16 janeiro 2004

149 – QUANTO VALE A LUA? A QUEM PERTENCE A LUA?


Quando ouvi falar pela primeira vez das ambições espaciais da actual Administração norte-americana, não prestei nenhuma atenção porque assumi imediatamente que se tratava de uma daquelas manobras demagógicas que caracterizam os períodos de campanha eleitoral. Pensei que esta Administração quisesse aproveitar o aniversário do acidente do vaivém espacial Columbia (que ainda está muito fresco na memória da população norte-americana) para anunciar a reforma da NASA. Este anúncio deveria surgir no âmbito de um projecto capaz de mobilizar o apoio de uma população traumatizada pelo terrorismo e obcecada pela forma como os outros a vêem. Convém lembrar que depois do acidente do vaivém espacial Challenger, em 1986, a Administração da época decidiu, com o apoio da população, aumentar o orçamento da NASA, o qual estava muito debilitado pela ressaca da vitória norte-americana na “corrida espacial” com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e pela proximidade do final da "Guerra Fria".
A conjuntura política da década de 60, em plena "Guerra Fria", foi decisiva para o sucesso do extremamente ambicioso programa de alunagens Apollo, iniciado por John F. Kennedy como resposta ao primeiro vôo espacial tripulado (conseguido pelos soviéticos em 1961 - Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar no Espaço). Durante a “corrida espacial” nunca faltaram verbas para o programa Apollo (com um custo anual equivalente a 0,8 % do PIB norte-americano daquela época), mas depois de seis alunagens em apenas quatro anos (1969 a 1972) a “corrida” estava definitivamente ganha e tanto o apoio político como os fundos acabaram subitamente. Três missões lunares foram canceladas com os veículos de vôo já construídos. Não fora a alteração da conjuntura política (e os elevadíssimos custos do programa Apollo) e teriam existido condições para materializar rapidamente os projectos (datados da década de 50) que visavam a construção de uma base lunar e a realização de viagens tripuladas a Marte.
Agora, quarenta e cinco anos depois da missão Apollo 11, George W. Bush (GWB) pretende voltar a aumentar o orçamento da NASA, com vista à realização de um programa espacial cujo principal desígnio a médio-prazo são as viagens tripuladas à Lua. Segundo GWB, em 2015, os Estados Unidos da América (EUA) deverão voltar a colocar astronautas na Lua, onde, três anos mais tarde, será construída uma base de apoio para uma viagem tripulada a Marte (a qual só deverá acontecer depois de 2030). A reduzida gravidade lunar (equivalente a um sexto da gravidade terrestre) facilita muito o lançamento de uma missão a Marte e a outras zonas do Sistema Solar.
Talvez por se encontrar em período de campanha eleitoral, GWB minimizou os custos deste programa espacial e propôs um reforço anual do orçamento da NASA de “apenas” mil milhões de dólares (cerca de 158 milhões de contos ao câmbio actual) durante os próximos cinco anos. De facto, numa altura em que o défice norte-americano tem estado na ordem do dia, não convém nada estimar com realismo os custos deste “novo” programa espacial. Ou seja, o orçamento da NASA não deverá exceder os politicamente defensáveis 0,25 % do PIB norte-americano (cerca de 27 mil milhões de dólares). É claro que é difícil acreditar neste orçamento quando, como refere o Público de ontem, só os custos de manutenção anual dos actuais vaivéns espaciais (que continuarão a funcionar por mais cinco anos, pelo menos) atingem cerca de quatro mil milhões de dólares. Já no início dos anos 90, o orçamento da NASA era de 15 mil milhões de dólares (a preços de 1990), sendo a quase totalidade desta verba destinada à manutenção de uma frota de quatro vaivéns espaciais e à construção de uma estação orbital. O artigo do Público refere ainda que a maior parte dos peritos estima que o “novo” programa espacial terá um custo de centenas de milhões de dólares. Por outro lado, convém lembrar que em 1994 já se previa a construção de uma base lunar em 2015 (no âmbito de um programa espacial iniciado em 2002), para a qual se estimava um custo de cerca de 30 mil milhões de dólares (a preços de 1990). Uma vez que a construção da base lunar só está prevista para o período de 2018 a 2020, o custo estimado em 1994 parece poder ser facilmente suportado pelo orçamento agora proposto por GWB. Nem seria necessário esperar 15 anos...
De facto, não percebo porque razão necessita a NASA de mais de uma década para repetir algo que foi realizado há mais de 40 anos atrás com tecnologia muito inferior àquela que actualmente existe. A experiência que foi acumulada com as alunagens do início de década de 70, associada ao desenvolvimento tecnológico dos últimos 45 anos, permitirá com certeza reduzir bastante os custos e a dificuldade de construção e utilização de uma base lunar. Por outro lado, sempre pensei que a NASA não tivesse quaisquer dificuldades em colocar astronautas na Lua. Talvez os actuais vaivéns espaciais pudessem ser facilmente adaptados para esse efeito. Porém, uma coisa é dispor de um veículo capaz de colocar astronautas na Lua e outra coisa, completamente diferente, é dispor de veículos de transporte aptos para a tarefa de construção de uma base lunar. Foi com base neste raciocínio que admiti que o horizonte de 2015 se destinasse ao desenvolvimento destes novos veículos espaciais. Mas GWB afirmou que os planos da NASA incluem também o envio de robots à Lua durante os próximos cinco anos. Qual é o objectivo destas missões não tripuladas? De certeza que não estão relacionadas com os novos vaivéns espaciais. Servirão para escolher o melhor local para a base lunar? Servirão para efectuar os estudos geotécnicos essenciais para o dimensionamento da base lunar? Se assim for, porque razão é que as viagens espaciais não tripuladas são suficientemente boas para recolher a informação necessária à construção de uma base lunar e não o são para recolher informações de outros planetas. O Spirit parece estar a demonstrar precisamente o contrário. E já que me refiro a Marte, porque razão precisa a NASA de esperar até depois 2030 (mais de uma década depois da construção da base lunar) para lançar a expedição a Marte? Será por questões orçamentais? Será que os veículos espaciais também terão de ser alterados? Ou existirão outras razões, como por exemplo a necessidade de desenvolver e rentabilizar a base lunar a médio-prazo?
De acordo com o Público, GWB levantou a ponta do véu mas não disse tudo. O Presidente norte-americano referiu a existência de recursos minerais na Lua tais como depósitos de água sob os pólos lunares, ou outros elementos úteis ao fabrico de combustível de foguetões e outras aplicações tecnológicas valiosas.
Há quem acredite que, no futuro, as actividades espaciais se possam a suportar a si próprias, dispensando o financiamento público. Tal acontecerá se alguma matéria-prima lunar obtiver uma procura tal que possibilite reduzir os custos de extracção e transporte com base numa lógica de economia de escala associada à produção e utilização frequente e contínua de muitos veículos. Uma das matérias-primas lunares que pode criar estas condições é o hélio-3. Este gás (praticamente inexistente na Terra) é não radioactivo e pode ser usado para a produção de energia através de um processo de fusão nuclear com deutério (isótopo de hidrogénio não radioactivo existente no mar). Este processo de fusão nuclear é completamente limpo (não radioactivo) e inesgotável (na Lua existe hélio-3 em quantidade suficiente para manter o consumo energético terrestre durante 7000 anos).
O hélio-3 existe na Lua na forma sólida. Como a gravidade da lua é seis vezes menor do que a da Terra, um tanque (ou balão) que na Terra pesasse, por exemplo, 30 toneladas, pesaria apenas 5 toneladas na Lua e poderia ser movido facilmente até à entrada na atmosfera terrestre com o auxílio de motores solares reutilizáveis como os do satélite SMART-1. Durante a aproximação à Terra, esses tanques (ou balões) ficariam sujeitos ao calor da atmosfera terrestre e o hélio-3 no seu interior passaria ao estado gasoso com uma expansão lenta do gás que permitiria uma descida lenta dos tanques (ou balões) até à superfície terrestre.
Uma vez que as reservas de petróleo têm uma duração bastante limitada, parece-me natural que os EUA procurem novas fontes energéticas. O hélio-3 parece ser uma fonte bastante atractiva. Se, a médio/longo-prazo, a sua extracção e transporte para a Terra tiverem um custo concorrencial com o custo do cada vez mais escasso petróleo, o que pode ser conseguido robotizando uma grande parte do processo, então os EUA terão feito a aposta certa e terão evitado uma série de problemas económicos, políticos e até militares com uma série de países produtores de petróleo. Talvez a actual situação no Médio Oriente tenha motivado esta decisão. Ou não... Tal como escrevi no início do texto, talvez se trate apenas de pura demagogia eleitoralista. Mas suponhamos que a proposta é séria. Será que a pressa americana em colocar homens na Lua está relacionada com problemas de propriedade territorial? Nunca tinha pensado nisto. Quanto vale a Lua? A quem pertence a Lua?

ANS

15 janeiro 2004

148 – NEW YEAR'S RESOLUTIONS


Este é o primeiro post do Carimbo em 2004, por isso, antes que seja demasiado tarde, desejo a todos os eventuais leitores do Carimbo um excelente ano. Também quero aproveitar para agradecer a todos os que enviaram e-mails com votos de boas festas, dos quais destaco o Leonel Vicente, o Luís Tito, o CMC e o Rui Semblano.

O início do ano é a altura ideal para rever as “new year's resolutions” do ano transacto. Pensei que já tinha feito este exercício, mas enquanto lia a história da blogosfera portuguesa no ano de 2003 (excelentemente compilada pelo Leonel Vicente), encontrei (com surpresa) o primeiro post do Carimbo e percebi que afinal havia mais promessas merecedoras de julgamento. De facto, há um ano atrás, eu nem sequer sabia o que era um blog, pelo que considero as promessas feitas no post inaugural do Carimbo como uma adenda às minhas “new year's resolutions” de 2003. Parece-me que, em geral, consegui cumprir as promessas feitas nesse post. Falhei apenas a promessa explícita de postar com regularidade e a promessa implícita de transformar O Carimbo num blog colectivo. Estes desejos desvaneceram-se assim que me habituei às corrompedoras vantagens do poder absoluto. É com esse poder que substituo os dois últimos parágrafos do post inaugural do Carimbo pelo seguinte texto:

O autor deste “blog” continuará a ser o carimbador de serviço e tentará não perder a oportunidade de marcar com a sua modesta opinião qualquer assunto que o justifique. Os seus carimbos continuarão a ser apenas sinais para chamar a atenção sobre algo e não deverão nunca ser considerados como marcas de ferrete, cuja intenção é apenas difamar e denegrir.
“Postarei” pouco, mas “postarei”.


Estas são as “new year's resolutions” do Carimbo para 2004.

ANS