27 novembro 2003
141 – TERROR A ESMO
Desde o princípio do mês que queria voltar a escrever sobre o terrorismo. Tudo começou com a divulgação dos resultados de um inquérito efectuado em meados de Outubro para o Eurobarómetro. Nesta sondagem, com o título "O Iraque e a paz no mundo", foram inquiridos 7515 cidadãos de países da União Europeia. De acordo com o Público de 9 de Novembro, os inquiridos foram confrontados com uma lista de países, dos quais deveriam seleccionar aqueles que pensavam constituir uma "ameaça à paz no mundo". Israel, seleccionado por 59 % dos inquiridos, foi o país mais escolhido, seguindo-se o Irão, a Coreia do Norte e os EUA, os quais foram escolhidos por 53 % dos inquiridos. Apenas cerca de 30 % dos inquiridos escolheram a China e a Rússia.
Estes resultados já foram comentados por António Ribeiro Ferreira, num artigo publicado a 6 de Novembro no Diário de Notícias, e por Miguel Sousa Tavares (MST), num artigo publicado no dia seguinte no Público. MST assumiu que se identifica totalmente com os resultados do inquérito e que, portanto, concorda com a maioria dos europeus que encaram o terrorismo e os conflitos no Médio Oriente como uma consequência directa da ocupação israelita dos territórios palestinianos. MST foi mais longe e afirmou que já há vinte anos que pensa assim. Pois é. MST é mais um daqueles que já sabe a causa e a solução de todos os males desde há vinte anos. MST pede ainda desculpa por pensar que «se houver terceira guerra mundial, ela surgirá por causa de Israel e da sua continuada cegueira e tentação de resolver o problema palestiniano, não através de um qualquer acordo de paz, mas através [...] da "solução final" - do extermínio político, cívico e, se necessário, humano dos palestinianos». Pois é. Há vinte anos atrás, MST já pensava assim. Parece que MST se apercebeu do "perigo israelita" durante as invasões do Líbano, em 1978 (para garantir a segurança fronteiriça) e entre 1982 e 1985 (para eliminar as infraestruturas da ainda assumidamente terrorista OLP). Nessa altura, MST tinha trinta e poucos anos. Se MST fosse aí um vinte anos mais velho, talvez pudesse afirmar que já pensava assim desde 1948, quando a Liga Árabe iniciou a Guerra da Independência; ou desde 1951, quando o Egipto recusou o acesso israelita ao Canal do Suez e quando os palestinianos começaram a lançar ataques a partir da Faixa de Gaza e da Cisjordânia (o que levou à ocupação israelita destes territórios em 1956); ou desde 1965, quando a OLP/Fatah iniciou as suas actividades de guerrilha/terrorismo com o apoio do Egipto, da Síria e da Jordânia (o que conduziu, em 1967, à Guerra dos 6 Dias, da qual resultou a ocupação israelita da Península de Sinai, do que restava da Faixa de Gaza, dos Montes Golan, do leste de Jerusalém e do que restava da Cisjordânia); ou desde 1970, quando a OLP tentou assumir o poder na Jordânia; ou desde 1972, quando o Grupo Setembro Negro assassinou barbaramente 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique; ou desde 6 de Outubro de 1973 (feriado do Yom Kippur), quando a Síria e o Egipto organizaram um ataque simultâneo nos Montes Golan e na Faixa de Gaza, respectivamente; ou desde 1976, quando terroristas palestinianos sequestraram um Airbus da Air France com 98 judeus a bordo; ou desde 1981, quando o presidente egípcio Anwar Sadat foi assassinado depois de, menos de três anos antes, ter assinado os acordos de Camp David. Esta “pequena” lista de eventos ilustra bem o “perigo israelita”! De facto, MST tem razão. Se o Mundo quiser evitar a "terceira guerra mundial", apenas terá de impedir que Israel responda aos ataques militares ou terroristas que os palestinianos e alguns países árabes vizinhos têm vindo a perpetrar desde há mais de cinco décadas. Esta é, aliás, a atitude que MST esperaria de qualquer outro país do mundo. Aqueles que, como MST, advogam para Israel (e só para Israel) uma política santa como a de Jesus Cristo (“Amai os vossos inimigos. Se alguém vos bater, oferecei a outra face.”), estão na verdade a negar a legitimidade do Estado de Israel, a qual, recorde-se, foi reconhecida pelos próprios palestinianos, pela voz de Yasser Arafat, em 1988 (há menos de vinte anos). Porque será que MST e os que pensam como ele não advogam os mesmos princípios cristãos (que não seriam aplicados por nenhum Estado cristão) para os árabes e palestinianos que, segundo esses cristãos exemplares, têm toda a legitimidade em responder com ataques terroristas à opressão israelita?
MST acha que os acordos de paz só não resultam porque «Israel seguiu sempre a táctica leninista de um passo atrás, dois à frente. Primeiro, dá dois passos à frente, depois aceita recuar um. Com isso, leva os incautos, informados pela imprensa pró-israelita americana, a acreditar que Israel também está disposto a fazer concessões para a paz». Tem piada que MST se tenha referido apenas à imprensa pró-israelita americana. Será que não existe imprensa pró-israelita europeia? Pois é. Embora MST não concorde com a forma como António Ribeiro Ferreira cataloga a imprensa europeia, ele aceita (por omissão) que a maioria das notícias e comentários divulgados pela comunicação social europeia têm, de facto, um cariz "pacifista, anti-americano e anti-semita". Parece que MST se encontra entre os que ostentam aquilo a que o Público de ontem se referia como um visível anti-semitismo de esquerda que se mistura com o anti-americanismo como fundamento para uma teoria da conspiração (é uma verdadeira “kabbala”), segundo a qual os judeus constituem uma superpotência económica que controla os EUA e as suas políticas de domínio mundial.
MST acha que a política israelita das últimas quatro décadas se tem baseado em alargar as áreas ocupadas e em aumentar o número de colonatos instalados em território palestiniano, com um consequente aumento do número e da gravidade dos atentados cometidos contra os direitos humanos dos palestinianos. Para MST, esta é a razão do terrorismo, porque, «quando levados ao desespero e ao limite da humilhação», é natural que os adolescentes ou as jovens mulheres palestinianas se envolvam num cordão de granadas e se façam explodir num autocarro ou num café de Jerusalém. Para MST, isto é tudo lógico e natural. O que não é lógico nem natural é que Israel responda aos inocentes ataques terroristas. Não, para MST as respostas militares israelitas são uma violação dos acordos de Oslo e de qualquer esperança de paz. Para MST, os únicos terroristas são os israelitas e a prova é o assassinato de Yitzhak Rabin por um judeu ultra-ortodoxo, o qual foi imediatamente associado por MST à extrema-direita que agora está no poder em Israel.
Em primeiro lugar, acho que MST está enganado quando afirma que os judeus ultra-ortodoxos estão no poder em Israel. Ou muito me engano ou o Governo israelita é composto por uma coligação entre o Likud (partido conservador com 38 lugares no Knesset e que defende a existência do Estado da Palestina separado de Israel por um muro), o Shinui (partido secular centrista com 15 lugares no Knesset e que também defende o Estado da Palestina desde que os palestinianos recusem voltar a Israel), a União Nacional (coligação de três partidos de direita que recusam retirar dos territórios ocupados e que, no seu conjunto, ocupam 7 lugares no Knesset) e o Partido Nacional Religioso (partido religioso com 6 lugares no Knesset e que também recusa retirar dos territórios ocupados). Não me parece que este Governo seja extremista (80% dos seus membros defendem o Estado da Palestina). E não é, com certeza, mais extremista do que o anterior Governo de Unidade Nacional, onde apenas cerca de 60% dos seus membros defendiam o Estado palestiniano. Esse Governo era formado pelo Partido Trabalhista (partido que tinha 24 lugares no Knesset e que defende a retirada imediata dos territórios ocupados e a construção de um muro ao longo da “Linha Verde”, ou seja, das fronteiras existentes em 1967), pelo Likud (que tinha 19 lugares), pelo Shas (partido religioso ultra-ortodoxo que tinha 17 lugares no Knesset e que defende o aumento do número de colonatos), pela União Nacional (que tinha 7 lugares), pelo Yisrael Ba’alyia (partido associado aos imigrantes russos do centro-direita que tinha 4 lugares no Knesset e que defende, antes de mais, uma democratização da Palestina supervisionada por Israel e pelos EUA), pelo Am Ehad (partido de esquerda que tinha 2 lugares no Knesset e que, pasme-se, se opõe ao Estado Palestinano). Aliás, ao contrário do que aconteceu durante o anterior Governo de Unidade Nacional, onde não existiam partidos árabes no Knesset, na actual composição do Knesset têm assento três partidos árabes, os quais ocupam, no seu conjunto, 8 lugares. Será que isto seria possível num Estado árabe com uma minoria judaica? Claro que sim. Tenho a certeza que MST consegue identificar facilmente uma série de exemplos de tratamento democrático das minorias nos Estados árabes do Médio Oriente...
Em segundo lugar, MST parece esquecer-se que todas as ideologias e religiões têm seguidores fundamentalistas. Um desses fundamentalistas foi o assassino de Yitzhak Rabin e deve ser considerado apenas como um assassino e não como um terrorista. Ou será que o assassino do Rei D. Carlos I de Portugal era um terrorista? Ou será que o assassino de J. F. Kennedy era um terrorista? Ou será que os assassinos de Olof Palme e de Anna Lindh eram terroristas? Tanto o assassínio de políticos como o terrorismo contra alvos civis inocentes são crimes horrendos, mas são diferentes e não devem ser confundidos. De qualquer forma, MST é obrigado (pelos factos) a concordar que o principal culpado pelo insucesso dos acordos de Oslo foi Yasser Arafat «por não ter imposto esse acordo às várias fracções palestinianas». Mas claro que, para MST, isso foi apenas um desvio temporário e desculpável de Yasser Arafat nos seus inegáveis esforços pela paz. A Autoridade Palestiniana continua a não fazer nada para impedir a Intifada ou os ataques de grupos terroristas sediados em países árabes vizinhos, mas MST prefere condenar os «assassinatos selectivos, com a destruição das casas dos suspeitos de colaborarem com o Hamas ou a Jihad Islâmica». MST culpa Sharon e Shimon Peres (a quem apelida de «verdadeiro traidor dos ideais de Yitzhak Rabin») pela escalada de violência, pelo «isolamento e ocupação prolongada de povoações palestinianas» e pela «construção do muro» que, segundo ele, «substituiu a ideia inicial de separação física das duas comunidades por razões de segurança por uma oportunidade, mais uma, de redesenhar as fronteiras do Estado de Israel à custa de território palestiniano, desviando-se quando necessário do seu traçado original para englobar, dentro do território israelita, toda a miríade de colonatos constituídos à revelia dos acordos de Oslo e das resoluções da ONU». Talvez MST devesse culpar também os Estados árabes vizinhos que patrocinam o terrorismo com o objectivo de criar instabilidade na região. Essa instabilidade é, para esses países, o melhor disfarce para as suas ditaduras, para o seu fundamentalismo religioso e para o seu desrespeito pelos direitos humanos. Essa instabilidade (que esses Estados, tal como MST, associam ao "perigo israelita") é a melhor desculpa para se investir em mais armamento e para se continuar a roubar fundos estatais que seguem directamente para as fortunas pessoais dos governantes. É claro que esse armamento pode sempre ser usado como forma de pressão sobre outros países do Médio Oriente que produzem petróleo, os quais, por sua vez, têm de se armar para se defenderem. Com tudo isto, quem perde são as populações árabes. Tal como escrevi no post 21 do Carimbo, os únicos que têm uma visão global para o Médio Oriente são os israelitas e Shimon Peres é um dos que mais tem lutado por esse objectivo. Tal como ele descreve no seu livro O Novo Médio Oriente (1993), ele luta por uma efectiva cooperação entre Estados e povos, a qual deverá trazer desenvolvimento económico e humano. É muito importante para as populações do Médio Oriente que se invista numa utilização inteligente dos recursos do petróleo daquela região, garantindo (como sugere Shimon Peres) por exemplo uma equitativa distribuição de água e, portanto, de riqueza. MST acha que Shimon Peres não tem razão quando afirma que "o terror está condenado porque não traz quaisquer sinais de futuro, alimenta-se do ódio do passado". Para MST, é precisamente ao contrário: «o terror a que os palestinianos lançam mão alimenta-se do ódio do presente, causado pelo terror israelita, e subsiste exactamente porque não há, para os palestinianos, qualquer sinal de esperança no futuro». Então e o terror dos árabes dos países vizinhos? Também é provocado pelo “terror israelita”? O que é que leva um saudita, um iraquiano, um sírio, um libanês, um turco ou um iraniano a cometer um atentado suicida do qual pode até resultar a morte de compatriotas? Será pelo que sofreram às mãos dos israelitas? Mais uma vez, MST não tem sucesso na sua tentativa de desculpabilização do terrorismo. Esta é a via errada para resolver o problema pois só o agrava. Se os israelitas cedessem ao terrorismo, estariam a ceder a uma chantagem muito violenta e criariam um precedente para futuros ressurgimentos do terrorismo sempre que se verificasse um desentendimento político entre Israel e os vizinhos árabes (incluindo a Palestina).
Infelizmente, MST acha que devemos todos ceder às chantagens, por mais violentas e desumanas que estas sejam. Por isso é que MST insiste na tal “kabbala” e associa a política externa americana aos interesses israelitas. Para MST, a agenda para a política externa de Bush consistia em «apoiar Israel em qualquer circunstância e demitir-se de forçar qualquer acordo de paz no Médio Oriente; invadir o Iraque, ocupá-lo e exercer um direito de controlo sobre as suas reservas de petróleo, como salvaguarda perante uma eventual instabilidade declarada na Arábia Saudita; e levar até ao extremo necessário o confronto do Ocidente com o mundo árabe e muçulmano, sob pretexto de combate ao terrorismo, mesmo correndo o risco de o agravar». Volto a fazer a pergunta que já fiz no post 21 do Carimbo: será que se a Operação Tempestade no Deserto (1ª Guerra do Golfo, em 1991) tivesse sido continuada por uma segunda operação militar do género daquela a que estamos agora a assistir no Iraque, teria sido possível evitar o alastramento do fundamentalismo islâmico? Será que teria sido possível aplicar as ideias de Shimon Peres? Não nos esqueçamos que, nessa altura, a França e a Alemanha não teriam tido a possibilidade de inviabilizar uma decisão americana de ocupação do Iraque. Será que não dar sequência à Operação Tempestade no Deserto não foi uma oportunidade perdida por uma cedência de Bush (pai) à chantagem do terrorismo?
MST e Vital Moreira, entre outros, adoptam a solução mais fácil (e que, normalmente, não é solução) e defendem a cedência à chantagem do terrorismo, condenando a política americana e culpando-a pelos novos ataques terroristas. Para eles, os EUA foram os primeiros culpados do 11 de Setembro de 2001. Para eles, os EUA não têm feito o suficiente para pressionar Israel a ceder na questão do traçado do muro de segurança. Para eles, a tentativa de derrube da ditadura de Saddam Hussein, seguida de uma rápida transição para um governo iraquiano apoiado militarmente pelos EUA, é um mero pormenor. O que interessa é insistir em afirmar que os americanos estão a ocupar ilegalmente o Iraque (o que dá sempre a ideia de que a ocupação é definitiva) e que ainda não encontraram armas de destruição maciça. Esquecem-se que se a França e a Alemanha não tivessem criado tantos problemas aos americanos e não tivessem feito o jogo de Saddam Hussein e de Tarek Aziz, talvez os americanos pudessem ter entrado mais cedo no Iraque e talvez pudessem ter encontrado alguma coisa. Eu não desejo outra guerra no Médio Oriente, mas continuo a achar que o que está agora a acontecer relativamente ao programa nuclear iraniano é, de certa forma, parecido com o que aconteceu com o Iraque. Talvez o desfecho seja semelhante e talvez os líderes iranianos o saibam. Talvez por isso continuem a ser os principais patrocinadores do terrorismo na tentativa de chantagear (pelo medo) os europeus anti-americanos.
Como escreveu José Manuel Fernandes, seria melhor que se fizessem grandes manifestações contra o terrorismo. Seria melhor que se apoiasse o combate americano ao já incontrolável terrorismo antes que este se transforme num ainda mais incontrolável “terror a esmo”.
ANS
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