-se a ser cordial para com os outros bloggers, os quais faço questão de avisar (via e-mail) sempre que são referidos no Carimbo. A propósito disto, quero aproveitar para agradecer a forma cordial como Luís Camilo Alves, Miguel Góis, Carlos Antunes e Leonel Vicente responderam a esses e-mails.
Já que estou em maré de agradecimentos, aproveito para referir que é com muito agrado que vejo O Carimbo incluído na lista de blogs recomendados pelo Aviz (excelente blog), Fumaças e aaanumberone. Quanto aos blogs recomendados pelo Carimbo só posso afirmar que são aqueles que, de uma forma original, abordam temas que me interessam (e a Arquitectura é indiscutivelmente um deles - parêntese dirigido à simpática autora do Amostra de Arquitectura).
Para finalizar este resumo (nada breve) da minha experiência com O Carimbo, resta-me referir que, à medida que os dias vão passando, me vou sentindo mais à vontade com a blogosfera (estou a esforçar-me por adquirir este vocabulário) e que, talvez por isso, os meus textos passem a revelar mais de mim. Entretanto, ficam para trás 25 textos lidos por cerca de 200 visitantes do Carimbo. É agradável constatar que aquilo que pensamos pode chegar a tanta gente. Quando me refiro ao número de visitas não estou a medir o pirilau (como escreve Pedro Mexia no post MEDIR O PIRILAU), embora o pudesse fazer pois O Carimbo só agora começa a sair da adolescência. Esta analogia (bem conseguida) de Pedro Mexia lembra-me um filme (muito, muito fraquinho) de 1980, o Porky's. Não consigo deixar de pensar naquele obsessivo Pee Wee que exclama "It's getting shorter!" depois de actualizar o seu gráfico de erecções matinais. Ainda a propósito do Porky's: a homenagem que este filme faz àquele machismo que é tí­pico de adolecentes, mas que muitas vezes nos acompanha o resto da vida, obriga-me a ver o Pipi como uma das suas personagens. Poderia ser o Meat, por exemplo. Já estou a imaginar os bonitos epí­tetos que o Pipi me vai atribuir...
Enfim, já me dispersei. Hoje começa uma nova fase da vida do Carimbo. É o iní­cio da idade adulta, a qual espero que seja descontraí­da.
Bem-vindos ao Carimbo.

ANS

25 - NOVA MODALIDADE OLÍMPICA


Agora que se começa a considerar a hipótese de lançar uma candidatura nacional à organização dos Jogos Olímpicos de 2016, penso que deveria ser aproveitada a oportunidade de incluir mais uma modalidade: o "Rally das Tascas". É que, depois de consumir em 60 "tasquinhas" consecutivas, Alberto João Jardim (AJJ) provou estar à altura de super-homens como Lance Armstrong e Michael Phelps. Duvido que AJJ consiga manter a forma por mais 12 anos, mas se o Comité Olímpico de Portugal realizar os esforços necessários para o desenvolvimento desta nova modalidade, talvez possamos vir a ter alguém capaz de atingir sem problemas a marca histórica de 100 barraquinhas.

ANS

24 - ESCUTAS TELEFÓNICAS III


Eu já tinha reparado que a maioria dos madeirenses não consideravam Alberto João Jardim (AJJ) como uma pessoa normal. Havia qualquer coisa que os obrigava a defender sempre as acções de AJJ. Agora já sei que o motivo para tal atitude é o facto (confessado) de o lí­der do governo regional da Madeira ser omnipresente ("Ele" está no meio de nós).
O que eu estranho é que AJJ tenha atribuí­do aos portugueses continentais o epí­teto de "cubanos" quando é a Madeira que está cada vez mais parecida com Cuba. De facto, a Madeira é uma ilha (que não sobrevive isolada) com um líder forte e omnipresente (que tudo vê e tudo sabe). Cuba também é uma ilha (que não sobrevive isolada) com um lí­der forte e omnipresente (que tudo vê e tudo sabe). Assim não há oposição que resista na Madeira.
Se a direcção do Partido Socialista estiver mesmo interessada em saber o que a Polí­cia Judiciária escutou, pode contratar os serviços de AJJ. O problema devem ser os valores da transferência de tamanha estrela para o "clube" rival.
Agora a sério. Há cerca de 7 anos atrás visitei Cuba e pude perceber o medo da população quando se mencionava o nome de Fidel Castro. Também pude perceber a pobreza extrema em que vivem os cubanos (e não me venham tentar convencer que aquela é uma "pobreza feliz"). A nossa Madeira não é nem nunca será assim!

ANS

28 julho 2003

23 - PÚBLICO EM LINHA


Às vezes o tempo pára para a edição online do Público. Ontem foi um dia assim e o Público sugeriu que lêssemos novamente a edição de Sábado. No entanto, hoje (segunda-feira) o Público redime-se e oferece-nos uma das suas melhores edições dos últimos tempos. Escrevo isto porque são de facto muitos os temas com interesse: a Justiça Portuguesa e o escândalo da Casa Pia e afins (a "conspiração" para destruir o PS e o caso CIDEC); o "novo" modelo de financiamento do sistema rodoviário (comentarei certamente este assunto quando conhecer as propostas do governo); o ministro da defesa, o Exército Português e Carlos Carvalhas (que critica o estilo populista de Paulo Portas e, ao mesmo tempo, diz não alimentar especulações mas devia estar a referir-se apenas àquelas que estão relacionadas com o Movimento de Renovação Comunista e com Fidel Castro); a crise no governo italiano, a intervenção americana na reconstrução do Afeganistão e do Iraque, o roteiro para a paz no Médio Oriente e os conflitos na África Ocidental; a liberdade da mulher africana (muito interessante) e, por fim, os super-homens Lance Armstrong (em português seria Lança BraçoForte, o que parece ser um nome adequado) e Michael Phelps. A anedota do dia (embora tenha ocorrido ontem) é sem dúvida Alberto João Jardim e o seu "projecto federal".
Obrigado Público, foi uma boa leitura.

ANS

22 - ESCUTAS TELEFÓNICAS II


Eu já suspeitava que o crime compensava, mas não tinha a certeza. Porém, na passada sexta-feira fiquei convencido de que pelo menos o crime de Inside Trading compensa. A condenação de Miguel Sousa Cintra (MSC) ao pagamento de apenas meio milhão de euros é a prova que me faltava.
É verdade que os insiders incorrem sempre em muitas despesas, como por exemplo: o pagamento (incluindo juros) do empréstimo de "alto" risco que possam ter contraí­do (como fez MSC para adquirir as acções da Vidago antes da OPA lançada pela Jerónimo Martins); o pagamento de honorários aos advogados que possam eventualmente vir a ser contratados para conduzir a sua defesa no caso de serem identificados pela CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários); e, finalmente, a eventual "multa" a que possam ser condenados em Tribunal. No entanto, mesmo com tanta despesa, MSC conseguiu certamente guardar para si uma boa parte das mais valias de quase 4 milhões de euros obtidas com a venda das acções da Vidago.
Só espero que entre os milhares de alvos de escutas telefónicas da Polí­cia Judiciária (PJ) não se incluam pessoas com uma posição privilegiada (ou com acesso a informações confidenciais) em determinadas empresas. É que agora os funcionários da PJ sabem que é fácil conseguir rapidamente uma reforma dourada sem incorrer em penas de prisão efectiva e com a possibilidade de contribuir generosamente para instituições de carácter humanitário (desde que obrigados a tal). A tentação é grande...

ANS

27 julho 2003

21 - UNIVERSOS PARALELOS


Depois de ler o post UMA CARTA DO DR. FREUD no Aviz, comecei a questionar se teria sido possí­vel evitar (algures na história) o chorrilho de desgraças enunciadas por Francisco José Viegas (FJV), nomeadamente "... o 11 de Setembro, o regime talibã, o empobrecimento das sociedades do Médio Oriente e uma geração de bombistas-suicidas."?
Eu concordo com FJV quando ele afirma que "O estado palestiniano nunca existiu por exclusiva responsabilidade dos paí­ses árabes da região, que não o permitiram ..." ao iniciarem em Maio de 1948 a Guerra da Independência, a qual terminou com uma retumbante vitória israelita (considerada apenas como um acidente de percurso pelos paí­ses árabes). De facto, desde essa data, os conflitos israelo-árabes foram muitos: 1967 (Guerra dos 6 Dias); 1978 (invasão israelita do sul do Lí­bano para garantir a segurança fronteiriça); 1982-1985 (novo conflito no Lí­bano para forçar a retirada da OLP); 1991 (1ª Guerra do Golfo); 1996 (conflitos com a Sí­ria e o Lí­bano motivados por ataques do Hamas e do Hezbollah, respectivamente). Ao mesmo tempo, o terrorismo (iniciado pelos palestinianos em 1972) tem sido uma constante, tendo adquirido uma maior expressão com o iní­cio da Intifada em 1987 e com o iní­cio dos ataques suicidas pelo Hamas em 1996. Esta pequena cronologia ilustra (de uma forma simplista) a impossibilidade da criação do Estado Palestiniano. No entanto, além dos Estados Árabes, também os judeus ortodoxos contribuiram, em 1996, para impedir a aplicação dos acordos de Oslo.
Será que esta cronologia poderia ser diferente?
Suponhamos que, após a 1ª Guerra Mundial, a transição para a independência da Palestina teria sido efectuada directamente, sem interferência da administração franco-britânica ao abrigo da Sociedade das Nações. Nessa altura existiam menos de 90.000 judeus no território. Será que, com base nesta hipótese, o fortalecimento do nazismo na Alemanha nos anos 30 teria levado centenas de milhares de judeus a fugirem para a Palestina, ou teriam eles escolhido outros locais? É verdade que o Fundo Nacional Judaico já adquiria terras na Palestina desde o início do século, mas a população judaica na Palestina cresceu de repente para cerca de 400.000 habitantes, sendo já 650.000 (cerca de 40% da população do território) quando Ben-Gurion declarou o Estado de Israel em 1948. Teria isto sido possí­vel? Ou será que o resto do Mundo teria sido obrigado a partilhar as reponsabilidades no acolhimento da população judaica destruída pelo nazismo?
E o que dizer da possibilidade de entrega, após a 2ª Guerra Mundial, de parte do território alemão ao povo judaico? Será que teríamos agora na Europa o ambiente explosivo que encontramos no Médio Oriente? Será que terí­amos assistido a um alastramento do fundamentalismo cristão na Europa?
Consideremos agora uma outra hipótese, a qual assume a manutenção da cronologia antes referida até 1991 (1ª Guerra do Golfo). Será que se a Operação Tempestade no Deserto tivesse sido continuada por uma segunda operação militar do género daquela a que estamos agora a assistir no Iraque, teria sido possí­vel evitar o alastramento do fundamentalismo islâmico? Será que teria sido possível aplicar as ideias que Shimon Peres apresenta em O Novo Médio Oriente (1993)? Poderí­amos ter hoje no Médio Oriente uma efectiva cooperação entre Estados e povos, com o consequente desenvolvimento económico e humano? Poderí­amos hoje assistir a uma utilização inteligente dos recursos do petróleo naquela região, garantindo (como sugere Shimon Peres) por exemplo uma equitativa distribuição de água e, portanto, de riqueza? Se assim for, então Bush (pai) perdeu uma excelente oportunidade de salvar muitas vidas. Quero acreditar que Bush (filho) não desperdiçará esta oportunidade, embora agora seja muito mais difí­cil porque o fundamentalismo islâmico se enraizou, o terrorismo atingiu proporções inimagináveis e os habitantes da região parecem não se conseguir libertar do ódio que lhes foi incutido ao longo de 90 anos de conflito.
Isto faz-nos pensar, não faz?

ANS