17 outubro 2003

129 - AMBIENTE DE FESTA


Hoje, ao fim da tarde, voarei para Lisboa. Ficarei em Portugal durante as próximas duas semanas. Infelizmente, não poderei assistir ao jogo de inauguração do Estádio da Luz (não quis obrigar ninguém a ir para aquelas filas intermináveis só para comprar um bilhete). Não faz mal. Assistirei, com certeza, ao próximo jogo a contar para a Super Liga.
Espero que o novo estádio contribua para a melhoria do espectáculo, fora e dentro do campo (por esta ordem). Espero que as claques benfiquistas estejam mais activas do que é habitual no apoio à equipa. Espero encontrar um ambiente de festa. Espero que exista segurança. Espero que seja vedada a entrada aos três indivíduos dos No Name Boys que, depois de terem sido apanhados na posse de armas, explosivos e droga, foram apenas sujeitos a termo de identidade e residência, ficando a aguardar o seu julgamento em liberdade. Espero que isto não volte a acontecer. Se estes indivíduos não são perigosos, então ninguém o é!

ANS

128 - ANFIELD ROAD OU PENNY LANE?


Na quarta-feira fui, mais uma vez, ao estádio do Liverpool Football Club (LFC), em Anfield Road. Fui assistir ao encontro entre este clube e o NK Olimpija Ljubljana (NKOL). O jogo terminou com uma vitória fácil dos “Reds” por 3-0, existindo pouco para contar além de algumas excelentes defesas do guarda-redes da equipa eslovena. O jogo decorreu, em ambas as partes, junto à área do NKOL, o que, para mim, foi conveniente. É que eu estava na chamada Main Stand do estádio do LFC, onde existem quatro pilares que suportam a cobertura e que não permitem que os espectadores sentados no seu enfiamento vejam a totalidade do campo. No meu caso, a parte escondida era precisamente a zona do meio campo.
Na última vez que tinha estado neste estádio assisti ao jogo a partir da Kop, a qual se situa atrás de uma das balizas e, por esse motivo, não oferece uma boa visibilidade da baliza oposta. No entanto, a Kop (que se distingue pelas enormes letras “LFC” que, quando o estádio está vazio, sobressaem do fundo de cadeiras vermelhas) é uma bancada exclusiva dos adeptos caseiros, os quais criam sempre um ambiente fantástico e convidativo. É por isso que a Kop é tão conhecida. Se nunca ouviram falar da Kop, vejam (ou revejam) o filme The 51st State, com Samuel L. Jackson no papel do “escocês” Elmo McElroy e Robert Carlyle no papel de Felix DeSouza (um scouser fanático pelo LFC).
A dedicação dos adeptos deste clube é, de facto, incrível. A forma como apoiam sempre a sua equipa e como, em simultâneo, tentam moralizar cada jogador é exemplar. O jogo de quarta-feira, apesar do empate a uma bola no jogo da primeira mão, era considerado como uma tarefa simples para os futebolistas do LFC. Mesmo assim, com os seus níveis de entusiasmo relativamente baixos, os adeptos do LFC entoaram uma série de cânticos e não se cansaram de comentar as jogadas da sua equipa. A expressão “Well dsone!” foi uma das que mais se ouviu. Esta expressão revela que a equipa jogou bem e que os adeptos eram scousers (post 124 do Carimbo).
À saída do estádio (por volta das dez horas da noite) tive outra demonstração da dedicação dos adeptos, os quais formaram um fila enorme em frente à loja do clube (que estava cheia). A minha surpresa ainda foi maior quando constatei que a maioria desses adeptos já vestia camisolas, cachecóis e chapéus do LFC. O que iriam eles comprar?
Ontem, li num jornal local que estão a decorrer negociações com vista à construção de um novo estádio na cidade. Este estádio ficaria do outro lado da cidade, junto a Sefton Park, num dos extremos de Penny Lane (lembram-se da canção dos Beatles?), e seria utilizado pelo LFC e pelo Everton Football Club. Isto significaria o fim da Kop, o que seria uma pena. Por outro lado, o novo estádio deverá permitir aos espectadores uma visibilidade adequada do campo (desde que não coloquem cadeiras atrás do ecrã gigante...). Outra vantagem do novo estádio será a sua localização. Os turistas que vierem a Liverpool não deixarão de aproveitar para ver Penny Lane e o estádio dos maiores clubes da cidade. Já estou a imaginar as filas à porta das lojas do estádio. Penny Lane ficará um pouco diferente da descrição que os Beatles nos deixaram:

PENNY LANE

In Penny Lane there is a barber showing photographs
Of every head he's had the pleasure to know
And all the people that come and go
Stop and say hello

On the corner is a banker with a motorcar
The little children laugh at him behind his back
And the banker never wears a mack
In the pouring rain, very strange

Penny Lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit, and meanwhile back

In Penny Lane there is a fireman with an hourglass
And in his pocket is a portrait of the queen
He likes to keep his fire engine clean
It's a clean machine

Penny Lane is in my ears and in my eyes
A four of fish and finger pies
In summer, meanwhile back

Behind the shelter in the middle of a roundabout
The pretty nurse is selling poppies from a tray
And though she feels as if she's in a play
She is anyway

In Penny Lane the barber shaves another customer
We see the banker sitting waiting for a trim
And then the fireman rushes in
From the pouring rain, very strange

Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit, and meanwhile back
Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny Lane

By John Lennon and Paul McCartney



ANS

127 - CANÇÕES DE 1973 (XV)


Foi no ano de 1973 que os Electric Light Orchestra lançaram o álbum On The Third Day, do qual se destacam as canções Ma-Ma-Ma Belle e, principalmente, Showdown. Há quem acredite que foi esta canção, cuja letra é aqui reproduzida, que lançou a carreira desta banda até ao final dos anos setenta.


SHOWDOWN

She cried to the southern wind
About a love that was sure to end
Every dream in her heart was gone
Headin' for a showdown

Bad dreamer, what's your name
Looks like we're ridin' on the same train
Looks as though there'll be more pain
There's gonna be a Showdown

And it's rainin' all over the world
It's raining all over the world
Tonight, the longest night

She came to me like a friend
She blew in on a southern wind
Now my heart is turned to stone again
There's gonna be a Showdown

Save me, oh save me
It's unreal, the suffering
There's gonna be a Showdown

And it's rainin' all over the world
It's raining all over the world
Tonight, the longest night

By the ELO



ANS

15 outubro 2003

126 - COERÊNCIA


De acordo com o Público, Durão Barroso anunciou, ontem, que o Orçamento do Estado (OE) para 2004 terá como meta um défice nominal máximo de 2,8 % do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com a RTP, o OE para 2004 deverá assentar, em parte, no crescimento da actividade económica, o qual se deve situar entre 0,5 % e 1,5 %, após um ano (2003) que se estima vir a ser de recessão. Convém lembrar que, de acordo com as previsões da OCDE, de Abril do corrente ano, o PIB português deveria crescer 0,3 % em 2003 e 2,3% em 2004.
Esta situação de discrepância entre os valores apresentados pelo Governo e os valores apresentados pela OCDE é bem diferente da que ocorreu no ano passado. Recordo que segundo os valores apresentados, em Novembro de 2002, pela OCDE, o crescimento do PIB deveria situar-se em cerca de 2,5 % em 2003. No ano passado, o Governo foi muito menos prudente do que este ano e apresentou no OE uma estimativa de crescimento do PIB entre 1,25 e 2,25 % (valor máximo próximo do previsto pela OCDE). O mesmo OE estabelecia o valor de 2,4 % do PIB como meta para o défice orçamental. Já este ano, o défice orçamental foi revisto em alta para os famosos 2,9447 % do PIB.
Será que o Governo está, este ano, a revelar mais prudência ou será mesmo falta de confiança na recuperação da economia? Embora ambas as leituras sejam possíveis, o Governo tem afirmado repetidamente que 2004 será o ano da recuperação. Se é assim, então a estimativa do Governo para o crescimento do PIB parece realista e prudente. Por outro lado, o objectivo para o défice orçamental parece muito arriscado. Se acontecer o mesmo que aconteceu este ano, o Governo não terá margem de manobra. Se, pelo contrário, a execução orçamental não se desviar do estimado, um défice de 2,8 % ainda é muito alto para quem defende que se deve poupar quando a economia cresce para que seja possível estimulá-la quando esta se retrai. Espero que não se esqueçam que o objectivo a médio prazo é o défice orçamental nulo. É que, mesmo que a recuperação económica se verifique, nada garante que o crescimento não será efémero.

ANS

125 – A TALENTOSA MISS RIPLEY E A IMAGEM DE PORTUGAL


Está toda a gente escandalizada com o artigo da edição europeia da Time sobre as “meninas” de Bragança. O facto de Portugal aparecer na capa dessa revista pelos piores motivos parece envergonhar toda a gente . Deve ser impressão minha, mas não me pareceu que este assunto fosse motivo de vergonha quando a notícia foi divulgada pelos jornais e revistas nacionais. Como sempre, o que vem de fora é que conta (artigo da Le Point sobre a pedofilia). Infelizmente, conta mal.
O artigo da Time é muito fraco e revela uma qualidade de jornalismo que, de facto, não justifica que o Governo português ali invista em publicidade para o Euro 2004. O artigo começa por revelar que Bragança representa uma parte (aparentemente importante) de um negócio total de 50 mil milhões de dólares, o qual consiste na utilização de Portugal como porta de entrada de centenas de milhares de mulheres brasileiras no mercado europeu da prostituição. Eu sabia que o negócio da prostituição, como qualquer negócio ilegal, era lucrativo, mas nunca imaginei que pudesse atingir 40 % do Produto Interno Bruto nacional (só no que diz respeito às prostitutas de origem brasileira!). Quanto às centenas de milhares de mulheres brasileiras que entram em Portugal para o negócio da prostituição, parece-me que a Sr.ª Amanda Ripley (autora do artigo da Time) volta a exagerar descaradamente. A população estrangeira residente em Portugal atinge um valor total de cerca de 390.000 habitantes, dos quais cerca de 50.000 são brasileiros. Mesmo quando se contabiliza a imigração ilegal oriunda do Brasil, obtém-se, de acordo com as estimativas mais recentes, um valor de 80.000 brasileiros residentes em Portugal. Acreditando nos valores apresentados pelo artigo da Time para o rendimento médio de uma prostituta brasileira de Bragança, seriam necessárias cerca de 800.000 prostitutas para manter um negócio de 50 mil milhões de dólares.
De acordo com a Time, em Bragança, o negócio da prostituição é suportado por sete clubes de strip e vários bordéis (são tantos que o artigo os define como “incontáveis”). Ainda de acordo com a Time, Bragança deve ser uma das capitais europeias do sexo, do bem-estar económico e da insatisfação sexual no matrimónio. É por isso que têm ocorrido tantos divórcios naquele concelho do país. O concelho de Bragança tem uma população de cerca de 34.750 habitantes, dividida em cerca de 16.750 homens e 18.000 mulheres, das quais 12.750 são casadas. Em 2001, a taxa de divórcios neste concelho era de 1,7 por cada mil habitantes, o que correspondeu a cerca de 60 divórcios num universo de 12.750 famílias. É possível que a taxa de divórcios tenha crescido muito, mas daí a associar a generalidade dos divórcios ao aumento da prostituição em Bragança vai uma distância enormíssima. A população nacional é, actualmente, de cerca de 10.320.000 habitantes. Se, de acordo com a Sr.ª Amanda Ripley, existem cerca de 800.000 prostitutas em Portugal (residentes ou de passagem), assumindo uma distribuição de prostitutas proporcional à população de cada concelho do país, existiriam em Bragança cerca de 2.700 prostitutas, ou seja, uma prostituta para cada 6,2 homens. No entanto, Bragança é uma das capitais europeias do sexo, pelo que a concentração de prostitutas por habitante deve ser ainda maior! Por este andar, devem existir, em Bragança, mais prostitutas do que homens. Se assim for, concordo com a Sr.ª Paula (nome fictício da esposa traída cuja história é contada no artigo). Trata-se, efectivamente, de concorrência desleal com as “mães de Bragança”. Já agora, se o número de bordéis em Bragança é incontável, como é que a Sr.ª Paula conseguia sempre encontrar o seu marido quando ele se atrasava? Admitamos que não devia ser uma tarefa fácil para quem andava a pé e com a filha ao colo.
Espero que este artigo da Time sirva de lição (mais uma) aos jornalistas nacionais. Os jornais mais importantes do país (e a televisão) não devem fazer tanto eco das notícias de âmbito local, as quais devem ser deixadas aos jornais regionais. São estes jornais que, juntamente com as populações, devem pressionar as autarquias para resolver os problemas locais. Os jornais de grande tiragem devem focar problemas de âmbito nacional ou, quando muito, relativos às grandes cidades do país. Desta forma, estas notícias (que não representam o país) não são constantemente oferecidas à imprensa estrangeira. Isto não significa que as más notícias devem ser escondidas. As notícias devem ser todas reveladas, nos locais próprios e com a seriedade devida. No entanto, devemos resistir à tentação de nos vermos sempre como os desgraçadinhos da Europa, onde tudo o que é mau acontece. Isso não é verdade. Não consigo esconder a minha irritação perante esta forma de ser português. Os britânicos, os alemães, os franceses e os espanhóis, por exemplo, não são assim. Em todos estes países vi sinais de pobreza extrema. Em todos eles vi prostituição nas ruas. Em todos eles vi droga a circular. Em todos eles vi violência nas ruas. No preciso momento em que escrevo estas linhas, basta-me assomar à janela para ver algumas prostitutas que, enquanto esperam pelos seus clientes, vão discutindo com os respectivos proxenetas. Na rua onde vivo, a dez minutos a pé do centro de Liverpool, o som de carros e helicópteros da polícia é frequente. Acreditem que nunca vi qualquer notícia sobre isto nos grandes jornais britânicos ou na televisão. No entanto, trata-se de um assunto amplamente discutido nos jornais locais. Pelo contrário, as notícias que surgem sobre países pequenos, como Portugal, são sempre más ou tristemente caricatas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com uma reportagem sobre a adesão à moeda única, com uma reportagem sobre o aborto e com outra sobre o turismo. Nestas três reportagens, Portugal foi apresentado com um país de bairros de lata, como se nada mais existisse. Por outro lado, as reportagens sobre o Reino Unido, a Alemanha, a França e até a Espanha, mostram, na grande maioria das vezes, países muito desenvolvidos, como se a pobreza, a droga e a prostituição não existissem. Na televisão portuguesa podemos ver publicidade ao turismo noutros países. Aqui em Inglaterra, também vejo esse tipo de publicidade, mas Portugal nunca aparece. Porque razão está o Governo a promover (só agora...) o Euro 2004 em revistas conceituadas, quando poderia promover o país (independentemente da realização do campeonato europeu de futebol) ao longo de todo o ano em canais de televisão? Por exemplo, a Grécia, a Croácia e o Egipto, entre outros, recorrem à CNN para a promoção turística dos seus países. Tenho a certeza que esse tipo de promoção é muito mais eficaz.
A conclusão deste texto é que a imagem de um país, tal como a imagem de qualquer outra coisa, é aquela que nós somos capazes de vender. O nosso objectivo é vender um Portugal um pouco melhor do que o real e utilizar os lucros para aproximar a realidade da imagem vendida. Se não o fizermos, os outros criarão a sua própria imagem de Portugal, a qual será certamente pior do que a realidade portuguesa, servindo assim os interesses de países que, como o Reino Unido, parecem ter um prazer sádico na existência de países menos desenvolvidos em termos económicos e sociais.
Como não sabemos vender Portugal, a nossa imagem no Reino Unido continua a ser a da velhinha vestida de negro, com bigodes e sem dentes, que caminha com as pernas arqueadas atrás de um burro em direcção a uma casa em ruínas. Será que alguém tem esta imagem de Inglaterra? Claro que não. Mas podem ter a certeza que também se encontra.
Como não sabemos vender Portugal, o Algarve (o paraíso do turista de pé-descalço britânico) continua a ser vendido como um dos pacotes turísticos espanhóis. É verdade. Os empregados das agências de viagens insistem que o Algarve pertence a Espanha. Isto já aconteceu comigo e com outros portugueses que tentaram comprar pacotes turísticos para o Algarve (o que, muitas vezes, sai mais barato do que comprar apenas um bilhete de avião).
A promoção turística do país é uma responsabilidade nacional. Não podemos esperar que o Governo faça tudo. As empresas têm de ajudar e a comunicação social também. Quanto a Bragança, penso que já contribuiu demasiado para esta promoção.

ANS

14 outubro 2003

124 - SER ONE OF THEM


Na passada sexta-feira, a Charlotte, do blog Bomba Inteligente, recordou a forma como costumava testar o seu grego com os taxistas de Atenas. Para a Charlotte, os dias eram perfeitos quando os taxistas lhe falavam como se ela fosse “one of them”.
Aqui em Liverpool é ao contrário. Os dias maus acontecem quando os scousers (naturais de Liverpool) falam comigo como se eu fosse one of them. Quando isso acontece, eles carregam no sotaque e usam todas aquelas expressões que, em conjunto, constituem um autêntico dialecto (scouse) cuja compreensão é quase impossível (até os britânicos têm dificuldades).
Para que tenham uma ideia mais precisa do que é o scouse, aqui ficam algumas dicas sobre a pronúncia:

Os scousers falam como se tivessem bronquite, ou seja, fazem-no de uma forma nasalada e com vestígios de um catarro permanente. Outra consequência dessa “bronquite crónica” é facilmente observada na entoação que os scousers dão às frases, as quais começam sempre num lamento para terminarem num tom muito agudo (como se fosse uma canção).
Nas palavras com “t” ou “th”, estes são pronunciados como “d” (o que, para os portugueses, até é conveniente). Quando o “th” vem no início das palavras, os scousers optam por adicionar um “d” ou por pronunciar apenas o “t” (influência irlandesa).
As palavras terminadas em “y” são pronunciadas como se terminassem em “ee” (este som parece que não acaba, principalmente quando a palavra em causa aparece no final da frase).
As vogais no meio das palavras mudam frequentemente de som.
Quando as letras “d” e “t” estão no início das palavras são pronunciadas de uma forma aspirada, o que resulta na adição de um “s”.
Nas situações em que o inglês da BBC omite a letra “t”, os scousers substituem-na por um “r”.
As palavras terminadas em “t” são pronunciadas como se terminassem em “tch”.
As terminações “ing” são, simplesmente, reduzidas para “n”.
A palavra “its” é pronunciada como “’s”
Quando as letras “l” e “m” aparecem juntas numa palavra, os scousers introduzem uma vogal entre elas.
Quando as palavras terminam em “k”, este pode ser substituído por “ch”.
A dupla negação é utilizada sempre que possível.

Mas o scouse não se distingue apenas pela pronúncia. Também existe uma grande variedade de vocábulos que são exclusivos do scouse. Para que tenham uma ideia do que é falar inglês em Liverpool, aqui fica um exemplo do que poderia ser uma conversa com um taxista que me considerasse um scouser:

Taxista: Dso yer see dat broken window?
Eu: Yes, I dso.
Taxista: Id was broken yesterdaee nightch. Some divvy fellers dsid id. Dthey waaire baaivvied. Dthese boys are woollybacks. ‘s like… dthey dson’t like dthe bewks. Dthey are allus in dthe boozers gett’n chaaimicked. And dthe baairds dso dthe same. Dat’s why dthey are allus boxed.
Eu: Why?
Taxista: I dsunno. Dson’t axe me. Last nightch, me and me wife… we found ahr kid in dthe streets look’n for loosies. ‘e was ask’n everybodee: “Gorranee ciggies? Gorranee ciggies?”. Dekko, I’m a jockey but I give me kid a doddle life. Eorta be a good college pud. Last nightch ‘e was so daairty dat I couldn’t crack on ‘im. Last mond dthe filth tooch ‘im tso dthe cop shop. ‘e spent tswo nights in nich. After dat ‘e spent some tsime ad gaff watch’n dthe filums. I asked ‘im tso ‘elp me digg’n oud dthe gaff and ‘e didn’t dso nutt’n. ‘s like… a ghost. Dthen I tsold ‘im: “Yer gotta ged outch. Lemme tsake yer tso dthe togga. We’ll 'ave some baaivvy and chippy.” ‘e allus gets tizzie wid footy. Whaain we god daaire, ‘e met dem mates dat are allus rotten and left me tod. After dat ‘e broke one mitt in a straightener. Worra ‘appen wid dat kid?
Eu: Ad leasd ‘e’s not on tabs…
Taxista: Zarrafact?… Dekko. ‘ere we are. Dat's Lime Street station.
Eu: What’s dthe dsamage?
Taxista: Four quid, mate.
Eu: Keep dthis flim.
Taxista: Ta.
Eu: Ta-ra.

Espero que consigam entender este diálogo. Se tiverem dúvidas, podem perguntar-me ou podem tentar encontrar a tradução neste glossário.
Felizmente, nunca conseguirei falar assim. É que além de ser horrível quando comparado com o inglês da BBC, o scouse é também um estigma que acompanha os scousers por toda a sua vida, criando-lhes sérias dificuldades.

ANS

13 outubro 2003

123 - CANÇÕES DE 1973 (XIV)


Hoje, esta série muda de capítulo , ou seja, passa para a quinta letra do alfabeto. Para estrear este capítulo, recorro ao álbum Desperado, dos Eagles, do qual saliento as canções Tequila Sunrise, Desperado e Doolin-Dalton. A seguir transcrevo a letra de Tequila Sunrise - um shot de coragem:


TEQUILA SUNRISE

It's another tequila sunrise
Starin' slowly 'cross the sky, said goodbye
He was just a hired hand
Workin' on the dreams he planned to try
The days go by

Ev'ry night when the sun goes down
Just another lonely boy in town
And she's out runnin' 'round

She wasn't just another woman
And I couldn't keep from comin' on
It's been so long
Oh, and it's a hollow feelin' when
It comes down to dealin' friends
It never ends

Take another shot of courage
Wonder why the right words never come
You just get numb
It's another tequila sunrise,this old world
still looks the same,
Another frame, mm...

By the Eagles



ANS