14 novembro 2003

138 - DIA NACIONAL DA LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA


No dia 4 de Outubro, o Rui, do blog 3tesas não pagam dívidas, enviou um e-mail para diversos bloggers, entre os quais me incluía. Nesse e-mail, o Rui reproduzia o seu post com o título "O forro da gaiola dos hamsters, ou como fazer cair uma reclamação em saco roto". Esse post chamava a atenção para a insistência de alguns jornalistas do Expresso em utilizarem a expressão surdo-mudo para designar as pessoas que sofrem de surdez profunda desde a nascença ou desde uma idade muito jovem. Confesso que também me senti incomodado com essa forma de tratamento quando li a notícia do Expresso sobre o Café des Signes, mas penso que esse não é um motivo suficiente para deixar de saudar a sua publicação.
Este artigo descrevia um novo café de Paris, o Café des Signes, no qual, aparentemente, apenas trabalham pessoas com deficiências auditivas. Acho esta ideia brilhante porque constitui uma excelente forma de chamar a atenção para as dificuldades que a nossa sociedade coloca à integração dos surdos. De facto, para os clientes ouvintes, ir àquele café será como ir a um café no estrangeiro. Terão de se adaptar à língua gestual utilizada pelos empregados para fazerem os seus pedidos. Não me admiraria se muitos desses clientes saíssem do café com o desejo de aprender a língua gestual. Segundo o Público de hoje, já existem muitos jovens ouvintes portugueses com este desejo. Acho muito bem porque, embora a língua gestual não seja fundamental para uma conversa entre um surdo e um ouvinte, ela pode adquirir esse estatuto quando a conversa acontece entre um ouvinte (ou mais) e alguns surdos ou mesmo apenas entre surdos. É por isso que estranhei o facto de apenas se verem mesas rectangulares na fotografia que ilustrava o artigo online do Expresso sobre o Café des Signes. Esta geometria não favorece o diálogo em língua gestual. Na verdade, as mesas rectangulares não favorecem o diálogo em nenhuma língua, mas imagino que as dificuldades criadas sejam maiores quando a conversa decorre em língua gestual.
Amanhã é o dia nacional da Língua Gestual Portuguesa (LGP). Segundo o Público, a Associação Portuguesa de Surdos pretende assinalar o evento chamando a atenção para os problemas dos estudantes surdos que frequentam as escolas regulares portuguesas. Nestas escolas não é feita a tradução do português falado pelo professor para a LGP entendida pelo estudante surdo, o qual fica assim em desvantagem perante os alunos ouvintes.
Eu concordo com a existência de tradução para LGP nas escolas, mas acho que deve existir algum cuidado para não transformar esta língua na única língua dos surdos. Não nos devemos esquecer da importância da oralização dos surdos. Os surdos oralizados têm muito mais garantias de uma integração com sucesso na nossa sociedade. A prova desta afirmação reside em todos os casos de sucesso de pessoas que, tendo nascido com surdez profunda, hoje são capazes de comunicar oralmente, falando como os ouvintes (embora com algumas dificuldades compreensíveis) e entendendo o outro por leitura labial. Parece-me que se a LGP for encarada como a forma mais importante de comunicação dos surdos com a sociedade ouvinte, corre-se o risco de dificultar a integração dos surdos nessa mesma sociedade. Ainda que existam muitas pessoas ouvintes com desejo de aprender a LGP, a grande maioria da população nunca conhecerá essa língua. Como é que essa parte da população "falará" com os surdos?
De vez em quando assisto à repetição nocturna do See Hear (um programa da BBC sobre surdos e ouvintes e dirigido a surdos e ouvintes). Nesse programa é utilizada a linguagem gestual em simultâneo com tradução oral ou escrita (legendas). Numa das emissões desse programa, ocorreu um debate em BSL (British Sign Language) sobre a existência de intérpretes em todos os programas da BBC. Alguns dos participantes defendiam a sua existência. Outros afirmavam que era mais importante a existência de legendas porque, uma vez que existem vários tipos de língua gestual (BSL, ASL - American Sign Language, SEE - Signing Exact English, etc...), a escrita surge como uma forma de comunicação entendida por todos. No fim, todos concordaram que as legendas eram úteis, mas apenas quando não fosse possível ler nos lábios do orador. Ou seja, os próprios surdos atribuem uma enorme importância à comunicação oral.
Como conclusão aqui fica a hiperligação para o manifesto dos surdos oralizados brasileiros.
A título de curiosidade, refiro ainda uma outra emissão do See Hear, na qual se salientava a importância da língua gestual, associada à linguagem corporal, como forma de tradução da música. Eu já sabia que os surdos, tal como os ouvintes, eram capazes de sentir o som no corpo. Isso acontece para níveis sonoros muito elevados a frequências muito baixas (200 Hz: pernas; 12,5 a 16 Hz: peito; 10 Hz: peito e abdómen; 8 Hz: ouvido, peito e nádegas). Mas nunca supus que os surdos fossem capazes de traduzir melodias de uma forma tão clara. Foi uma surpresa quando vi aquele Deaf Idol (era mesmo assim que se chamava o concurso) com excelentes interpretações dos ABBA e de Michael Jackson, entre outros.

ANS

137 - O TESTE


Já vi resultados do teste do Ludwig Von Mises Institute publicados em diversos blogs. Este teste permite-nos averiguar qual é a teoria económica com que mais nos identificamos. O teste consiste em vinte cinco perguntas, para cada uma das quais existem quatro respostas possíveis. Essas respostas correspondem a quatro teorias fundamentais: a Escola de Viena, a Escola de Chicago (ou Neoclássica), a Escola Neo-Keynesiana (que é diferente da Escola Keynesiana de Cambridge) e, finalmente, o sistema Socialista.
Fiquei curioso e também fiz o teste. Sem surpresa, o resultado colocou-me alinhado com a Escola de Chicago. De facto, obtive 53 pontos (em 100 possíveis) distribuídos por 5 respostas tí­picas da Escola de Viena, 13 respostas tí­picas da Escola de Chicago e 7 respostas tí­picas da Escola Neo-Keynesiana. Ficaria muito surpreendido (e assustado) se alguma das respostas fosse considerada tipicamente socialista. Também me surpreenderia se os resultados do teste me colocassem alinhado com o total laissez-faire da Escola Austríaca.

ANS

13 novembro 2003

136 - CANÇÕES DE 1973 (XVII)


Em 1973, quatro anos antes da sua morte, Elvis Presley lançou o single Separate Ways, no qual se incluíam as canções Separate Ways e Always On My Mind. Existe uma versão anterior desta última canção, a qual foi gravada em 1972 por Brenda Lee. No entanto, a versão que aqui se apresenta é a de Elvis Presley:


ALWAYS ON MY MIND

Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Little things I should have said and done
I just never took the time

You were always on my mind
You were always on my mind

Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times
And I guess I never told you
I'm so happy that you're mine
If I make you feel second best
Girl, I'm so sorry I was blind

You were always on my mind
You were always on my mind

Tell me, tell me that your sweet love hasn't died
Give me, give me one more chance
To keep you satisfied, satisfied

Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You are always on my mind
You are always on my mind

Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times

By Wayne Thompson, Mark James, Johnny Christopher



ANS

12 novembro 2003

135 - SÃO MARTINHO


Há alguns meses atrás (no Verão), Carlos Cruz presenteou os portugueses com estas afirmações: «Gosto de saber que este ano há Verão de São Martinho em Novembro. Alguém irá à prova da água-pé fazer novos amigos.»
Não estou em Portugal e, por isso, só posso confirmar o estado do tempo através das informações do Instituto de Meteorologia. Segundo essas informações, parece-me que afinal este ano não houve Verão de São Martinho. No entanto, o tempo também não está mau, pelo que é provável que a tal prova da água-pé se tenha realizado (ontem nalguma festa de São Martinho). Como ontem e hoje não surgiram notícias sobre o processo da Casa Pia que pudessem ser associadas às afirmações de Carlos Cruz, talvez estas não se referissem a esse processo. Ou será que Carlos Cruz se estava a referir aos arguidos do processo Casa Pia que estiveram em prisão preventiva durante todo o Verão e que foram entretanto libertados a tempo de gozarem o Verão de São Martinho? Talvez esteja na altura de Carlos Cruz revelar quem é esse "alguém" que terá feito "novos amigos" através dessa "prova da água-pé".
Estava à espera que Ana Gomes agisse relativamente a este assunto da mesma forma que o fez relativamente ao artigo da Le Point, vindo exigir publicamente uma investigação profunda das misteriosas afirmações de Carlos Cruz. Como não o fez, parece que Ana Gomes aprendeu a lição que recebeu dos seus "camaradas" de partido. Ainda bem. Agora só falta que "alguém" venha dar uma lição sobre o combate ao populismo a todo o Partido Socialista (começando por Ana Gomes e terminando no secretário-geral do partido). De facto, as recentes declarações do PS relativamente ao envio de um contingente de tropas da GNR para o Iraque são um exemplo da forma populista como este partido encara o seu escasso trabalho de oposição.

ANS

134 - UMA AGRADÁVEL ATITUDE NARCISISTA


Sei que se trata de uma evidência de narcisismo, mas gosto muito de ler opiniões que são coincidentes com as minhas. Foi o que aconteceu hoje quando li a entrevista a Paulo Teixeira Pinto (PTP) revelada pela TSF. As opiniões de PTP vêm reforçar as minhas próprias opiniões sobre a proposta de Tratado de Constituição para a Europa, as quais podem ser lidas no post 121 do Carimbo.
Também gostei de ler o editorial do Diário de Notícias de hoje, o qual reforça o que escrevi no post 132 do Carimbo relativamente à necessidade de informar a população quanto ao conteúdo do Tratado de Constituição Europeia em discussão na Conferência Intergovernamental. Aproveito para lembrar e saudar o esforço que o Diário de Notícias já fez nesse sentido através da publicação de pequenas fichas informativas. Foi um esforço, mas é preciso mais.
Lembro que também gosto muito de ler opiniões (bem fundamentadas) que são contrárias às minhas. É pena que, no que se refere ao Tratado proposto pela Convenção Europeia, essas opiniões não apareçam. Assim não é possível debater nada...

ANS

11 novembro 2003

133 - CANÇÕES DE 1973 (XVI)


Um dos cantores com mais sucesso no ano de 1973 foi Elton John. A causa desse sucesso foram as canções Crocodile Rock e Daniel. Estas canções surgiram com o álbum Don't Shoot Me, I'm Only The Piano Player, o qual, embora tenha sido lançado em 1973, foi gravado um ano antes. Outro álbum lançado em 1973 (cujas canções foram gravadas nesse mesmo ano) foi o Goodbye Wellow Brick Road, do qual se destacam as canções Goodbye Yellow Brick Road e Candle In The Wind. Esta última canção viria a conhecer duas novas versões, sendo a última um tributo à Princesa Diana lançado, em 1997, num single que foi o mais vendido de todos os tempos.


CANDLE IN THE WIND

Goodbye Norma Jean
Though I never knew you at all
You had the grace to hold yourself
While those around you crawled
They crawled out of the woodwork
And they whispered into your brain
They set you on the treadmill
And they made you change your name

And it seems to me you lived your life
Like a candle in the wind
Never knowing who to cling to
When the rain set in
And I would have liked to have known you
But I was just a kid
Your candle burned out long before
Your legend ever did

Loneliness was tough
The toughest role you ever played
Hollywood created a superstar
And pain was the price you paid
Even when you died
Oh the press still hounded you
All the papers had to say
Was that Marilyn was found in the nude

Goodbye Norma Jean
From the young man in the 22nd row
Who sees you as something as more than sexual
More than just our Marilyn Monroe

Lyrics by Bernie Taupin



ANS

10 novembro 2003

132 - SERÁ QUE O REFERENDO É MESMO ÚTIL?


No dia 6 de Outubro, escrevi (no post 112 do Carimbo), que era (e continua a ser) urgente informar a população portuguesa sobre o conteúdo da proposta do Tratado de Constituição para a Europa que se encontra actualmente em discussão na Conferência Intergovernamental (CIG). Só com base numa campanha de informação será possível promover um debate sério sobre este tema. Só assim os portugueses poderão afirmar, com legitimidade, que desejam referendar esta questão. Só assim se evitam os paradoxos como os divulgados hoje pelo Público, onde é revelado que, embora 54 % da população portuguesa desconheça totalmente o que está em discussão na CIG, 90 % dos portugueses consideram ser útil realizar o tal referendo. Se a amostra que foi utilizada para esta sondagem for mesmo representativa da população nacional, então os resultados de um eventual referendo não terão qualquer significado. Nesse caso, será preferível não avançar para o referendo.
É por esta razão, associada ao receio que o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Socialista (PS) revelam face a uma eventual vitória do “não”, que muitos acreditam que não haverá qualquer referendo. Porém, já todos os partidos com assento na Assembleia da República manifestaram o seu apoio (nem sempre sincero) à realização do referendo. Agora que se sabe que uma enorme maioria da população deseja o referendo, não vejo como conseguirão o PSD e o PS evitar a sua realização. A revisão da Constituição da República Portuguesa não é fundamental para a realização do referendo, desde que este incida apenas sobre questões concretas do eventual Tratado Constitucional. A questão da data do referendo também é de fácil resolução. Se excluirmos as semanas de campanha para as eleições para o Parlamento Europeu e o dia das eleições, ainda sobram muitos dias possíveis para fazer o referendo. Por estes motivos, os eventuais atrasos na revisão constitucional não servirão como desculpa para não realizar o referendo. Aliás, como escreveu Vital Moreira, na eventualidade de uma vitória do “sim”, será necessária outra revisão constitucional para permitir a ratificação do Tratado Constitucional (que deverá instituir a primazia interna do direito europeu).
Vital Moreira tem defendido a realização do referendo após a conclusão da CIG. O Presidente da República, embora nunca se tenha referido ao referendo, parece concordar com Vital Moreira e vai afirmando que só faz sentido discutir o Tratado que resultar da CIG.
Se, por um lado, concordo com Jorge Sampaio, por outro lado, parece-me que o Tratado proposto pela Convenção Europeia não será muito alterado na CIG, pelo que não seria desperdiçado o tempo gasto a debater o assunto enquanto esta decorre. Porque não começar já a informar a população para que esta esteja em condições de discutir o tema quando a CIG terminar?
Já se perdeu muito tempo. As campanhas de informação e o debate sobre as matérias do Tratado Constitucional já deveriam ter começado há muito tempo (os trabalhos da Convenção Europeia terminaram em Julho deste ano). Se isso tivesse sido feito, teria sido possível referendar questões concretas do Projecto de Tratado Constitucional agora em discussão na CIG. Os resultados desse referendo dariam a Portugal mais poder de negociação na CIG. Jorge Miranda acredita que isto ainda poderia ser conseguido se o referendo fosse feito já. Duvido. Não houve nem informação nem o subsequente debate, pelo que os resultados do referendo seriam de difícil interpretação (ainda que se tratassem apenas de questões concretas sobre a proposta de Tratado Constitucional).
Eu gostaria que houvesse referendo, mas como penso que acontece com Esther Mucznik, gostaria ainda mais de saber que os portugueses entendem como funciona a sua cidadania europeia (com ou sem Tratado de Constituição).

ANS

131 - PONTUALIDADE


Na passada quarta-feira, eu avisei que estava de volta à blogosfera. Entretanto, passaram mais quatro dias sem qualquer post novo no Carimbo. Isto significa que o post de quarta-feira deve ser encarado da mesma forma que aqueles telefonemas de pessoas que, quando estão atrasadas para um compromisso, telefonam a avisar que já estão mesmo a chegar e se esquecem de dizer que vão levar mais trinta minutos.
Infelizmente, eu sou uma dessas pessoas. Por mais que tente corrigir este defeito, os meus dias continuam a ser uma acumulação de atrasos. Quando vim viver para Inglaterra, já estava avisado da famosa pontualidade britânica. Pensei que seria obrigado a alterar os meus hábitos, mas estava enganado. Como já comentei em posts anteriores, os ingleses são tão pontuais como os portugueses. Mas como não há regra sem excepção, aqui vos deixo um episódio interessante. Há cerca de um ano atrás, um colega prometeu-me uma boleia para uma conferência em Manchester. Combinámos um ponto de encontro em Liverpool, onde deveríamos aparecer às sete horas da manhã. No dia combinado, quando cheguei ao ponto de encontro, tive a “agradável” surpresa de ver o carro do meu colega a afastar-se do local. Olhei para o relógio e este marcava sete horas e quarenta e cinco segundos. Será que os promotores da petição para a pontualidade teriam a coragem de agir assim?

ANS