09 agosto 2003
48 - AINDA O GENERAL SILVA VIEGAS
Parece que o post anterior (O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES SOCIALISTAS) não foi totalmente compreendido, sendo mesmo alvo de vários comentários colocados por Rui Branco (RB) no post EM DEFESA DO PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES do Adufe. Tentarei explicar melhor o sentido do referido post à medida que for rebatendo as críticas de RB.
RB começa por criticar o título do post insinuando que eu me excedi e que defraudei as expectativas criadas pela frase de apresentação do Carimbo: “Um blog que pretende marcar mas não ferretear”. RB acha que o título do post não se limita a “marcar” o Presidente da República (PR). Lamento mas não posso concordar com tal insinuação. Basta ler os outros posts do Carimbo para verificar que muitos deles correspondem à colocação de hipóteses e cenários ou ao levantamento de questões, sendo os títulos escolhidos de forma a ilustrar esses mesmos cenários. São “supônhamos”, como dizia o Zezé (José Pedro Gomes) na Conversa da Treta. É óbvio que o PR, uma vez eleito, passa a ser o Presidente de todos os Portugueses. No entanto, isso não significa que o PR se consiga abstrair sempre dos interesses do Partido Socialista (PS).
A seguir, RB pede-me para fundamentar as acusações que faço ao General Silva Viegas (GSV) relativamente ao desrespeito pela hierarquia militar e à ameaça ao regular funcionamento democrático da República. Ambas as acusações foram motivadas pelo jantar a que o GSV compareceu com mais sete ex-Chefes de Estado-Maior do Exército (CEME). São acusações que já tinha feito há uma semana atrás (post PERDER A CONFIANÇA NUM MINISTRO DA DEFESA NÃO É O MESMO QUE PERDER UM PORTA-MOEDAS) e que mantenho.
Se não houve desrespeito pela hierarquia militar, porque sentiram o Primeiro Ministro (PM) e o Almirante Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) a necessidade de lembrar a todos nós que “o chefe militar de mais elevada autoridade na hierarquia das Forças Armadas é mesmo o CEMGFA”? Porque disse o Almirante Mendes Cabeçadas que só ele e os Chefes de Estado-Maior dos ramos podem representar com legitimidade os interesses das Forças Armadas? Talvez tenha sido porque um General (na reserva) tinha acabado de ser mandatado para representar os interesses do Exército perante o PM?
Quanto à questão das implicações do jantar dos ex-CEME no regular funcionamento democrático da República poderia, como Pires de Lima, fazer aqui algumas comparações ao Conselho da Revolução. No entanto, prefiro recorrer às palavras de um dos Generais (na reserva) que promoveu a realização do tal jantar. Estou a referir-me às garantias dadas pelo General Garcia dos Santos, antes do início do tal jantar, de que não sairia dali nenhum Golpe de Estado. Se fosse apenas um jantar entre colegas ele não se lembraria de fazer tal afirmação. Organizar uma reunião daquele tipo, numa altura em que a “desconfiança” entre o poder político e militar estava na ordem do dia, foi verdadeiramente desestabilizador do normal funcionamento da República.
RB tenta justificar a normalidade do jantar com o facto de os ex-CEME presentes serem Generais na reserva e, portanto, cidadãos comuns em termos do seu direito à intervenção política. Relativamente a este aspecto coloco duas questões. Será que não existem, na estrutura das Forças Armadas, pessoas (no activo) que possam expor ao PM e ao PR os problemas existentes entre o Estado-Maior do Exército e o Ministério da Defesa? Porque têm apenas sete cidadãos (que são, em princípio, iguais aos outros) o direito a saber as razões da demissão do GSV? É que à população portuguesa foi dito, pelo próprio GSV, que não podia tornar públicas as razões da perda de confiança no Ministro da Defesa (MD) devido ao respeito que lhe mereciam a instituição militar e aqueles que serviam o Exército Português. Pois.
Depois, RB afirma que eu defendo a tese risível de que os oito ex-CEME participaram numa manobra orquestrada pelo PS. Eu convido RB a ler novamente o post em causa porque eu não escrevi tal coisa. O que eu sugeri foi que a demissão do GSV poderia ter sido encomendada pelo PS, o que não tem nada a ver com o tal jantar.
A hipótese que levanto pode ser fundamentada da seguinte forma:
Em Outubro do ano passado, o General Alvarenga Sousa Santos (talvez inspirado pelo passado de Paulo Portas) foi o primeiro a levantar a questão da desconfiança ao criticar o MD e ao afirmar que “2003 seria o ano da verdade”. Isto originou o seu processo de exoneração, o qual criou um mal estar visível entre o PR e o MD. De tal forma que o PR deu um prazo ao MD para que este recuperasse a confiança dos militares sob pena de ser substituído se tal não acontecesse. Na mesma altura o MD encontrava-se sob um clima de fortes suspeitas motivadas pelo processo da Universidade Moderna. Este caso foi usado politicamente até à exaustão por toda a oposição, e em particular pelo PS, na tentativa de retirar Paulo Portas do elenco ministerial e assim eliminar a garantia de estabilidade da coligação PSD/PP. É que a “oposição” parece só saber fazer oposição a governos de maioria relativa. Assim que o caso Moderna deixou de ser um peso para Paulo Portas, tornou-se necessário encontrar uma forma de voltar a associar o MD a um clima de desconfiança. A experiência de Outubro de 2002 poderia ser repetida, mas agora com uma variante essencialmente política. Desta vez seria o CEME a perder a confiança no MD. O PR estaria pronto para, no exacto momento do pedido de demissão, endereçar um forte elogio ao GSV: “Não nos podemos esquecer das pessoas que prestaram grandes serviços ao país e é isso que eu homenageio neste momento. O GSV é um oficial distintíssimo!” Não é difícil entender este elogio do PR como uma marcação da sua posição (confirmada anteontem) e também como um aviso aos interessados de que o GSV não deveria ser penalizado pela forma como conduzisse o seu processo de demissão. Depois aconteceu o jantar dos ex-CEME que foi apenas a cereja em cima do bolo. O toque que faltava, para empolar o clima de desconfiança já instalado, era a encenação de um encontro à moda do Conselho da Revolução, com as conotações que isso tem na memória da população. A consequência disto tudo foi mais uma série de pedidos de demissão do MD efectuados por toda a oposição e por alguns políticos (na reserva) instigados por ódios pessoais (antigos ou recentes), dos quais destaco o Dr. Mário Soares, que por acaso também é socialista. RB achará que esta é uma hipótese muito disparatada, mas o que é importante para mim é precisamente isso: formular hipóteses. Se estas são disparatadas ou não, a blogosfera o dirá. Por isso aproveito para agradecer a RB por mostrar que discorda do meu post.
A seguir, RB parte para a defesa do PR e das Forças Armadas, terminando com um ataque a Paulo Portas. Não percebi se esta parte do texto reflectia apenas as opiniões de RB sobre o assunto ou se continuava a constituir uma crítica ao meu post. É que eu tive o cuidado, nos dois posts que escrevi sobre o tema, de referir sempre que não pretendia retirar a eventual razão do GSV nos seus desentendimentos com o MD. No entanto, já que RB toca no assunto, aproveito também para comentar estas situações.
RB lembra que o PR já vem alertando os governos para evitarem a demagogia desde há vários anos. É verdade. Nunca coloquei isso em causa.
Quanto ao MD, RB afirma que é populista. Mais uma vez tenho de concordar e conceder que esse é, muito provavelmente, mais um motivo para as relações tensas entre PR e MD. RB afirma que o MD ainda não cumpriu o corte com o passado que prometeu às Forças Armadas nem os compromissos que assumiu com os ex-combatentes. É verdade. José Lello (mais um socialista) também já disse isso. Mas, que eu saiba, os compromissos de governo são assumidos em prazos de quatro anos e não de 17 meses ou menos (a Associação Nacional de Sargentos também julga que o General Alvarenga Sousa Santos foi exonerado em Outubro de 2002 por motivos relacionados com a falta de meios para assegurar a continuidade das missões militares). RB afirma que o MD foi indelicado para com o GSV, tendo até interferido no sistema de avaliação do Exército para favorecer um nome. Se o MD o fez, agiu obviamente mal. No entanto, essas críticas foram em primeiro lugar lançadas pelo General (na reserva) Loureiro dos Santos (GLS), no próprio dia do pedido de demissão do GSV. O GLS afirmou que o MD tentou imiscuir-se em funções que só ao CEME competem (embora o GLS, na reserva, tivesse conhecimento delas) e explicou que o MD quis forçar a promoção a Coronel de um Tenente-Coronel que não estaria em condições de o ser. Se o GLS já conhecia os problemas todos, o que é foi fazer ao tal jantar?
Quanto aos problemas que o Exército (penso que não devemos incluir os outros ramos das Forças Armadas nesta discussão) enfrenta, RB refere, entre outros, o atraso crónico do Ministério da Defesa nos pagamentos das missões internacionais. Tem razão, é um problema que dura já há mais de três anos. Como foi criado o problema?
Quanto à necessidade de profissionalização, parece-me que o problema é mais uma vez a falta de verbas. Sem dinheiro, não será possível diminuir o contingente militar, restruturar as carreiras e implementar medidas de incentivo (monetário) ao ingresso. A consequência poderá ser um novo adiamento do fim do Serviço Militar Obrigatório. Também aqui concordo com RB.
Quanto à necessidade de reequipamento, RB tem razão quando afirma que o equipamento do Exército está obsoleto. Dou como exemplo os Chaimites e as G3 que vêem dos primórdios da Guerra Colonial. Convém aqui referir que nova Lei de Programação Militar (aplaudida e apoiada pelo CEMGFA e pelos Chefes de Estado-Maior dos ramos) contempla, em princípio, um plano de reequipamento ajustado ao controle do défice orçamental. No entanto, todos sabemos que o ano de 2003 está a ser particularmente difícil, existindo muita gente (não só na oposição) a prever a derrapagem do défice. Parece-me que esta situação teria, necessariamente, de afectar também o reequipamento do Exército. Pode alegar-se que o problema não é esse mas sim o facto de o Ministério da Defesa cobrir despesas correntes com verbas reservadas à aplicação da Lei de Programação Militar. Talvez pelo facto desta acusação não estar provada, RB não a menciona no seu post.
Julgo ser importante lembrar também que a verba prevista para Exército no Orçamento de Estado de 2003 aumentou consideravelmente relativamente a 2002, o que demonstra um esforço da parte do Governo.
Finalmente, RB afirma que a questão importante é de carácter político. Também julgo que sim. RB aponta três questões, das quais eu penso que a primeira diz tudo: “Que Forças Armadas queremos?” Esta é, sem dúvida, uma questão importante mas, agora que está aprovada a Lei de Programação Militar, não será hora de fazer tudo para avançar com a sua aplicação? Se começamos a questionar tudo, também podemos, como muitos já fizeram, perguntar para que serve o PR?
Voltando ao “supônhamos", a hipótese de ligação que aqui descrevo entre o PR, o PS e o GSV não é mais disparatada do que a tese da cabala contra o PS defendida (e constantemente repetida) por Ferro Rodrigues.
ANS
08 agosto 2003
47 - BSE: BLOCO DOS SEGUIDORES DE ESTALINE (II)
Escrevi, a 26 de Julho, que "primeiro, Bernardino Soares e Ruben de Carvalho manifestaram as suas dúvidas sobre a não existência de uma democracia na Coreia do Norte e sobre a ilegitimidade das execuções decretadas pelo regime de Cuba. Agora só já falta ouvir um terceiro elemento da ala conservadora do Partido Comunista Português (PCP) colocar as suas dúvidas sobre a prova da existência de um regime de terror na URSS desde 1920 até aos acontecimentos que levaram ao seu desmembramento. Só falta justificar a necessidade do Terror Estalinista (em particular, entre 1937 e 1941)."
Pois é, de acordo com o Público e com o Diário de Notícias, parece que esse terceiro elemento é o "Avante!", por intermédio do jornalista Manoel de Lencastre. É mais um que se pode filiar no BSE...
ANS
46 - O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES SOCIALISTAS
De acordo como Público, Jorge Sampaio (JS) aproveitou anteontem "a tomada de posse do novo chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), Valença Pinto, para fazer uma série de reparos ao Governo pela forma como tem gerido a pasta da Defesa". De seguida, deu um forte abraço de despedida e agradecimento ao General Silva Viegas (GSV) e afirmou: "Considero indispensável expressar o reconhecimento da República ao trabalho levado a cabo pelo (...) General Silva Viegas, cuja qualidades pessoais, competência profissional e empenho na reforma e modernização do Exército e das Forças Armadas, ninguém pôs nem poderá pôr em causa."
Parece que JS não viu no "Jantar dos Oito ex-CEME" qualquer ameaça ao regular funcionamento democrático da República nem qualquer tipo de desrespeito à hierarquia militar. A única coisa que o Presidente da República viu foi apenas uma excelente oportunidade de servir os interesses do Partido Socialista (PS), criticando o Governo numa altura em que este se encontra fragilizado pela situação de calamidade que se vive no país.
Repito que, ainda que o GSV possa ter razão quando se refere à falta de diálogo entre o poder político e a hierarquia militar, ao adiamento de compra de equipamentos e à sub-orçamentação das despesas com as missões internacionais, isso não justifica a forma como conduziu a sua demissão do cargo de CEME. Por outro lado, JS também sabe que o Governo tem dificuldades em satisfazer as exigências do Exército e por isso afirmou que a gestão corrente e as exigências operacionais das Forças Armadas "terão de ser compatibilizadas com a austeridade financeira" e que, "em vez de ser factor de instabilidade recorrente, a escassez de recursos deve, pelo contrário, potenciar uma gestão mais criteriosa, mais racional e mais eficaz dos orçamentos militares, na base de uma avaliação séria das nossas necessidades em termos de equipamentos e de funcionamento".
Estas afirmações só fortalecem a posição do governo e fragilizam a posição do GSV. Como é então possível assistir a um tão efusivo agradecimento público ao GSV? Só se a sua demissão foi "encomendada" pelo PS...
ANS
45 - INCÊNDIOS FLORESTAIS II
O último post do dia 29 de Julho do blog Follow the White Rabbit começa assim:
“A fase mais quente do ano já acabou. O Outono está a chegar e caem as folhas. Espero que também caiam algumas ingenuidades em relação ao estado do mundo e ao rumo que ele leva.”
Embora esta frase se oponha completamente à realidade climatérica portuguesa dos últimos dias, partilho as esperanças de Hugo Medeiros, as quais particularizo num sincero desejo de que, desta vez, a discussão sobre os incêndios florestais tenha consequências práticas.
Tentei evitar voltar a escrever sobre este tema, mas tal só seria possível se a comunicação social e a blogosfera não lhe dedicassem tanto espaço. Pelo menos metade dos blogs da lista ao lado já se referiram aos incêndios florestais e alguns deles dedicaram mesmo muito espaço e esta questão, nomeadamente o Blogue dos Marretas, o Mata-Mouros e o Liberdade de Expressão.
Tanta discussão já motivou dois apelos de Pacheco Pereira, no Abruto. Um desses apelos é feito no sentido de tentar evitar a introdução de ruído de fundo na discussão, principalmente numa altura em que os incêndios ainda alastram. Infelizmente está a acontecer precisamente o inverso. Alguma comunicação social procura (a todo o custo) o sensacionalismo e a exploração das emoções em detrimento da objectividade. O governo e a oposição vão atirando as culpas (que todos têm) de uns para os outros e, ao mesmo tempo, vão proferindo frases infelizes e perfeitamente dispensáveis. A oposição clama pela demissão de ministros (como se isso resolvesse tudo) e diz possuir uma verdadeira vontade (que todos sabemos ser demagógica) de mudar as coisas. Os bombeiros, de acordo com o que li no Anarca Constipado, fazem reclamações salariais numa altura em que deviam estar (e a maioria deles estará certamente) totalmente concentrados na extinção dos fogos. Como se não bastasse, ainda há quem faça comentários ingénuos e despropositados do tipo “A culpa é do Estado porque investiu no Euro2004 em vez de ter adquirido os meios aéreos necessários para o combate aos incêndios florestais”, o que só contribui para aumentar o nível de ruído.
O outro apelo de Pacheco Pereira refere-se à necessidade de continuar, construtivamente, a debater esta questão depois de os incêndios terminarem.De facto, assistimos normalmente a uma discussão mediática durante a tal “época de incêndios” que Jorge Sampaio diz não existir, mas tudo é esquecido depois do Verão. Como muito bem lembram o Mata-Mouros e o Guerra e Pas, o mesmo se passa relativamente às cheias e inundações que costumam ocorrer durante o Inverno. Quem mais é que agora (no Verão) fala delas? Enquanto que Pacheco Pereira e o Mata-Mouros afirmam que isto se deve a um “laxismo governamental antigo”, Waldorf, P. e Carlos Vaz Marques discutem a atitude resignada dos portugueses e a sua incapacidade para a indignação e mobilização. Recordo novamente o que referi no post SISMOS (de 30 de Julho) relativamente à "nossa" tendência para o esquecimento das calamidades. Será masoquismo ou pura falta de entendimento dos conceitos de risco e respectiva mitigação? No Público de ontem era possível ler que já não são efectuadas quaisquer inspecções a elevadores desde há quatro meses. Tirem as vossas conclusões. Paulo de Almeida Sande, no Diário de Notícias de hoje, aponta também para o problema da relação dos portugueses com o risco de calamidade.
Já estamos todos habituados à discussão sazonal sobre os incêndios florestais. Todos julgamos conhecer as suas causas e todos temos soluções, mas estas nunca deixam de ser apenas soluções teóricas. Lembro aqui, a título de exemplo, os incêndios ocorridos no Verão de 2000, os quais foram considerados uma calamidade por terem destruído cerca de 600.000 hectares de floresta por todo o sul da Europa. O que é isso quando comparado com a área de floresta portuguesa que já ardeu este ano (162.000 hectares) ou em 1991 (182.000 hectares)?. Todos estes incêndios provocaram várias mortes e elevados prejuízos financeiros envolvendo não só o património florestal mas também terrenos cultivados, habitações e infra-estruturas diversas (rede eléctrica e de comunicações, por exemplo). A solução encontrada em Portugal baseou-se, como sempre, em “subsidiar” para resolver o problema no imediato e esperar que chovesse nos anos seguintes. Talvez eu esteja errado, mas não acredito que as análises de risco (do ponto de vista exclusivamente económico) provem que é mais barato e eficiente agir desta forma. Mas mesmo que o fosse, o aspecto humano e ambiental teria de ser considerado, sob pena de estarmos a assistir a um crime muito grave. É que, só neste Verão, já morreram quinze pessoas.
Quais são então as soluções para o problema dos incêndios florestais que estão actualmente em discussão?
São várias e apresentam alguns pontos de conflito, nomeadamente no que se refere às obrigações e responsabilidades do Estado. Neste aspecto, concordo com o Catalaxia e com A Causa foi Modificada, que defendem a segurança dos cidadãos e da sua propriedade e o ordenamento ambiental do território como funções do Estado. Compreendo os receios de MacGuffin relativamente à possibilidade de fracasso do Estado nessas obrigações motivada por desorganização ou por pura cedência a interesses privados, mas lembro que esse tipo de receios pode existir em todas as áreas controladas pelo Estado. O Mata-Mouros afirma que o combate aos incêndios, em florestas que não pertencem ao Estado, deve ser suportado pelos proprietários das mesmas. Já anteriormente (post INCÊNDIOS FLORESTAIS, de 31 de Julho) comentei esta afirmação, na altura a propósito de um post de João Miranda (JM) do Liberdade de Expressão, a quem pedi que sugerisse formas de garantir serviços de combate a incêndios exclusivamente privados. Não recebi ainda uma resposta relativamente a esse aspecto e, por esse motivo, faço aqui um pequeno exercício de prolepse e adianto algumas dificuldades para a aplicação dessa ideia. Ainda ninguém se opôs à existência de serviços de bombeiros e de protecção civil mantidos pelo Estado que garantam a segurança das populações e da sua propriedade nos aglomerados populacionais. De acordo com JM, esses serviços de bombeiros também podem combater os fogos em florestas do Estado (que é de todos nós), embora não “o saibam fazer nem achem que isso se pode aprender”. Por outro lado, os incêndios que ocorressem na floresta que está na posse dos privados (e é constituída por inúmeras pequenas parcelas), seriam da responsabilidade de empresas especializadas no combate a fogos florestais. Estas empresas seriam responsáveis por 88 % da área florestal, teriam uma clientela dispersa pelo país e inúmeros problemas na identificação das suas áreas de actuação. Não me parece que isto faça muito sentido. Porém, não penso que seja má ideia que as principais indústrias com interesses na floresta (mobiliário e celulose) criem empresas para a monitorização e prevenção de incêndios florestais. Estas empresas poderiam cooperar com o Serviço Nacional de Bombeiros de uma forma semelhante à que já hoje acontece entre a polícia e as empresas de segurança contra intrusão e roubo em edifícios. Já agora, António Ribeiro Ferreira lembrou ontem, no Diário de Notícias, que o consórcio Portucel-Soporcel (que pertence ao Estado) é a maior indústria de celulose do país, o que, para mim, é mais uma justificação para a responsabilidade do Estado no combate aos incêndios florestais.
Outra questão que envolve alguma polémica é a atribuição de “subsídios de calamidade” aos proprietários de floresta ardida e os efeitos potencialmente perversos de tal generosidade do Estado. De acordo com o Público, a Associação Portuguesa de Seguradoras demonstra, com razão, a sua oposição a esta situação. Estes subsídios (este ano serão 50 milhões de euros) não só premeiam quem não protege o seu património como, ainda por cima, são mal distribuídos e acabam por ficar, na sua maioria, nas mãos dos proprietários de terrenos florestais, sobrando a menor parte para os habitantes das povoações vizinhas das florestas, os quais são afinal quem mais sofre e, provavelmente, quem menos culpa tem na ocorrência de incêndios.
Relativamente à prevenção por dissuasão, penso que todos concordam com a necessidade de educação e modificação de hábitos sociais associados, por exemplo, à utilização de fogos de artifício. Outra medida que parece ser de consenso geral é o agravamento das penas a aplicar em crimes de fogo posto. Em princípio, todos concordam também com o aumento da investigação criminal. De acordo com o Público, a Polícia Judiciária destacou mais quatrocentos elementos para este efeito (o que, aliado ao número absurdo de escutas telefónicas realizadas por aquela instituição, me deixa cada vez mais convencido da capacidade de multiplicação destes profissionais). Parece que a maioria dos incêndios é provocada por pirómanos mas, de acordo com Adelino Salvado, 30 % dos incêndios correspondem a acções de criminalidade organizada, o que indicia a existência de uma “economia do fogo” baseada na especulação imobiliária e na indústria da madeira e da celulose. Esta constatação, associada às afirmações de Vital Moreira no Público relativamente à garantia de rendimento dos proprietários que arrendam as suas terras à indústria da celulose, vem contradizer a tese que o Liberdade de Expressão e O Comprometido Espectador defendem relativamente à impossibilidade de existência de uma actividade empresarial de pequena dimensão envolvendo os recursos florestais. JM, por exemplo, dá a entender que essas pequenas empresas, a existirem, só conseguem sobreviver à custa dos subsídios do Estado.
Em termos de prevenção passiva é óbvia a necessidade de limpeza de matos, a qual deve ser garantida pelos proprietários. A criação de sistemas reticulados de compartimentação de áreas de floresta em termos de progressão dos incêndios também seria interessante, embora me pareça ser impraticável com a actual distribuição de pequenas propriedades. Na mesma linha de acção, seria importante garantir distâncias mínimas entre os limites da floresta e os aglomerados populacionais. As propriedades florestais deveriam ainda ser equipadas pelos proprietários (sob fiscalização do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil - SNBPC) com infra-estruturas de apoio a meios de combate a incêndios. Todas as propriedades florestais deveriam ser seguradas com valores justos (de forma a dispensar qualquer tipo de subsídio estatal).
Ao nível da prevenção activa, os proprietários deveriam garantir meios técnicos e humanos de vigilância móvel terrestre. Os vigilantes estariam em condições de ficar a conhecer muito bem o terreno e as suas condicionantes, possibilitando assim um melhor desempenho dos bombeiros na eventualidade de um incêndio. Também deveria ser promovido o recurso a sistemas de informação geográfica (de acordo com o Público, estes sistemas podem custar aos proprietários de terrenos florestais apenas 16000 euros por cada 5000 hectares). O SNBPC deveria ser totalmente responsável pela vigilância aérea.
Se as medidas de prevenção atrás referidas forem aplicadas, os meios técnicos e humanos de combate aos incêndios fornecidos pelo SNBPC (que necessitam, sem dúvida, de ser melhorados e modernizados) tornam-se muito mais eficientes. Quanto à questão salarial, leio no Prazer Inculto e no Liberdade de Expressão que os vencimentos dos bombeiros até são razoáveis. Talvez sejam, mas não esqueçamos estes profissionais trabalham muitas vezes com riscos muito grandes para a própria vida. Outros profissionais como, por exemplo, os senhores e senhoras que servem o café nos aviões (já vi esta descrição num blog mas não me lembro em qual) auferem, provavelmente, bem mais do que os bombeiros e não correm riscos tão elevados. Pelo contrário, correm até um risco muito pequeno.
A coordenação das acções de combate ao fogo e, principalmente a activação do Plano Nacional de Emergência, também têm sido alvo de discussão, existindo quem defenda a criação de uma Secretaria de Estado da Floresta como é o caso de Waldorf no sentido de evitar a dispersão de competências e a consequente descoordenação entre diferentes entidades. De acordo com o Público, Guilherme Silva aponta a descentralização como o melhor caminho. A este respeito penso que um sistema descentralizado seria, efectivamente, mais eficaz nos combates aos incêndios desde que fosse suportado pelas medidas preventivas anteriormente referidas. No entanto, o Plano Nacional de Emergência (que envolve o SNBPC, as Forças Armadas, a Polícia, os Ministérios, o INEM e a Cruz Vermelha), tem de ser revisto no sentido de uma definição clara dos seus critérios de activação e de uma coordenação eficaz entre diferentes Ministérios. Desta vez isso não aconteceu.
Para terminar (porque o texto já está demasiado longo), falta apenas focar a discussão em torno das áreas ardidas. Vital Moreira refere no Público que a actual floresta portuguesa é uma consequência do Plano de Fomento Florestal (lançado por Salazar) para desenvolver a indústria química e da celulose. Sabe-se hoje que a exclusividade de pinheiro bravo e eucalipto na floresta portuguesa é a principal responsável pela secura dos solos e tem por isso uma grande dose de culpa na ocorrência de incêndios. Por este motivo, todos falam em reflorestação com espécies variadas. No entanto, tal como é referido no A Causa foi Modificada, o mais importante é promover um adequado ordenamento do território baseado numa utilização sustentável do solo nacional, a qual pode até implicar não reflorestar. Talvez não seja necessário gastar 150 milhões de euros.
ANS
44 - MAIS AGRADECIMENTOS III
Só agora reparei que O carimbo consta da lista de blogs recomendados pelo Anarca Constipado. Para ele eu sou “Um gajo estrangeirado”. É bem possível que tenha razão.
Ao P. do Guerra e Pas deixo aqui um agradecimento especial por um dos melhores elogios que já foram feitos ao Carimbo desde que, há 18 dias atrás, iniciei esta viagem pela blogosfera.
Agradeço também a Carlos Vaz Marques do Outro, Eu pelo cordial e-mail que enviou e por incluir O Carimbo na sua lista de blogs recomendados.
Agradeço e retribuo as cordiais saudações que o Causidicus e o desBlogueador de Conversa fazem ao Carimbo.
Agradeço ainda ao Acho Eu, ao Blogue de uma Loura e ao CONVERSA da teta por incluirem O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados.
E por fim, uma nota para a perspicácia de Leonel Vicente do aaanumberone.
ANS
07 agosto 2003
43 - LIXO ELECTRÓNICO
No post anterior referi dois blogs cuja leitura me deixa bem disposto. Também referi que não são os únicos que o conseguem fazer. Existe na blogosfera um outro blog que me tem proporcionado inúmeros momentos de boa disposição. Mas é uma forma diferente de boa disposição. Não me refiro a uma gargalhada espontânea que é motivada por um comentário cómico ou agradavelmente irónico. Refiro-me a uma boa disposição que perdura, a um sorriso que teima em não desaparecer enquanto aquele blog me guia numa visita aos pequenos prazeres da vida.
Leio este blog diariamente na esperança de sentir mais vezes esta boa disposição. Infelizmente, ontem isso não aconteceu. O Aviz tinha sofrido um ataque desprezível e, por esse motivo, Francisco José Viegas (FJV) "só" conseguiu transmitir a desilusão que sentia. E que grande desilusão... Eu não conheço FJV, apenas conheço o que ele escreve e a imagem que transmite na televisão. Parece ser muito sereno, mas ontem foi notória a sua inquietação com aquele "ruído" lá fora que, de repente, invadiu a sua caixa de correio electrónico.
Eu não concordo com a construção de muros, mas por vezes parece que não há outra solução. Este é um desses casos e a solução passa, infelizmente, por incluir certos indivíduos na categoria de lixo electrónico.
ANS
06 agosto 2003
42 - THE "COMEDY TERRORIST"
O Público de terça-feira relata o fracasso de Aaron Barschak, o auto-denominado "Comedy Terrorist", e do seu espectáculo Osama Likes it Hot em exibição no Fringe Festival de Edimburgo.
De acordo com o Público, o homem que, mascarado de Osama bin Laden, "furou" o sistema de segurança do Castelo de Windsor e invadiu a festa de aniversário do príncipe William, foi alvo de grande atenção por parte dos meios de comunicação social. O Público exemplifica esta situação com uma entrevista de quatro páginas realizada pela BBC. Eu prefiro recorrer a uma entrevista com nove páginas (com alguma publicidade pelo meio) publicada na revista Weekend da edição de 26 de Julho do The Guardian.
De acordo com o Público, "para a maioria dos que assistiram à peça" no último domingo (3 de Agosto), "o único momento interessante do espectáculo foi quando Barschak 'provou do seu próprio veneno'. Um grupo de cómicos - A Aliança da Comédia - invadiu o palco numa tentativa de publicitar o seu próprio espectáculo em" Edimburgo.
Não sei se Barschak (que, definitivamente, não tem queda para a comédia) terá "provado do seu próprio veneno" ou se terá, ele próprio, preparado uma rápida entrada em cena de outros "cómicos". Creio que a leitura da parte final da entrevista de Jon Ronson (do The Guardian) a Aaron Barschak e ao seu colega Brendhan Lovegrove, que a seguir se reproduz, será suficiente para incutir esta dúvida em qualquer um.
«I leave Aaron and Brendhan writing the Edinburgh show. Brendhan tells Aaron, a little softly, that perhaps he shouldn't try to be funny. Maybe he should just tell the story of how he infiltrated the castle. "People will want to hear it from the horse's mouth", he says. "Remember, this is a fringe festival. It's not a comedy festival. It's OK if you're not funny."
"No", says Aaron, firmly. "I'm going to gag it up. I'm going to make it funny." Suddenly, Aaron looks nervous. "What if someone tries to hijack me? It's bound to happen. Some smart-arse. I need to have an alternative script for that eventuality. Shit."
"You'll just be Aaron", says Brendhan, soothingly. "You'll be great."
"No", says Aaron. "I need something."
"OK", says Brendhan, "I've got it! If someone hijacks you, just say to them, 'Right! I had two minutes to be funny in front of Prince William. Now you've two minutes to be funny in front of this audience. See you in two minutes!' And just walk off the stage!"
"That's brilliant", shrieks Aaron. "Brilliant! That'll show them how hard it is to be funny in just two minutes. Brilliant!"
"Are you worried", I ask, "that if you base the Edinburgh show around William's party, you'll be creating for yourself a box from which you can't escape?"
There is a long silence. Then Aaron says, a little sadly, "It's too late. I can't escape."»
Já agora, Rui Branco (do País Relativo) fazia ontem a seguinte pergunta:
"Porque será? Já há algum tempo, bastante mesmo, que ninguém me conta uma anedota, que não ouço uma anedota. Intrigado, pus-me a perguntar a família e amigos. O mesmo. Porque será que as anedotas se calaram?"
Se todos fôssemos como Aaron Barschak, eu diria que as anedotas escasseiam porque já não há ninguém com piada. Mas felizmente não somos todos assim. A prova é dada, por exemplo, pelo Gato Fedorento e pelo Blogue dos Marretas, entre outros.
ANS
05 agosto 2003
41 - FÍSICA E MATEMÁTICA
José Pacheco Pereira (JPP) tem promovido no Abrupto uma discussão muito interessante sobre o ensino das disciplinas de Física e Matemática e sobre a sua importância para a educação científica e, consequentemente, para a qualificação e modernização do país. Esta discussão surgiu depois da publicação das médias das notas dos exames nacionais de Física e Matemática do 12º ano.
De acordo com o Público, as médias na disciplina de Física foram (numa escala de 0 a 20) de 8,1 valores na primeira chamada e de 7,0 valores na segunda chamada. Nos exames de Matemática, as médias foram de 9,3 e na primeira e de 7,4 valores na segunda chamada. Resumindo, ambas as disciplinas tiveram médias negativas nas duas chamadas. Concordo com JPP quando ele afirma existir "uma deficiência estrutural gravíssima do sistema educativo português". Também concordo com a noção de "que Física e Matemática são disciplinas estratégicas para qualquer sistema de ensino que pretenda um mínimo de qualificação e para a modernização do país. Sem elas todo o edifício da educação científica cai".
No entanto, quando olhamos para o topo da educação científica, ou seja, para a investigação realizada em Portugal no campo da Física e da Matemática, deparamos com um cenário completamente diferente, o qual pode até ser definido como um cenário de excelência. De acordo com as classificações atribuídas pelos painéis de avaliação internacionais aos 43 centros de investigação (I&D) nacionais nestas duas áreas científicas relativamente ao ano de 2002, existem em Portugal 7 centros de investigação em Matemática com classificação "excelente" e 8 centros com classificação de "muito bom". Os restantes 5 centros de investigação nesta área científica obtiveram uma classificação de "bom". Quanto à investigação em Física, existem 5 centros classificados com "excelente" e 10 centros classificados com "muito bom". Os restantes 8 centros foram, na sua maioria, classificados com "bom", existindo apenas um centro de qualidade "suficiente".
Como é possível existir um fosso tão grande entre o estado da investigação nas áreas da Matemática e da Física e o estado do ensino destas matérias ao nível das escolas secundárias? Será que aquela máxima que diz que "os bons alunos serão sempre bons alunos, independentemente do estado do ensino" se aplica aqui? Ou será que, pelo contrário, o ensino é adequado mas existe uma manifesta falta de vontade de aprender? Será que tudo seria diferente se os meios de comunicação social em geral, e a televisão em particular, fizessem um esforço de divulgação da investigação portuguesa nos campos da Matemática e da Física e das consequentes aplicações práticas dessa investigação?
Penso que estas questões também podem ser importantes para a discussão em causa.
ANS
40 - MAIS AGRADECIMENTOS II
39 - ACEITAÇÃO
O contador de visitas do Carimbo é uma das formas de avaliar a sua aceitação na blogosfera mas não é, para mim, a mais importante. O número de visitantes é apenas um número com o qual eu não consigo comunicar. É muito mais importante e recompensador verificar que O Carimbo também já consta das listas de blogs recomendados pelo Terras do Nunca, pelo Socio[B]logue, pelo Mar Salgado e pela Bomba Inteligente (uma grande surpresa). Aproveito para agradecer aos Velhos Lobos do Mar por verem O Carimbo como um blog de "boa onda". Quero também agradecer especialmente ao João L. Nogueira por achar o post A BLOGOSFERA E EU digno de reprodução no Metablogue.
Não posso deixar de agradecer também os elogios que o Anarca Constipado e o Mata-Mouros fazem ao Carimbo.
O Cruzes Canhoto afirma que "O Carimbo já catalogou todo o caso de escandaloso". Agradeço o elogio à eficiência do Carimbo, cuja função também é catalogar, mas penso que O Carimbo tem usado mais do que uma categoria de catalogação.
Quero ainda referir os simpáticos emails que O Carimbo tem recebido, dos quais destaco o do Nelson Santos e o do Acho Eu, cujo post IDENTIFICAÇÃO (de 18 de Julho) deveria ter sido referido no post A BLOGOSFERA E EU do Carimbo.
ANS
38 - LICEU ESPECIAL
De acordo com o Público, vai abrir em Nova Iorque um liceu para estudantes homossexuais, bissexuais ou "transgender" (para simplificar a escrita usarei, daqui por diante, o termo "gay" para me referir a toda esta variedade de orientações sexuais). O liceu será público e terá capacidade para cerca de uma centena de jovens a partir dos 13 anos de idade.
No artigo de Pedro Ribeiro são referidas duas das principais críticas ao projecto. Uma delas reside obviamente na idade dos estudantes, sendo questionado se é possível garantir a orientação sexual de crianças com apenas 13 anos de idade. A outra crítica, não menos pertinente, tem a ver com o receio deste liceu vir a promover a estigmatização e o isolamento dos seus alunos ao invés de os ajudar na sua integração social.
Estas críticas (ou receios) são, do meu ponto de vista, perfeitamente compreensíveis e nada têm a ver com conservadorismo ou acessos de moralismo. Pelo contrário, são críticas que revelam apenas bom senso e abertura de espírito.
De facto, não se percebe como é que a separação destes jovens (enquanto estudantes) do resto da sociedade lhes irá conferir uma adequada preparação para a vida adulta, na qual serão obrigados, por exemplo, a trabalhar com colegas heterossexuais (para usar um termo politicamente correcto, ou seja, um termo que não ofende a comunidade gay). Estes jovens crescerão num mundo em que a normalidade será ter um comportamento sexual desviado daquele que é, estatisticamente, o comportamento sexual normal da população. Por mais que os seus professores os tentem convencer que não há problema nenhum em ser diferente, a verdade é que estes jovens sentirão ter sido afastados da sociedade e nunca saberão se isso aconteceu para os proteger de uma sociedade intolerante ou, pelo contrário, para evitar desestabilizar uma sociedade sensível. Em qualquer dos casos, o trauma infligido a estes jovens será profundo. É incrível que a comunidade gay, que tão estridentemente clama pelos seus direitos, não se faça ouvir relativamente a este assunto. Se calhar o seu objectivo é começar por um liceu gay para acabar num ghetto gay. Até parece que não existem já exemplos suficientes dos maus resultados da segregação, seja ela de carácter religioso, racial ou político, entre outros.
Relativamente à questão da idade, embora não saiba quando é que, em geral, um gay descobre ser gay, duvido que tal aconteça aos 13 anos de idade. E se os pais, os professores, os psicólogos e até as próprias crianças estiverem enganados? Não serão essas crianças constantemente agredidas (física e psicologicamente) pela maioria dos estudantes (efectivamente gays)? É que a comunidade gay justifica a importância de um liceu especial com o facto de os jovens gays serem constantemente agredidos nas escolas normais, ou seja, não especiais (para evitar ofender aqueles que são mais sensíveis à palavra "normal").
Estas críticas são de facto importantes mas não são as únicas. Suponhamos, por exemplo, que determinado casal tem um filho heterossexual, que está convencido da sua orientação sexual e que foi educado para aceitar as diferenças entre as pessoas. E se, por conveniências geográficas ou económicas, estes pais quiserem inscrever o seu filho naquele liceu (mesmo sabendo tratar-se de um liceu especial)? Em princípio o jovem não será aceite pelo facto de não ser gay. Não poderão os pais alegar que o filho foi discriminado em função das suas preferências sexuais?
Penso que a comunidade gay deve ter muito cuidado nas acusações de discriminação que faz à sociedade. É que, se é verdade que (infelizmente) a discriminação tende a existir relativamente às minorias, também não é menos verdade que quando essas mesmas minorias se transformam em maiorias cometem, muitas vezes, os mesmos erros. Não faltam exemplos desta situação.
Entretanto, gostaria de saber quantos filhos de casais compostos por homossexuais virão a frequentar este tipo de liceus? Não arrisco fazer qualquer previsão, mas não duvido que a resposta a esta questão virá também legitimar ou, pelo contrário, impedir a adopção de crianças por homossexuais.
ANS
03 agosto 2003
37 - A BLOGOSFERA E EU
Já aqui relatei como aconteceu a minha entrada na blogosfera, mas nunca revelei o que me fascina neste mundo. Também nunca escrevi sobre as minhas expectativas relativamente ao meu blog e à blogosfera em geral. Estes são assuntos que têm sido largamente debatidos e é, por isso, difícil introduzir elementos novos na discussão. No entanto, aqui fica mais uma modesta contribuição.
Como o leitor já deverá ter percebido, se for um visitante assíduo do Carimbo, eu resido há já alguns anos em Inglaterra. No entanto, esta é uma situação temporária. Digamos que estou agora a meio da minha estadia neste país. Talvez sejam estes os motivos da enorme necessidade que eu sinto de estar informado sobre o que se passa em Portugal. Essa necessidade obriga-me a permanecer em frente ao computador mais tempo do que aquele que seria necessário para o exercício da minha profissão. Mas só assim posso manter o contacto audiovisual com os portugueses que me são mais próximos e queridos. Só assim posso ler jornais portugueses e assistir ao Telejornal. São horas que valem a pena. Já o eram antes de eu descobrir a blogosfera.
Esta decoberta veio aumentar um pouco mais o tempo que passo à frente do computador. Mas são minutos extremamente enriquecedores. Não é possível acompanhar as opinões dos mais de 1600 bloggers nacionais, mas o "pequeno" grupo de blogs que consta da lista que está à esquerda deste texto já me permite ter a sensação de estar em Portugal a participar numa conversa entre pessoas informadas e com algo interessante a dizer. É verdade que, à primeira vista, esta conversa parece ser confusa. "Falam" todos ao mesmo "tempo" e sobre os assuntos mais diversos. Quando uns falam de si, outros falam dos outros. Quando uns falam do tempo, outros falam de futebol. Quando uns falam de política nacional, outros falam de política internacional. Quando uns falam de literatura, outros falam de filosofia. Enfim, todos falam de tudo mas a conversa até nem é nada confusa. Isto só é possível por se tratar de uma conversa escrita em que somos obrigados a ler um blog de cada vez. Podemos seguir o fio condutor da conversa em que participam os vários blogs através das referências que fazem uns aos outros.
Depois de acompanharmos alguns dias de debate bloguístico (espero ser perdoado pelo abuso linguístico) sobre determinado assunto, ficamos sem dúvida mais esclarecidos. Circula de facto mais informação na blogosfera do que nos orgãos de comunicação social tradicionais. Mas mesmo assim, penso que os bloggers nacionais (e incluo-me nesse grupo) ainda podiam ir mais longe na análise dos temas que debatem (principalmente no que se refere aos temas nacionais). A blogosfera é, para mim, o meio ideal para analisar a actualidade nacional através de uns "nicely polished looking-glass", como escreveu James Joyce relativamente ao seu livro Dubliners. Compreendo no entanto que exista algum pudor por parte dos bloggers que assumem a sua identidade, os quais admiro verdadeiramente pela coragem demonstrada.
Um "web log" é, por definição, um diário ou um caderno de registos que está disponível na rede. Eu nunca escrevi um diário, nunca registei os acontecimentos da minha vida (com excepção dos acontecimentos de interesse curricular) e nunca tive vontade de o fazer. No entanto, a possibilidade de registar acontecimentos pessoais ou opiniões sobre o mundo que me rodeia num diário aberto já me interessa bastante. É uma excelente forma de vencer distâncias e fazer chegar a minha "voz" àqueles que estão em Portugal e com os quais apenas contacto alguns minutos por dia. Ao mesmo tempo, tenho a possibilidade de comunicar com pessoas que não conheço mas sei que existem quando olho para o contador de visitas. Penso que é o facto de desconhecer a maioria das pessoas que lêem O Carimbo que me leva a permanecer anónimo. Desta forma sinto-me mais livre para escrever o que me apetecer, embore acabe por me conter sempre nas minhas afirmações. Deve ser feitio.
Até aqui referi-me apenas às vantagens da blogosfera, mas isso não significa que não identifique alguns vícios neste mundo virtual. Eles existem e assemelham-se àqueles que encontramos no mundo real (das pessoas). A blogosfera é hoje uma comunidade em rápida expansão e isso torna impossível que todos se conheçam (ainda que apenas virtualmente). A tendência para a criação de grupos (ou classes) de blogs é muito forte (creio até que é inevitável). Essas classes tenderão a ser formadas por grupos de amigos, colegas ou simplesmente conhecidos (que também o sejam no mundo real). Isso já se passa hoje com os blogs mais citados e famosos (os quais me parecem ser mantidos por pessoas que se conhecem). Receio que se venha a assistir a algum autismo (ainda que involuntário) por parte de cada grupo de blogs relativamente à restante comunidade virtual. Quando isso acontecer, a blogosfera será demasiado parecida com a sociedade real e apenas meia dúzia de blogs serão lidos por todos (funcionarão como um orgão de comunicação social).
Uma vez que o objectivo essencial de um blog é, do meu ponto de vista, comunicar, receio que a constatação da incapacidade de fazer chegar os nossos posts a um número de pessoas superior àquelas que conhecemos conduza à desilusão de muitos bloggers e à consequente "morte" do respectivo blog. Numa situação como esta, o blogger será pouco mais do que alguém que escreve para si num simples diário. Já li um blog (não me lembro qual) que justificava esta situação com as teorias Darwinianas da evolução natural das espécies, a qual é caracterizada por uma competição em que só os melhores sobrevivem. Nalguns casos talvez seja assim, mas na maioria deles o factor condicionante será o facto de ser conhecido de X ou Y e de, por essa via, poder pertencer a determinado grupo W ou Z (tal como na sociedade real).
Quanto ao Carimbo, estou convencido que se manterá ainda por um largo período de tempo independentemente de vir a ser integrado num grupo de blogs ou de ter muitos ou poucos leitores. Já há muitos anos que eu não escrevia apenas pelo simples prazer de escrever. Recordo agora com mais saudade os bons tempos passados na "redacção" do jornal do "meu" Liceu. O Carimbo tem preenchido muito bem esse vazio. É por isto que pertenço à blogosfera e não é o facto de achar que ela também tem defeitos que faz de mim um prosélito (para usar uma palavra da preferência de Francisco José Viegas).
Depois de reler este texto, concluo que falei muito de mim. Nunca pensei ser tão umbiguista.
ANS
36 - CAÇA ÀS BRUXAS
O Cruzes Canhoto refere hoje um artigo do The Independent onde é revelada a existência de uma enorme lista de pessoas que são sujeitas a um controlo apertado nos aeroportos norte-americanos pelo simples facto de se oporem ao governo daquele país, ainda que o façam apenas por meios legais. Parece que os governos dos EUA não se conseguem libertar desta obsessão por listas de pessoas. Parece que mudaram os motivos (apenas os que são públicos porque os verdadeiros motivos são os mesmos), mas a caça às bruxas ainda continua. É já uma tradição com mais de 50 anos.
Bolas, Mr. Bush, não havia necessidade...
ANS
35 - O TUMOR
Mário Soares aproveitou a questão da demissão do General Silva Viegas para afirmar que Paulo Portas é actualmente um tumor no governo, o qual tem de ser extirpado antes de contaminar todo o corpo governamental.
Não vou aqui relacionar estes comentários com o afastamento de Maria Barroso da Cruz Vermelha Portuguesa porque já outros o fizeram (leiam o Anarca Constipado ou o desBlogueador de Conversa, por exemplo). Prefiro apenas lembrar um debate entre Mário Soares e Basílio Horta que ocorreu durante a campanha para as eleições presidenciais de 1991. Assisti a esse debate com a grande angústia de alguém que queria votar mas ainda não o podia fazer. Nesse debate, Mário Soares foi duramente atacado por Basílio Horta relativamente a diversos aspectos, com particular incidência na descolonização. Parecia que Basílio Horta tinha ganho o debate mas no dia seguinte era Mário Soares quem tinha ganho a preferência da opinião pública e da imprensa. Para os portugueses (ou pelo menos para 70 % da população que votou), era inadmissível que um senhor com a idade de Mário Soares e que ainda era o Presidente da República fosse atacado daquela forma. Coitado... até parecia que estavam a falar de um indefeso e ingénuo Zé Maria do Big Brother.
Agora Mário Soares já não é Presidente da República mas continua a pensar que representa o país. E talvez até represente, visto que os legítimos representantes dos vários orgãos institucionais têm sido constantemente esquecidos, como ainda recentemente aconteceu com o Almirante Mendes Cabeçadas. Agora Mário Soares é ainda mais velho (78 anos) e ataca de uma forma pouco usual um Ministro da Defesa que partilha de muitas das opiniões de Basílio Horta. Não sei se Mário Soares quer mesmo iniciar esta guerra...
ANS
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