Uma semana depois da
morte de Miklos Fehér, já pouco ou nada resta para comentar sobre este triste acontecimento. No entanto, como já aqui assumi a minha veia “benfiquista”, penso que também devo prestar a minha homenagem póstuma a este jogador da equipa de futebol sénior do Sport Lisboa e Benfica (SLB). No entanto, só o faço no
blog porque não estou em Portugal. Antes de vir para Liverpool, costumava ir ao antigo estádio da Luz para assistir a todos os jogos do meu clube. Se ainda estivesse em Portugal, hoje iria ao novo estádio da Luz e prestaria a minha homenagem a Fehér entre os adeptos benfiquistas.
Penso que a melhor forma de homenagear Miklos Fehér é com palavras honestas. Por isso, não retratarei o jogador húngaro como um herói, mas apenas como um jovem de apenas 24 anos de idade que já mostrara que nunca viria a ser um jogador de futebol de grande nível, pelo menos em Portugal. De facto, desde que chegou ao nosso país, em 1998, Miklos Fehér representou quatro clubes diferentes (Futebol Clube do Porto, Sport Comércio e Salgueiros, Sporting Clube de Braga e SLB) e estava em vias de ser emprestado pelo SLB novamente ao Sporting de Braga ou a um outro clube (falava-se da União Desportiva de Leiria e do Boavista Futebol Clube). Esta instabilidade é reveladora das dificuldades sentidas pelo futebolista ao longo dos anos que passou em Portugal. Talvez não seja a melhor altura para recordar esta realidade, mas a verdade é que se Miklos Fehér não tivesse morrido daquela forma chocante, daqui a alguns anos, além de alguns aficionados especiais (como é o caso dos editores do
blog Caderneta da Bola), mais ninguém em Portugal saberia quem era o portador da camisola 29 na equipa de futebol profissional do SLB na época de 2003/04.
Infelizmente, Fehér não poderá provar que eu estou enganado porque morreu subitamente, no estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, enquanto representava o SLB num jogo da Super Liga frente ao Vitória Sport Clube. Como forma de homenagear o jogador e de garantir a sua memória, a camisola 29 da equipa de futebol do SLB nunca mais será envergada. Parece que o Museu do SLB terá também um espaço reservado ao futebolista. Penso que o clube decidiu bem. Estes dois gestos são os únicos que garantem que Fehér não será recordado apenas como aquele futebolista do Benfica que morreu subitamente durante um jogo. Penso que Fehér gostaria de ser recordado como um jogador da casa, como um funcionário que fez amigos no clube, na equipa e, quem sabe, entre alguns adeptos. Fehér gostaria de ser recordado como um jovem que jogou futebol no estádio da Luz, como um avançado que marcou golos pelo SLB, como um jogador temperamental que viu cartões amarelos e vermelhos, como alguém que fez vibrar as bancadas do estádio da Luz, umas vezes por irritação, outras por frustração e tristeza e outras ainda por contentamento e alegria. Espero que o espaço Fehér no Museu do Benfica ilustre todas estas situações com imagens apropriadas e que a camisola 29 seja relegada para segundo plano. Dar muito destaque à camisola de Miklos Fehér seria o mesmo que exibir uma relíquia mortuária. Seria desvalorizar o jogador e valorizar o acontecimento trágico que foi a sua morte. Se a morte de Fehér nos ensina alguma coisa, essa coisa é precisamente o valor da vida. E por isso, são os factos da vida de Fehér que têm de ser lembrados.
No dias que se seguiram à morte de Fehér, apercebi-me (mesmo à distância) que a população portuguesa foi bastante abalada pelo acontecimento. No estrangeiro também se falou do assunto, mas a morte à distância e em diferido parece que já não choca tanto. Eu estou no estrangeiro, mas sou português e benfiquista e, ainda por cima, sabia quem era Miklos Fehér. Por isso, as imagens da sua morte chocaram-me bastante. Pensei que depois dessas imagens, os portugueses começassem a encarar a sua vida e o futebol de uma forma diferente. Estava enganado. Bastou uma semana para que os dirigentes, técnicos e jogadores do
Sporting Clube de Portugal e do
Futebol Clube do Porto, juntamente com os jogadores, adeptos e dirigentes do
Vitória e do Boavista, mostrassem que está tudo na mesma. Bastou uma semana para que todas as homenagens a Fehér entretanto realizadas por dirigentes, jogadores e aficionados do futebol perdessem todo o sentido. Bastou uma semana para que todos aqueles abraços comovidos a Luís Filipe Vieira (que cheguei a confundir com algum familiar muito próximo de Miklos Fehér) revelassem a sua verdadeira essência. Eram apenas lágrimas de crocodilo.
Os portugueses ficaram abalados porque assistiram à morte súbita de um jovem supostamente mais saudável do que a maioria de nós. Os portugueses ficaram chocados porque foram apanhados de surpresa. De facto, ninguém está preparado para a morte. Nem quando ela é anunciada. Aposto que todos pensaram que aquilo poderia (e pode) acontecer a qualquer um de nós ou a alguém de quem gostamos. Penso que talvez tenha sido o esse o pensamento mais assustador associado àquelas imagens. Alguns terão também pensado que ali estava mais uma prova de que a vida é o mais importante. Estes terão ainda pensado que gastam demasiado tempo e energia com questões que se tornam insignificantes quando a morte surge. Por isso, alguns terão decidido gozar mais a vida com aqueles que amam.
Num país com tanto aficionado pelo futebol e com tanto estádio novo, eu esperaria encontrar famílias nos estádios. Desta forma, o ambiente que rodeia os jogos de futebol seria muito mais acolhedor e convidativo. Seria uma verdadeira festa do futebol, com alegria, segurança e boa disposição. Se assim fosse, os adeptos poderiam gozar mais a vida junto daqueles que gostam. Como consequência, os adeptos esqueceriam os seus problemas de uma forma saudável e talvez até conseguissem transmitir um ambiente de maior
fair-play para o interior do relvado.
Fui um idiota. Pensei que a morte de Fehér pudesse levar as pessoas a empenharem-se em transformar novamente o futebol numa excelente forma de convívio em torno de um jogo que pode ser muito bonito. Como é óbvio, estava muito enganado. Os adeptos querem continuar preocupados com as mesquinhices da sua vida. Aliás, como as suas preocupações não lhes chegam, interiorizam as preocupações dos riquíssimos profissionais do futebol como se fossem suas. Fazem-no durante toda a semana, absorvendo jornais desportivos diários que giram em torno das mesquinhices do futebol profissional. Depois, no fim-de-semana, em vez de tentarem o convívio familiar que foi relegado para segundo plano durante a semana de trabalho, vão sozinhos para os estádios. Chegam lá tristes, irritados e insatisfeitos. E nem sabem porquê. Pensam que talvez seja apenas porque são portugueses. Este nosso complexo de nacionalidade serve para tudo. Assim que o jogo começa, começam também as críticas, as lamúrias e a vitimização. Ou é o jogador A que, ao falhar a segunda jogada, é acusado de não fazer nada direito e logo de seguida é furiosamente aconselhado a regressar à sua terra, ou é o jogador B que, ao fazer a primeira falta, é acusado de ser um psicopata violento que apenas foi contratado para lesionar os adversários, ou é o árbitro que é tendencioso e que tem uma relação de ódio com o clube C desde que nasceu, ou é o fiscal de linha (agora pomposamente chamado de árbitro auxiliar) que está a precisar de visitar urgentemente um oftalmologista, ou é o treinador que é teimoso e não vê o que o estádio inteiro está a ver, ou é o presidente do clube que é um ladrão que só compra maus jogadores por preços exorbitantes (embolsando pelo menos metade desses valores) ou é o famigerado “sistema” que é controlado pelo clube D que agora até tem não sei quantos lacaios na Liga de Clubes e no Conselho de Arbitragem. Esta lengalenga repete-se durante o jogo inteiro, sendo interrompida uma vez por outra por cânticos de apoio à equipa que marcou um golo há dois minutos, ou melhor por um ou dois cânticos, com menos de dez palavras cada um, porque não há paciência para criar um ambiente de festa à volta do jogo. O objectivo do futebol é provocar sofrimento. No fim do jogo, esse objectivo foi plenamente atingido. Os adeptos abandonam o estádio em pior estado psicológico do que quando lá chegaram. Entretanto, há sempre alguns que beberam mais do que deviam (como diria
Fernando Negrão, são jovens que ainda estão longe daquilo que se pode considerar como o “saber beber”) ou que fumaram mais do que deviam (será que Fernando Negrão também acha que se pode aprender a fumar haxixe?) e se envolveram em “confrontos de claques” com a consequente chuva de pedras e cadeiras. Estas situações são tão normais que até existe a expressão “confronto de claques”. Até parece que foi para isso que as claques foram criadas. Talvez a organização do Euro 2004 possa contratar as claques para efectuarem as funções das polícias de choque que se encontrarão em
manifestações e greves durante o campeonato europeu de futebol. A insegurança é, de facto, um problema nos estádios de futebol e é mais um factor negativo que piora o estado de espírito dos aficionados. Por causa da insegurança e do mau ambiente, os adeptos não trazem a família aos estádios. Os adeptos mais lúcidos também deixam de ir porque há coisas mais interessantes para fazer como, por exemplo, ir passear para os centros comerciais. Os menos lúcidos, entre os quais me incluo, continuam a ir sozinhos ao estádio, sem saber exactamente o que estão ali a fazer.
Se a morte de Fehér não alterou nada, então perco de vez as minhas esperanças de assistir a jogos de futebol num ambiente saudável. Aliás, receio deixar de gostar de ir ao estádio da Luz. Em casa, mudo de canal quando a televisão me presenteia com
reality shows. Talvez tenha de fazer algo semelhante relativamente aos estádios de futebol. Afinal, tudo o que gira à volta do futebol não é mais do que aquela irritante interiorização de todas as componentes públicas da vida de jovens de poucos recursos e sem formação que, de um momento para o outro, se tornam milionários e passam a ser os ídolos de milhares de pessoas. A única explicação que encontro para a necessidade que as pessoas têm de ídolos é a frustração das suas próprias vidas, mas daí até compreender o que leva alguém a insultar ou agredir um árbitro, um dirigente, um jogador ou um simples adepto, vai uma enorme distância. Eu gosto muito do Benfica. Não sei porquê, mas gosto. Talvez seja porque, quando tinha quatro anos de idade, conseguia ver o estádio da Luz a partir do meu prédio. Gosto quando a equipa de futebol ganha. Tenho saudades de ver o SLB sagrar-se campeão nacional de futebol. Mas quando isso não acontece, o mundo não acaba. É só um jogo. Se existe alguém que pode perder alguma coisa são os profissionais de futebol, mas esses já ganham tanto (mesmo quando não ganham nada), que tudo o que possam porventura perder não me preocupa minimamente. Nunca conseguirei perceber porque razão existem tantos adeptos que encaram as derrotas ou os resultados menos bons como autênticos desastres para as suas vidas pessoais. Todos devemos gostar de ganhar, todos devemos procurar a vitória em tudo o que fazemos, mas no futebol profissional não somos nós que jogamos (só se for na Bolsa de Valores, mas as hipóteses de escolha são tão poucas e a rentabilidade das acções das Sociedades Anónimas Desportivas é tão miserável que nem coloco essa hipótese). De onde vem então toda aquela raiva? Não sei, não consigo perceber.
Desejava apenas que fôssemos mais civilizados nos estádios, que lêssemos mais do que apenas jornais desportivos, que combatêssemos os maus comportamentos nos estádios, que trouxéssemos as famílias para os estádios e que apreciássemos o futebol como um jogo e não como um negócio. Desejava que deixássemos os problemas financeiros e todos os outros problemas do futebol para os profissionais e que desfrutássemos do jogo em si mesmo. Desejava que discutíssemos as tácticas e que apreciássemos as jogadas e os pormenores técnicos. Em suma, desejava que fizéssemos (todos) do futebol um espectáculo realmente convidativo. Se fizéssemos tudo isso, então estaríamos a homenagear verdadeiramente o futebolista Miklos Fehér.
ANS