04 setembro 2003
68 - MAIS AGRADECIMENTOS VI
Antes de mais, aqui ficam os meus agradecimentos ao Cristovão-de-Moura por voltar atrás nas suas promessas.
Agradeço as intervenções do Alfacinha, de Carlos Vaz Marques e de Jiminy Cricket na questão do sufrágio universal (ver post 65 do Carimbo) e de António Torres na questão do desemprego (ver post 66 do Carimbo).
Agradeço o elogio que Manuel Alçada faz ao nome que escolhi para o meu blog (O Carimbo). Até tenho vergonha de contar que este era, talvez, o décimo nome da lista. Os outros nove já estavam atribuídos.
Agradeço também os “pius” que O Pintainho dedica ao Carimbo.
Aproveito para agradecer também a alguns novos blogs que já incluíram O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados. São eles o Gatopardo (mais um gato para fazer companhia ao Fedorento), o Bugue, o Oliveira de Figueira (só tem um post publicado) e o Blogdemocracia (que é apenas uma semana mais novo do que O Carimbo). Agradeço também ao Inventário de Web Logs pela inclusão do Carimbo na secção dos “Fazedores de Palavras”, embora me pareça que essa é uma classificação lisonjeira para O Carimbo.
Finalmente aqui fica um agradecimento ao Grupo de Amigos de Olivença pelos e-mails que todos os dias enviam para O Carimbo. Peço-lhes apenas que abrandem o ritmo porque a conta hotmail do Carimbo tem pouca capacidade de armazenamento. Obrigado.
ANS
67 - OS PERIGOS DAS ANÁLISES SUPERFICIAIS II
No post anterior referi a necessidade de evitar as análises de âmbito geral e superficial. Apontei, como exemplo, a questão do desemprego. No entanto, existem outros exemplos onde este tipo de análises é frequente. É o que acontece com os acidentes rodoviários.
Fala-se constantemente do número de mortos e feridos na totalidade das estradas nacionais. As conclusões são sempre as mesmas. A culpa é sempre dos condutores que circulam ébrios ou em excesso de velocidade. De vez em quando, são apontadas algumas estradas perigosas. No entanto, todas estas explicações apresentam o mesmo defeito. Generalizam o que não deve ser generalizado.
Mesmo que muitos acidentes tenham sido provocados por condutores que beberam “em excesso”, que ultrapassaram o limite de velocidade estabelecido para a estrada em que circulavam ou que infringiram qualquer outra regra de trânsito, não se pode afirmar que a culpa é sempre dos condutores. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes comprovadamente provocados por excesso de álcool ou velocidade.
Mesmo que muitos acidentes tenham ocorrido em troços de estrada mal concebidos ou mal sinalizados, não se deve afirmar que há estradas perigosas (pois esta afirmação engloba a totalidade do traçado). Durante anos assisti a inúmeros acidentes na Estrada Nacional 125 e no Itinerário Complementar nº 1. Entretanto, foram construídas a Via do Infante e a Auto-Estrada do Sul (A2) e deixei de assistir à ocorrência de acidentes. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes ocorridos em estradas nacionais e em auto-estradas.
Mesmo que todos os veículos sejam submetidos a inspecções anuais obrigatórias, não se pode ignorar a possibilidade de os acidentes ocorrerem como consequência de falhas mecânicas dos automóveis. Se os acidentes aéreos podem ocorrer devido a problemas mecânicos ou electrónicos, porque razão serão os automóveis imunes a esse tipo de problemas? Que eu saiba, os aviões são inspeccionados várias vezes por ano e isso não elimina a probabilidade de acidente. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes com pesados, automóveis ou motociclos. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes envolvendo veículos sujeitos a inspecção há mais de seis meses.
Se os órgãos de comunicação social divulgassem este tipo de dados seria possível discutir a questão dos acidentes rodoviários com maior racionalidade, sem generalizações e sem demagogias como as que levaram à criação de “estradas com tolerância zero”. Os portugueses gostam de encarar as leis como simples indicações dos caminhos que devem ser seguidos, mas sem muito rigor porque há sempre uma larga margem de tolerância. As consequências desta atitude são o incumprimento do código da estrada e a evasão fiscal, entre outras. As autoridades não ajudam e criam estradas sem tolerância zero e perdões fiscais.
Já que menciono o código da estrada, lembro que há uma regra (que aprendi nos últimos anos de condução em Lisboa) que não está referida no código. De facto, se o condutor puder escolher entre estacionar o veículo numa zona com parquímetro ou numa zona de estacionamento proibido, deve optar pela última hipótese. Não pagará o estacionamento e não será multado. Os empregados da EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento de Lisboa), mesmo quando são polícias (fardados e, supostamente, em serviço) contratados por aquela empresa, não têm autoridade para multar os veículos estacionados em zonas proibidas. Isto é Portugal no seu melhor.
ANS
66 - OS PERIGOS DAS ANÁLISES SUPERFICIAIS I
O Faccioso, no post “Novamente o desemprego...”, parte do exposto no post 61 do Carimbo para tecer algumas considerações sobre o desemprego. Para o Faccioso, apesar do tão discutido aumento do desemprego, a oferta de emprego em Portugal ainda é considerável. No entanto, são os imigrantes (menos exigentes do que os desempregados portugueses) que acabam por ocupar os postos de trabalho disponíveis (e dignos).
Lembro que não gosto de generalizar e que acredito na existência de inúmeros casos de cidadãos nacionais que querem trabalhar, que estão disponíveis para qualquer trabalho (digno) e que, mesmo assim, não conseguem arranjar trabalho. São esses que merecem as pensões sociais, os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção.
Os outros desempregados, aqueles que não querem trabalhar (não são a maioria, mas também existem), devem, como recomenda o Faccioso, seguir o exemplo dos imigrantes que têm vindo para o nosso país.
Para que não me acusem de falta de humanidade para com os desempregados por afirmar que existe gente que não quer trabalhar, permitam-me que ilustre a minha posição com um pequeno exemplo (o qual não pretende ser generalizador).
Os meus pais possuem uma quinta no sul do país. Para a manutenção dessa quinta, com uma área de cerca de 10 hectares, foi necessário contratar um trabalhador a tempo inteiro. Durante alguns anos, os meus pais procuraram (sem sucesso) alguém que aceitasse aquele emprego, até que, há cerca de dois anos, apareceu um imigrante ucraniano a perguntar se podia trabalhar. Claro que podia. Esse imigrante conseguiu fugir à acção das "máfias" (que ainda tentaram controlá-lo) e agora (já completamente legalizado) tem casa (na quinta), alimentação e um ordenado superior a mais do dobro do ordenado mínimo nacional (o que equivale a vários salários médios ucranianos). A família deste imigrante (mulher, filha e neto) vive bastante bem, na Ucrânia, com o dinheiro que lhe é enviado todos os meses de Portugal e, daqui a um ano ou dois, virá para Portugal.
Será que este emprego não era suficientemente bom (e digno) para os desempregados portugueses?
Parece-me que não se deve falar do desemprego focando apenas o número total de desempregados inscritos no Instituto de Emprego e Formação Profissional. É muito importante que se diga à população qual a distribuição do desemprego por distritos, ou até por concelhos. A mobilidade das populações deve ser estimulada. Esta mobilidade não tem que estar sempre associada ao “êxodo rural”. Talvez tenha chegado a hora de estimular um “êxodo urbano”, para o que será necessário mostrar à população desempregada que existe trabalho à sua espera no interior do país.
ANS
65 - POSTS APAGADOS
Parece que Paulo Varela Gomes (PVG), do Cristovão-de-Moura, se arrependeu de ter considerado o tema do sufrágio universal “uma grande chatice” e de ter prometido declarar “uma verdadeira guerra” ao Carimbo. É assim que interpreto o facto de PVG ter apagado o post em que fazia essas afirmações. Para não parecer que ando a colocar palavras fictícias nos blogs dos outros, recomendo uma leitura do post “Voto” de Carlos Vaz Marques.
Se o leitor quiser seguir as discussões sobre o direito de voto, sobre o significado da abstenção e do voto em branco e, de uma forma mais geral, sobre as questões da cidadania, recomendo uma leitura do post “Breve incursão pelos blogs” do Ter Voz, onde encontrará várias hiperligações a outros blogs que têm vindo a discutir estes temas.
ANS
64 - O VÍCIO BLOGUÍSTICO
Já não blogo desde o dia 30 de Agosto. Hoje não resisti ao vício e aqui estou eu, pronto para publicar uma série de posts.
Estes posts devem ser encarados como uma espécie de terapia de grupo, na qual exponho o meu problema aos outros “blogoólicos” que fazem parte da ABA (Associação dos Blogoólicos Anónimos, vulgarmente conhecida por blogosfera). Como escreveu JPN do Complot, “admitir o problema é o primeiro passo para a cura”.
ANS
30 agosto 2003
63 - SUFRÁGIO UNIVERSAL II
Parece que o tema que abordei no post anterior é, para Paulo Varela Gomes (PVG), uma "grande chatice". Como não fui eu quem trouxe o tema para a blogosfera, espero que PVG esteja apenas a ser irónico. De qualquer modo, como O Carimbo não existe para "chatear" ninguém, lembro que PVG não é obrigado a responder ao meu post. Aliás, se a resposta de PVG constituir uma "declaração de guerra", então prefiro que PVG opte por não responder. Para mim, O Carimbo é apenas um meio fantástico para discutir com outras pessoas sobre temas que me interessam (uns mais, outros menos). No entanto, essas discussões têm de ser pacíficas porque O Carimbo é um dos meus passatempos e, como tal, tem de me deixar bem disposto.
Entretanto, o Alfacinha (post "Alternativa II") continua a achar que não existem "alternativas" para o problema focado no post anterior e, por essa razão, tenta "destruir" a proposta que fiz relativamente ao sistema eleitoral, o qual deveria prever a perda do direito de voto no caso dos eleitores que se abstivessem por duas vezes consecutivas (por exemplo).
O Alfacinha começa por referir que não descortina qualquer vantagem em retirar o direito de voto a quem já decidiu não votar. Insisto que o espectro da perda de um direito (qualquer um) é suficiente para que as pessoas se esforcem por mantê-lo. No post anterior, referi o caso das pessoas que não se interessam por política. Essas pessoas teriam duas possibilidades de escolha. Poderiam procurar informação para votar conscientemente ou poderiam assumir o seu desinteresse e prescindir do seu direito de voto, reduzindo dessa forma os cadernos eleitorais. No caso de uma acentuada diminuição do número de eleitores, a televisão poderia perder o interesse no espectáculo da política demagógica.
O Alfacinha chama a atenção para a necessidade de prever um sistema para justificar possíveis abstenções involuntárias. Eu não referi essa possibilidade porque penso que ela é totalmente desnecessária. Os actos eleitorais são programados com muita antecedência, pelo que existe tempo mais do que suficiente para que os eleitores possam activar os mecanismos necessários para poderem exercer o seu direito de voto, estejam eles (eleitores) doentes, ausentes do país ou numa outra situação limitativa.
O Alfacinha prevê, como consequência do sistema que eu proponho, a generalização do voto em branco (ou de algo semelhante). Concordo com o Alfacinha e com o Mar Salgado (post "Responsabilidade e Política III") no que se refere à impossibilidade de interpretação do significado do voto em branco. No entanto, ao contrário do que pensa o Alfacinha, julgo que o número de votos em branco não cresceria muito. Não há nenhuma razão para pensar que, num universo de eleitores mais largo, o número de votos em branco seria maior (em proporção) do que é actualmente. O Alfacinha parece acreditar que a maioria dos actuais abstencionistas continuaria a viver na ignorância política e, por esse motivo, apenas votaria (em branco) para não perder um direito adquirido. Talvez o Alfacinha tenha razão quando faz esta suposição. Porém, se essa situação se verificasse, a classe política teria de se comprometer a não atribuir qualquer significado ao voto em branco (agora sou eu quem está a ser demagogo) de modo a incutir um sentimento de estúpida inutilidade naqueles que tivessem optado por essa solução fácil.
Uma solução mais radical (a qual eu não defendo) poderia passar por aplicar a mesma penalização (perda do direito de voto) àqueles que votassem em branco (ou que optassem pelo voto nulo, por exemplo). Como é óbvio, esta solução implicaria o fim do voto secreto, o que seria muito perigoso e arriscado. Não me parece que as democracias estejam suficientemente maduras para um passo tão grande.
ANS
28 agosto 2003
62 - SUFRÁGIO UNIVERSAL
No post anterior referi o poder educativo da televisão. Paulo Varela Gomes (PVG) do Cristovão-de-Moura também refere este poder da televisão para justificar a sua oposição ao sufrágio universal.
De acordo com o que PVG escreveu nos posts da série “O meu avô” do Cristovão-de-Moura, “os homens não são iguais em direitos”, existindo “gente de qualidade” com “mais direitos do que gente sem qualidade”. Para PVG, os bens “de qualidade” devem estar ao alcance apenas de alguns de modo a garantir a manutenção da referida qualidade, a qual se perde quando há generalização do acesso a tais bens. PVG suaviza estas afirmações escrevendo que “precisamos de igualdade de direitos”, mas também precisamos “de diferenciação no acesso a esses direitos”.
Para particularizar estes conceitos gerais, PVG recorre ao direito ao voto. Este direito deveria ser diferenciado, existindo um voto “de qualidade” reservado a “gente de qualidade”, a qual poderia corresponder à população com o ensino secundário completo (pelo menos). Esta “gente de qualidade” teria a função de “interpretar, traduzir, filtrar e mediar a vontade popular”. O povo menos instruído também teria “direito ao voto”, mas a um voto menor e destinado apenas à escolha dos seus intérpretes instruídos. PVG julga que a maior vantagem deste sistema de “voto indirecto” seria aumentar o nível do debate político e impedir a actual “era de demagogia” e “estupidificação” política. Para PVG, esta situação decorre do “acesso universal aos espaços colectivos”, cujo símbolo de maior expressão é a televisão. Este meio de comunicação social funciona actualmente como suporte para “um contacto quase directo” “entre os eleitores (ou as massas populares) e os seus representantes” políticos, os quais são assim obrigados a “cortejar” a televisão enquanto “mundo do espectáculo” e “da cultura de massas”.
Embora não concorde com as soluções propostas por PVG, as quais me parecem totalmente anti-democráticas e discriminatórias, sou obrigado a aceitar a análise que faz da dependência do sistema político relativamente aos meios de comunicação social.
De acordo com PVG, a transformação da política num espectáculo mediático baseado na disputa demagógica de votos acaba, porém, por ter um efeito perverso que é a abstenção. Para PVG, a abstenção funciona como um “filtro” que “separa o povo da política”.
De facto, a abstenção traduz o afastamento da população relativamente à condução política do país. A abstenção é, como a própria palavra indica, uma renúncia ou uma privação. É comum, nas análises aos resultados eleitorais, atribuir à abstenção um significado de descontentamento com o estado da nação, com o governo em exercício ou com as alternativas políticas sujeitas a sufrágio. Para mim, estas análises são totalmente ficcionistas e, portanto, demagógicas. É por isso que me parece que PVG não tem razão quando interpreta a abstenção como o resultado de uma filtragem que separa o povo (em geral) da política mediática. No entanto, a teoria da filtragem pode funcionar para separar os eleitores interessados (em política) daquelas pessoas que, independentemente do seu nível de formação, da sua classe social, da sua idade e do seu sexo, não se interessam por política.
Recordo-me de uma campanha contra a abstenção que nos lembrava que o voto é, não só um direito, mas também um dever. Aplique-se esta máxima e retire-se o direito de voto àqueles que optarem sistematicamente (duas vezes seguidas, por exemplo) pela abstenção. Desta forma reduzem-se os cadernos eleitorais à população efectivamente interessada e, por isso, informada e capaz de entender um debate político de nível mais elevado. O que eu defendo é que todas as pessoas tenham, à partida, os mesmos direitos, sendo, no entanto, obrigadas a esforçar-se por mantê-los. Penso que uma solução deste género seria muito mais justa do que aquele sistema de “voto indirecto” que PVG propôs.
Esta forma de abordar o problema da representatividade política e da abstenção permite-me, por exemplo, introduzir uma questão que me incomodou bastante quando eu tinha quinze anos de idade. Nessa altura eu já me julgava capaz de votar com consciência mas não o podia fazer porque, em Portugal, tal como nos restantes países da União Europeia, só é permitido votar aos dezoito anos de idade. Actualmente, a Comissão Eleitoral do Reino Unido estuda a possibilidade de antecipação da idade mínima de voto para os dezasseis anos de idade. De acordo com alguns estudos já efectuados, tem-se verificado uma baixa participação eleitoral por parte da faixa etária situada entre os 18 e os 24 anos de idade. São mais os jovens entre os 15 e os 17 anos de idade (30 %) que se afirmam interessados em política do que os jovens entre os 18 e os 24 anos de idade. Penso que seria muito interessante dar o direito de voto aos jovens interessados e com uma palavra a dizer. Eles não desperdiçariam a oportunidade de serem “ouvidos” pois saberiam que a abstenção sistemática implicaria a perda definitiva do direito de voto.
Quanto à generalidade da população, julgo que o espectro da perda de um direito adquirido poderia funcionar como um estímulo para uma participação política mais activa e informada. Desta forma seria possível elevar o nível do debate político e, assim, aperfeiçoar o sistema democrático em que vivemos.
ANS
61 - SERÁ INTENCIONAL?
Este post tem dois objectivos principais. Um deles é lembrar o fim do Guerra e Pas e o outro é endereçar uma crítica ao Telejornal (da RTP). Nenhum destes temas é original na blogosfera, pelo que me sinto obrigado a comentar também os posts da série “Os blogues” do Bloguítica Nacional.
No primeiro post dessa série, Paulo Gorjão (a quem agradeço a resposta ao post “Que saudades da Guerra Fria” sobre a Coreia do Norte e o Japão) refere o seu descontentamento com a blogosfera. Segundo Paulo Gorjão, os bloggers (em geral) apenas comentam os temas que estão na moda. Parece-me, porém, que esta constatação não é inteiramente correcta. De facto, a maioria dos bloggers tem uma lista de blogs recomendados, os quais reflectem os temas que têm interesse para si (blogger) e para o seu blog. Os blogs que constam na tal lista de recomendações participam frequentemente em discussões entre si. Isto obriga os bloggers a debaterem o mesmo tema, investindo algum tempo e trabalho para fundamentar as suas opiniões (porque ninguém sabe tudo). Desta forma, sobra pouco tempo para discorrer sobre outros assuntos. No entanto, se observarmos com atenção, todos os bloggers têm uma particularidade que os distingue dos outros. Isto é, cada blogger tem um interesse particular sobre o qual raciocina ocasionalmente no respectivo blog. Cabe aos leitores evitar saltar por cima dos posts que fazem a diferença. Se estes posts mais raros interessarem ao leitor (o qual se presume não querer ler apenas generalidades), então é conveniente analisar as tais listas de recomendações em busca de outros blogs que se dediquem a tais particularidades. Somos assim conduzidos em direcção a outras sub-blogosferas, as quais podem ser muito diferentes daquela em que nos movimentamos. Esta é uma das razões que me leva a encarar com seriedade a minha lista de blogs recomendados.
Com base neste raciocínio, espero agora poder mencionar o fim do Guerra e Pas e também poder criticar o Telejornal (da RTP) sem correr o risco de ser incluído num qualquer rebanho conduzido pela “actualidade bloguística” ou pela actualidade referida na imprensa.
É verdade. O Guerra e Pas acabou. Acontece… a quase tudo. Espero que P. ainda volte à blogosfera e, por isso, manterei este blog na minha lista de recomendações
(na secção dos “Blogs a recordar”).
Nos últimos posts (168 a 170) do Guerra e Pas (com o título “Porque é que os nossos telejornais são tão compridos?”), P. critica o formato tablóide e a duração dos noticiários transmitidos pelas televisões. No Público de segunda-feira (dia 25 de Agosto), Eduardo Cintra Torres aponta críticas semelhantes. Também Fernando Ilharco, na mesma edição do Público, aponta algumas críticas aos noticiários televisivos.
Não quero “bater no ceguinho” mas julgo dever criticar a emissão de segunda-feira do Telejornal (da RTP). Sublinho o facto de me referir especificamente à emissão de segunda-feira e não ao formato do Telejornal (o qual já foi criticado por outros). Foi com surpresa que assisti à divulgação de uma notícia sobre o aumento do desemprego no mês de Julho logo seguida de uma notícia sobre o aumento da população residente no Alentejo como consequência da imigração.
A RTP citou as estimativas do Instituto Nacional de Estatística sobre o aumento do número de desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional de 414.145 no mês de Junho para 419.375 no mês de Julho, destacando o crescimento de 28,4 % relativamente a Julho de 2002 (o que corresponde à maior variação homóloga dos últimos dois anos). A notícia também destacou o facto de o desemprego ter aumentado durante o Verão (contrariando o frequente aumento da oferta de emprego que é sazonalmente motivado pelo turismo de Verão).
Logo a seguir, a RTP emitiu uma pequena reportagem sobre a imigração em Portugal. A frase de abertura da notícia foi: “E está a aumentar a população residente no Alentejo.”
A seguir, a notícia referiu que o aumento da população residente naquela zona do país (mais de 10.000 habitantes em 5 anos) se deve à imigração de cidadãos do Leste da Europa. Depois, para ilustrar a notícia, foi entrevistado um casal de ucranianos (originários de Kiev) já instalado, com emprego e com alguma qualidade de vida. No final da notícia, a RTP explica que afinal a população residente no Alentejo até tem diminuído (na última década deu-se uma redução de cerca de 15.400 habitantes) e que, por esse motivo, “quem vem de longe é bem-vindo”.
Penso que estas duas as notícias são interessantes e até importantes. Penso que qualquer pessoa de bom-senso evitará fazer uma associação do tipo causa-efeito (imigração-desemprego) entre estas notícias. Mas também penso que Portugal não é um país ideal, daqueles onde só habitam pessoas de bom-senso. Infelizmente, também vivem em Portugal, como em qualquer outro lugar, pessoas com pouca educação e com pouco sentido de tolerância. Quando estas pessoas vivem situações desesperadas de desemprego, o bom-senso desaparece imediatamente e qualquer pequeno pretexto serve para estimular preconceitos, ódios e injustos desejos de vingança.
Será que os responsáveis pelo Telejornal não conhecem esta triste realidade? Com certeza que a conhecem. É por isso que não percebo como é possível estruturar a apresentação das duas notícias em causa de uma forma tão insinuante (e perigosa). Será intencional? Haverá falta de notícias sobre a intolerância, a xenofobia e a discriminação? Será que é necessário estimular esse tipo de situações?
A resposta para estas três perguntas é, obviamente, negativa. No entanto, temos de chamar a atenção da RTP para este tipo de distracções. Todas as estações de televisão têm a obrigação de evitar a transmissão de mensagens (ainda que indirectas) que possam estimular a injustiça, a intolerância e a violência. A RTP, como estação obrigada a prestar serviço público, deve dar o exemplo nessa matéria. Não nos esqueçamos do efeito que a televisão (em geral) tem na educação da população.
ANS
60 – PUBLICIDADE
Recebi dois e-mails publicitários. Um do Perguntador (um blog na idade dos porquês) e outro do Ruim (um blog demasiado modesto).
ANS
59 - MAIS AGRADECIMENTOS V
Parece um paradoxo, mas é muito mais fácil acompanhar a blogosfera quando não se está de férias. No entanto, esta noite fiz um esforço e cá estou eu a “blogar”.
Foi com enorme satisfação que constatei que O Carimbo também já consta da lista de blogs recomendados pelo Assembleia, Epicurtas, Jaquinzinhos, Musana, Pintainho e Vastulec.
Agradeço também as simpáticas referências ao Carimbo que pude ler nos blogs A Origem do Amor, Assembleia, Epicurtas e Fumaças.
Segundo Miguel Nogueira, O Carimbo “voa” como um “bonito cuco”. Deve ser por isso que não percebo nenhum dos “pius” do Pintainho...
Finalmente, aproveito para agradecer os simpáticos e-mails enviados pelos blogs A Origem do Amor, Assembleia e Causa Liberal.
ANS
21 agosto 2003
58 - A SEGUNDA OPORTUNIDADE
Do muito que já foi escrito (e dito) sobre o atentado de anteontem ao quartel-general da ONU em Bagdad, subscrevo as mensagens de pesar pelo assassínio de vários funcionários da ONU e presto também uma homenagem póstuma (e obrigatória) a Sérgio Vieira de Mello. Faço-o, porém, sem esquecer as pessoas que, quase todos os dias, são alvo de outros atentados terroristas no Médio Oriente ou noutras partes no mundo. Também não me parece que este atentado tenha sido mais violento, estúpido e desumano do que qualquer outro ataque terrorista. No entanto, este atentado reveste-se de algumas características que devem ser debatidas.
Uma das particularidades do ataque ao quartel-general da ONU em Bagdad reside no facto de a explosão do camião-bomba ter sido filmada, o que nos forneceu uma imagem perturbadoramente realista da violência e crueldade deste tipo de ataques. Algo semelhante já tinha acontecido com os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. Estas imagens, apesar de serem sensacionalistas, podem ter a vantagem de humanizar o debate em torno dos ataques terroristas. Actualmente discutem-se as acções terroristas como jogos de futebol. Descreve-se o método utilizado para o assassínio de inocentes tal como se descrevem tácticas de futebol. Faz-se a contagem de mortos e feridos tal como se contam os golos marcados num jogo de futebol. Até as ameaças de ataques terroristas são encaradas com naturalidade, como se fossem simples ameaças de desforra num jogo de futebol. Quando lemos uma notícia sobre um ataque terrorista, facilmente nos esquecemos das pessoas que foram brutalmente assassinadas. Também nos esquecemos da obrigação de capturar esses assassinos e levá-los a julgamento como deverá acontecer com qualquer outro criminoso. Esta obrigação devia ser suficiente para justificar o apoio mundial à intervenção militar no Médio Oriente. Mas parece que não é, ou não foi.
Outra particularidade deste ataque reside no facto de o alvo ter sido a ONU, que é a organização que representa todas as nações do mundo. Por este motivo, este atentado foi violenta e unanimemente criticado e chorado no mundo inteiro. Os atentados de 11 de Setembro de 2001 provocaram o mesmo efeito, embora por razões diferentes (muito mais ligadas à dimensão e brutalidade dos ataques). Recordo que após o “11 de Setembro”, muitos afirmaram que aqueles ataques tinham sido perpetrados contra o mundo ocidental e não apenas contra os EUA. Como consequência, o mundo uniu-se em torno dos EUA na sua luta (justa e necessária) contra o terrorismo e formou-se uma vasta coligação de forças para a intervenção militar no Afeganistão e para as consequentes acções de manutenção de paz e reconstrução do país. Infelizmente, a unanimidade no apoio à guerra contra o terrorismo desapareceu quando foi proposta à ONU uma intervenção militar no Iraque. Será que hoje ainda há quem pense ser possível eliminar o problema do terrorismo sem desenvolver o Médio Oriente em termos económicos e humanos? Será que hoje ainda há quem pense ser possível desenvolver o Médio Oriente mantendo os regimes ditatoriais que lá existem? Será que hoje ainda há quem acredite na possibilidade de ocorrência de levantamentos populares que possam levar à introdução de verdadeiras democracias naquela região do globo?
Houve muita desinformação relativamente às motivações americanas para a intervenção militar no Iraque e, por essa razão, nunca se discutiu convenientemente a necessidade de estabilização do Médio Oriente e de aplicação do Roteiro para a Paz. Penso que os EUA e o Reino Unido cometeram um erro enorme ao utilizarem exclusivamente as armas de destruição maciça iraquianas para justificar a intervenção militar naquele país, embora este fosse um argumento válido e, aparentemente, mais fácil por já existirem resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o problema. Relembro que a desinformação foi muito grande, mas mesmo assim poderia ter sido possível manter a unanimidade no apoio à intervenção militar no Iraque (com a autorização da ONU). Porque não se tentou, simplesmente, condicionar a estabilização do Médio Oriente e a aplicação do Roteiro para a Paz à eliminação dos regimes de Saddam Hussein e de outros? Isto teria sido possível através da utilização de um dos argumentos que mais se ouve dos oposicionistas à intervenção militar no Iraque, o qual se refere à necessidade de combater o terrorismo nas suas fontes (pobreza generalizada, restrições no acesso à informação e à educação, existência de minorias favorecidas pelos regimes autoritários, os quais promovem a propaganda anti-ocidental).
O ataque terrorista de anteontem ao quartel-general da ONU foi dirigido a uma organização que tinha uma missão humanitária fundamental, distribuindo comida e prestando assistência médica, entre outras ajudas. Não se pode compreender este ataque quando os iraquianos aparecem todos os dias a criticar a manifesta incapacidade das forças de manutenção de paz na reconstrução do país e na criação de condições mínimas de sobrevivência das populações. Seguindo o raciocínio daqueles que afirmaram que o “11 de Setembro” foi um ataque dirigido a todo o mundo ocidental, então o ataque de anteontem terá sido dirigido ao mundo inteiro, incluindo os países que condenaram a intervenção militar no Iraque. A quem é que isto serve? Não é, com certeza, à população iraquiana. Isto serve a outros países do Médio Oriente com interesses num Iraque destruído e abandonado. Se isto acontecesse, esses países poderiam promover o regresso de Saddam Hussein ou de um outro ditador, poderiam patrocinar uma guerra civil no território ou poderiam tentar conquistar directamente o território disponível. Isto serve aos interessados num Médio Oriente explosivo, com uma população extremamente pobre e sem educação, para a qual o fundamentalismo religioso é o escape psicológico mais óbvio. A julgar por algumas declarações idiotas e irresponsáveis que já ouvi, mesmo aqui em Portugal, estes grupos organizados (e obviamente patrocinados por governos de outros países do Médio Oriente) estavam certos se pensaram que um ataque à ONU poderia gerar uma onda de manifestações clamando o abandono do Iraque pelas forças de manutenção de paz lideradas pela coligação anglo-americana. No entanto, talvez o tiro lhes tenha saído pela culatra.
Eu tenho uma atitude positiva sobre o sucedido e acredito que, agora que foi recuperado o espírito do pós “11 de Setembro”, estão criadas as condições para reunir um apoio consensual em torno da formação de uma vasta coligação (a nível mundial) de forças de manutenção de paz que deverão actuar no Iraque sob a égide das Nações Unidas. O atentado às instalações da ONU em Bagdad vem devolver importância a esta organização e vem lembrar que o terrorismo é um problema de todos nós, o qual tem de ser combatido por todos. Os EUA e o Reino Unido não desperdiçarão esta oportunidade de responsabilização do resto do mundo.
Sinto orgulho num governo português que, desde o início, percebeu que não podia deixar de apoiar incondicionalmente os EUA e o Reino Unido no combate ao terrorismo. Utilizando uma linguagem que a esquerda nacional domina bem, sinto orgulho num governo português que percebeu que Saddam Hussein e o seu regime formavam um tumor com várias metástases (outros regimes autoritários do Médio Oriente). A cura requeria (e requer) a extirpação através de várias intervenções cirúrgicas (acções militares) seguidas de uma recuperação do corpo do doente (Médio Oriente) com recurso a tratamentos que abrangem várias especialidades (empenhamento político e económico de todos os países do mundo, representados pela ONU).
Se o “11 de Setembro” obrigou a administração americana a empenhar-se num Roteiro para a Paz no Médio Oriente, então o ataque terrorista à ONU irá obrigar o mundo inteiro ao mesmo empenho. O anti-americanismo ganhou adeptos nos últimos tempos à custa de slogans demagógicos que exploravam a sensibilidade das pessoas às questões de carácter humanitário. Chegou a hora de mostrarem que acreditam realmente nesses slogans. E despachem-se porque convém resolver o problema do Médio Oriente antes que África se torne a principal fonte de terrorismo mundial.
ANS
20 agosto 2003
57 - QUE SAUDADES DA GUERRA FRIA
No post “Os EUA, o Japão e a Coreia do Norte” do Bloguítica Internacional, é comentado um artigo de opinião do presidente da Academia de Defesa Nacional japonesa, publicado no Washington Post. De acordo com o Bloguítica Internacional, os EUA acabarão, mais tarde ou mais cedo, por aceitar parte das reivindicações norte-coreanas (assinando um pacto de não-agressão). Esta situação tem dado origem, no Japão, a naturais receios face a uma perda de capacidade defensiva (motivada por uma redução drástica do contingente de tropas norte-americanas na Coreia do Sul e no Japão) relativamente a uma Coreia do Norte que possui armas químicas e bacteriológicas e um programa nuclear (nada fáceis de controlar através de um qualquer regime de inspecções).
Estes receios têm provocado um afastamento do pacifismo que, durante décadas, dominou as opções do Governo japonês relativamente à Defesa. De acordo com The Daily Telegraph, o Japão possui neste momento 240.000 soldados integrados em forças de defesa. A única função destas forças militares é a defesa do território japonês. No entanto, estas forças já foram autorizadas a participar em acções de manutenção de paz no Cambodja (em 1992), a fornecer apoio logístico aos aliados no Afeganistão (em 2001) e a participar (actualmente) na reconstrução do Iraque. A constitucionalidade destas missões é discutível. Ainda durante este ano, terá início um programa de treinos para tropas especializadas no combate urbano, em acções de guerrilha e na resposta ao terrorismo (incluindo ataques com armas químicas). Dentro de três anos, deverá ser formada uma unidade de comandos de elite composta por cinco a seis mil soldados. A Marinha japonesa planeia a construção de dois navios que podem ser rapidamente convertidos em porta-aviões permitindo a utilização da aviação em ataques preventivos fora do seu território.
Embora as memórias da devastação provocada pelos ataques de Hiroshima e Nagasaki ainda estejam bem presentes na opinião pública japonesa, o número de apoiantes de um programa de nuclear japonês (um tema tabu até há bem pouco tempo) tem vindo a aumentar. São já várias as figuras políticas que defendem esta opção, entre as quais se destaca Shingo Nishimura. Em 1999, este político sugeriu a aquisição de armas nucleares e, por esse motivo, foi obrigado a demitir-se da posição de destaque que ocupava no Ministério da Defesa. Actualmente, Shingo Nishimura é regularmente convidado para debater o programa nuclear japonês em programas televisivos.
Parece que o Japão aposta no equilíbrio de forças para lidar com a ameaça norte-coreana, recriando uma espécie de “Guerra Fria” a nível regional. O problema é que, infelizmente, o equilíbrio de forças só será eficaz enquanto a ameaça norte-coreana não incluir o terrorismo. É esta a lição do Médio Oriente.
ANS
56 - NOTÍCIA FICTÍCIA II
Há uns meses atrás, Rudolph Giuliani sugeriu a realização do primeiro Dia Mundial Sem Energia. O “ex-Mayor” de Nova Iorque inspirou-se no actual modelo do Dia Europeu Sem Carros (DESC). Rudolph Giuliani ficou fascinado com a melhoria ambiental que se tem verificado na Europa desde a primeira realização do DESC em Setembro de 2000. De acordo com vários autarcas europeus, o DESC tem contribuído de uma forma espantosa para o cumprimento dos objectivos do Protocolo de Quioto. Rudolph Giuliani confessou estar farto de ouvir comentários negativos sobre a atitude dos EUA face às questões ambientais, pelo que sugeriu uma forma eficaz de cumprir o Protocolo de Quioto.
O actual “Mayor” de Nova Iorque (Michael R. Bloomberg) e outros autarcas dos EUA e Canadá gostaram tanto da ideia de Giuliani que resolveram testar a sua aplicação, sem aviso prévio, na passada quinta-feira. Este teste foi um estrondoso sucesso e, por esse motivo, a data de 14 de Agosto está agora reservada para a realização anual do Dia Mundial Sem Energia. Este evento conta já com a participação de mais de cem países, nos quais serão provocados “blackouts” (ou “apagões”) entre as sete horas da manhã e as dez horas da noite.
Entretanto, em Portugal (um dos primeiros países a aderir à medida) já se ouvem vozes esclarecidas a sugerir a alteração do DESC de 20 de Setembro para 14 de Agosto.
ANS
18 agosto 2003
55 - SEGUROS DE VIDA
Na coluna de opinião que mencionei no post anterior, Mário Soares refere-se também ao clima de caos e insegurança que se vive “no triângulo sunita de Bagdad, Faluja e Baaquba”. Quando li isto, lembrei-me (outra vez!) da edição de sábado (9 de Agosto) do The Daily Telegraph, na qual se podia ler que os chefes tribais da cidade de Faluja (que se situa cerca de 100 quilómetros a oeste de Bagdad) se comprometeram a controlar a população no sentido de terminar com as pilhagens e com os ataques (com mísseis e granadas) às tropas americanas (e aliadas) instaladas na região. Como retribuição do favor, as tropas americanas prometeram a instalação de geradores capazes de fornecer energia a toda a cidade, a redução do número de postos de controlo, a transferência de mais poderes para a polícia local e a redução do número de rusgas, as quais passarão a ser efectuadas com mais respeito pelos suspeitos.
Parece justo e suficiente? Julgo que sim, mas existem mais contrapartidas. Se um iraquiano for ferido “por engano”, deverá receber 500 dólares, mas se o engano for maior e o infeliz morrer, então a sua família deverá receber 2.000 dólares.
Acredito que estas indemnizações possam convencer os iraquianos das boas intenções das tropas americanas e aliadas. A confiança é fundamental para a paz na região. No entanto, a avaliação do custo de uma vida humana sempre me incomodou. Fico sempre deprimido com apólices de seguro que envolvam a possibilidade de morte do titular. Em tempo de guerra não se pode evitar falar em “danos colaterais”, o que implica assumir que a perda de vidas inocentes será o preço a pagar pela obtenção de um futuro melhor para a maioria sobrevivente. Este discurso apresenta uma dureza implacável, mas é a única forma de ultrapassar os conflitos morais pelos quais passam aqueles que têm de iniciar uma guerra que pode ser um caminho para a paz. O problema é que, no Iraque, a guerra já acabou. Ou será que não? O objectivo das tropas americanas (e aliadas) no Iraque é, neste momento, a manutenção da paz possível. Ou será que não? Assim, as contrapartidas financeiras a pagar pela morte inadvertida de um iraquiano só podem ser entendidas como seguros de vida.
O valor seguro (menos de 2.000 euros) pode representar uma elevada maquia no Iraque de hoje, mas, a julgar pelo que aconteceu no Afeganistão (em Cabul já existem bairros onde as casas são mais caras do que no Reino Unido), não faltará muito para que essa indemnização passe a valer pouco. Será que os iraquianos (aqueles que forem inocentes) que vierem a morrer em “tempo de manutenção de paz” serão recordados pelas suas famílias como heróis que morreram para garantir um futuro melhor ao país? Ou serão recordados como alguém que morreu num acidente que, por acaso, estava coberto por um seguro muito mau.
Só espero que isto não venha a ser aproveitado por grupos fundamentalistas para simularem acidentes mortais. É que, mesmo para um terrorista suicida, valem mais os 2.000 dólares de indemnização (aos quais a sua família poderá ter direito) pagos pela administração americana do que a “protecção” divina que Alá concede aos familiares dos “mártires”.
ANS
54 - VIVA A NATUREZA
Na sua coluna de opinião no Expresso, Mário Soares refere, a propósito da atribuição à NATO do comando das forças de segurança no Afeganistão, que este país é o maior produtor mundial de ópio. Com esta afirmação, Mário Soares pretendia ilustrar o “vespeiro” que é o actual Afeganistão. Quando li isto, lembrei-me imediatamente de um artigo sobre Marrocos, o qual foi publicado há oito dias atrás no The Daily Telegraph (DT).
Eu já sabia que Marrocos era um grande produtor de haxixe (70 % do haxixe consumido na Europa vem de Marrocos), mas nunca imaginei que este país fosse o maior exportador mundial desta droga. Foi através do DT que tomei conhecimento deste facto. De acordo com a notícia do DT, a produção de haxixe na região norte de Marrocos representa um negócio de cerca de 1.450 milhões de euros anuais. Este valor corresponde a cerca de 4 % do PIB de Marrocos e a cerca de 25 % da contribuição do sector da agricultura para o PIB do país.
Até ao momento, as autoridades marroquinas têm fechado os olhos à situação. Mas agora que existem indícios de que o terrorismo islâmico no território tem sido financiado através do negócio do haxixe, o laxismo das autoridades poderá acabar. No entanto, a sua tarefa não será nada fácil. Como “limpar” uma área de cerca de 240.000 hectares de cultivo de Cânhamo-da-Índia? Como convencer a população do norte de Marrocos a optar por produtos de agro-pecuária legais, os quais implicam uma perda de rendimento muito acentuada?
A corrupção é também um difícil obstáculo. A notícia do DT dá-nos um exemplo brilhante desta dificuldade: o jornalista Isambard Wilkinson encontrava-se em Tieta Ketama a recolher elementos para o seu artigo quando foi “convidado” pela polícia local a abandonar a localidade. Para os “agentes da autoridade”, é falso que existam máfias da droga na região e os campos de Cânhamo-da-Índia que por ali proliferam não são mais do que manifestações da natureza!
É caso para perguntar se Marrocos não será também um vespeiro (natural)?
ANS
53 - MAIS AGRADECIMENTOS IV
As minhas férias têm-me mantido mais afastado da blogosfera do que eu desejaria e, por esse motivo, vários agradecimentos (devidos pelo Carimbo) têm sido sucessivamente adiados. Este atraso, além de ser extremamente indelicado da minha parte, provocou uma acumulação dos blogs à espera dos merecidos agradecimentos do Carimbo. Peço, desde já, que me desculpem pela demora.
Muitos dos agradecimentos em dívida referem-se a blogs que passaram a incluir O Carimbo na sua lista de recomendações. Entre esses blogs contam-se o Amostra de Arquitectura, o Bloguítica Internacional, o Bloguítica Nacional, o Faccioso, o Follow The White Rabbit, o blog A Origem do Amor e o The Serendipitous Cacophonies. Ao Amostra de Arquitectura agradeço ainda a transcrição que faz de parte do post “Comboios”. Ao Bloguítica Nacional tenho de agradecer a simpática referência que faz ao Carimbo. Também agradeço ao Follow The White Rabbit por aquele que é, sem dúvida, o melhor elogio que já foi feito ao Carimbo. Meu caro Hugo Medeiros, muito obrigado pela comparação que faz, a qual me deixa muito orgulhoso. No entanto, já fico muito contente se O Carimbo for visitado regularmente por algumas dezenas de leitores e nem sequer tenho a ambição de chegar aos calcanhares de um Aviz ou de um Abrupto.
Já que menciono elogios ao Carimbo, aproveito para agradecer ao Catalaxia por considerar o post “Ainda o General Silva Viegas” como uma “boa posta”. Também não posso esquecer a simpática referência que O Complot faz ao Carimbo.
Agradeço ainda a forma cordial como o Liberdade de Expressão, o Causa Liberal, o Adufe, o Alfacinha e o Mata-Mouros têm conduzido as suas discussões com o Carimbo.
Finalmente agradeço os simpáticos e-mails enviados pelo Alfacinha, Bloguítica Nacional, Causidicus, Catalaxia, O Comprometido Espectador, Contra a Corrente, Conversa da Teta, Faccioso, Follow The White Rabbit, O Complot e O País Relativo, além de outros blogs já referidos em posts anteriores. Agradeço especialmente o e-mail com recomendações técnicas (as quais ainda não experimentei aplicar) enviado pelo 1ª Experiência.
Espero não me ter esquecido de ninguém.
ANS
15 agosto 2003
52 - ESCLARECIMENTOS
Esta interrupção temporária do Carimbo, motivada pelo início das minhas férias, impediu que pudesse responder na altura devida a alguns blogs com os quais O Carimbo vinha mantendo animadas discussões.
Entre esses blogs contam-se o Adufe e o Alfacinha, com os quais O Carimbo vinha discutindo a questão da demissão do General Silva Viegas. Também o Liberdade de Expressão e o Causa Liberal merecem uma resposta relativamente à questão dos incêndios. Finalmente, penso que devo uma explicação ao Mata-Mouros relativamente a uma questão envolvendo os estádios para o Euro 2004.
Começo pela questão da demissão do General Silva Viegas (GSV).
Rui Branco (RB), do Adufe, escreve no post “Em defesa do presidente de todos os portugueses II” que os oito ex-Chefe de Estado-Maior do Exército que se reuniram para discutir a política de defesa tinham todo o direito de o fazer por serem, porventura, os cidadãos mais competentes para analisar a matéria em causa. Ainda segundo RB, o facto de os ex-CEME serem oficiais na reserva apenas lhes confere o direito de discutir o tema (ao mais elevado nível) com a mesma liberdade de qualquer cidadão (livre das restrições inerentes à carreira militar). RB escreve ainda que eu aparento concordar com a desculpa apresentada pelo GSV para evitar revelar à opinião pública os verdadeiros motivos da sua demissão. Penso que RB interpretou mal as minhas palavras. Eu apenas quis mostrar que os ex-CEME não podem ser tudo o que lhes apetece conforme as conveniências de cada momento. Se eles querem ser vistos como cidadãos atentos à condução da política de defesa devem fazê-lo de um modo coerente com o regime democrático. Podem, por exemplo, promover debates políticos (e públicos!) que beneficiem do seu conhecimento especializado na matéria. Em vez disto, o GSV decidiu que não podia revelar publicamente as razões da sua demissão (embora eu pense que o deveria ter feito) e preferiu manter um diálogo secreto com outros ex-CEME. Parece-me a mim (e talvez seja teimosia, que é um defeito que muitos me apontam) que essa não foi a forma correcta de proceder democraticamente. Insisto no facto de que o jantar dos ex-CEME funcionou muito “bem” numa altura em que a palavra “desconfiança” estava na ordem do dia.
Quanto ao Presidente da República (PR), Rui Branco volta a insistir na sua autoridade moral para criticar o Ministro da Defesa e o Governo. Eu nunca contestei tal autoridade moral. Acho que as críticas do PR são muito bem-vindas sempre que forem justas e, neste caso, os militares têm alguma razão. O que eu contesto são os elogios do PR ao GSV, ignorando por completo a forma como o ex-CEME conduziu o seu processo de demissão. Não sou o único que pensa assim e recorro às palavras de António Ribeiro Ferreira para reforçar as minhas ideias: “Mas se Sampaio se esqueceu de condenar a atitude de Silva Viegas, espera-se que não cometa o erro supremo de condecorar o infractor”.
O Alfacinha também contribuiu para esta discussão e salientou as responsabilidades de Paulo Portas (PP) no sucedido. Segundo o Alfacinha, tal situação era de esperar pois PP é um charlatão populista e gerador de conflitos. Apreciei a profundidade do Alfacinha quando afirma que cada um destes conflitos, “isoladamente”, não justifica que o comportamento de PP seja considerado insuportável. No entanto, ainda segundo o Alfacinha, o conjunto de conflitos gerados por PP já o justifica. É curioso que o GSV tenha dito exactamente a mesma coisa. Para o Alfacinha, o comportamento insuportável de PP justifica as afirmações (paternalistas?) de Mário Soares e conduzirá certamente a grandes dificuldades na implementação das medidas reformistas do actual governo. Eu não nego o carácter evidentemente populista de PP assim como não nego a sua aptidão para a criação de conflitos. Já antes o escrevi. Mas também não me parece difícil constatar que uma personagem assim, com tantos “inimigos” (em todos os quadrantes políticos), terá sempre enormes dificuldades em representar qualquer Ministério. Também não me parece difícil constatar que o Governo só pode vincar o seu tímido carácter reformista se possuir maioria absoluta na Assembleia da República. Também não me parece difícil constatar que a oposição anseia por enfrentar um Governo de maioria relativa, para o que será necessário afastar o PP (leia-se a sigla como se quiser). Também não me parece difícil constatar que existe, hoje em dia, algum desespero na oposição face à sua impotência (até ao momento) para atingir este objectivo. Só espero que este desespero não dê origem a mais afirmações “paternalistas”. Tal como o Alfacinha, eu também gosto de poder mostrar as minhas divergências de uma forma cordial e respeitadora das opiniões dos outros. Acredito que quem procede dessa forma na blogosfera também o faz na vida quotidiana. Será que Mário Soares procedeu desta forma?
Quanto à questão dos incêndios, tenho de agradecer a longa resposta (post “Um resumo e uma resposta ao Carimbo”) de João Miranda (JM) do Liberdade de Expressão. Concordo (como já antes concordava) com a maior parte do que é referido nesse resumo, mas ainda existem algumas divergências. Focarei aqui apenas os pontos dos quais discordo, para o que adoptarei a numeração utilizada por JM.
Ponto 31 – “A função do Estado deve ser a de proteger as pessoas umas das outras. O Estado não tem" de "proteger as pessoas de si próprias ou dos problemas da vida.” Concordo mas creio que esta é uma abordagem um pouco redutora das funções do Estado em matéria de incêndios. O Estado também deve promover o ordenamento do território (o que não constitui necessariamente uma atitude dirigista) tendo em conta a utilização sustentável do solo. Este aspecto é importantíssimo para todos nós (pois é também uma questão de defesa... ambiental) e não me parece que seja automaticamente considerado pelos mercados. O associativismo de pequenos proprietários é, de facto, fundamental para uma produção economicamente viável de qualquer produto agro-florestal. Mas, numa lógica de mercado, as associações de produtores tenderão a fornecer ao mercado o que este procura, independentemente das aptidões naturais do solo. JM procura rebater esta noção nos posts “O Ambientalista Liberal I e II”. Para JM, o Estado já deu provas de ser muito influenciável pela obtenção de resultados de curto prazo. As empresas, pelo contrário, podem ter objectivos de longo prazo que contemplem uma utilização sustentável dos solos. Gostaria muito de poder concordar mas, infelizmente, não posso. Tenho que chamar a atenção de JM para o facto de estarmos em Portugal. Neste país, são inúmeros os exemplos de pequenas e médias empresas que nascem mostrando qualidade, inovação e competência na exploração de nichos de mercado. O problema é que, embora essas empresas atinjam rapidamente um razoável volume de negócios com alguns lucros no curto prazo, a qualidade e a capacidade de inovação desaparecem imediatamente. Estas empresas destroem-se a si próprias e nem sequer se apercebem disso. Será só incompetência ou será que o lucro rápido fala sempre mais alto?
Ponto 34 – “30 % dos incêndios são causados por criminosos mas não são acções de criminalidade organizada”. Esta é outra interpretação possível e, sem dúvida, mais imparcial da notícia do Público.
Ponto 37 – JM afirma que não conhece formas de garantir serviços de combate a incêndios exclusivamente privados e acrescenta que esse é um problema dos proprietários. O blog Causa Liberal realizou uma pesquisa e sugere o seguinte site de uma empresa norte-americana de combate a fogos (mas não a fogos florestais). Agradeço a informação e fico contente por saber que existe mercado para empresas desse tipo. No entanto, também em Portugal actuam empresas de combate a incêndios. Veja-se por exemplo o caso das empresas proprietárias de alguns aerotanques que têm sido utilizados no combate aos actuais incêndios. Não se pode afirmar que estes aerotanques tenham sido muito eficientes. O problema é que, sem uma boa prevenção passiva e activa, os fogos deflagram e alastram rapidamente. Nestas alturas, os serviços de bombeiros (privados ou não), ainda que possuam a qualificação necessária para o combate a fogos florestais, ficam em sérias dificuldades. É por isso que concordo com JM quando ele afirma no ponto 32 que “o Estado deve penalizar os proprietários que representam uma ameaça à segurança pública”, ou seja, “aqueles que possuem propriedades que são verdadeiras bombas-relógio”. O produto dessas coimas deveria reverter a favor dos bombeiros. Acho muito bem que os proprietários possam optar por serviços de prevenção, monitorização e combate privados (desde que beneficiem da consequente redução de impostos) ou por serviços de prevenção e monitorização privados e por serviços de combate públicos. No entanto, tal não significa que o Estado se negue a possuir um Serviço de Bombeiros apto para o combate a fogos florestais. Se tal acontecesse, então também os fogos urbanos deveriam ser combatidos apenas por empresas privadas. Deve haver alguma coerência.
Ponto 42 – JM afirma que eu pareço “acreditar que é possível planear com antecedência todas as soluções para os problemas florestais e que uma autoridade central, depois de recolher todas as ideias e todas as opiniões, pode dizer a todos os agentes o que devem fazer”. Não posso concordar. O que eu escrevi foi que o Estado deve promover o planeamento do território em termos de utilização sustentável do solo. Nas zonas em que a floresta for recomendável, os proprietários deverão seguir os meios que entenderem ser apropriados para optimizar a produção (o associativismo seria uma solução). Ao mesmo tempo, os produtores devem ser totalmente responsáveis pela segurança contra incêndios das suas propriedades e devem ser penalizados, pelo Estado, se não o fizerem. Os proprietários devem ter liberdade na escolha dos serviços de combate a incêndios, os quais poderão ser privados ou públicos. A única grande divergência que tenho com JM prende-se com a existência de serviços de bombeiros e protecção civil controlados pelo Estado. Eu acho que eles devem continuar a existir nos moldes actuais. Isto é, devem garantir: o combate a incêndios (em qualquer ambiente); o socorro às populações em caso de incêndios, inundações, desabamentos, abalroamentos e em todos os acidentes, catástrofes ou calamidades; o socorro a náufragos e buscas subaquáticas; o socorro e transporte de sinistrados e doentes, incluindo a urgência pré-hospitalar; e o exercício de actividades de formação cívica. Penso ainda que o Governo deverá estudar a melhor forma de coordenar estes serviços. A necessidade de uma voz de comando (central), que é evidente numa situação de calamidade nacional, não deve retirar capacidade de descentralização aos serviços de bombeiros e protecção civil. Tal como afirma JM, não se deve “desprezar o know-how das populações locais”. Só posso subscrever esta afirmação.
Para terminar a sessão de esclarecimentos falta focar a tal questão relacionada com os estádios de futebol para o Euro 2004. No post “Euro 2004” do Mata-Mouros, CL tenta provar que se o Governo não tivesse investido na realização do Campeonato Europeu de Futebol então já teria sido possível investir na prevenção de incêndios florestais. Esta prova baseia-se no facto de existirem três estádios (dos quais destaco o Estádio Municipal de Braga e o Estádio do Algarve) que poderão não ser utilizados pela UEFA no Euro 2004.
De acordo com a notícia referida pelo Mata-Mouros, a UEFA justifica esta redução do número de estádios a utilizar durante o Euro 2004 com uma poupança de cinco milhões de euros por estádio e, no que se refere ao caso particular do Estádio do Algarve, com uma preferência pela concentração geográfica. Se estes estádios vierem efectivamente a ser excluídos do Euro 2004 (sem compensações), então o Estado terá gasto (directa ou indirectamente) cerca de cem milhões de euros que não terão retorno motivado pelo Campeonato Europeu de Futebol. Porém, não acredito que a UEFA falte aos compromissos assumidos por via contratual com as autarquias. A não ser que estas não cumpram o que está estipulado nesses contratos, nomeadamente em termos de prazos de conclusão das obras. Penso que as ameaças da UEFA devem ser entendidas como uma recomendação mais séria às autarquias que são proprietárias dos estádios em causa para que cumpram os prazos estabelecidos. Lembro que o Estádio Municipal de Braga tem um atraso de mais de dez semanas. No Estádio do Algarve o atraso é bem menor, assim como a derrapagem dos custos, o que dá boas garantias às autarquias interessadas. Se o Estádio do Algarve estiver pronto dentro do prazo contratado e, mesmo assim, não for incluído no Euro 2004, então as Câmaras de Faro e Loulé deverão ter direito a compensações por parte da UEFA.
De qualquer forma, mesmo que a UEFA pudesse, pura e simplesmente, ignorar estes dois estádios, não me parece que possamos afirmar que se o Estado não os tivesse construído, então teria utilizado o dinheiro para investir na prevenção e combate de incêndios florestais. Todos sabemos que o desinvestimento que efectivamente aconteceu nesta área não teria sido evitado. É preciso ter muita fé para acreditar que aqueles cem milhões de euros do III Quadro Comunitário de Apoio teriam sido deslocados, na sua globalidade, para a Medida 3 (Desenvolvimento Sustentável da Floresta) do Plano Operacional da Agricultura e Desenvolvimento Rural, por exemplo.
ANS
51 - BLOGO, LOGO EXISTO
Só tomei conhecimento da blogosfera há cerca de um mês. Como já tive oportunidade de explicar, o meu primeiro contacto com esta palavra e com o seu significado surgiu na sequência de uma reportagem da Visão. Esta reportagem não nos revela a totalidade do mundo dos blogs mas consegue mostrar-nos um mundo no qual convivem muito mais do que meia dúzia de blogs mediáticos.
Infelizmente, o artigo (com o título deste post) publicado no Diário de Notícias (DN) no passado dia 10, embora se refira a “ilustres anónimos”, não consegue transmitir esta ideia de pluralidade. Este artigo dá-nos, como escreve o Mata-Mouros, uma imagem bastante redutora da blogosfera.
Quero deixar bem claro que esta crítica não pretende retirar mérito aos blogs referidos no artigo do DN. Não se trata disso. Aqueles blogs são dignos do destaque que lhes é dado porque são, de facto, muito bons e, por isso, merecem ser lidos pelo maior número possível de pessoas. O que eu critico no artigo do DN é a omissão (por esquecimento?) do restante universo de quase 2000 blogs.
No fundo, é este enorme conjunto de blogs que dá vida à entidade à qual chamamos blogosfera. Talvez se possa dizer que cada blog que é actualizado, a qualquer hora do dia, contribui para alimentar e, consequentemente, manter viva a blogosfera. Não me parece ser possível falar da blogosfera sem referir, por exemplo, a sua dimensão, o que motiva a maioria dos bloggers e as formas de interacção entre blogs. Estas questões parecem ser esquecidas pelo artigo do DN e, por esse motivo, alguns habitantes da blogosfera poderão sentir que, embora blogando, (ainda) não “existem”.
Já agora, José Pacheco Pereira e o seu Abrupto são referidos por duas vezes, no Independente desta semana, a propósito da candidatura de Leonor Beleza às eleições europeias do próximo ano. Será que os blogs se identificam totalmente com os seus autores? Será que os blogs podem ser considerados como o meio ideal para divulgar as declarações “oficiais” dos seus autores? Será que a comunicação social pode agora substituir entrevistas por simples leituras de blogs?
É também por causa destas dúvidas que mantenho o anonimato.
ANS
50 - COMBOIOS
Como escrevi no post anterior, no passado domingo (dia 10) viajei, mais uma vez, de Liverpool para Lisboa.
Como é habitual, saí de casa já um pouco atrasado e, por isso, tive de correr até à estação de Lime Street para apanhar o comboio que me iria levar até Manchester. Para não variar, o comboio também estava atrasado. É verdade. A famosa pontualidade britânica também deve ter acompanhado o British Rail no seu desaparecimento. Hoje em dia, no Reino Unido, ninguém espera que os comboios sejam pontuais e todos parecem ficar contentes quando a viagem não é cancelada. Desta vez eu tive sorte e esperei apenas cerca de meia hora até poder, finalmente, entrar no comboio.
Fiquei contente porque, em princípio, já não iria perder o avião. No entanto, esse sentimento de alívio transformou-se imediatamente num enorme desconforto causado pela quantidade de lixo existente naquela velha carruagem. Mas não era só isso. Bastaram dois minutos no interior da carruagem para perceber que, como é habitual, o sistema de ar condicionado não funcionava. Estes problemas são comuns às vinte e sete companhias privadas de transporte ferroviário que existem actualmente no Reino Unido e, infelizmente, as três companhias que operam no Merseyside (região de Liverpool) não são a excepção à regra. De acordo com o The Guardian, apesar da privatização dos transportes ferroviários (em 1994), o Estado tem continuado a injectar dinheiro neste sistema de transportes sem resultados visíveis. No Reino Unido, os transportes rodoviários são hoje preferidos por 85 % dos passageiros e pela grande maioria das empresas. Há quem atribua a responsabilidade desta situação à acção dos lobbies do petróleo, da indústria automóvel e da construção. Porém, a julgar pelas intermináveis filas de carros parados que enfeitam as famosas M6 e M25, não me parece que o transporte rodoviário no Reino Unido seja de grande qualidade.
Enquanto me entretinha com estes pensamentos tentava observar a paisagem. O problema é que, infelizmente, o Merseyside não oferece paisagens agradáveis que mereçam ser admiradas a partir da janela de um comboio. Esta região é muito pobre e atrasada. Ao longo da ferrovia, é possível observar velhas fábricas em ruínas, estações de comboio sem passageiros mas repletas de lixo, pequenos aglomerados populacionais com poucos habitantes e sem equipamentos urbanos. Nestas povoações são comuns as casas de dois pisos, com grandes janelas que terminam no beirado (quase indistinguível) dos telhados de duas águas. As casas são construídas em tijolo de barro vermelho e, por esse motivo, não apresentam sinais de degradação muito evidentes. Aqueles que atravessarem estes povoados por estrada, provavelmente acreditarão estar na presença de povoados muito pobres mas relativamente bem cuidados. Essa é, no entanto, uma ilusão criada pelos muros que ladeiam as propriedades. Da janela do comboio é impossível manter essa ilusão porque o caminho de ferro estende-se num plano mais elevado, o que permite observar o interior dos quintais, ou melhor, as inúmeras lixeiras particulares. Ao ver aquelas enormes quantidades de lixo, fui obrigado a transigir com os outros passageiros do comboio em que viajava, os quais não pareciam estar nada incomodados com a imundície da nossa carruagem.
Após quase uma hora de viagem, estavam finalmente percorridos os cerca de cinquenta quilómetros entre Liverpool e Manchester. Os primeiros sinais da chegada à cidade são dados pelo estádio do Manchester United, cuja bancada leste está adjacente à ferrovia. Logo a seguir atravessa-se o novo parque empresarial (Trafford Park) até se chegar às recuperadas zonas de Deansgate, Oxford Road e Picadilly. Foi aqui que saí para apanhar a ligação para o aeroporto de Manchester. Enquanto esperava (mais uma vez) por esta ligação, tive oportunidade de presenciar uma daquelas cenas típicas de um filme que aborde qualquer uma das duas guerras mundiais. Confesso que foi esta cena que me levou a escrever este post. Um casal de jovens namorados despedia-se junto ao comboio que partia para Leeds. O rapaz entrou no comboio, abriu a janela mais próxima da porta, inclinou-se para fora do comboio e beijou novamente a namorada. Quando o comboio partiu, ela voltou-se e o seu sorriso rasgado transformou-se num choro que ela tentava conter sem sucesso. Nessa altura senti ainda mais saudades de Portugal.
ANS
14 agosto 2003
49 - FÉRIAS
Como podem facilmente constatar, esta é a primeira vez que escrevo no Carimbo após quase cinco dias de ausência. Tal deve-se ao facto de ter regressado a Portugal no passado domingo (dia 10) para um período de férias. Como sempre acontece quando cá venho, os primeiros dias são inteiramente dedicados a matar saudades... de tudo.
O calor que se faz sentir também não tem ajudado. Já esperava que fosse assim pois li alguns blogs com comentários sobre a dificuldade de escrever com temperaturas tão altas. No entanto, uma coisa é ler este tipo de comentários no norte de Inglaterra (onde as temperaturas máximas que se fazem sentir, quando a região se encontra sob uma vaga de calor, não ultrapassam os 25 a 28 ºC) e outra coisa completamente diferente é entender o “sofrimento” que esses comentários pretendem transmitir. Só compreendi isto quando, à saída do avião, sofri os efeitos de um choque térmico idêntico àqueles que apenas sentira à chegada a países de clima tropical.
Até ao final de Agosto será difícil escrever com regularidade mas tentarei, mesmo assim, manter-me em contacto com a blogosfera. Não gostaria nada que se esquecessem do Carimbo.
ANS
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