04 fevereiro 2004

154 – DIVULGAÇÃO (II)


Bárbara Rebelo é uma jovem pintora cujo percurso venho acompanhando desde sempre. Depois de sete exposições realizadas, das quais saliento a sua última exposição individual, que teve lugar na Real Fábrica, em Lisboa, em 2001, Bárbara Rebelo volta agora a expor o seu trabalho depois de um interregno de dois anos motivado pelo nascimento do seu primeiro filho.
Bárbara Rebelo nasceu em Luanda, em 1973, e cresceu no seio de uma família onde a arte esteve sempre presente sob várias formas de expressão, mas fundamentalmente através da pintura do seu avô paterno, consagrado pelos seus retratos das pessoas e das paisagens de Angola. O ambiente familiar de Bárbara Rebelo estimulou o seu quase inevitável gosto pela pintura e foi assim que se iniciou o seu percurso autodidacta. Desde que, em 1991, esta pintora (e também Designer de Interiores) expôs pela primeira vez os seus trabalhos, a evolução artística e a afirmação de um estilo muito próprio têm sido significativas e a pesada herança artística do seu avô (Albano Neves e Sousa), de quem recordo a “Rapariga da Gabela”, ficou definitivamente para trás.




Se tiverem disponibilidade, recomendo uma visita à sala de exposições da Residencial Monte Alentejano, em Montemor-o-Novo, onde, a partir das 16 horas do próximo sábado (7 de Fevereiro), Bárbara Rebelo realizará a sua primeira exposição individual deste ano. Se, por qualquer motivo, não puderem deslocar-se a Montemor-o-Novo, poderão sempre apreciar a pintura de Bárbara Rebelo no dia 17 de Abril, numa exposição colectiva que terá lugar no Clube Nacional de Artes Plásticas, em Telheiras (Lisboa). Lá mais para o fim do ano, Bárbara Rebelo participará noutra exposição colectiva, a qual decorrerá no Auto Clube Médico Português, em Lisboa, no dia 7 de Setembro. Estão ainda agendadas uma exposição individual, no Centro de Arte Contemporânea da Amadora, e uma exposição colectiva, na sede da Ordem dos Médicos, em Lisboa, cujas datas de abertura divulgarei oportunamente.
Entretanto, deixo-vos três exemplos do que poderão ver nestas exposições:


Bandarina (óleo sobre tela)


Força Bruta (óleo sobre tela)


Mestiço (óleo sobre tela)

ANS

153 - DIVULGAÇÃO (I)


Respondendo a um pedido do Paulo Gorjão, divulgo o desafio que ele fez a todos aqueles que lêem blogs para que escrevam pequenos textos (com 50 a 125 palavras) descrevendo o que será a blogosfera portuguesa daqui a um ano.
Na próxima segunda-feira (9 de Fevereiro), todos os textos que forem enviados para o e-mail do Bloguítica (bloguitica@hotmail.com) serão publicados naquele blog.
Como lembra o Paulo Gorjão, no post 326 do Bloguítica, «será certamente interessante ler os textos para a semana que vem e, sobretudo, relê-los em Fevereiro de 2005».
Espero que o Paulo Gorjão não se arrependa desta iniciativa. Nem quero imaginar o que seria se todos os bloggers nacionais aderissem. Vou já escrever o meu texto, mas não sei se conseguirei fazê-lo com menos do que 125 palavras...

ANS

03 fevereiro 2004

152 – MIKLOS FEHÉR


Uma semana depois da morte de Miklos Fehér, já pouco ou nada resta para comentar sobre este triste acontecimento. No entanto, como já aqui assumi a minha veia “benfiquista”, penso que também devo prestar a minha homenagem póstuma a este jogador da equipa de futebol sénior do Sport Lisboa e Benfica (SLB). No entanto, só o faço no blog porque não estou em Portugal. Antes de vir para Liverpool, costumava ir ao antigo estádio da Luz para assistir a todos os jogos do meu clube. Se ainda estivesse em Portugal, hoje iria ao novo estádio da Luz e prestaria a minha homenagem a Fehér entre os adeptos benfiquistas.
Penso que a melhor forma de homenagear Miklos Fehér é com palavras honestas. Por isso, não retratarei o jogador húngaro como um herói, mas apenas como um jovem de apenas 24 anos de idade que já mostrara que nunca viria a ser um jogador de futebol de grande nível, pelo menos em Portugal. De facto, desde que chegou ao nosso país, em 1998, Miklos Fehér representou quatro clubes diferentes (Futebol Clube do Porto, Sport Comércio e Salgueiros, Sporting Clube de Braga e SLB) e estava em vias de ser emprestado pelo SLB novamente ao Sporting de Braga ou a um outro clube (falava-se da União Desportiva de Leiria e do Boavista Futebol Clube). Esta instabilidade é reveladora das dificuldades sentidas pelo futebolista ao longo dos anos que passou em Portugal. Talvez não seja a melhor altura para recordar esta realidade, mas a verdade é que se Miklos Fehér não tivesse morrido daquela forma chocante, daqui a alguns anos, além de alguns aficionados especiais (como é o caso dos editores do blog Caderneta da Bola), mais ninguém em Portugal saberia quem era o portador da camisola 29 na equipa de futebol profissional do SLB na época de 2003/04.
Infelizmente, Fehér não poderá provar que eu estou enganado porque morreu subitamente, no estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, enquanto representava o SLB num jogo da Super Liga frente ao Vitória Sport Clube. Como forma de homenagear o jogador e de garantir a sua memória, a camisola 29 da equipa de futebol do SLB nunca mais será envergada. Parece que o Museu do SLB terá também um espaço reservado ao futebolista. Penso que o clube decidiu bem. Estes dois gestos são os únicos que garantem que Fehér não será recordado apenas como aquele futebolista do Benfica que morreu subitamente durante um jogo. Penso que Fehér gostaria de ser recordado como um jogador da casa, como um funcionário que fez amigos no clube, na equipa e, quem sabe, entre alguns adeptos. Fehér gostaria de ser recordado como um jovem que jogou futebol no estádio da Luz, como um avançado que marcou golos pelo SLB, como um jogador temperamental que viu cartões amarelos e vermelhos, como alguém que fez vibrar as bancadas do estádio da Luz, umas vezes por irritação, outras por frustração e tristeza e outras ainda por contentamento e alegria. Espero que o espaço Fehér no Museu do Benfica ilustre todas estas situações com imagens apropriadas e que a camisola 29 seja relegada para segundo plano. Dar muito destaque à camisola de Miklos Fehér seria o mesmo que exibir uma relíquia mortuária. Seria desvalorizar o jogador e valorizar o acontecimento trágico que foi a sua morte. Se a morte de Fehér nos ensina alguma coisa, essa coisa é precisamente o valor da vida. E por isso, são os factos da vida de Fehér que têm de ser lembrados.
No dias que se seguiram à morte de Fehér, apercebi-me (mesmo à distância) que a população portuguesa foi bastante abalada pelo acontecimento. No estrangeiro também se falou do assunto, mas a morte à distância e em diferido parece que já não choca tanto. Eu estou no estrangeiro, mas sou português e benfiquista e, ainda por cima, sabia quem era Miklos Fehér. Por isso, as imagens da sua morte chocaram-me bastante. Pensei que depois dessas imagens, os portugueses começassem a encarar a sua vida e o futebol de uma forma diferente. Estava enganado. Bastou uma semana para que os dirigentes, técnicos e jogadores do Sporting Clube de Portugal e do Futebol Clube do Porto, juntamente com os jogadores, adeptos e dirigentes do Vitória e do Boavista, mostrassem que está tudo na mesma. Bastou uma semana para que todas as homenagens a Fehér entretanto realizadas por dirigentes, jogadores e aficionados do futebol perdessem todo o sentido. Bastou uma semana para que todos aqueles abraços comovidos a Luís Filipe Vieira (que cheguei a confundir com algum familiar muito próximo de Miklos Fehér) revelassem a sua verdadeira essência. Eram apenas lágrimas de crocodilo.
Os portugueses ficaram abalados porque assistiram à morte súbita de um jovem supostamente mais saudável do que a maioria de nós. Os portugueses ficaram chocados porque foram apanhados de surpresa. De facto, ninguém está preparado para a morte. Nem quando ela é anunciada. Aposto que todos pensaram que aquilo poderia (e pode) acontecer a qualquer um de nós ou a alguém de quem gostamos. Penso que talvez tenha sido o esse o pensamento mais assustador associado àquelas imagens. Alguns terão também pensado que ali estava mais uma prova de que a vida é o mais importante. Estes terão ainda pensado que gastam demasiado tempo e energia com questões que se tornam insignificantes quando a morte surge. Por isso, alguns terão decidido gozar mais a vida com aqueles que amam.
Num país com tanto aficionado pelo futebol e com tanto estádio novo, eu esperaria encontrar famílias nos estádios. Desta forma, o ambiente que rodeia os jogos de futebol seria muito mais acolhedor e convidativo. Seria uma verdadeira festa do futebol, com alegria, segurança e boa disposição. Se assim fosse, os adeptos poderiam gozar mais a vida junto daqueles que gostam. Como consequência, os adeptos esqueceriam os seus problemas de uma forma saudável e talvez até conseguissem transmitir um ambiente de maior fair-play para o interior do relvado.
Fui um idiota. Pensei que a morte de Fehér pudesse levar as pessoas a empenharem-se em transformar novamente o futebol numa excelente forma de convívio em torno de um jogo que pode ser muito bonito. Como é óbvio, estava muito enganado. Os adeptos querem continuar preocupados com as mesquinhices da sua vida. Aliás, como as suas preocupações não lhes chegam, interiorizam as preocupações dos riquíssimos profissionais do futebol como se fossem suas. Fazem-no durante toda a semana, absorvendo jornais desportivos diários que giram em torno das mesquinhices do futebol profissional. Depois, no fim-de-semana, em vez de tentarem o convívio familiar que foi relegado para segundo plano durante a semana de trabalho, vão sozinhos para os estádios. Chegam lá tristes, irritados e insatisfeitos. E nem sabem porquê. Pensam que talvez seja apenas porque são portugueses. Este nosso complexo de nacionalidade serve para tudo. Assim que o jogo começa, começam também as críticas, as lamúrias e a vitimização. Ou é o jogador A que, ao falhar a segunda jogada, é acusado de não fazer nada direito e logo de seguida é furiosamente aconselhado a regressar à sua terra, ou é o jogador B que, ao fazer a primeira falta, é acusado de ser um psicopata violento que apenas foi contratado para lesionar os adversários, ou é o árbitro que é tendencioso e que tem uma relação de ódio com o clube C desde que nasceu, ou é o fiscal de linha (agora pomposamente chamado de árbitro auxiliar) que está a precisar de visitar urgentemente um oftalmologista, ou é o treinador que é teimoso e não vê o que o estádio inteiro está a ver, ou é o presidente do clube que é um ladrão que só compra maus jogadores por preços exorbitantes (embolsando pelo menos metade desses valores) ou é o famigerado “sistema” que é controlado pelo clube D que agora até tem não sei quantos lacaios na Liga de Clubes e no Conselho de Arbitragem. Esta lengalenga repete-se durante o jogo inteiro, sendo interrompida uma vez por outra por cânticos de apoio à equipa que marcou um golo há dois minutos, ou melhor por um ou dois cânticos, com menos de dez palavras cada um, porque não há paciência para criar um ambiente de festa à volta do jogo. O objectivo do futebol é provocar sofrimento. No fim do jogo, esse objectivo foi plenamente atingido. Os adeptos abandonam o estádio em pior estado psicológico do que quando lá chegaram. Entretanto, há sempre alguns que beberam mais do que deviam (como diria Fernando Negrão, são jovens que ainda estão longe daquilo que se pode considerar como o “saber beber”) ou que fumaram mais do que deviam (será que Fernando Negrão também acha que se pode aprender a fumar haxixe?) e se envolveram em “confrontos de claques” com a consequente chuva de pedras e cadeiras. Estas situações são tão normais que até existe a expressão “confronto de claques”. Até parece que foi para isso que as claques foram criadas. Talvez a organização do Euro 2004 possa contratar as claques para efectuarem as funções das polícias de choque que se encontrarão em manifestações e greves durante o campeonato europeu de futebol. A insegurança é, de facto, um problema nos estádios de futebol e é mais um factor negativo que piora o estado de espírito dos aficionados. Por causa da insegurança e do mau ambiente, os adeptos não trazem a família aos estádios. Os adeptos mais lúcidos também deixam de ir porque há coisas mais interessantes para fazer como, por exemplo, ir passear para os centros comerciais. Os menos lúcidos, entre os quais me incluo, continuam a ir sozinhos ao estádio, sem saber exactamente o que estão ali a fazer.
Se a morte de Fehér não alterou nada, então perco de vez as minhas esperanças de assistir a jogos de futebol num ambiente saudável. Aliás, receio deixar de gostar de ir ao estádio da Luz. Em casa, mudo de canal quando a televisão me presenteia com reality shows. Talvez tenha de fazer algo semelhante relativamente aos estádios de futebol. Afinal, tudo o que gira à volta do futebol não é mais do que aquela irritante interiorização de todas as componentes públicas da vida de jovens de poucos recursos e sem formação que, de um momento para o outro, se tornam milionários e passam a ser os ídolos de milhares de pessoas. A única explicação que encontro para a necessidade que as pessoas têm de ídolos é a frustração das suas próprias vidas, mas daí até compreender o que leva alguém a insultar ou agredir um árbitro, um dirigente, um jogador ou um simples adepto, vai uma enorme distância. Eu gosto muito do Benfica. Não sei porquê, mas gosto. Talvez seja porque, quando tinha quatro anos de idade, conseguia ver o estádio da Luz a partir do meu prédio. Gosto quando a equipa de futebol ganha. Tenho saudades de ver o SLB sagrar-se campeão nacional de futebol. Mas quando isso não acontece, o mundo não acaba. É só um jogo. Se existe alguém que pode perder alguma coisa são os profissionais de futebol, mas esses já ganham tanto (mesmo quando não ganham nada), que tudo o que possam porventura perder não me preocupa minimamente. Nunca conseguirei perceber porque razão existem tantos adeptos que encaram as derrotas ou os resultados menos bons como autênticos desastres para as suas vidas pessoais. Todos devemos gostar de ganhar, todos devemos procurar a vitória em tudo o que fazemos, mas no futebol profissional não somos nós que jogamos (só se for na Bolsa de Valores, mas as hipóteses de escolha são tão poucas e a rentabilidade das acções das Sociedades Anónimas Desportivas é tão miserável que nem coloco essa hipótese). De onde vem então toda aquela raiva? Não sei, não consigo perceber.
Desejava apenas que fôssemos mais civilizados nos estádios, que lêssemos mais do que apenas jornais desportivos, que combatêssemos os maus comportamentos nos estádios, que trouxéssemos as famílias para os estádios e que apreciássemos o futebol como um jogo e não como um negócio. Desejava que deixássemos os problemas financeiros e todos os outros problemas do futebol para os profissionais e que desfrutássemos do jogo em si mesmo. Desejava que discutíssemos as tácticas e que apreciássemos as jogadas e os pormenores técnicos. Em suma, desejava que fizéssemos (todos) do futebol um espectáculo realmente convidativo. Se fizéssemos tudo isso, então estaríamos a homenagear verdadeiramente o futebolista Miklos Fehér.

ANS

02 fevereiro 2004

151 – POLÍTICOS E JORNALISTAS – SERÁ QUE SÃO DIFERENTES?


Nos últimos tempos a comunicação social tem-se queixado bastante de sucessivos ataques à liberdade de imprensa efectuados pela classe política no poder. Isto aconteceu, por exemplo, em Itália, em Portugal e no Reino Unido. Neste último país, a celeuma surgiu após a divulgação do relatório Hutton. Parece que a comunicação social britânica (e não só) considera que este relatório faz uma análise demasiado tendenciosa das situações que conduziram à morte de David Kelly. Segundo a generalidade da comunicação social, o relatório de Lorde Hutton não se limita a ilibar rapidamente o Governo britânico de toda e qualquer responsabilidade naquela morte e no eventual exagero do relatório sobre as armas de destruição em massa iraquianas (o qual justificou a entrada do Reino Unido na guerra contra o Iraque). De facto, são muitos os comentários (escritos e falados) que estranham a forma intensiva como o relatório Hutton analisou a conduta da BBC enquanto estação de televisão (do Estado). São muitos os jornalistas, comentadores e colunistas que se afirmam chocados pelo facto de Lorde Hutton afirmar que a comunicação social não tem o direito de comunicar informações que, embora sendo de elevado interesse público, contenham falsidades e coloquem em causa a integridade de outros, entre os quais Lorde Hutton incluiu explicitamente os políticos. Para Lorde Hutton, sempre que uma investigação jornalística puder colocar em causa a integridade pessoal e a reputação de alguém, deverá ser sujeita a um sistema de verificações exaustivo por parte dos editores de modo a garantir que o texto final seja o mais correcto possível e isento de falsidades. De acordo com o relatório Hutton, não foi esta a conduta de Andrew Gilligan nem dos seus superiores hierárquicos na BBC.
Não percebo qual é o espanto da classe jornalística. Já todos sabíamos que existiam falhas importantes na reportagem de Andrew Gilligan, desde a identificação da sua fonte como um elemento dos serviços secretos britânicos até à forma “imprecisa” como as revelações de David Kelly foram transcritas. Já todos sabíamos que a BBC tinha falhado na protecção da sua fonte. Já todos sabíamos que o relatório Hutton não poderia deixar de criticar a conduta da BBC.
Também não percebo qual é o espanto relativamente às recomendações de Lorde Hutton. É que eu sempre pensei que as investigações jornalísticas que pudessem colocar em causa o bom nome de cidadãos só eram publicadas quando fossem baseadas em provas suficientemente sólidas. Será que afinal não é assim? Alguns políticos portugueses, desde Manuel Alegre ao Presidente da República, passando pelo Presidente da Assembleia da República, parecem achar que não e, talvez por esse motivo, sugerem que a comunicação social não aborde casos sob investigação judicial. Lorde Hutton não sugere nada que se pareça com isto, mas mesmo assim a comunicação social britânica considerou o seu relatório como um ataque à liberdade de imprensa. Houve até quem fizesse comparações com a situação de concentração da comunicação social que se verifica em Itália ou com a censura governamental russa. Se, por um lado, penso que a comunicação social está a “apimentar” as declarações de Lorde Hutton, por outro lado não me esqueço que são as investigações jornalísticas que conduzem, na maior parte das vezes, à identificação de situações ilegais associadas a Governos, instituições, empresas ou cidadãos. São as investigações jornalísticas que permitem levantar dúvidas e controlar o desempenho dos diversos elementos que compõem as sociedades democráticas, confrontando-os com os seus deveres legais e morais. As investigações jornalísticas são uma das maiores garantias de sobrevivência dos sistemas democráticos e, por esse motivo, não poderão nunca ser limitadas. Apenas se pode exigir que essas investigações não destruam a reputação de inocentes. Mas os jornalistas também erram. Quando isso acontece, eles devem assumir as suas responsabilidades como qualquer profissional de outras áreas. Se não o fizerem de livre vontade, deverão ser obrigados a fazê-lo pelos tribunais. Penso que já é assim que as coisas acontecem. Ou não é? Se é, porque razão não me lembro de nenhuma campanha nas televisões e na imprensa escrita para limpar o nome de alguém que tenha visto a sua reputação injustamente destruída por esses mesmos órgãos de comunicação social? De facto, a comunicação social é exímia em destruir pessoas com base na mínima suspeita. Tal acontece através de muitas primeiras páginas e páginas interiores de jornais e de muitas horas de televisão e rádio dedicadas à exploração das mais leves suspeitas. Será que esta conduta é correcta? Talvez não, mas a verdade é que talvez permita aprofundar as investigações através da descoberta de mais factos importantes, os quais poderão ser utilizados em eventuais julgamentos em tribunal. E quando os tribunais ilibam os acusados? O que faz a comunicação social nestes casos? Bem, a resposta é simples. As televisões apresentam uma curta notícia logo a seguir ao intervalo dos noticiários e a imprensa escrita limita-se a publicar um desmentido com letras minúsculas numa pequena caixa estrategicamente colocada perto de diversos anúncios. Será que esta é a conduta correcta? Não! Definitivamente, não é. Em vez de se tentar limitar a liberdade de imprensa, penso que se devem tentar criar condições de igualdade para a colocação de dúvidas e suspeições e para a sua eliminação. Sugiro, por exemplo, que a comunicação social seja obrigada a dedicar à reabilitação do bom nome daqueles que tenham sido injustamente acusados exactamente o mesmo espaço que tenha entretanto dedicado à sua acusação. Acredito que a comunicação social teria muito mais respeito por esta medida do que pelas actuais sanções previstas na lei.
O Governo britânico foi ilibado pelo relatório Hutton e não exigiu nada comparado com o que eu sugiro. Consciente de que o relatório Hutton não é um veredicto de tribunal que confira ao Governo britânico qualquer direito a uma indemnização por parte da BBC, Tony Blair limitou-se a exigir um pedido de desculpas formal da BBC. A classe jornalística nunca se deu bem com pedidos de desculpa e uniu-se em torno da ex-direcção da BBC, a qual foi entretanto “humilhada” por Alastair Campbell (para usar as palavras de uma certa comunicação social). Ao mesmo tempo que esta comunicação social criticava a atitude arrogante e vingativa de Alastair Campbell e (por arrasto) do Governo britânico, aproveitava para desfazer a integridade pessoal de Lorde Hutton, bem como a sua independência política. Sinceramente, não sei quem está a ser mais arrogante e vingativo. Não sei se é o Governo britânico ao exigir um pedido formal de desculpas por parte da BBC ou se é a imprensa (escrita e falada) por, arrogantemente, não aceitar recomendações à sua conduta de investigação e por, vingativamente, desprezar agora as qualidades morais e a isenção de Lorde Hutton (características imensamente elogiadas na imprensa quando ele foi escolhido para conduzir este inquérito).
Parece-me que afinal os jornalistas e os políticos são muito semelhantes. As duas classes profissionais afirmam o que mais lhes convém consoante as cirscunstâncias e, de certa forma, alimentam-se uma da outra. Vejamos o que aconteceu no caso do inquérito Hutton. O Governo britânico foi acusado por um jornalista da BBC de apimentar o relatório sobre as armas de destruição em massa iraquianas com o objectivo de garantir a participação na guerra com o Iraque. Na sequência da notícia, a fonte de Andrew Gilligan suicidou-se e foram levantadas dúvidas sobre a responsabilidade do Governo britânico no sucedido. Se, por um lado, tínhamos uma estação de televisão que acusava o Governo britânico de falsificar relatórios e de conduzir um funcionário ao suicídio, por outro lado, tínhamos esse mesmo Governo acusando a estação de televisão do Estado de publicar notícias falsas e de conduzir uma fonte ao suicídio. Como se deveria ter resolvido esta questão? Com uma ou mais acções em tribunal. Foi isso que aconteceu? Não. O Governo britânico (não muito convencido da sua inocência) preferiu instaurar um inquérito ao sucedido. A BBC (não muito convencida da sua inocência) preferiu esperar pelos resultados do inquérito, o que aconteceu na passada quarta-feira. Até essa data, a comunicação social foi elogiando Lorde Hutton ao mesmo tempo que adivinhava as conclusões do relatório. Parece que, como não tinham sido encontradas quaisquer armas de destruição em massa no Iraque, todos esperavam a confirmação da suspeita sobre a culpa do Governo britânico no alegado exagero do relatório sobre essas mesmas armas. Isso não aconteceu e a comunicação social ficou aparentemente furiosa. O Governo britânico aproveitou então para ganhar vantagem numa questão que já vinha sendo explorada pela imprensa desde Junho de 2003. Tratou-se, porém, de uma curta vantagem. A comunicação social em peso veio alegar que o relatório Hutton não foi isento e que a liberdade de imprensa estava a ser colocada em causa. Como resposta, o Governo britânico terá de nomear uma direcção da BBC indiscutivelmente independente e será obrigado a rever favoravelmente o financiamento da estação de televisão. Desta forma, todos ganham. O Governo livrou-se de duas questões polémicas sem ter de enfrentar um tribunal. A BBC também se livrou do tribunal e, ao mesmo tempo, reforça a sua "independência" do Governo e recolhe benefícios ao nível do financiamento. A restante comunicação social garantiu mais de meio ano de material para encher os jornais e noticiários televisivos.
Pode-se tentar constestar esta tese perguntando o aconteceria se o relatório Hutton indicasse que o Governo britânico tinha efectivamente apimentado o relatório sobre as armas de destruição em massa iraquianas? Será que todos ganhariam? Não. O actual Governo britânico não teria sobrevivido e a comunicação social teria sido arrogante e vingativa (desta vez na vitória) e contribuiria para “humilhar” o mais possível Tony Blair. Mas isso nunca poderia acontecer com um relatório patrocinado pelo Governo, pois não?
Pode-se ir um pouco mais longe e supor que, no meio disto tudo, alguém ficava a perder mais do que os outros. Suponhamos que essa pessoa conseguiria levar o caso para os tribunais. O que aconteceria? Parece-me que o relatório Hutton contempla esta hipótese e até sugere qual o veredicto que deveria resultar dos tribunais. Os culpados seriam os serviços secretos britânicos, mais precisamente John Scarlett. De acordo com o relatório Hutton, John Scarlett sentia-se tão pressionado pelo Governo britânico que, “subconscientemente”, exagerou uma informação “já antiga” e “não confirmada” da oposição iraquiana. Lorde Hutton poupou John Scarlett ao afirmar que ele agiu “subconscientemente”, mas mostrou a todos quem será o bode expiatório no caso de este assunto não morrer aqui. Convém lembrar que Lorde Hutton usou esta expressão logo depois de ter afirmado que ninguém poderia saber o que se passava na cabeça de David Kelly e, por esse motivo, o Governo britânico não poderia ter responsabilidades na morte do especialista em armas de destruição em massa. Parece-me evidente que aquela expressão só foi ali colocada por Lorde Hutton porque as outras opções eram bem piores.
Já que refiro bodes expiatórios, aproveito para recordar que os serviços secretos (ou de inteligência) já estão habituados a esse papel. Foi o que aconteceu após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, quando esses serviços foram acusados de não terem dado a devida importância a informações que poderiam ter ajudado a evitar os ataques. Foi o que aconteceu nos EUA com a justificação da Administração (em período de campanha eleitoral) para o facto de ainda não terem sido descobertas armas de destruição em massa no Iraque. Parece que afinal os serviços secretos foram enganados por Saddam Hussein. O ex-ditador já não tinha armas de destruição em massa mas queria que todos acreditassem que ele as tinha. (Continuo sem perceber porque razão continuam a inventar estas histórias – ainda mais rebuscadas do que as minhas – para justificar a intervenção militar no Iraque. Existiram tantos motivos importantes e justos que já abordei noutros posts. Qualquer um deles explicaria porque é que o Mundo é um pouco melhor sem Saddam Hussein.)
Mas o melhor de todos os bodes expiatórios é, sem dúvida, Abdul Qadeer Khan, o “pai” do programa nuclear paquistanês. No Verão de 2002, Colin Powell avisou o General Pervez Musharraf que Abdul Khan estava a exportar a sua tecnologia para a Coreia do Norte. (Será que isto teve alguma influência no apoio paquistanês às recentes intervenções militares americanas no Médio Oriente?) Nos últimos dois meses, surgiram sinais de que Abdul Khan também terá exportado tecnologia nuclear para a Líbia e para o Irão. Numa altura em que o Coronel Khadafi deixou de ser terrorista para passar a ser “amigo” e num período de campanha eleitoral nos EUA, durante o qual não convém criar muita tensão com o regime de Teerão (até porque a situação política interna do Irão já está bastante tensa), nada melhor do que desviar as atenções para Abdul Khan. Não se trata de desviar as atenções para um país, mas sim para um homem. Um único homem passou a ser responsável pelas armas nucleares de todo o “eixo do mal”! É fantástico. Também é curioso que agora o problema já não resida na aquisição e posse de armas nucleares, mas sim na venda e na exportação de tecnologia. O que dizer então dos EUA e de vários Estados europeus? Veja-se o exemplo dado, na semana passada, pelo posicionamento político da França face à China...
Sinceramente, uma comunicação social que se deixa manipular desta forma pelos políticos não se pode queixar de ataques à liberdade de imprensa. Estou cada vez mais convencido que estas duas classes profissionais se alimentam uma da outra.

ANS

01 fevereiro 2004

150 – O MEU PERIGOSO CORTA-UNHAS


Passaram já dois anos e quatro meses desde o fatídico dia 11 de Setembro de 2001. Nesse dia estava em Lisboa e planeava viajar daí a cerca de uma semana. Com todas as medidas extraordinárias de segurança que foram impostas nos aeroportos logo a seguir aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, cheguei a pensar que teria de adiar a minha viagem. Felizmente, tal não foi necessário.
Tive de chegar ao aeroporto mais de duas horas antes do voo. Nesses primeiros dias do pós-11 de Setembro, era necessário apresentar o passaporte e o bilhete para se entrar no aeroporto. Lá dentro, a quantidade de polícias armados com metralhadoras inspirava tudo menos segurança. Depois de um check-in demorado, durante o qual me pediram para abrir as malas para inspecção, lá fui para as filas do controlo de passaportes e de bagagens de mão. Quando chegou a minha vez, não tive quaisquer problemas porque apenas levava um computador portátil, com alguns Compact Discs e canetas. Finalmente, após um período de tempo que teria sido suficiente para efectuar cerca de 300 quilómetros de auto-estrada, entrei no avião. Voltaram a pedir-me o passaporte e o cartão de embarque, não fosse eu ter ali chegado de pára-quedas. Confesso que receei que o funcionamento dos aeroportos nunca mais voltasse à normalidade. Para quem, como eu, viaja bastante, a hipótese de perder mais de duas horas dentro de um aeroporto em cada viagem é aterradora. Felizmente, as coisas melhoraram muito desde essa data.
É um facto que as coisas melhoraram, mas ainda existem resquícios do 11 de Setembro de 2001. Há poucos dias fui a Paris. Pela primeira vez, depois de 75 voos realizados desde a data dos ataques terroristas em Nova Iorque, fui obrigado a abrir a bagagem de mão para retirar o corta-unhas que costumo levar sempre que viajo. Já sabia que, desde os ataques terroristas de 11 de Setembro, os corta-unhas eram considerados objectos perigosos e, como tal, interditos aos passageiros de aviões comerciais. No entanto, sempre pensei que a perigosidade dos corta-unhas advinha da lima com aquela extremidade em forma de gancho que a maioria destes objectos possui. Sempre pensei que o meu corta-unhas, que não possuía esta lima, não era um objecto perigoso. Pensei eu e pensaram os funcionários da segurança dos catorze aeroportos que utilizei desde Setembro de 2001. Afinal estávamos todos enganados. O funcionário da segurança do Aeroporto John Lennon, em Liverpool, é que sabia. Com a arrogância típica dos porteiros de discoteca e demais funcionários de segurança, ele limitou-se a retirar-me o corta-unhas sem sequer tentar explicar porque razão é que aquele objecto era mais perigoso do que um Compact Disc, uma caneta ou uma lapiseira, um atacador de sapato, um cinto, uma fivela de cinto ou de relógio, ou até uma chave, entre muitos outros objectos de uso corrente.
Numa altura em que se estão a cancelar voos devido a uma ameaça “credível” de terrorismo, não quero aumentar a lista dos objectos potencialmente perigosos no interior dos aviões comerciais, mas se nos lembrarmos que os terroristas têm treino militar e que este deverá incluir formação em luta corpo-a-corpo, porque razão é que os objectos que referi não poderão ser utilizados por um terrorista? Eu não percebo nada deste assunto, mas penso que são inúmeros os objectos que os passageiros podem transportar consigo para o interior dos aviões que são potencialmente mais perigosos do que um corta-unhas.
Para evitar comentários, aviso que já comprei outro corta-unhas...

ANS

16 janeiro 2004

149 – QUANTO VALE A LUA? A QUEM PERTENCE A LUA?


Quando ouvi falar pela primeira vez das ambições espaciais da actual Administração norte-americana, não prestei nenhuma atenção porque assumi imediatamente que se tratava de uma daquelas manobras demagógicas que caracterizam os períodos de campanha eleitoral. Pensei que esta Administração quisesse aproveitar o aniversário do acidente do vaivém espacial Columbia (que ainda está muito fresco na memória da população norte-americana) para anunciar a reforma da NASA. Este anúncio deveria surgir no âmbito de um projecto capaz de mobilizar o apoio de uma população traumatizada pelo terrorismo e obcecada pela forma como os outros a vêem. Convém lembrar que depois do acidente do vaivém espacial Challenger, em 1986, a Administração da época decidiu, com o apoio da população, aumentar o orçamento da NASA, o qual estava muito debilitado pela ressaca da vitória norte-americana na “corrida espacial” com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e pela proximidade do final da "Guerra Fria".
A conjuntura política da década de 60, em plena "Guerra Fria", foi decisiva para o sucesso do extremamente ambicioso programa de alunagens Apollo, iniciado por John F. Kennedy como resposta ao primeiro vôo espacial tripulado (conseguido pelos soviéticos em 1961 - Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar no Espaço). Durante a “corrida espacial” nunca faltaram verbas para o programa Apollo (com um custo anual equivalente a 0,8 % do PIB norte-americano daquela época), mas depois de seis alunagens em apenas quatro anos (1969 a 1972) a “corrida” estava definitivamente ganha e tanto o apoio político como os fundos acabaram subitamente. Três missões lunares foram canceladas com os veículos de vôo já construídos. Não fora a alteração da conjuntura política (e os elevadíssimos custos do programa Apollo) e teriam existido condições para materializar rapidamente os projectos (datados da década de 50) que visavam a construção de uma base lunar e a realização de viagens tripuladas a Marte.
Agora, quarenta e cinco anos depois da missão Apollo 11, George W. Bush (GWB) pretende voltar a aumentar o orçamento da NASA, com vista à realização de um programa espacial cujo principal desígnio a médio-prazo são as viagens tripuladas à Lua. Segundo GWB, em 2015, os Estados Unidos da América (EUA) deverão voltar a colocar astronautas na Lua, onde, três anos mais tarde, será construída uma base de apoio para uma viagem tripulada a Marte (a qual só deverá acontecer depois de 2030). A reduzida gravidade lunar (equivalente a um sexto da gravidade terrestre) facilita muito o lançamento de uma missão a Marte e a outras zonas do Sistema Solar.
Talvez por se encontrar em período de campanha eleitoral, GWB minimizou os custos deste programa espacial e propôs um reforço anual do orçamento da NASA de “apenas” mil milhões de dólares (cerca de 158 milhões de contos ao câmbio actual) durante os próximos cinco anos. De facto, numa altura em que o défice norte-americano tem estado na ordem do dia, não convém nada estimar com realismo os custos deste “novo” programa espacial. Ou seja, o orçamento da NASA não deverá exceder os politicamente defensáveis 0,25 % do PIB norte-americano (cerca de 27 mil milhões de dólares). É claro que é difícil acreditar neste orçamento quando, como refere o Público de ontem, só os custos de manutenção anual dos actuais vaivéns espaciais (que continuarão a funcionar por mais cinco anos, pelo menos) atingem cerca de quatro mil milhões de dólares. Já no início dos anos 90, o orçamento da NASA era de 15 mil milhões de dólares (a preços de 1990), sendo a quase totalidade desta verba destinada à manutenção de uma frota de quatro vaivéns espaciais e à construção de uma estação orbital. O artigo do Público refere ainda que a maior parte dos peritos estima que o “novo” programa espacial terá um custo de centenas de milhões de dólares. Por outro lado, convém lembrar que em 1994 já se previa a construção de uma base lunar em 2015 (no âmbito de um programa espacial iniciado em 2002), para a qual se estimava um custo de cerca de 30 mil milhões de dólares (a preços de 1990). Uma vez que a construção da base lunar só está prevista para o período de 2018 a 2020, o custo estimado em 1994 parece poder ser facilmente suportado pelo orçamento agora proposto por GWB. Nem seria necessário esperar 15 anos...
De facto, não percebo porque razão necessita a NASA de mais de uma década para repetir algo que foi realizado há mais de 40 anos atrás com tecnologia muito inferior àquela que actualmente existe. A experiência que foi acumulada com as alunagens do início de década de 70, associada ao desenvolvimento tecnológico dos últimos 45 anos, permitirá com certeza reduzir bastante os custos e a dificuldade de construção e utilização de uma base lunar. Por outro lado, sempre pensei que a NASA não tivesse quaisquer dificuldades em colocar astronautas na Lua. Talvez os actuais vaivéns espaciais pudessem ser facilmente adaptados para esse efeito. Porém, uma coisa é dispor de um veículo capaz de colocar astronautas na Lua e outra coisa, completamente diferente, é dispor de veículos de transporte aptos para a tarefa de construção de uma base lunar. Foi com base neste raciocínio que admiti que o horizonte de 2015 se destinasse ao desenvolvimento destes novos veículos espaciais. Mas GWB afirmou que os planos da NASA incluem também o envio de robots à Lua durante os próximos cinco anos. Qual é o objectivo destas missões não tripuladas? De certeza que não estão relacionadas com os novos vaivéns espaciais. Servirão para escolher o melhor local para a base lunar? Servirão para efectuar os estudos geotécnicos essenciais para o dimensionamento da base lunar? Se assim for, porque razão é que as viagens espaciais não tripuladas são suficientemente boas para recolher a informação necessária à construção de uma base lunar e não o são para recolher informações de outros planetas. O Spirit parece estar a demonstrar precisamente o contrário. E já que me refiro a Marte, porque razão precisa a NASA de esperar até depois 2030 (mais de uma década depois da construção da base lunar) para lançar a expedição a Marte? Será por questões orçamentais? Será que os veículos espaciais também terão de ser alterados? Ou existirão outras razões, como por exemplo a necessidade de desenvolver e rentabilizar a base lunar a médio-prazo?
De acordo com o Público, GWB levantou a ponta do véu mas não disse tudo. O Presidente norte-americano referiu a existência de recursos minerais na Lua tais como depósitos de água sob os pólos lunares, ou outros elementos úteis ao fabrico de combustível de foguetões e outras aplicações tecnológicas valiosas.
Há quem acredite que, no futuro, as actividades espaciais se possam a suportar a si próprias, dispensando o financiamento público. Tal acontecerá se alguma matéria-prima lunar obtiver uma procura tal que possibilite reduzir os custos de extracção e transporte com base numa lógica de economia de escala associada à produção e utilização frequente e contínua de muitos veículos. Uma das matérias-primas lunares que pode criar estas condições é o hélio-3. Este gás (praticamente inexistente na Terra) é não radioactivo e pode ser usado para a produção de energia através de um processo de fusão nuclear com deutério (isótopo de hidrogénio não radioactivo existente no mar). Este processo de fusão nuclear é completamente limpo (não radioactivo) e inesgotável (na Lua existe hélio-3 em quantidade suficiente para manter o consumo energético terrestre durante 7000 anos).
O hélio-3 existe na Lua na forma sólida. Como a gravidade da lua é seis vezes menor do que a da Terra, um tanque (ou balão) que na Terra pesasse, por exemplo, 30 toneladas, pesaria apenas 5 toneladas na Lua e poderia ser movido facilmente até à entrada na atmosfera terrestre com o auxílio de motores solares reutilizáveis como os do satélite SMART-1. Durante a aproximação à Terra, esses tanques (ou balões) ficariam sujeitos ao calor da atmosfera terrestre e o hélio-3 no seu interior passaria ao estado gasoso com uma expansão lenta do gás que permitiria uma descida lenta dos tanques (ou balões) até à superfície terrestre.
Uma vez que as reservas de petróleo têm uma duração bastante limitada, parece-me natural que os EUA procurem novas fontes energéticas. O hélio-3 parece ser uma fonte bastante atractiva. Se, a médio/longo-prazo, a sua extracção e transporte para a Terra tiverem um custo concorrencial com o custo do cada vez mais escasso petróleo, o que pode ser conseguido robotizando uma grande parte do processo, então os EUA terão feito a aposta certa e terão evitado uma série de problemas económicos, políticos e até militares com uma série de países produtores de petróleo. Talvez a actual situação no Médio Oriente tenha motivado esta decisão. Ou não... Tal como escrevi no início do texto, talvez se trate apenas de pura demagogia eleitoralista. Mas suponhamos que a proposta é séria. Será que a pressa americana em colocar homens na Lua está relacionada com problemas de propriedade territorial? Nunca tinha pensado nisto. Quanto vale a Lua? A quem pertence a Lua?

ANS

15 janeiro 2004

148 – NEW YEAR'S RESOLUTIONS


Este é o primeiro post do Carimbo em 2004, por isso, antes que seja demasiado tarde, desejo a todos os eventuais leitores do Carimbo um excelente ano. Também quero aproveitar para agradecer a todos os que enviaram e-mails com votos de boas festas, dos quais destaco o Leonel Vicente, o Luís Tito, o CMC e o Rui Semblano.

O início do ano é a altura ideal para rever as “new year's resolutions” do ano transacto. Pensei que já tinha feito este exercício, mas enquanto lia a história da blogosfera portuguesa no ano de 2003 (excelentemente compilada pelo Leonel Vicente), encontrei (com surpresa) o primeiro post do Carimbo e percebi que afinal havia mais promessas merecedoras de julgamento. De facto, há um ano atrás, eu nem sequer sabia o que era um blog, pelo que considero as promessas feitas no post inaugural do Carimbo como uma adenda às minhas “new year's resolutions” de 2003. Parece-me que, em geral, consegui cumprir as promessas feitas nesse post. Falhei apenas a promessa explícita de postar com regularidade e a promessa implícita de transformar O Carimbo num blog colectivo. Estes desejos desvaneceram-se assim que me habituei às corrompedoras vantagens do poder absoluto. É com esse poder que substituo os dois últimos parágrafos do post inaugural do Carimbo pelo seguinte texto:

O autor deste “blog” continuará a ser o carimbador de serviço e tentará não perder a oportunidade de marcar com a sua modesta opinião qualquer assunto que o justifique. Os seus carimbos continuarão a ser apenas sinais para chamar a atenção sobre algo e não deverão nunca ser considerados como marcas de ferrete, cuja intenção é apenas difamar e denegrir.
“Postarei” pouco, mas “postarei”.


Estas são as “new year's resolutions” do Carimbo para 2004.

ANS