Já lá vai algum (longo) tempo desde que aqui escrevi pela última vez e não pensava voltar a fazê-lo tão cedo. Muito menos pensei que, depois de tanto tempo de inactividade, começasse por escrever sobre futebol. Não o faço por estar particularmente afectado com a onda de histeria do Mundial da Alemanha, mas por ser difícil contornar a agressividade da imprensa e da própria população inglesa face à selecção portuguesa de futebol. Aliás, aproveito, desde já, para felicitar os jogadores da selecção por saberem responder, com orgulho da sua nacionalidade, a uma série de provocações da imprensa internacional, com especial destaque para a imprensa inglesa.
Parece que a selecção está rotulada de agressiva. Os jogadores da selecção têm a fama de fazer "jogo sujo" e de recorrer a todo o tipo de truques para ganhar jogos. Em Inglaterra, essa fama não é, aliás, exclusiva da selecção portuguesa mas também dos clubes portugueses, os quais jamais poderiam eliminar equipas inglesas das competições da UEFA sem recurso aos referidos truques. Assim, o jogo Portugal-Holanda foi ideal para alimentar ainda mais essa fama portuguesa. Como sempre, devemos rebater as injustiças com factos e, de preferência, com números. Já alguns apontaram o facto de a selecção nacional ter cometido apenas 10 faltas em todo o jogo com a Holanda, o que constitui talvez o menor número de faltas cometidas num só jogo por uma selecção neste Mundial da Alemanha. Mas isso não chega. Temos de olhar melhor para os números disponíveis nos relatórios da FIFA.
Os números relativos aos jogos dos oitavos de final são os seguintes:
País: Faltas cometidas; Cartões amarelos; Cartões vermelhos; Posse de bola (%)
Alemanha: 16; 1; 0; 63;
Suécia: 20; 4; 1; 37;
Argentina: 23; 2; 0; 51;
México: 28; 4; 0; 49;
Inglaterra: 13; 3; 0; 49;
Equador: 24; 3; 0; 51;
Portugal: 10; 9; 2; 38;
Holanda: 15; 7; 2; 62;
Itália: 17; 3; 1; 41;
Austrália: 26; 3; 0; 59;
Suíça: 24; 1; 0; 55;
Ucrânia: 20; 0; 0; 45;
Brasil: 18; 2; 0; 48;
Gana: 24; 6; 1; 52;
Espanha: 29; 1; 0; 61;
França: 23; 3; 0; 39.
Para avaliarmos qual a equipa de facto mais faltosa é necessário dividir tempo de posse de bola de cada equipa pelo número de faltas cometida pela equipa adversária, o que permite avaliar o intervalo de tempo médio entre faltas consecutivas da equipa adversária. Um outro indicador importante é o quociente entre o número de cartões amarelos e vermelhos (contabilizam-se apenas os vermelhos directos) e o número total de faltas de cada equipa. Em seguida listam-se estes indicadores para as equipas que disputaram os oitavos de final do Mundial de Futebol.
País: Período entre faltas consecutivas; % de admoestação
Alemanha: 2 min. 05 seg.; 6,3;
Suécia: 2 min. 50 seg.; 20,0;
Argentina: 1 min. 55 seg.; 8,7;
México: 1 min. 38 seg.; 14,3;
Inglaterra: 3 min. 32 seg.; 23,1;
Equador: 1 min. 50 seg.; 12,5;
Portugal: 5 min. 35 seg.; 90,0;
Holanda: 2 min. 17 seg.; 46,7;
Itália: 3 min. 07 seg.; 23,5;
Austrália: 1 min. 25 seg.; 11,5;
Suíça: 1 min. 41 seg.; 4,2;
Ucrânia: 2 min. 29 seg.; 0,0;
Brasil: 2 min. 36 seg.; 11,1;
Gana: 1 min. 48 seg.; 25,0;
Espanha: 1 min. 13 seg.; 3,4;
França: 2 min. 23 seg.; 13,0.
Estes resultados são muito interessantes e permitem várias leituras.
Uma delas permite contestar peremptoriamente as declarações do seleccionador holandês Van Basten. De facto, se existe equipa que não está constantemente a quebrar o jogo adversário com faltas é a nossa.
Por incrível que pareça, estes resultados também indicam que, em geral, quanto mais faltas uma equipa cometer, menor será a probabilidade de ter os seus jogadores admoestados com cartões amarelos ou vermelhos.
Os ingleses tentarão rebater estes dados afirmando que a fama de Portugal não foi construída neste jogo com a Holanda mas nos jogos que tem vindo a disputar ao longo dos últimos anos. Talvez, mas se olharmos para os jogos da fase de grupos deste Mundial, constatamos que a selecção nacional cometeu em média 23 faltas por jogo, o que corresponde, para os tempos de posse de bola das equipas adversárias, a uma falta por cada 1 minuto e 44 segundos, em média. No que respeita a cartões, os jogadores portugueses foram admoestados em 13,2% das faltas que cometeram. Quando comparamos estes valores com a média dos jogos dos oitavos de final, excluindo-se o jogo Portugal-Holanda, concluímos que a selecção nacional é de facto mais faltosa do que a média (2 minutos e 24 segundos entre faltas consecutivas) e que não é prejudicada pelos árbitros relativamente às outras selecções (12,6% de faltas "premiadas" com cartão). Se os resultados de Portugal na fase de grupos confirmam a fama dos jogadores portugueses, então também Espanha, Ucrânia, Alemanha, Austrália, Gana, Equador, México e Argentina têm selecções de extrema agressividade.
Espero que esta informação possa repor a verdade sobre lealdade dos jogadores portugueses.
Finalmente, quanto aos cartões mostrados pelo árbitro do jogo entre Portugal e Holanda, penso que foram todos bem mostrados e que ainda ficaram mais uns quatro ou cinco por mostrar aos jogadores holandeses. Não me parece que o árbitro deva ser criticado pelos responsáveis da FIFA. Talvez fosse melhor que um jogo com 22 intervenientes fosse controlado por mais do que 4 árbitros, tal como acontece noutros desportos com muito menor número de intervenientes. Também não há justificação para a teimosia da FIFA e da UEFA em recusar a utilização de dispositivos de apoio à arbitragem, tais como imagens de vídeo, sensores electrónicos para situações de fora de jogo ou de bolas sobre as linhas, entre outros. Enquanto estas medidas não forem implementadas, o futebol nunca será um jogo justo. Até lá, recomendo aos jogadores portugueses que cometam uma falta a cada dois minutos. Sempre dá para ir libertando a tensão com faltas mais ligeiras e isentas de admoestação. Também devem tentar libertar-se das faltas dos jogadores ingleses durante mais de 5 minutos, pois assim há garantia de que essas faltas serão seguidas do respectivo cartão.
28 junho 2006
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