21 novembro 2003
140 – POSSO ASSOBIAR?
Não pude ver os últimos jogos de preparação da selecção nacional de futebol. Na verdade, mesmo que tivesse tido a possibilidade de ver esses jogos, não o teria feito porque, para mim, os únicos jogos de carácter amigável (ou particular) que interessam são aqueles que eu disputo com os meus amigos (e dos quais resulta invariavelmente pelo menos um jogador lesionado). No entanto, agora que a fase final do Euro2004 se aproxima, tenho mais interesse em ler os comentários que a imprensa não desportiva faz aos jogos da selecção. Tenho a curiosidade de saber se a selecção está preparada para a fase final. É mais do que uma simples curiosidade, é uma expectativa. É a mesma expectativa que devem ter as pessoas que foram ao Estádio Municipal de Aveiro para ver o jogo contra a selecção da Grécia. É uma expectativa frágil porque a memória da desilusão do Mundial de 2002 ainda está muito fresca. É uma expectativa tão frágil que assim que se notam algumas dificuldades no futebol praticado pela selecção nacional, imediatamente começam os protestos e os assobios. Deve ter sido isto que aconteceu em Aveiro.
Parece que alguns jogadores ainda não compreenderam isto e, por esse motivo, queixaram-se das injustiças cometidas pelos adeptos portugueses no jogo de sábado. Foi o que fizeram o Pauleta, o Figo e o Rui Costa. De acordo com a TSF, o Figo acha que «se as pessoas vão ao estádio é para apoiar a sua equipa» e que se não for assim, então mais vale disputar a fase final do Euro2004 noutro país. O Figo revelou ainda que os assobios do público talvez sejam apenas uma libertação do stress acumulado durante a semana de trabalho. Esta hipótese também foi defendida pelo seleccionador nacional Luiz Felipe Scolari, o qual particularizou o actual contexto económico e social como factores que agravam o stress. Hoje em dia, o futebol profissional é um sector importante da indústria do espectáculo, a qual vende à população formas de libertação do stress acumulado. Os profissionais da área do futebol entenderam bem esta situação. Mas se é assim, então os frequentadores dos estádios deveriam ser encarados como meros espectadores que pagam para assistir a um espectáculo e que têm uma legítima expectativa de qualidade. Se essa expectativa for satisfeita, o público responderá aplaudindo. Se, pelo contrário, a expectativa do público for defraudada, então este terá toda a legitimidade para protestar. Isto é completamente diferente de ir ao estádio apoiar uma equipa. Se o futebol é apenas um espectáculo, os espectadores não têm de ser necessariamente apoiantes de uma das equipas em campo. Por outro lado, o Figo tem razão quando afirma que as pessoas vão ao estádio para apoiar a sua equipa. O problema é que isso significa que afinal o futebol não pode ser encarado como um espectáculo com a inerente função social de entretenimento e alívio do stress. Quando eu vivia em Portugal, costumava ver todos os jogos do Sport Lisboa e Benfica no antigo Estádio da Luz. Muitas vezes o jogo do Benfica era tão mau que o melhor espectáculo acontecia nas bancadas com as reacções dos adeptos antes, durante e após o jogo. Estas reacções reflectiam um aumento nítido dos índices de stress dos espectadores. Pois é. Há muitos portugueses adeptos de futebol que andam preocupados com os efeitos da crise económica nas suas vidas, mas mesmo assim ainda conseguem poupar o suficiente para acompanharem as suas equipas nos estádios. Outros ainda conseguem poupar para assistir também aos jogos da selecção. Como bons adeptos, quando a selecção não joga bem ou não ganha, regressam a casa "stressados" e ainda têm de ouvir o Figo dizer-lhes que as dúvidas que eles têm sobre a capacidade do Estado de recuperar os cerca de trezentos milhões de euros (sessenta milhões de contos) que gastou em estádios novos (incluindo acessos directos e estacionamentos) para o Euro2004 são irrelevantes e que os jogadores portugueses, habituados a jogar no estrangeiro, talvez até preferissem disputar o Euro2004 longe do assobio crítico dos portugueses. Tal como fizeram na Coreia do Sul...
O Figo mostrou-se ainda muito preocupado com a estabilidade dos mais jovens jogadores da selecção, pelo que pediu que o assobiem a ele e não à selecção. O Figo já joga há alguns anos em Espanha e, por isso, já se deve ter esquecido das características dos adeptos portugueses. Infelizmente (ou talvez não), os adeptos portugueses nunca culpam os jogadores individualmente e raramente culpam a equipa. Os culpados das más exibições são sempre o treinador, o árbitro ou a relva. Há outros países onde os adeptos são mais exigentes e são capazes de passar anos a assobiar um jogador por um erro cometido num jogo da selecção. Estou a lembrar-me, por exemplo, de dois jogadores da selecção inglesa que foram alvo de discriminação por parte dos adeptos. Um deles foi Gareth Southgate por ter falhado um pontapé de grande penalidade, o que deu a vitória à selecção alemã (por 6-5) no desempate da meia-final do Euro96 (em Inglaterra). O outro jogador a sofrer a ira dos adeptos ingleses foi David Beckham por ter sido expulso num jogo dos oitavos-de-final do Mundial de 1998 (em França), no qual a selecção inglesa acabaria por ser derrotada pela sua congénere argentina. Também poderia escrever sobre Chris Waddle, Stuart Pearce e David Batty, mas creio que os dois exemplos referidos são suficientes para ilustrar o grau de exigência dos adeptos ingleses. Será que os adeptos portugueses deveriam ser assim?
O Rui Costa atribui os assobios à frustração do público português com os resultados dos seus clubes, mas esquece-se que este incidente aconteceu na cidade de Aveiro e que o clube mais importante desta cidade é o Beira-Mar, o qual está a fazer uma excelente carreira na presente edição da Super Liga. O Rui Costa também parece esquecer que a eventual frustração dos adeptos portugueses está muito diluída agora que mais de metade dos clubes que competem na Super Liga têm estádios novos. A não ser que a frustração esteja relacionada com o elevado preço dos bilhetes para os jogos nos novos estádios e com a constatação de que os jogos acontecem com os estádios meio cheios e com milhares de adeptos à porta depois de terem desperdiçado horas numa fila interminável para tentar comprar um simples bilhete. O Rui Costa ainda se lamentou pelo facto de o país entender as vitórias da selecção como conquistas nacionais, alheando-se das dificuldades dos jogadores quando as coisas não estão bem («somos a selecção nacional quando tudo corre bem e aqueles gajos quando as coisas não estão bem»). Penso que o Rui Costa está equivocado. Infelizmente, os portugueses adeptos de futebol não se alheiam das suas equipas nem da selecção nacional e é por isso que continuam a ir ver os jogos, a assobiar e a regressar a casa mais "stressados" do que estavam antes dos jogos.
O Pauleta foi mais sensato e, depois de tentar refrear a expectativa dos portugueses com uma boa dose de realismo («não somos os melhores [...], há quatro ou cinco selecções melhores do que nós [...]»), afirmou que não admite que as pessoas comecem a assobiar logo aos cinco minutos de jogo. Eu também acho que o público poderia ter esperado um pouco mais para fundamentar a sua crítica, até porque não nos devemos esquecer que a selecção grega terminou em primeiro lugar no seu grupo de apuramento para a fase final do Euro 2004, obrigando a selecção espanhola (que, tradicionalmente, cumpre as fases de apuramento sem dificuldades) a disputar os “play-offs” com a selecção da Noruega.
Depois dos assobios de sábado, veio de jogo de quarta-feira contra o Kuwait com uma vitória folgada da selecção portuguesa por 8-0. Desta vez ficaram todos contentes. Os adeptos aplaudiram em vez de assobiar e os jogadores portugueses mostraram que sabem fazer do futebol um verdadeiro espectáculo. Só têm de lhes arranjar os adversários certos. Espero que as selecções da França, da Suécia, da República Checa, da Itália, da Espanha, da Inglaterra, da Alemanha, da Holanda, da Croácia, da Rússia, da Dinamarca, da Bulgária, da Suíça, da Grécia e da Letónia se enquadrem no que os nossos jogadores e o universo de adeptos entendem por adversário apropriado.
ANS
16 novembro 2003
139 - CANÇÕES DE 1973 (XVIII)
Foi em 1973 que a banda Derek & The Dominos, da qual fazia parte Eric Clapton, lançou o álbum Derek & The Dominos Live At The Fillmore. Uma das canções deste álbum era Got To Get Better In A Little While, da autoria de Eric Clapton.
GOT TO GET BETTER IN A LITTLE WHILE
Don't you know what's wrong with me?
I'm seeing things I don't want to see.
Sniffing things that ain't no good for me.
I'm going down fast, won't you say a prayer for me?
It's got to get better in a little while.
It's got to get better in a little while.
It's got to get better in a little while.
It's got to get better in a little while.
The sun's got to shine on my guitar someday.
Revolution all across the land.
Just like Sly, you got to take a stand.
Please don't hurt nobody, don't knock them down;
Give them a helping hand to get off the ground.
[Chorus]
Bridge
Still one thing that you can do;
Fall down on your knees and pray.
I know the Lord's gonna answer you.
Don't do it tomorrow, do it today.
[Chorus]
By Eric Clapton
ANS
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