28 agosto 2003
60 – PUBLICIDADE
Recebi dois e-mails publicitários. Um do Perguntador (um blog na idade dos porquês) e outro do Ruim (um blog demasiado modesto).
ANS
59 - MAIS AGRADECIMENTOS V
Parece um paradoxo, mas é muito mais fácil acompanhar a blogosfera quando não se está de férias. No entanto, esta noite fiz um esforço e cá estou eu a “blogar”.
Foi com enorme satisfação que constatei que O Carimbo também já consta da lista de blogs recomendados pelo Assembleia, Epicurtas, Jaquinzinhos, Musana, Pintainho e Vastulec.
Agradeço também as simpáticas referências ao Carimbo que pude ler nos blogs A Origem do Amor, Assembleia, Epicurtas e Fumaças.
Segundo Miguel Nogueira, O Carimbo “voa” como um “bonito cuco”. Deve ser por isso que não percebo nenhum dos “pius” do Pintainho...
Finalmente, aproveito para agradecer os simpáticos e-mails enviados pelos blogs A Origem do Amor, Assembleia e Causa Liberal.
ANS
21 agosto 2003
58 - A SEGUNDA OPORTUNIDADE
Do muito que já foi escrito (e dito) sobre o atentado de anteontem ao quartel-general da ONU em Bagdad, subscrevo as mensagens de pesar pelo assassínio de vários funcionários da ONU e presto também uma homenagem póstuma (e obrigatória) a Sérgio Vieira de Mello. Faço-o, porém, sem esquecer as pessoas que, quase todos os dias, são alvo de outros atentados terroristas no Médio Oriente ou noutras partes no mundo. Também não me parece que este atentado tenha sido mais violento, estúpido e desumano do que qualquer outro ataque terrorista. No entanto, este atentado reveste-se de algumas características que devem ser debatidas.
Uma das particularidades do ataque ao quartel-general da ONU em Bagdad reside no facto de a explosão do camião-bomba ter sido filmada, o que nos forneceu uma imagem perturbadoramente realista da violência e crueldade deste tipo de ataques. Algo semelhante já tinha acontecido com os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. Estas imagens, apesar de serem sensacionalistas, podem ter a vantagem de humanizar o debate em torno dos ataques terroristas. Actualmente discutem-se as acções terroristas como jogos de futebol. Descreve-se o método utilizado para o assassínio de inocentes tal como se descrevem tácticas de futebol. Faz-se a contagem de mortos e feridos tal como se contam os golos marcados num jogo de futebol. Até as ameaças de ataques terroristas são encaradas com naturalidade, como se fossem simples ameaças de desforra num jogo de futebol. Quando lemos uma notícia sobre um ataque terrorista, facilmente nos esquecemos das pessoas que foram brutalmente assassinadas. Também nos esquecemos da obrigação de capturar esses assassinos e levá-los a julgamento como deverá acontecer com qualquer outro criminoso. Esta obrigação devia ser suficiente para justificar o apoio mundial à intervenção militar no Médio Oriente. Mas parece que não é, ou não foi.
Outra particularidade deste ataque reside no facto de o alvo ter sido a ONU, que é a organização que representa todas as nações do mundo. Por este motivo, este atentado foi violenta e unanimemente criticado e chorado no mundo inteiro. Os atentados de 11 de Setembro de 2001 provocaram o mesmo efeito, embora por razões diferentes (muito mais ligadas à dimensão e brutalidade dos ataques). Recordo que após o “11 de Setembro”, muitos afirmaram que aqueles ataques tinham sido perpetrados contra o mundo ocidental e não apenas contra os EUA. Como consequência, o mundo uniu-se em torno dos EUA na sua luta (justa e necessária) contra o terrorismo e formou-se uma vasta coligação de forças para a intervenção militar no Afeganistão e para as consequentes acções de manutenção de paz e reconstrução do país. Infelizmente, a unanimidade no apoio à guerra contra o terrorismo desapareceu quando foi proposta à ONU uma intervenção militar no Iraque. Será que hoje ainda há quem pense ser possível eliminar o problema do terrorismo sem desenvolver o Médio Oriente em termos económicos e humanos? Será que hoje ainda há quem pense ser possível desenvolver o Médio Oriente mantendo os regimes ditatoriais que lá existem? Será que hoje ainda há quem acredite na possibilidade de ocorrência de levantamentos populares que possam levar à introdução de verdadeiras democracias naquela região do globo?
Houve muita desinformação relativamente às motivações americanas para a intervenção militar no Iraque e, por essa razão, nunca se discutiu convenientemente a necessidade de estabilização do Médio Oriente e de aplicação do Roteiro para a Paz. Penso que os EUA e o Reino Unido cometeram um erro enorme ao utilizarem exclusivamente as armas de destruição maciça iraquianas para justificar a intervenção militar naquele país, embora este fosse um argumento válido e, aparentemente, mais fácil por já existirem resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o problema. Relembro que a desinformação foi muito grande, mas mesmo assim poderia ter sido possível manter a unanimidade no apoio à intervenção militar no Iraque (com a autorização da ONU). Porque não se tentou, simplesmente, condicionar a estabilização do Médio Oriente e a aplicação do Roteiro para a Paz à eliminação dos regimes de Saddam Hussein e de outros? Isto teria sido possível através da utilização de um dos argumentos que mais se ouve dos oposicionistas à intervenção militar no Iraque, o qual se refere à necessidade de combater o terrorismo nas suas fontes (pobreza generalizada, restrições no acesso à informação e à educação, existência de minorias favorecidas pelos regimes autoritários, os quais promovem a propaganda anti-ocidental).
O ataque terrorista de anteontem ao quartel-general da ONU foi dirigido a uma organização que tinha uma missão humanitária fundamental, distribuindo comida e prestando assistência médica, entre outras ajudas. Não se pode compreender este ataque quando os iraquianos aparecem todos os dias a criticar a manifesta incapacidade das forças de manutenção de paz na reconstrução do país e na criação de condições mínimas de sobrevivência das populações. Seguindo o raciocínio daqueles que afirmaram que o “11 de Setembro” foi um ataque dirigido a todo o mundo ocidental, então o ataque de anteontem terá sido dirigido ao mundo inteiro, incluindo os países que condenaram a intervenção militar no Iraque. A quem é que isto serve? Não é, com certeza, à população iraquiana. Isto serve a outros países do Médio Oriente com interesses num Iraque destruído e abandonado. Se isto acontecesse, esses países poderiam promover o regresso de Saddam Hussein ou de um outro ditador, poderiam patrocinar uma guerra civil no território ou poderiam tentar conquistar directamente o território disponível. Isto serve aos interessados num Médio Oriente explosivo, com uma população extremamente pobre e sem educação, para a qual o fundamentalismo religioso é o escape psicológico mais óbvio. A julgar por algumas declarações idiotas e irresponsáveis que já ouvi, mesmo aqui em Portugal, estes grupos organizados (e obviamente patrocinados por governos de outros países do Médio Oriente) estavam certos se pensaram que um ataque à ONU poderia gerar uma onda de manifestações clamando o abandono do Iraque pelas forças de manutenção de paz lideradas pela coligação anglo-americana. No entanto, talvez o tiro lhes tenha saído pela culatra.
Eu tenho uma atitude positiva sobre o sucedido e acredito que, agora que foi recuperado o espírito do pós “11 de Setembro”, estão criadas as condições para reunir um apoio consensual em torno da formação de uma vasta coligação (a nível mundial) de forças de manutenção de paz que deverão actuar no Iraque sob a égide das Nações Unidas. O atentado às instalações da ONU em Bagdad vem devolver importância a esta organização e vem lembrar que o terrorismo é um problema de todos nós, o qual tem de ser combatido por todos. Os EUA e o Reino Unido não desperdiçarão esta oportunidade de responsabilização do resto do mundo.
Sinto orgulho num governo português que, desde o início, percebeu que não podia deixar de apoiar incondicionalmente os EUA e o Reino Unido no combate ao terrorismo. Utilizando uma linguagem que a esquerda nacional domina bem, sinto orgulho num governo português que percebeu que Saddam Hussein e o seu regime formavam um tumor com várias metástases (outros regimes autoritários do Médio Oriente). A cura requeria (e requer) a extirpação através de várias intervenções cirúrgicas (acções militares) seguidas de uma recuperação do corpo do doente (Médio Oriente) com recurso a tratamentos que abrangem várias especialidades (empenhamento político e económico de todos os países do mundo, representados pela ONU).
Se o “11 de Setembro” obrigou a administração americana a empenhar-se num Roteiro para a Paz no Médio Oriente, então o ataque terrorista à ONU irá obrigar o mundo inteiro ao mesmo empenho. O anti-americanismo ganhou adeptos nos últimos tempos à custa de slogans demagógicos que exploravam a sensibilidade das pessoas às questões de carácter humanitário. Chegou a hora de mostrarem que acreditam realmente nesses slogans. E despachem-se porque convém resolver o problema do Médio Oriente antes que África se torne a principal fonte de terrorismo mundial.
ANS
20 agosto 2003
57 - QUE SAUDADES DA GUERRA FRIA
No post “Os EUA, o Japão e a Coreia do Norte” do Bloguítica Internacional, é comentado um artigo de opinião do presidente da Academia de Defesa Nacional japonesa, publicado no Washington Post. De acordo com o Bloguítica Internacional, os EUA acabarão, mais tarde ou mais cedo, por aceitar parte das reivindicações norte-coreanas (assinando um pacto de não-agressão). Esta situação tem dado origem, no Japão, a naturais receios face a uma perda de capacidade defensiva (motivada por uma redução drástica do contingente de tropas norte-americanas na Coreia do Sul e no Japão) relativamente a uma Coreia do Norte que possui armas químicas e bacteriológicas e um programa nuclear (nada fáceis de controlar através de um qualquer regime de inspecções).
Estes receios têm provocado um afastamento do pacifismo que, durante décadas, dominou as opções do Governo japonês relativamente à Defesa. De acordo com The Daily Telegraph, o Japão possui neste momento 240.000 soldados integrados em forças de defesa. A única função destas forças militares é a defesa do território japonês. No entanto, estas forças já foram autorizadas a participar em acções de manutenção de paz no Cambodja (em 1992), a fornecer apoio logístico aos aliados no Afeganistão (em 2001) e a participar (actualmente) na reconstrução do Iraque. A constitucionalidade destas missões é discutível. Ainda durante este ano, terá início um programa de treinos para tropas especializadas no combate urbano, em acções de guerrilha e na resposta ao terrorismo (incluindo ataques com armas químicas). Dentro de três anos, deverá ser formada uma unidade de comandos de elite composta por cinco a seis mil soldados. A Marinha japonesa planeia a construção de dois navios que podem ser rapidamente convertidos em porta-aviões permitindo a utilização da aviação em ataques preventivos fora do seu território.
Embora as memórias da devastação provocada pelos ataques de Hiroshima e Nagasaki ainda estejam bem presentes na opinião pública japonesa, o número de apoiantes de um programa de nuclear japonês (um tema tabu até há bem pouco tempo) tem vindo a aumentar. São já várias as figuras políticas que defendem esta opção, entre as quais se destaca Shingo Nishimura. Em 1999, este político sugeriu a aquisição de armas nucleares e, por esse motivo, foi obrigado a demitir-se da posição de destaque que ocupava no Ministério da Defesa. Actualmente, Shingo Nishimura é regularmente convidado para debater o programa nuclear japonês em programas televisivos.
Parece que o Japão aposta no equilíbrio de forças para lidar com a ameaça norte-coreana, recriando uma espécie de “Guerra Fria” a nível regional. O problema é que, infelizmente, o equilíbrio de forças só será eficaz enquanto a ameaça norte-coreana não incluir o terrorismo. É esta a lição do Médio Oriente.
ANS
56 - NOTÍCIA FICTÍCIA II
Há uns meses atrás, Rudolph Giuliani sugeriu a realização do primeiro Dia Mundial Sem Energia. O “ex-Mayor” de Nova Iorque inspirou-se no actual modelo do Dia Europeu Sem Carros (DESC). Rudolph Giuliani ficou fascinado com a melhoria ambiental que se tem verificado na Europa desde a primeira realização do DESC em Setembro de 2000. De acordo com vários autarcas europeus, o DESC tem contribuído de uma forma espantosa para o cumprimento dos objectivos do Protocolo de Quioto. Rudolph Giuliani confessou estar farto de ouvir comentários negativos sobre a atitude dos EUA face às questões ambientais, pelo que sugeriu uma forma eficaz de cumprir o Protocolo de Quioto.
O actual “Mayor” de Nova Iorque (Michael R. Bloomberg) e outros autarcas dos EUA e Canadá gostaram tanto da ideia de Giuliani que resolveram testar a sua aplicação, sem aviso prévio, na passada quinta-feira. Este teste foi um estrondoso sucesso e, por esse motivo, a data de 14 de Agosto está agora reservada para a realização anual do Dia Mundial Sem Energia. Este evento conta já com a participação de mais de cem países, nos quais serão provocados “blackouts” (ou “apagões”) entre as sete horas da manhã e as dez horas da noite.
Entretanto, em Portugal (um dos primeiros países a aderir à medida) já se ouvem vozes esclarecidas a sugerir a alteração do DESC de 20 de Setembro para 14 de Agosto.
ANS
18 agosto 2003
55 - SEGUROS DE VIDA
Na coluna de opinião que mencionei no post anterior, Mário Soares refere-se também ao clima de caos e insegurança que se vive “no triângulo sunita de Bagdad, Faluja e Baaquba”. Quando li isto, lembrei-me (outra vez!) da edição de sábado (9 de Agosto) do The Daily Telegraph, na qual se podia ler que os chefes tribais da cidade de Faluja (que se situa cerca de 100 quilómetros a oeste de Bagdad) se comprometeram a controlar a população no sentido de terminar com as pilhagens e com os ataques (com mísseis e granadas) às tropas americanas (e aliadas) instaladas na região. Como retribuição do favor, as tropas americanas prometeram a instalação de geradores capazes de fornecer energia a toda a cidade, a redução do número de postos de controlo, a transferência de mais poderes para a polícia local e a redução do número de rusgas, as quais passarão a ser efectuadas com mais respeito pelos suspeitos.
Parece justo e suficiente? Julgo que sim, mas existem mais contrapartidas. Se um iraquiano for ferido “por engano”, deverá receber 500 dólares, mas se o engano for maior e o infeliz morrer, então a sua família deverá receber 2.000 dólares.
Acredito que estas indemnizações possam convencer os iraquianos das boas intenções das tropas americanas e aliadas. A confiança é fundamental para a paz na região. No entanto, a avaliação do custo de uma vida humana sempre me incomodou. Fico sempre deprimido com apólices de seguro que envolvam a possibilidade de morte do titular. Em tempo de guerra não se pode evitar falar em “danos colaterais”, o que implica assumir que a perda de vidas inocentes será o preço a pagar pela obtenção de um futuro melhor para a maioria sobrevivente. Este discurso apresenta uma dureza implacável, mas é a única forma de ultrapassar os conflitos morais pelos quais passam aqueles que têm de iniciar uma guerra que pode ser um caminho para a paz. O problema é que, no Iraque, a guerra já acabou. Ou será que não? O objectivo das tropas americanas (e aliadas) no Iraque é, neste momento, a manutenção da paz possível. Ou será que não? Assim, as contrapartidas financeiras a pagar pela morte inadvertida de um iraquiano só podem ser entendidas como seguros de vida.
O valor seguro (menos de 2.000 euros) pode representar uma elevada maquia no Iraque de hoje, mas, a julgar pelo que aconteceu no Afeganistão (em Cabul já existem bairros onde as casas são mais caras do que no Reino Unido), não faltará muito para que essa indemnização passe a valer pouco. Será que os iraquianos (aqueles que forem inocentes) que vierem a morrer em “tempo de manutenção de paz” serão recordados pelas suas famílias como heróis que morreram para garantir um futuro melhor ao país? Ou serão recordados como alguém que morreu num acidente que, por acaso, estava coberto por um seguro muito mau.
Só espero que isto não venha a ser aproveitado por grupos fundamentalistas para simularem acidentes mortais. É que, mesmo para um terrorista suicida, valem mais os 2.000 dólares de indemnização (aos quais a sua família poderá ter direito) pagos pela administração americana do que a “protecção” divina que Alá concede aos familiares dos “mártires”.
ANS
54 - VIVA A NATUREZA
Na sua coluna de opinião no Expresso, Mário Soares refere, a propósito da atribuição à NATO do comando das forças de segurança no Afeganistão, que este país é o maior produtor mundial de ópio. Com esta afirmação, Mário Soares pretendia ilustrar o “vespeiro” que é o actual Afeganistão. Quando li isto, lembrei-me imediatamente de um artigo sobre Marrocos, o qual foi publicado há oito dias atrás no The Daily Telegraph (DT).
Eu já sabia que Marrocos era um grande produtor de haxixe (70 % do haxixe consumido na Europa vem de Marrocos), mas nunca imaginei que este país fosse o maior exportador mundial desta droga. Foi através do DT que tomei conhecimento deste facto. De acordo com a notícia do DT, a produção de haxixe na região norte de Marrocos representa um negócio de cerca de 1.450 milhões de euros anuais. Este valor corresponde a cerca de 4 % do PIB de Marrocos e a cerca de 25 % da contribuição do sector da agricultura para o PIB do país.
Até ao momento, as autoridades marroquinas têm fechado os olhos à situação. Mas agora que existem indícios de que o terrorismo islâmico no território tem sido financiado através do negócio do haxixe, o laxismo das autoridades poderá acabar. No entanto, a sua tarefa não será nada fácil. Como “limpar” uma área de cerca de 240.000 hectares de cultivo de Cânhamo-da-Índia? Como convencer a população do norte de Marrocos a optar por produtos de agro-pecuária legais, os quais implicam uma perda de rendimento muito acentuada?
A corrupção é também um difícil obstáculo. A notícia do DT dá-nos um exemplo brilhante desta dificuldade: o jornalista Isambard Wilkinson encontrava-se em Tieta Ketama a recolher elementos para o seu artigo quando foi “convidado” pela polícia local a abandonar a localidade. Para os “agentes da autoridade”, é falso que existam máfias da droga na região e os campos de Cânhamo-da-Índia que por ali proliferam não são mais do que manifestações da natureza!
É caso para perguntar se Marrocos não será também um vespeiro (natural)?
ANS
53 - MAIS AGRADECIMENTOS IV
As minhas férias têm-me mantido mais afastado da blogosfera do que eu desejaria e, por esse motivo, vários agradecimentos (devidos pelo Carimbo) têm sido sucessivamente adiados. Este atraso, além de ser extremamente indelicado da minha parte, provocou uma acumulação dos blogs à espera dos merecidos agradecimentos do Carimbo. Peço, desde já, que me desculpem pela demora.
Muitos dos agradecimentos em dívida referem-se a blogs que passaram a incluir O Carimbo na sua lista de recomendações. Entre esses blogs contam-se o Amostra de Arquitectura, o Bloguítica Internacional, o Bloguítica Nacional, o Faccioso, o Follow The White Rabbit, o blog A Origem do Amor e o The Serendipitous Cacophonies. Ao Amostra de Arquitectura agradeço ainda a transcrição que faz de parte do post “Comboios”. Ao Bloguítica Nacional tenho de agradecer a simpática referência que faz ao Carimbo. Também agradeço ao Follow The White Rabbit por aquele que é, sem dúvida, o melhor elogio que já foi feito ao Carimbo. Meu caro Hugo Medeiros, muito obrigado pela comparação que faz, a qual me deixa muito orgulhoso. No entanto, já fico muito contente se O Carimbo for visitado regularmente por algumas dezenas de leitores e nem sequer tenho a ambição de chegar aos calcanhares de um Aviz ou de um Abrupto.
Já que menciono elogios ao Carimbo, aproveito para agradecer ao Catalaxia por considerar o post “Ainda o General Silva Viegas” como uma “boa posta”. Também não posso esquecer a simpática referência que O Complot faz ao Carimbo.
Agradeço ainda a forma cordial como o Liberdade de Expressão, o Causa Liberal, o Adufe, o Alfacinha e o Mata-Mouros têm conduzido as suas discussões com o Carimbo.
Finalmente agradeço os simpáticos e-mails enviados pelo Alfacinha, Bloguítica Nacional, Causidicus, Catalaxia, O Comprometido Espectador, Contra a Corrente, Conversa da Teta, Faccioso, Follow The White Rabbit, O Complot e O País Relativo, além de outros blogs já referidos em posts anteriores. Agradeço especialmente o e-mail com recomendações técnicas (as quais ainda não experimentei aplicar) enviado pelo 1ª Experiência.
Espero não me ter esquecido de ninguém.
ANS
15 agosto 2003
52 - ESCLARECIMENTOS
Esta interrupção temporária do Carimbo, motivada pelo início das minhas férias, impediu que pudesse responder na altura devida a alguns blogs com os quais O Carimbo vinha mantendo animadas discussões.
Entre esses blogs contam-se o Adufe e o Alfacinha, com os quais O Carimbo vinha discutindo a questão da demissão do General Silva Viegas. Também o Liberdade de Expressão e o Causa Liberal merecem uma resposta relativamente à questão dos incêndios. Finalmente, penso que devo uma explicação ao Mata-Mouros relativamente a uma questão envolvendo os estádios para o Euro 2004.
Começo pela questão da demissão do General Silva Viegas (GSV).
Rui Branco (RB), do Adufe, escreve no post “Em defesa do presidente de todos os portugueses II” que os oito ex-Chefe de Estado-Maior do Exército que se reuniram para discutir a política de defesa tinham todo o direito de o fazer por serem, porventura, os cidadãos mais competentes para analisar a matéria em causa. Ainda segundo RB, o facto de os ex-CEME serem oficiais na reserva apenas lhes confere o direito de discutir o tema (ao mais elevado nível) com a mesma liberdade de qualquer cidadão (livre das restrições inerentes à carreira militar). RB escreve ainda que eu aparento concordar com a desculpa apresentada pelo GSV para evitar revelar à opinião pública os verdadeiros motivos da sua demissão. Penso que RB interpretou mal as minhas palavras. Eu apenas quis mostrar que os ex-CEME não podem ser tudo o que lhes apetece conforme as conveniências de cada momento. Se eles querem ser vistos como cidadãos atentos à condução da política de defesa devem fazê-lo de um modo coerente com o regime democrático. Podem, por exemplo, promover debates políticos (e públicos!) que beneficiem do seu conhecimento especializado na matéria. Em vez disto, o GSV decidiu que não podia revelar publicamente as razões da sua demissão (embora eu pense que o deveria ter feito) e preferiu manter um diálogo secreto com outros ex-CEME. Parece-me a mim (e talvez seja teimosia, que é um defeito que muitos me apontam) que essa não foi a forma correcta de proceder democraticamente. Insisto no facto de que o jantar dos ex-CEME funcionou muito “bem” numa altura em que a palavra “desconfiança” estava na ordem do dia.
Quanto ao Presidente da República (PR), Rui Branco volta a insistir na sua autoridade moral para criticar o Ministro da Defesa e o Governo. Eu nunca contestei tal autoridade moral. Acho que as críticas do PR são muito bem-vindas sempre que forem justas e, neste caso, os militares têm alguma razão. O que eu contesto são os elogios do PR ao GSV, ignorando por completo a forma como o ex-CEME conduziu o seu processo de demissão. Não sou o único que pensa assim e recorro às palavras de António Ribeiro Ferreira para reforçar as minhas ideias: “Mas se Sampaio se esqueceu de condenar a atitude de Silva Viegas, espera-se que não cometa o erro supremo de condecorar o infractor”.
O Alfacinha também contribuiu para esta discussão e salientou as responsabilidades de Paulo Portas (PP) no sucedido. Segundo o Alfacinha, tal situação era de esperar pois PP é um charlatão populista e gerador de conflitos. Apreciei a profundidade do Alfacinha quando afirma que cada um destes conflitos, “isoladamente”, não justifica que o comportamento de PP seja considerado insuportável. No entanto, ainda segundo o Alfacinha, o conjunto de conflitos gerados por PP já o justifica. É curioso que o GSV tenha dito exactamente a mesma coisa. Para o Alfacinha, o comportamento insuportável de PP justifica as afirmações (paternalistas?) de Mário Soares e conduzirá certamente a grandes dificuldades na implementação das medidas reformistas do actual governo. Eu não nego o carácter evidentemente populista de PP assim como não nego a sua aptidão para a criação de conflitos. Já antes o escrevi. Mas também não me parece difícil constatar que uma personagem assim, com tantos “inimigos” (em todos os quadrantes políticos), terá sempre enormes dificuldades em representar qualquer Ministério. Também não me parece difícil constatar que o Governo só pode vincar o seu tímido carácter reformista se possuir maioria absoluta na Assembleia da República. Também não me parece difícil constatar que a oposição anseia por enfrentar um Governo de maioria relativa, para o que será necessário afastar o PP (leia-se a sigla como se quiser). Também não me parece difícil constatar que existe, hoje em dia, algum desespero na oposição face à sua impotência (até ao momento) para atingir este objectivo. Só espero que este desespero não dê origem a mais afirmações “paternalistas”. Tal como o Alfacinha, eu também gosto de poder mostrar as minhas divergências de uma forma cordial e respeitadora das opiniões dos outros. Acredito que quem procede dessa forma na blogosfera também o faz na vida quotidiana. Será que Mário Soares procedeu desta forma?
Quanto à questão dos incêndios, tenho de agradecer a longa resposta (post “Um resumo e uma resposta ao Carimbo”) de João Miranda (JM) do Liberdade de Expressão. Concordo (como já antes concordava) com a maior parte do que é referido nesse resumo, mas ainda existem algumas divergências. Focarei aqui apenas os pontos dos quais discordo, para o que adoptarei a numeração utilizada por JM.
Ponto 31 – “A função do Estado deve ser a de proteger as pessoas umas das outras. O Estado não tem" de "proteger as pessoas de si próprias ou dos problemas da vida.” Concordo mas creio que esta é uma abordagem um pouco redutora das funções do Estado em matéria de incêndios. O Estado também deve promover o ordenamento do território (o que não constitui necessariamente uma atitude dirigista) tendo em conta a utilização sustentável do solo. Este aspecto é importantíssimo para todos nós (pois é também uma questão de defesa... ambiental) e não me parece que seja automaticamente considerado pelos mercados. O associativismo de pequenos proprietários é, de facto, fundamental para uma produção economicamente viável de qualquer produto agro-florestal. Mas, numa lógica de mercado, as associações de produtores tenderão a fornecer ao mercado o que este procura, independentemente das aptidões naturais do solo. JM procura rebater esta noção nos posts “O Ambientalista Liberal I e II”. Para JM, o Estado já deu provas de ser muito influenciável pela obtenção de resultados de curto prazo. As empresas, pelo contrário, podem ter objectivos de longo prazo que contemplem uma utilização sustentável dos solos. Gostaria muito de poder concordar mas, infelizmente, não posso. Tenho que chamar a atenção de JM para o facto de estarmos em Portugal. Neste país, são inúmeros os exemplos de pequenas e médias empresas que nascem mostrando qualidade, inovação e competência na exploração de nichos de mercado. O problema é que, embora essas empresas atinjam rapidamente um razoável volume de negócios com alguns lucros no curto prazo, a qualidade e a capacidade de inovação desaparecem imediatamente. Estas empresas destroem-se a si próprias e nem sequer se apercebem disso. Será só incompetência ou será que o lucro rápido fala sempre mais alto?
Ponto 34 – “30 % dos incêndios são causados por criminosos mas não são acções de criminalidade organizada”. Esta é outra interpretação possível e, sem dúvida, mais imparcial da notícia do Público.
Ponto 37 – JM afirma que não conhece formas de garantir serviços de combate a incêndios exclusivamente privados e acrescenta que esse é um problema dos proprietários. O blog Causa Liberal realizou uma pesquisa e sugere o seguinte site de uma empresa norte-americana de combate a fogos (mas não a fogos florestais). Agradeço a informação e fico contente por saber que existe mercado para empresas desse tipo. No entanto, também em Portugal actuam empresas de combate a incêndios. Veja-se por exemplo o caso das empresas proprietárias de alguns aerotanques que têm sido utilizados no combate aos actuais incêndios. Não se pode afirmar que estes aerotanques tenham sido muito eficientes. O problema é que, sem uma boa prevenção passiva e activa, os fogos deflagram e alastram rapidamente. Nestas alturas, os serviços de bombeiros (privados ou não), ainda que possuam a qualificação necessária para o combate a fogos florestais, ficam em sérias dificuldades. É por isso que concordo com JM quando ele afirma no ponto 32 que “o Estado deve penalizar os proprietários que representam uma ameaça à segurança pública”, ou seja, “aqueles que possuem propriedades que são verdadeiras bombas-relógio”. O produto dessas coimas deveria reverter a favor dos bombeiros. Acho muito bem que os proprietários possam optar por serviços de prevenção, monitorização e combate privados (desde que beneficiem da consequente redução de impostos) ou por serviços de prevenção e monitorização privados e por serviços de combate públicos. No entanto, tal não significa que o Estado se negue a possuir um Serviço de Bombeiros apto para o combate a fogos florestais. Se tal acontecesse, então também os fogos urbanos deveriam ser combatidos apenas por empresas privadas. Deve haver alguma coerência.
Ponto 42 – JM afirma que eu pareço “acreditar que é possível planear com antecedência todas as soluções para os problemas florestais e que uma autoridade central, depois de recolher todas as ideias e todas as opiniões, pode dizer a todos os agentes o que devem fazer”. Não posso concordar. O que eu escrevi foi que o Estado deve promover o planeamento do território em termos de utilização sustentável do solo. Nas zonas em que a floresta for recomendável, os proprietários deverão seguir os meios que entenderem ser apropriados para optimizar a produção (o associativismo seria uma solução). Ao mesmo tempo, os produtores devem ser totalmente responsáveis pela segurança contra incêndios das suas propriedades e devem ser penalizados, pelo Estado, se não o fizerem. Os proprietários devem ter liberdade na escolha dos serviços de combate a incêndios, os quais poderão ser privados ou públicos. A única grande divergência que tenho com JM prende-se com a existência de serviços de bombeiros e protecção civil controlados pelo Estado. Eu acho que eles devem continuar a existir nos moldes actuais. Isto é, devem garantir: o combate a incêndios (em qualquer ambiente); o socorro às populações em caso de incêndios, inundações, desabamentos, abalroamentos e em todos os acidentes, catástrofes ou calamidades; o socorro a náufragos e buscas subaquáticas; o socorro e transporte de sinistrados e doentes, incluindo a urgência pré-hospitalar; e o exercício de actividades de formação cívica. Penso ainda que o Governo deverá estudar a melhor forma de coordenar estes serviços. A necessidade de uma voz de comando (central), que é evidente numa situação de calamidade nacional, não deve retirar capacidade de descentralização aos serviços de bombeiros e protecção civil. Tal como afirma JM, não se deve “desprezar o know-how das populações locais”. Só posso subscrever esta afirmação.
Para terminar a sessão de esclarecimentos falta focar a tal questão relacionada com os estádios de futebol para o Euro 2004. No post “Euro 2004” do Mata-Mouros, CL tenta provar que se o Governo não tivesse investido na realização do Campeonato Europeu de Futebol então já teria sido possível investir na prevenção de incêndios florestais. Esta prova baseia-se no facto de existirem três estádios (dos quais destaco o Estádio Municipal de Braga e o Estádio do Algarve) que poderão não ser utilizados pela UEFA no Euro 2004.
De acordo com a notícia referida pelo Mata-Mouros, a UEFA justifica esta redução do número de estádios a utilizar durante o Euro 2004 com uma poupança de cinco milhões de euros por estádio e, no que se refere ao caso particular do Estádio do Algarve, com uma preferência pela concentração geográfica. Se estes estádios vierem efectivamente a ser excluídos do Euro 2004 (sem compensações), então o Estado terá gasto (directa ou indirectamente) cerca de cem milhões de euros que não terão retorno motivado pelo Campeonato Europeu de Futebol. Porém, não acredito que a UEFA falte aos compromissos assumidos por via contratual com as autarquias. A não ser que estas não cumpram o que está estipulado nesses contratos, nomeadamente em termos de prazos de conclusão das obras. Penso que as ameaças da UEFA devem ser entendidas como uma recomendação mais séria às autarquias que são proprietárias dos estádios em causa para que cumpram os prazos estabelecidos. Lembro que o Estádio Municipal de Braga tem um atraso de mais de dez semanas. No Estádio do Algarve o atraso é bem menor, assim como a derrapagem dos custos, o que dá boas garantias às autarquias interessadas. Se o Estádio do Algarve estiver pronto dentro do prazo contratado e, mesmo assim, não for incluído no Euro 2004, então as Câmaras de Faro e Loulé deverão ter direito a compensações por parte da UEFA.
De qualquer forma, mesmo que a UEFA pudesse, pura e simplesmente, ignorar estes dois estádios, não me parece que possamos afirmar que se o Estado não os tivesse construído, então teria utilizado o dinheiro para investir na prevenção e combate de incêndios florestais. Todos sabemos que o desinvestimento que efectivamente aconteceu nesta área não teria sido evitado. É preciso ter muita fé para acreditar que aqueles cem milhões de euros do III Quadro Comunitário de Apoio teriam sido deslocados, na sua globalidade, para a Medida 3 (Desenvolvimento Sustentável da Floresta) do Plano Operacional da Agricultura e Desenvolvimento Rural, por exemplo.
ANS
51 - BLOGO, LOGO EXISTO
Só tomei conhecimento da blogosfera há cerca de um mês. Como já tive oportunidade de explicar, o meu primeiro contacto com esta palavra e com o seu significado surgiu na sequência de uma reportagem da Visão. Esta reportagem não nos revela a totalidade do mundo dos blogs mas consegue mostrar-nos um mundo no qual convivem muito mais do que meia dúzia de blogs mediáticos.
Infelizmente, o artigo (com o título deste post) publicado no Diário de Notícias (DN) no passado dia 10, embora se refira a “ilustres anónimos”, não consegue transmitir esta ideia de pluralidade. Este artigo dá-nos, como escreve o Mata-Mouros, uma imagem bastante redutora da blogosfera.
Quero deixar bem claro que esta crítica não pretende retirar mérito aos blogs referidos no artigo do DN. Não se trata disso. Aqueles blogs são dignos do destaque que lhes é dado porque são, de facto, muito bons e, por isso, merecem ser lidos pelo maior número possível de pessoas. O que eu critico no artigo do DN é a omissão (por esquecimento?) do restante universo de quase 2000 blogs.
No fundo, é este enorme conjunto de blogs que dá vida à entidade à qual chamamos blogosfera. Talvez se possa dizer que cada blog que é actualizado, a qualquer hora do dia, contribui para alimentar e, consequentemente, manter viva a blogosfera. Não me parece ser possível falar da blogosfera sem referir, por exemplo, a sua dimensão, o que motiva a maioria dos bloggers e as formas de interacção entre blogs. Estas questões parecem ser esquecidas pelo artigo do DN e, por esse motivo, alguns habitantes da blogosfera poderão sentir que, embora blogando, (ainda) não “existem”.
Já agora, José Pacheco Pereira e o seu Abrupto são referidos por duas vezes, no Independente desta semana, a propósito da candidatura de Leonor Beleza às eleições europeias do próximo ano. Será que os blogs se identificam totalmente com os seus autores? Será que os blogs podem ser considerados como o meio ideal para divulgar as declarações “oficiais” dos seus autores? Será que a comunicação social pode agora substituir entrevistas por simples leituras de blogs?
É também por causa destas dúvidas que mantenho o anonimato.
ANS
50 - COMBOIOS
Como escrevi no post anterior, no passado domingo (dia 10) viajei, mais uma vez, de Liverpool para Lisboa.
Como é habitual, saí de casa já um pouco atrasado e, por isso, tive de correr até à estação de Lime Street para apanhar o comboio que me iria levar até Manchester. Para não variar, o comboio também estava atrasado. É verdade. A famosa pontualidade britânica também deve ter acompanhado o British Rail no seu desaparecimento. Hoje em dia, no Reino Unido, ninguém espera que os comboios sejam pontuais e todos parecem ficar contentes quando a viagem não é cancelada. Desta vez eu tive sorte e esperei apenas cerca de meia hora até poder, finalmente, entrar no comboio.
Fiquei contente porque, em princípio, já não iria perder o avião. No entanto, esse sentimento de alívio transformou-se imediatamente num enorme desconforto causado pela quantidade de lixo existente naquela velha carruagem. Mas não era só isso. Bastaram dois minutos no interior da carruagem para perceber que, como é habitual, o sistema de ar condicionado não funcionava. Estes problemas são comuns às vinte e sete companhias privadas de transporte ferroviário que existem actualmente no Reino Unido e, infelizmente, as três companhias que operam no Merseyside (região de Liverpool) não são a excepção à regra. De acordo com o The Guardian, apesar da privatização dos transportes ferroviários (em 1994), o Estado tem continuado a injectar dinheiro neste sistema de transportes sem resultados visíveis. No Reino Unido, os transportes rodoviários são hoje preferidos por 85 % dos passageiros e pela grande maioria das empresas. Há quem atribua a responsabilidade desta situação à acção dos lobbies do petróleo, da indústria automóvel e da construção. Porém, a julgar pelas intermináveis filas de carros parados que enfeitam as famosas M6 e M25, não me parece que o transporte rodoviário no Reino Unido seja de grande qualidade.
Enquanto me entretinha com estes pensamentos tentava observar a paisagem. O problema é que, infelizmente, o Merseyside não oferece paisagens agradáveis que mereçam ser admiradas a partir da janela de um comboio. Esta região é muito pobre e atrasada. Ao longo da ferrovia, é possível observar velhas fábricas em ruínas, estações de comboio sem passageiros mas repletas de lixo, pequenos aglomerados populacionais com poucos habitantes e sem equipamentos urbanos. Nestas povoações são comuns as casas de dois pisos, com grandes janelas que terminam no beirado (quase indistinguível) dos telhados de duas águas. As casas são construídas em tijolo de barro vermelho e, por esse motivo, não apresentam sinais de degradação muito evidentes. Aqueles que atravessarem estes povoados por estrada, provavelmente acreditarão estar na presença de povoados muito pobres mas relativamente bem cuidados. Essa é, no entanto, uma ilusão criada pelos muros que ladeiam as propriedades. Da janela do comboio é impossível manter essa ilusão porque o caminho de ferro estende-se num plano mais elevado, o que permite observar o interior dos quintais, ou melhor, as inúmeras lixeiras particulares. Ao ver aquelas enormes quantidades de lixo, fui obrigado a transigir com os outros passageiros do comboio em que viajava, os quais não pareciam estar nada incomodados com a imundície da nossa carruagem.
Após quase uma hora de viagem, estavam finalmente percorridos os cerca de cinquenta quilómetros entre Liverpool e Manchester. Os primeiros sinais da chegada à cidade são dados pelo estádio do Manchester United, cuja bancada leste está adjacente à ferrovia. Logo a seguir atravessa-se o novo parque empresarial (Trafford Park) até se chegar às recuperadas zonas de Deansgate, Oxford Road e Picadilly. Foi aqui que saí para apanhar a ligação para o aeroporto de Manchester. Enquanto esperava (mais uma vez) por esta ligação, tive oportunidade de presenciar uma daquelas cenas típicas de um filme que aborde qualquer uma das duas guerras mundiais. Confesso que foi esta cena que me levou a escrever este post. Um casal de jovens namorados despedia-se junto ao comboio que partia para Leeds. O rapaz entrou no comboio, abriu a janela mais próxima da porta, inclinou-se para fora do comboio e beijou novamente a namorada. Quando o comboio partiu, ela voltou-se e o seu sorriso rasgado transformou-se num choro que ela tentava conter sem sucesso. Nessa altura senti ainda mais saudades de Portugal.
ANS
14 agosto 2003
49 - FÉRIAS
Como podem facilmente constatar, esta é a primeira vez que escrevo no Carimbo após quase cinco dias de ausência. Tal deve-se ao facto de ter regressado a Portugal no passado domingo (dia 10) para um período de férias. Como sempre acontece quando cá venho, os primeiros dias são inteiramente dedicados a matar saudades... de tudo.
O calor que se faz sentir também não tem ajudado. Já esperava que fosse assim pois li alguns blogs com comentários sobre a dificuldade de escrever com temperaturas tão altas. No entanto, uma coisa é ler este tipo de comentários no norte de Inglaterra (onde as temperaturas máximas que se fazem sentir, quando a região se encontra sob uma vaga de calor, não ultrapassam os 25 a 28 ºC) e outra coisa completamente diferente é entender o “sofrimento” que esses comentários pretendem transmitir. Só compreendi isto quando, à saída do avião, sofri os efeitos de um choque térmico idêntico àqueles que apenas sentira à chegada a países de clima tropical.
Até ao final de Agosto será difícil escrever com regularidade mas tentarei, mesmo assim, manter-me em contacto com a blogosfera. Não gostaria nada que se esquecessem do Carimbo.
ANS
09 agosto 2003
48 - AINDA O GENERAL SILVA VIEGAS
Parece que o post anterior (O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES SOCIALISTAS) não foi totalmente compreendido, sendo mesmo alvo de vários comentários colocados por Rui Branco (RB) no post EM DEFESA DO PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES do Adufe. Tentarei explicar melhor o sentido do referido post à medida que for rebatendo as críticas de RB.
RB começa por criticar o título do post insinuando que eu me excedi e que defraudei as expectativas criadas pela frase de apresentação do Carimbo: “Um blog que pretende marcar mas não ferretear”. RB acha que o título do post não se limita a “marcar” o Presidente da República (PR). Lamento mas não posso concordar com tal insinuação. Basta ler os outros posts do Carimbo para verificar que muitos deles correspondem à colocação de hipóteses e cenários ou ao levantamento de questões, sendo os títulos escolhidos de forma a ilustrar esses mesmos cenários. São “supônhamos”, como dizia o Zezé (José Pedro Gomes) na Conversa da Treta. É óbvio que o PR, uma vez eleito, passa a ser o Presidente de todos os Portugueses. No entanto, isso não significa que o PR se consiga abstrair sempre dos interesses do Partido Socialista (PS).
A seguir, RB pede-me para fundamentar as acusações que faço ao General Silva Viegas (GSV) relativamente ao desrespeito pela hierarquia militar e à ameaça ao regular funcionamento democrático da República. Ambas as acusações foram motivadas pelo jantar a que o GSV compareceu com mais sete ex-Chefes de Estado-Maior do Exército (CEME). São acusações que já tinha feito há uma semana atrás (post PERDER A CONFIANÇA NUM MINISTRO DA DEFESA NÃO É O MESMO QUE PERDER UM PORTA-MOEDAS) e que mantenho.
Se não houve desrespeito pela hierarquia militar, porque sentiram o Primeiro Ministro (PM) e o Almirante Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) a necessidade de lembrar a todos nós que “o chefe militar de mais elevada autoridade na hierarquia das Forças Armadas é mesmo o CEMGFA”? Porque disse o Almirante Mendes Cabeçadas que só ele e os Chefes de Estado-Maior dos ramos podem representar com legitimidade os interesses das Forças Armadas? Talvez tenha sido porque um General (na reserva) tinha acabado de ser mandatado para representar os interesses do Exército perante o PM?
Quanto à questão das implicações do jantar dos ex-CEME no regular funcionamento democrático da República poderia, como Pires de Lima, fazer aqui algumas comparações ao Conselho da Revolução. No entanto, prefiro recorrer às palavras de um dos Generais (na reserva) que promoveu a realização do tal jantar. Estou a referir-me às garantias dadas pelo General Garcia dos Santos, antes do início do tal jantar, de que não sairia dali nenhum Golpe de Estado. Se fosse apenas um jantar entre colegas ele não se lembraria de fazer tal afirmação. Organizar uma reunião daquele tipo, numa altura em que a “desconfiança” entre o poder político e militar estava na ordem do dia, foi verdadeiramente desestabilizador do normal funcionamento da República.
RB tenta justificar a normalidade do jantar com o facto de os ex-CEME presentes serem Generais na reserva e, portanto, cidadãos comuns em termos do seu direito à intervenção política. Relativamente a este aspecto coloco duas questões. Será que não existem, na estrutura das Forças Armadas, pessoas (no activo) que possam expor ao PM e ao PR os problemas existentes entre o Estado-Maior do Exército e o Ministério da Defesa? Porque têm apenas sete cidadãos (que são, em princípio, iguais aos outros) o direito a saber as razões da demissão do GSV? É que à população portuguesa foi dito, pelo próprio GSV, que não podia tornar públicas as razões da perda de confiança no Ministro da Defesa (MD) devido ao respeito que lhe mereciam a instituição militar e aqueles que serviam o Exército Português. Pois.
Depois, RB afirma que eu defendo a tese risível de que os oito ex-CEME participaram numa manobra orquestrada pelo PS. Eu convido RB a ler novamente o post em causa porque eu não escrevi tal coisa. O que eu sugeri foi que a demissão do GSV poderia ter sido encomendada pelo PS, o que não tem nada a ver com o tal jantar.
A hipótese que levanto pode ser fundamentada da seguinte forma:
Em Outubro do ano passado, o General Alvarenga Sousa Santos (talvez inspirado pelo passado de Paulo Portas) foi o primeiro a levantar a questão da desconfiança ao criticar o MD e ao afirmar que “2003 seria o ano da verdade”. Isto originou o seu processo de exoneração, o qual criou um mal estar visível entre o PR e o MD. De tal forma que o PR deu um prazo ao MD para que este recuperasse a confiança dos militares sob pena de ser substituído se tal não acontecesse. Na mesma altura o MD encontrava-se sob um clima de fortes suspeitas motivadas pelo processo da Universidade Moderna. Este caso foi usado politicamente até à exaustão por toda a oposição, e em particular pelo PS, na tentativa de retirar Paulo Portas do elenco ministerial e assim eliminar a garantia de estabilidade da coligação PSD/PP. É que a “oposição” parece só saber fazer oposição a governos de maioria relativa. Assim que o caso Moderna deixou de ser um peso para Paulo Portas, tornou-se necessário encontrar uma forma de voltar a associar o MD a um clima de desconfiança. A experiência de Outubro de 2002 poderia ser repetida, mas agora com uma variante essencialmente política. Desta vez seria o CEME a perder a confiança no MD. O PR estaria pronto para, no exacto momento do pedido de demissão, endereçar um forte elogio ao GSV: “Não nos podemos esquecer das pessoas que prestaram grandes serviços ao país e é isso que eu homenageio neste momento. O GSV é um oficial distintíssimo!” Não é difícil entender este elogio do PR como uma marcação da sua posição (confirmada anteontem) e também como um aviso aos interessados de que o GSV não deveria ser penalizado pela forma como conduzisse o seu processo de demissão. Depois aconteceu o jantar dos ex-CEME que foi apenas a cereja em cima do bolo. O toque que faltava, para empolar o clima de desconfiança já instalado, era a encenação de um encontro à moda do Conselho da Revolução, com as conotações que isso tem na memória da população. A consequência disto tudo foi mais uma série de pedidos de demissão do MD efectuados por toda a oposição e por alguns políticos (na reserva) instigados por ódios pessoais (antigos ou recentes), dos quais destaco o Dr. Mário Soares, que por acaso também é socialista. RB achará que esta é uma hipótese muito disparatada, mas o que é importante para mim é precisamente isso: formular hipóteses. Se estas são disparatadas ou não, a blogosfera o dirá. Por isso aproveito para agradecer a RB por mostrar que discorda do meu post.
A seguir, RB parte para a defesa do PR e das Forças Armadas, terminando com um ataque a Paulo Portas. Não percebi se esta parte do texto reflectia apenas as opiniões de RB sobre o assunto ou se continuava a constituir uma crítica ao meu post. É que eu tive o cuidado, nos dois posts que escrevi sobre o tema, de referir sempre que não pretendia retirar a eventual razão do GSV nos seus desentendimentos com o MD. No entanto, já que RB toca no assunto, aproveito também para comentar estas situações.
RB lembra que o PR já vem alertando os governos para evitarem a demagogia desde há vários anos. É verdade. Nunca coloquei isso em causa.
Quanto ao MD, RB afirma que é populista. Mais uma vez tenho de concordar e conceder que esse é, muito provavelmente, mais um motivo para as relações tensas entre PR e MD. RB afirma que o MD ainda não cumpriu o corte com o passado que prometeu às Forças Armadas nem os compromissos que assumiu com os ex-combatentes. É verdade. José Lello (mais um socialista) também já disse isso. Mas, que eu saiba, os compromissos de governo são assumidos em prazos de quatro anos e não de 17 meses ou menos (a Associação Nacional de Sargentos também julga que o General Alvarenga Sousa Santos foi exonerado em Outubro de 2002 por motivos relacionados com a falta de meios para assegurar a continuidade das missões militares). RB afirma que o MD foi indelicado para com o GSV, tendo até interferido no sistema de avaliação do Exército para favorecer um nome. Se o MD o fez, agiu obviamente mal. No entanto, essas críticas foram em primeiro lugar lançadas pelo General (na reserva) Loureiro dos Santos (GLS), no próprio dia do pedido de demissão do GSV. O GLS afirmou que o MD tentou imiscuir-se em funções que só ao CEME competem (embora o GLS, na reserva, tivesse conhecimento delas) e explicou que o MD quis forçar a promoção a Coronel de um Tenente-Coronel que não estaria em condições de o ser. Se o GLS já conhecia os problemas todos, o que é foi fazer ao tal jantar?
Quanto aos problemas que o Exército (penso que não devemos incluir os outros ramos das Forças Armadas nesta discussão) enfrenta, RB refere, entre outros, o atraso crónico do Ministério da Defesa nos pagamentos das missões internacionais. Tem razão, é um problema que dura já há mais de três anos. Como foi criado o problema?
Quanto à necessidade de profissionalização, parece-me que o problema é mais uma vez a falta de verbas. Sem dinheiro, não será possível diminuir o contingente militar, restruturar as carreiras e implementar medidas de incentivo (monetário) ao ingresso. A consequência poderá ser um novo adiamento do fim do Serviço Militar Obrigatório. Também aqui concordo com RB.
Quanto à necessidade de reequipamento, RB tem razão quando afirma que o equipamento do Exército está obsoleto. Dou como exemplo os Chaimites e as G3 que vêem dos primórdios da Guerra Colonial. Convém aqui referir que nova Lei de Programação Militar (aplaudida e apoiada pelo CEMGFA e pelos Chefes de Estado-Maior dos ramos) contempla, em princípio, um plano de reequipamento ajustado ao controle do défice orçamental. No entanto, todos sabemos que o ano de 2003 está a ser particularmente difícil, existindo muita gente (não só na oposição) a prever a derrapagem do défice. Parece-me que esta situação teria, necessariamente, de afectar também o reequipamento do Exército. Pode alegar-se que o problema não é esse mas sim o facto de o Ministério da Defesa cobrir despesas correntes com verbas reservadas à aplicação da Lei de Programação Militar. Talvez pelo facto desta acusação não estar provada, RB não a menciona no seu post.
Julgo ser importante lembrar também que a verba prevista para Exército no Orçamento de Estado de 2003 aumentou consideravelmente relativamente a 2002, o que demonstra um esforço da parte do Governo.
Finalmente, RB afirma que a questão importante é de carácter político. Também julgo que sim. RB aponta três questões, das quais eu penso que a primeira diz tudo: “Que Forças Armadas queremos?” Esta é, sem dúvida, uma questão importante mas, agora que está aprovada a Lei de Programação Militar, não será hora de fazer tudo para avançar com a sua aplicação? Se começamos a questionar tudo, também podemos, como muitos já fizeram, perguntar para que serve o PR?
Voltando ao “supônhamos", a hipótese de ligação que aqui descrevo entre o PR, o PS e o GSV não é mais disparatada do que a tese da cabala contra o PS defendida (e constantemente repetida) por Ferro Rodrigues.
ANS
08 agosto 2003
47 - BSE: BLOCO DOS SEGUIDORES DE ESTALINE (II)
Escrevi, a 26 de Julho, que "primeiro, Bernardino Soares e Ruben de Carvalho manifestaram as suas dúvidas sobre a não existência de uma democracia na Coreia do Norte e sobre a ilegitimidade das execuções decretadas pelo regime de Cuba. Agora só já falta ouvir um terceiro elemento da ala conservadora do Partido Comunista Português (PCP) colocar as suas dúvidas sobre a prova da existência de um regime de terror na URSS desde 1920 até aos acontecimentos que levaram ao seu desmembramento. Só falta justificar a necessidade do Terror Estalinista (em particular, entre 1937 e 1941)."
Pois é, de acordo com o Público e com o Diário de Notícias, parece que esse terceiro elemento é o "Avante!", por intermédio do jornalista Manoel de Lencastre. É mais um que se pode filiar no BSE...
ANS
46 - O PRESIDENTE DE TODOS OS PORTUGUESES SOCIALISTAS
De acordo como Público, Jorge Sampaio (JS) aproveitou anteontem "a tomada de posse do novo chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), Valença Pinto, para fazer uma série de reparos ao Governo pela forma como tem gerido a pasta da Defesa". De seguida, deu um forte abraço de despedida e agradecimento ao General Silva Viegas (GSV) e afirmou: "Considero indispensável expressar o reconhecimento da República ao trabalho levado a cabo pelo (...) General Silva Viegas, cuja qualidades pessoais, competência profissional e empenho na reforma e modernização do Exército e das Forças Armadas, ninguém pôs nem poderá pôr em causa."
Parece que JS não viu no "Jantar dos Oito ex-CEME" qualquer ameaça ao regular funcionamento democrático da República nem qualquer tipo de desrespeito à hierarquia militar. A única coisa que o Presidente da República viu foi apenas uma excelente oportunidade de servir os interesses do Partido Socialista (PS), criticando o Governo numa altura em que este se encontra fragilizado pela situação de calamidade que se vive no país.
Repito que, ainda que o GSV possa ter razão quando se refere à falta de diálogo entre o poder político e a hierarquia militar, ao adiamento de compra de equipamentos e à sub-orçamentação das despesas com as missões internacionais, isso não justifica a forma como conduziu a sua demissão do cargo de CEME. Por outro lado, JS também sabe que o Governo tem dificuldades em satisfazer as exigências do Exército e por isso afirmou que a gestão corrente e as exigências operacionais das Forças Armadas "terão de ser compatibilizadas com a austeridade financeira" e que, "em vez de ser factor de instabilidade recorrente, a escassez de recursos deve, pelo contrário, potenciar uma gestão mais criteriosa, mais racional e mais eficaz dos orçamentos militares, na base de uma avaliação séria das nossas necessidades em termos de equipamentos e de funcionamento".
Estas afirmações só fortalecem a posição do governo e fragilizam a posição do GSV. Como é então possível assistir a um tão efusivo agradecimento público ao GSV? Só se a sua demissão foi "encomendada" pelo PS...
ANS
45 - INCÊNDIOS FLORESTAIS II
O último post do dia 29 de Julho do blog Follow the White Rabbit começa assim:
“A fase mais quente do ano já acabou. O Outono está a chegar e caem as folhas. Espero que também caiam algumas ingenuidades em relação ao estado do mundo e ao rumo que ele leva.”
Embora esta frase se oponha completamente à realidade climatérica portuguesa dos últimos dias, partilho as esperanças de Hugo Medeiros, as quais particularizo num sincero desejo de que, desta vez, a discussão sobre os incêndios florestais tenha consequências práticas.
Tentei evitar voltar a escrever sobre este tema, mas tal só seria possível se a comunicação social e a blogosfera não lhe dedicassem tanto espaço. Pelo menos metade dos blogs da lista ao lado já se referiram aos incêndios florestais e alguns deles dedicaram mesmo muito espaço e esta questão, nomeadamente o Blogue dos Marretas, o Mata-Mouros e o Liberdade de Expressão.
Tanta discussão já motivou dois apelos de Pacheco Pereira, no Abruto. Um desses apelos é feito no sentido de tentar evitar a introdução de ruído de fundo na discussão, principalmente numa altura em que os incêndios ainda alastram. Infelizmente está a acontecer precisamente o inverso. Alguma comunicação social procura (a todo o custo) o sensacionalismo e a exploração das emoções em detrimento da objectividade. O governo e a oposição vão atirando as culpas (que todos têm) de uns para os outros e, ao mesmo tempo, vão proferindo frases infelizes e perfeitamente dispensáveis. A oposição clama pela demissão de ministros (como se isso resolvesse tudo) e diz possuir uma verdadeira vontade (que todos sabemos ser demagógica) de mudar as coisas. Os bombeiros, de acordo com o que li no Anarca Constipado, fazem reclamações salariais numa altura em que deviam estar (e a maioria deles estará certamente) totalmente concentrados na extinção dos fogos. Como se não bastasse, ainda há quem faça comentários ingénuos e despropositados do tipo “A culpa é do Estado porque investiu no Euro2004 em vez de ter adquirido os meios aéreos necessários para o combate aos incêndios florestais”, o que só contribui para aumentar o nível de ruído.
O outro apelo de Pacheco Pereira refere-se à necessidade de continuar, construtivamente, a debater esta questão depois de os incêndios terminarem.De facto, assistimos normalmente a uma discussão mediática durante a tal “época de incêndios” que Jorge Sampaio diz não existir, mas tudo é esquecido depois do Verão. Como muito bem lembram o Mata-Mouros e o Guerra e Pas, o mesmo se passa relativamente às cheias e inundações que costumam ocorrer durante o Inverno. Quem mais é que agora (no Verão) fala delas? Enquanto que Pacheco Pereira e o Mata-Mouros afirmam que isto se deve a um “laxismo governamental antigo”, Waldorf, P. e Carlos Vaz Marques discutem a atitude resignada dos portugueses e a sua incapacidade para a indignação e mobilização. Recordo novamente o que referi no post SISMOS (de 30 de Julho) relativamente à "nossa" tendência para o esquecimento das calamidades. Será masoquismo ou pura falta de entendimento dos conceitos de risco e respectiva mitigação? No Público de ontem era possível ler que já não são efectuadas quaisquer inspecções a elevadores desde há quatro meses. Tirem as vossas conclusões. Paulo de Almeida Sande, no Diário de Notícias de hoje, aponta também para o problema da relação dos portugueses com o risco de calamidade.
Já estamos todos habituados à discussão sazonal sobre os incêndios florestais. Todos julgamos conhecer as suas causas e todos temos soluções, mas estas nunca deixam de ser apenas soluções teóricas. Lembro aqui, a título de exemplo, os incêndios ocorridos no Verão de 2000, os quais foram considerados uma calamidade por terem destruído cerca de 600.000 hectares de floresta por todo o sul da Europa. O que é isso quando comparado com a área de floresta portuguesa que já ardeu este ano (162.000 hectares) ou em 1991 (182.000 hectares)?. Todos estes incêndios provocaram várias mortes e elevados prejuízos financeiros envolvendo não só o património florestal mas também terrenos cultivados, habitações e infra-estruturas diversas (rede eléctrica e de comunicações, por exemplo). A solução encontrada em Portugal baseou-se, como sempre, em “subsidiar” para resolver o problema no imediato e esperar que chovesse nos anos seguintes. Talvez eu esteja errado, mas não acredito que as análises de risco (do ponto de vista exclusivamente económico) provem que é mais barato e eficiente agir desta forma. Mas mesmo que o fosse, o aspecto humano e ambiental teria de ser considerado, sob pena de estarmos a assistir a um crime muito grave. É que, só neste Verão, já morreram quinze pessoas.
Quais são então as soluções para o problema dos incêndios florestais que estão actualmente em discussão?
São várias e apresentam alguns pontos de conflito, nomeadamente no que se refere às obrigações e responsabilidades do Estado. Neste aspecto, concordo com o Catalaxia e com A Causa foi Modificada, que defendem a segurança dos cidadãos e da sua propriedade e o ordenamento ambiental do território como funções do Estado. Compreendo os receios de MacGuffin relativamente à possibilidade de fracasso do Estado nessas obrigações motivada por desorganização ou por pura cedência a interesses privados, mas lembro que esse tipo de receios pode existir em todas as áreas controladas pelo Estado. O Mata-Mouros afirma que o combate aos incêndios, em florestas que não pertencem ao Estado, deve ser suportado pelos proprietários das mesmas. Já anteriormente (post INCÊNDIOS FLORESTAIS, de 31 de Julho) comentei esta afirmação, na altura a propósito de um post de João Miranda (JM) do Liberdade de Expressão, a quem pedi que sugerisse formas de garantir serviços de combate a incêndios exclusivamente privados. Não recebi ainda uma resposta relativamente a esse aspecto e, por esse motivo, faço aqui um pequeno exercício de prolepse e adianto algumas dificuldades para a aplicação dessa ideia. Ainda ninguém se opôs à existência de serviços de bombeiros e de protecção civil mantidos pelo Estado que garantam a segurança das populações e da sua propriedade nos aglomerados populacionais. De acordo com JM, esses serviços de bombeiros também podem combater os fogos em florestas do Estado (que é de todos nós), embora não “o saibam fazer nem achem que isso se pode aprender”. Por outro lado, os incêndios que ocorressem na floresta que está na posse dos privados (e é constituída por inúmeras pequenas parcelas), seriam da responsabilidade de empresas especializadas no combate a fogos florestais. Estas empresas seriam responsáveis por 88 % da área florestal, teriam uma clientela dispersa pelo país e inúmeros problemas na identificação das suas áreas de actuação. Não me parece que isto faça muito sentido. Porém, não penso que seja má ideia que as principais indústrias com interesses na floresta (mobiliário e celulose) criem empresas para a monitorização e prevenção de incêndios florestais. Estas empresas poderiam cooperar com o Serviço Nacional de Bombeiros de uma forma semelhante à que já hoje acontece entre a polícia e as empresas de segurança contra intrusão e roubo em edifícios. Já agora, António Ribeiro Ferreira lembrou ontem, no Diário de Notícias, que o consórcio Portucel-Soporcel (que pertence ao Estado) é a maior indústria de celulose do país, o que, para mim, é mais uma justificação para a responsabilidade do Estado no combate aos incêndios florestais.
Outra questão que envolve alguma polémica é a atribuição de “subsídios de calamidade” aos proprietários de floresta ardida e os efeitos potencialmente perversos de tal generosidade do Estado. De acordo com o Público, a Associação Portuguesa de Seguradoras demonstra, com razão, a sua oposição a esta situação. Estes subsídios (este ano serão 50 milhões de euros) não só premeiam quem não protege o seu património como, ainda por cima, são mal distribuídos e acabam por ficar, na sua maioria, nas mãos dos proprietários de terrenos florestais, sobrando a menor parte para os habitantes das povoações vizinhas das florestas, os quais são afinal quem mais sofre e, provavelmente, quem menos culpa tem na ocorrência de incêndios.
Relativamente à prevenção por dissuasão, penso que todos concordam com a necessidade de educação e modificação de hábitos sociais associados, por exemplo, à utilização de fogos de artifício. Outra medida que parece ser de consenso geral é o agravamento das penas a aplicar em crimes de fogo posto. Em princípio, todos concordam também com o aumento da investigação criminal. De acordo com o Público, a Polícia Judiciária destacou mais quatrocentos elementos para este efeito (o que, aliado ao número absurdo de escutas telefónicas realizadas por aquela instituição, me deixa cada vez mais convencido da capacidade de multiplicação destes profissionais). Parece que a maioria dos incêndios é provocada por pirómanos mas, de acordo com Adelino Salvado, 30 % dos incêndios correspondem a acções de criminalidade organizada, o que indicia a existência de uma “economia do fogo” baseada na especulação imobiliária e na indústria da madeira e da celulose. Esta constatação, associada às afirmações de Vital Moreira no Público relativamente à garantia de rendimento dos proprietários que arrendam as suas terras à indústria da celulose, vem contradizer a tese que o Liberdade de Expressão e O Comprometido Espectador defendem relativamente à impossibilidade de existência de uma actividade empresarial de pequena dimensão envolvendo os recursos florestais. JM, por exemplo, dá a entender que essas pequenas empresas, a existirem, só conseguem sobreviver à custa dos subsídios do Estado.
Em termos de prevenção passiva é óbvia a necessidade de limpeza de matos, a qual deve ser garantida pelos proprietários. A criação de sistemas reticulados de compartimentação de áreas de floresta em termos de progressão dos incêndios também seria interessante, embora me pareça ser impraticável com a actual distribuição de pequenas propriedades. Na mesma linha de acção, seria importante garantir distâncias mínimas entre os limites da floresta e os aglomerados populacionais. As propriedades florestais deveriam ainda ser equipadas pelos proprietários (sob fiscalização do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil - SNBPC) com infra-estruturas de apoio a meios de combate a incêndios. Todas as propriedades florestais deveriam ser seguradas com valores justos (de forma a dispensar qualquer tipo de subsídio estatal).
Ao nível da prevenção activa, os proprietários deveriam garantir meios técnicos e humanos de vigilância móvel terrestre. Os vigilantes estariam em condições de ficar a conhecer muito bem o terreno e as suas condicionantes, possibilitando assim um melhor desempenho dos bombeiros na eventualidade de um incêndio. Também deveria ser promovido o recurso a sistemas de informação geográfica (de acordo com o Público, estes sistemas podem custar aos proprietários de terrenos florestais apenas 16000 euros por cada 5000 hectares). O SNBPC deveria ser totalmente responsável pela vigilância aérea.
Se as medidas de prevenção atrás referidas forem aplicadas, os meios técnicos e humanos de combate aos incêndios fornecidos pelo SNBPC (que necessitam, sem dúvida, de ser melhorados e modernizados) tornam-se muito mais eficientes. Quanto à questão salarial, leio no Prazer Inculto e no Liberdade de Expressão que os vencimentos dos bombeiros até são razoáveis. Talvez sejam, mas não esqueçamos estes profissionais trabalham muitas vezes com riscos muito grandes para a própria vida. Outros profissionais como, por exemplo, os senhores e senhoras que servem o café nos aviões (já vi esta descrição num blog mas não me lembro em qual) auferem, provavelmente, bem mais do que os bombeiros e não correm riscos tão elevados. Pelo contrário, correm até um risco muito pequeno.
A coordenação das acções de combate ao fogo e, principalmente a activação do Plano Nacional de Emergência, também têm sido alvo de discussão, existindo quem defenda a criação de uma Secretaria de Estado da Floresta como é o caso de Waldorf no sentido de evitar a dispersão de competências e a consequente descoordenação entre diferentes entidades. De acordo com o Público, Guilherme Silva aponta a descentralização como o melhor caminho. A este respeito penso que um sistema descentralizado seria, efectivamente, mais eficaz nos combates aos incêndios desde que fosse suportado pelas medidas preventivas anteriormente referidas. No entanto, o Plano Nacional de Emergência (que envolve o SNBPC, as Forças Armadas, a Polícia, os Ministérios, o INEM e a Cruz Vermelha), tem de ser revisto no sentido de uma definição clara dos seus critérios de activação e de uma coordenação eficaz entre diferentes Ministérios. Desta vez isso não aconteceu.
Para terminar (porque o texto já está demasiado longo), falta apenas focar a discussão em torno das áreas ardidas. Vital Moreira refere no Público que a actual floresta portuguesa é uma consequência do Plano de Fomento Florestal (lançado por Salazar) para desenvolver a indústria química e da celulose. Sabe-se hoje que a exclusividade de pinheiro bravo e eucalipto na floresta portuguesa é a principal responsável pela secura dos solos e tem por isso uma grande dose de culpa na ocorrência de incêndios. Por este motivo, todos falam em reflorestação com espécies variadas. No entanto, tal como é referido no A Causa foi Modificada, o mais importante é promover um adequado ordenamento do território baseado numa utilização sustentável do solo nacional, a qual pode até implicar não reflorestar. Talvez não seja necessário gastar 150 milhões de euros.
ANS
44 - MAIS AGRADECIMENTOS III
Só agora reparei que O carimbo consta da lista de blogs recomendados pelo Anarca Constipado. Para ele eu sou “Um gajo estrangeirado”. É bem possível que tenha razão.
Ao P. do Guerra e Pas deixo aqui um agradecimento especial por um dos melhores elogios que já foram feitos ao Carimbo desde que, há 18 dias atrás, iniciei esta viagem pela blogosfera.
Agradeço também a Carlos Vaz Marques do Outro, Eu pelo cordial e-mail que enviou e por incluir O Carimbo na sua lista de blogs recomendados.
Agradeço e retribuo as cordiais saudações que o Causidicus e o desBlogueador de Conversa fazem ao Carimbo.
Agradeço ainda ao Acho Eu, ao Blogue de uma Loura e ao CONVERSA da teta por incluirem O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados.
E por fim, uma nota para a perspicácia de Leonel Vicente do aaanumberone.
ANS
07 agosto 2003
43 - LIXO ELECTRÓNICO
No post anterior referi dois blogs cuja leitura me deixa bem disposto. Também referi que não são os únicos que o conseguem fazer. Existe na blogosfera um outro blog que me tem proporcionado inúmeros momentos de boa disposição. Mas é uma forma diferente de boa disposição. Não me refiro a uma gargalhada espontânea que é motivada por um comentário cómico ou agradavelmente irónico. Refiro-me a uma boa disposição que perdura, a um sorriso que teima em não desaparecer enquanto aquele blog me guia numa visita aos pequenos prazeres da vida.
Leio este blog diariamente na esperança de sentir mais vezes esta boa disposição. Infelizmente, ontem isso não aconteceu. O Aviz tinha sofrido um ataque desprezível e, por esse motivo, Francisco José Viegas (FJV) "só" conseguiu transmitir a desilusão que sentia. E que grande desilusão... Eu não conheço FJV, apenas conheço o que ele escreve e a imagem que transmite na televisão. Parece ser muito sereno, mas ontem foi notória a sua inquietação com aquele "ruído" lá fora que, de repente, invadiu a sua caixa de correio electrónico.
Eu não concordo com a construção de muros, mas por vezes parece que não há outra solução. Este é um desses casos e a solução passa, infelizmente, por incluir certos indivíduos na categoria de lixo electrónico.
ANS
06 agosto 2003
42 - THE "COMEDY TERRORIST"
O Público de terça-feira relata o fracasso de Aaron Barschak, o auto-denominado "Comedy Terrorist", e do seu espectáculo Osama Likes it Hot em exibição no Fringe Festival de Edimburgo.
De acordo com o Público, o homem que, mascarado de Osama bin Laden, "furou" o sistema de segurança do Castelo de Windsor e invadiu a festa de aniversário do príncipe William, foi alvo de grande atenção por parte dos meios de comunicação social. O Público exemplifica esta situação com uma entrevista de quatro páginas realizada pela BBC. Eu prefiro recorrer a uma entrevista com nove páginas (com alguma publicidade pelo meio) publicada na revista Weekend da edição de 26 de Julho do The Guardian.
De acordo com o Público, "para a maioria dos que assistiram à peça" no último domingo (3 de Agosto), "o único momento interessante do espectáculo foi quando Barschak 'provou do seu próprio veneno'. Um grupo de cómicos - A Aliança da Comédia - invadiu o palco numa tentativa de publicitar o seu próprio espectáculo em" Edimburgo.
Não sei se Barschak (que, definitivamente, não tem queda para a comédia) terá "provado do seu próprio veneno" ou se terá, ele próprio, preparado uma rápida entrada em cena de outros "cómicos". Creio que a leitura da parte final da entrevista de Jon Ronson (do The Guardian) a Aaron Barschak e ao seu colega Brendhan Lovegrove, que a seguir se reproduz, será suficiente para incutir esta dúvida em qualquer um.
«I leave Aaron and Brendhan writing the Edinburgh show. Brendhan tells Aaron, a little softly, that perhaps he shouldn't try to be funny. Maybe he should just tell the story of how he infiltrated the castle. "People will want to hear it from the horse's mouth", he says. "Remember, this is a fringe festival. It's not a comedy festival. It's OK if you're not funny."
"No", says Aaron, firmly. "I'm going to gag it up. I'm going to make it funny." Suddenly, Aaron looks nervous. "What if someone tries to hijack me? It's bound to happen. Some smart-arse. I need to have an alternative script for that eventuality. Shit."
"You'll just be Aaron", says Brendhan, soothingly. "You'll be great."
"No", says Aaron. "I need something."
"OK", says Brendhan, "I've got it! If someone hijacks you, just say to them, 'Right! I had two minutes to be funny in front of Prince William. Now you've two minutes to be funny in front of this audience. See you in two minutes!' And just walk off the stage!"
"That's brilliant", shrieks Aaron. "Brilliant! That'll show them how hard it is to be funny in just two minutes. Brilliant!"
"Are you worried", I ask, "that if you base the Edinburgh show around William's party, you'll be creating for yourself a box from which you can't escape?"
There is a long silence. Then Aaron says, a little sadly, "It's too late. I can't escape."»
Já agora, Rui Branco (do País Relativo) fazia ontem a seguinte pergunta:
"Porque será? Já há algum tempo, bastante mesmo, que ninguém me conta uma anedota, que não ouço uma anedota. Intrigado, pus-me a perguntar a família e amigos. O mesmo. Porque será que as anedotas se calaram?"
Se todos fôssemos como Aaron Barschak, eu diria que as anedotas escasseiam porque já não há ninguém com piada. Mas felizmente não somos todos assim. A prova é dada, por exemplo, pelo Gato Fedorento e pelo Blogue dos Marretas, entre outros.
ANS
05 agosto 2003
41 - FÍSICA E MATEMÁTICA
José Pacheco Pereira (JPP) tem promovido no Abrupto uma discussão muito interessante sobre o ensino das disciplinas de Física e Matemática e sobre a sua importância para a educação científica e, consequentemente, para a qualificação e modernização do país. Esta discussão surgiu depois da publicação das médias das notas dos exames nacionais de Física e Matemática do 12º ano.
De acordo com o Público, as médias na disciplina de Física foram (numa escala de 0 a 20) de 8,1 valores na primeira chamada e de 7,0 valores na segunda chamada. Nos exames de Matemática, as médias foram de 9,3 e na primeira e de 7,4 valores na segunda chamada. Resumindo, ambas as disciplinas tiveram médias negativas nas duas chamadas. Concordo com JPP quando ele afirma existir "uma deficiência estrutural gravíssima do sistema educativo português". Também concordo com a noção de "que Física e Matemática são disciplinas estratégicas para qualquer sistema de ensino que pretenda um mínimo de qualificação e para a modernização do país. Sem elas todo o edifício da educação científica cai".
No entanto, quando olhamos para o topo da educação científica, ou seja, para a investigação realizada em Portugal no campo da Física e da Matemática, deparamos com um cenário completamente diferente, o qual pode até ser definido como um cenário de excelência. De acordo com as classificações atribuídas pelos painéis de avaliação internacionais aos 43 centros de investigação (I&D) nacionais nestas duas áreas científicas relativamente ao ano de 2002, existem em Portugal 7 centros de investigação em Matemática com classificação "excelente" e 8 centros com classificação de "muito bom". Os restantes 5 centros de investigação nesta área científica obtiveram uma classificação de "bom". Quanto à investigação em Física, existem 5 centros classificados com "excelente" e 10 centros classificados com "muito bom". Os restantes 8 centros foram, na sua maioria, classificados com "bom", existindo apenas um centro de qualidade "suficiente".
Como é possível existir um fosso tão grande entre o estado da investigação nas áreas da Matemática e da Física e o estado do ensino destas matérias ao nível das escolas secundárias? Será que aquela máxima que diz que "os bons alunos serão sempre bons alunos, independentemente do estado do ensino" se aplica aqui? Ou será que, pelo contrário, o ensino é adequado mas existe uma manifesta falta de vontade de aprender? Será que tudo seria diferente se os meios de comunicação social em geral, e a televisão em particular, fizessem um esforço de divulgação da investigação portuguesa nos campos da Matemática e da Física e das consequentes aplicações práticas dessa investigação?
Penso que estas questões também podem ser importantes para a discussão em causa.
ANS
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