10 setembro 2003
74 - CONFIANÇA NAS OBRAS PÚBLICAS
Enquanto esperava pela divulgação do relatório sobre as causas da queda do tabuleiro de uma passagem superior de peões sobre o IC19, li diversas notícias e comentários sobre esse acidente.
No Público de ontem pude ler que as “pontes pedonais do tipo da que caiu são estruturas relativamente frágeis e com um coeficiente de segurança baixo. Calculadas para permitir apenas a travessia de peões, estas pontes funcionam por gravidade: o tabuleiro é assente sobre os pilares, não estando preso a eles por estruturas solidárias construídas de raiz. Para esta opção de construção muito contribui o facto destas pontes se situarem em estradas de grande movimento e de terem de ser construídas perturbando o menos possível o trânsito. Por isso, os pilares de apoio são construídos primeiro e, quando ficam prontos, as vigas pré-fabricadas que constituem a ponte em si mesma são meramente ‘pousadas’ sobre esses pilares. Por vezes procura reforçar-se a estrutura ligando o tabuleiro aos pilares com a ajuda de parafusos, mas essa solução é sempre de alguma fragilidade.
A obra determinada pelo Instituto das Estradas de Portugal destinava-se não apenas a reparar a passagem superior dos danos provocados pelo embate de uma grua, mas a elevá-la cerca de vinte centímetros. Esta elevação do tabuleiro visava minorar o risco de novos embates, já que situando-se a passagem a uma altura superior à permitida aos veículos pesados, há muitos que não cumprem a lei e circulam com cargas que acabam por embater em estruturas como aquela ponte.
O Instituto das Estradas de Portugal considerou ontem prematuro dar qualquer explicação sobre o que terá ocorrido, preferindo esperar pelo resultado do inquérito em curso. No entanto, testemunhos recolhidos no local dão algumas pistas para as causas do acidente. Aparentemente, o empreiteiro encarregue da obra terá começado por desprender o tabuleiro dos pilares, tirando os parafusos, e, depois, utilizado macacos hidráulicos para altear a estrutura, que pesava 52 toneladas. Os novos apoios não terão sido concluídos durante a intervenção, ficando por isso o tabuleiro assente numa estrutura provisória que apenas aguentou seis [horas?] de trepidação. Esta possível explicação para o ocorrido levanta a questão de saber em que condições foi autorizada a reabertura do trânsito e qual o responsável técnico por ter considerado suficientemente sólida uma estrutura cujos restos, visíveis no local, aparentavam evidente fragilidade.
O problema ocorrido com a passagem superior do IC 19 deverá chamar a atenção para a circunstância de existirem muitas pontes semelhantes em todo o país, construídas também em vias de grande movimento e com base em estruturas que parecem bem preparadas para os esforços verticais a que são sujeitas (a passagem de peões), mas que não terão a necessária solidez para resistir a vibrações, ao embate de viaturas ou a sismos que as sujeitem a fortes abanões.”
Confesso que fiquei impressionado com tanto conhecimento técnico. No entanto, sinto que devo prestar alguns esclarecimentos adicionais.
1 – As pontes pedonais não são estruturas relativamente frágeis com um coeficiente de segurança baixo. As pontes pedonais, como qualquer outra estrutura, são calculadas com um coeficiente de segurança adequado, o qual é aliás imposto pelas normas e regulamentos em vigor.
2 – As pontes pedonais não “funcionam por gravidade”. Se não existisse gravidade não precisaríamos de pontes e estas nunca cairiam.
3 – As pontes pedonais, como inúmeras outras estruturas (entre as quais se incluem pontes rodoviárias e ferroviárias), podem ser projectadas e construídas de modo a funcionarem com tabuleiros simplesmente apoiados (em pilares ou encontros). Nem sempre as ligações monolíticas (expressão utilizada no caso de pontes de betão armado) são as mais indicadas.
4 – Não estou a ver a que “parafusos” se refere a notícia do Público. Nos apoios simples são geralmente utilizados dentes em betão armado (nos encontros), aparelhos de apoio ou simples ferrolhos (em aço) para evitar os deslocamentos transversais do tabuleiro. Os deslocamentos longitudinais do tabuleiro podem ser permitidos ou não, dependendo da solução estrutural adoptada. Se forem permitidos, têm de existir apoios de largura compatível.
5 – O recurso a tabuleiros pré-fabricados e simplesmente apoiados justifica-se, de facto, pela maior rapidez de execução.
6 – Se existem veículos pesados que não cumprem o que está legislado relativamente à altura máxima permitida, porque não são os seus condutores responsabilizados pela reparação das estruturas danificadas? Porque tem de ser o Estado a pagar as reparações e a altear tabuleiros que já satisfazem o “gabarit” mínimo (ou seja, cumprem a lei)?
7 – Como já estava em Liverpool quando ocorreu o acidente, não pude ver imagens do tabuleiro que caiu. Também não consegui ler qualquer notícia que explicasse como caiu o tabuleiro. Caiu lateralmente? Rodou? Caiu só de um lado? Os apoios ficaram em bom estado ou também partiram? Estas são pistas importantes para averiguar as causas da queda. Espero que a velocidade com que os bombeiros desobstruíram a via para permitir a circulação rodoviária no IC19 não tenha impossibilitado a recolha destas pistas por parte da comissão de inquérito constituída pelo IEP.
8 – Não me parece que a queda desta passagem superior de peões esteja relacionada com falta de resistência a vibrações, choques ou sismos. Estas acções são normalmente consideradas no dimensionamento destas estruturas. As normas e regulamentos em vigor obrigam a tal procedimento. Aproveito para lembrar que as pontes são, muitas vezes, estruturas muito flexíveis, pelo que se tornam muito mais sensíveis à acção do vento do que à acção dos sismos ou das vibrações introduzidas pelo tráfego. Se a passagem superior de peões caiu imediatamente após a conclusão da obra de reparação, o mais natural é que tal tenha acontecido na sequência de uma falha do projecto de alteamento/reparação/reforço ou de uma falha do empreiteiro na execução da obra.
Ainda na mesma edição do Público, José Manuel Fernandes faz comparações com a queda da ponte de Entre-os-Rios. Recordo que, após a queda dessa ponte, se verificou uma extensa campanha de inspecções coordenada pelo extinto Instituto para a Conservação e Exploração da Rede Rodoviária (ICERR), a qual tem sido continuada pelo IEP. Na sequência dessas inspecções foram realizadas diversas intervenções inicialmente coordenadas pelo ICERR e também pelo extinto ICOR (Instituto para a Construção Rodoviária) e agora coordenadas pelo IEP. Não posso acreditar que as inspeções às passagens desniveladas de peões tenham sido esquecidas.
José Manuel Fernandes refere também um passado glorioso da Engenharia Civil portuguesa, transmitindo a ideia de que as empresas portuguesas de projectistas e de construção já não são capazes de executar grandes obras e, por isso, não são reconhecidas internacionalmente. Não posso concordar com esta afirmação.
Já que José Manuel Fernandes refere a obra do Eng. Edgar Cardoso, lembro aqui a Ponte da Arrábida, no Porto, a qual constituiu na altura da sua construção (1963) o maior arco de betão armado e pré-esforçado do mundo (270 metros). Hoje, podemos olhar para a Ponte do Infante e admirar o seu arco abatido de 380 metros. Esta ponte foi construída por um consórcio luso-espanhol.
Parece que José Manuel Fernandes também desconhece que a Ponte Vasco da Gama (que é a maior da Europa) foi projectada por um consórcio de quatro empresas (duas das quais portuguesas). O projecto foi verificado por outro consórcio de quatro empresas (duas das quais portuguesas). A obra foi executada pelo consórcio Lusoponte constituído por empresas portuguesas (50,4 %), francesas (24,8 %) e inglesas (24,8 %).
Outras pontes famosas construídas durante a última década são a Ponte da Amizade (nova ligação entre Macau e Taipa, construída por um consórcio liderado por empresas portuguesas) e a Ponte Internacional do Guadiana (ligação entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, em Espanha), as quais foram projectadas pelo Eng. Câncio Martins.
A Ponte do Freixo, no Porto, e a Ponte José Gomes (com pilares de 105 metros de altura), no Funchal, projectadas pelo Eng. António Reis, também são obras marcantes.
A Ponte do Arade (em Portimão) e a Ponte Miguel Torga (na Régua), da autoria do Eng. Armando Rito, também não devem ser esquecidas.
Finalmente, lembro a obra de ampliação do Aeroporto Internacional do Funchal, da autoria do Eng. Segadães Tavares, a qual foi construída por um consórcio de três empresas (uma portuguesa, uma francesa e uma brasileira).
Penso que estes exemplos são suficientes para ilustrar a saúde da Engenharia Civil portuguesa, pelo menos no domínio das Estruturas (em geral) e das Pontes (em particular). Será que José Manuel Fernandes pensa que os portugueses confiariam mais nas obras públicas se elas fossem projectadas e executadas exclusivamente por estrangeiros?
Li agora na TSF que, de acordo com os resultados do relatório do IEP, "os riscos nas obras da ponte pedonal do IC19 não terão sido avaliados convenientemente". Já o esperava.
ANS
73 – DIÁLOGO REVELADOR
O Telejornal de ontem abriu com notícias sobre a pedofilia. Essas notícias ocuparam apenas vinte e seis minutos do programa. Talvez isto seja uma consequência directa da notícia do Expresso sobre as duradouras ligações da empresa à rede de pedofilia da Casa Pia. Por arrasto, outras situações de envolvimento da RTP com a pornografia são agora lembradas. É o caso das cassetes didácticas sobre o 25 de Abril que continham também imagens pornográficas. Este caso ocorreu há quatro anos atrás e mereceu ontem uma entrevista de José Rodrigues dos Santos a Alfredo Trofa (um antigo responsável pelos arquivos da RTP). A parte final do diálogo (que a seguir transcrevo) apresenta algumas curiosidades.
JRS: Alfredo Trofa, viu as imagens?
AT: Eu não vi mas suponho, porque mandei ver e esse é o motivo porque não vi, que se tratava de uma gravação de uma emissão de cabo que se chamava Canal 18 ou... suponho que era assim.
JRS: E, portanto, não envolvia crianças...
AT: Não, não envolvia crianças.
JRS: Então nós temos uma situação em que o vídeo não é de pedofilia. Foi feito um inquérito. Foi despedido um responsável. Tudo se passou fora da RTP. Porque é que, na sua opinião, este caso se levanta agora?
AT: Eu tenho a impressão, mas isto é a minha impressão e não é mais do que isso, que a RTP é exímia em dar tiros nos pés. (A expressão facial de José Rodrigues dos Santos, ao minuto 13:40 do Telejornal, merece ser vista.) Eu não percebo porque é que se está a levantar este problema dentro da RTP. Porque é que juntaram agora este problema ao caso da pedofilia? Este é um problema que devia ter sido sanado. Digamos [que houve] mau trabalho de um trabalhador, que nem sequer era da RTP, mas que a empresa sanou. E agora porque é que juntam a história da pedofilia? Eu não consigo perceber.
JRS: Alfredo Trofa, muito obrigado.
Para mim, este pequeno diálogo revela muito sobre a nossa sociedade.
ANS
72 – REGRESSO
A palavra “regresso” tem-me acompanhado nos últimos dias. Regressei a Liverpool, regressei ao trabalho e regressaram as saudades. Só cá estou há quatro dias e já é muito difícil estancar a vontade de regressar a Portugal.
O clima de Inglaterra não ajuda a contrariar este desejo. Enquanto que, em Portugal, estão cerca de 30 ºC, em Liverpool, a chuva e o frio já regressaram (a temperatura máxima prevista para hoje é de apenas 15 ºC).
Talvez eu queira apenas “regressar” ao período de férias que gozei em Portugal e esquecer que já estou em Liverpool (a trabalhar). Infelizmente, a realidade é cruel e não me permite esse luxo. Pelo contrário, força-me a regressar às aventuras burocráticas (às vezes penso que a burocracia inglesa é pior do que a nossa) e à chatice dos compromissos. Foram a obrigações do trabalho (longas reuniões que se estenderam pela noite dentro) que me impediram de ir ontem ao Goodison Park para assistir ao jogo de futebol entre a selecção nacional portuguesa de sub-21 e a sua congénere inglesa. Fiquei triste por não ter assistido ao regresso dos rapazes às vitórias.
Já que não posso regressar fisicamente a Portugal, faço-o virtualmente através do Carimbo. Depois de um mês, durante o qual apenas publiquei vinte e três posts (antes tinha publicado quarenta e oito posts em apenas dezanove dias), regresso à blogosfera com a promessa de contribuições regulares durante as próximas seis semanas.
Já agora, aproveito para vos avisar a todos que o ornitólogo da blogosfera já identificou definitivamente (num bonito post com o título Die Voëgel) a que espécie zoológica pertence o Carimbo. Espero que não se trate de uma espécie rara e em vias de extinção para que me possam ver a "voar" pelos vossos blogs e a regressar com frequência.
ANS
04 setembro 2003
71 - COM SORTE, ESTAREMOS CÁ PARA VER (II)
70 - COM SORTE, ESTAREMOS CÁ PARA VER (I)
No Independente da passada sexta-feira (29 de Agosto), Vítor Cunha (VC) escreveu que o representante da direita portuguesa nas próximas eleições presidenciais será Cavaco Silva. Segundo VC, Santana Lopes apenas “entrará na corrida” se Cavaco Silva recusar candidatar-se às presidenciais. Para VC, uma candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) será dificilmente aceite pelos partidos que formam o actual governo de coligação. Para tal contribuem os episódios que ditaram, há quatro anos atrás, o fim da Aliança Democrática.
Ainda de acordo com a última edição do Independente, Fernando Ruas tem uma posição oposta à de VC, admitindo que, entre Cavaco Silva e Santana Lopes, talvez o último tenha a vantagem de “dificilmente sair de moda”. Fernando Ruas descartou a hipótese de uma candidatura de MRS às presidenciais mas não negou que MRS daria um bom cabeça-de-lista nas eleições para o Parlamento Europeu.
Na edição do Expresso de Sábado passado (30 de Agosto), José Sócrates não mencionou a hipótese de uma candidatura de MRS às presidenciais mas previu uma disputa interna no Partido Social Democrata, nomeadamente entre Cavaco Silva e Santana Lopes.
José Sócrates assumiu ainda que António Guterres, recentemente convidado pela Organização das Nações Unidas para actuar como consultor para a política social junto do governo brasileiro, é o melhor candidato do centro-esquerda. Desta forma, José Sócrates respondeu às propostas de Mário Soares relativamente a uma viragem à esquerda do Partido Socialista (PS) e tentou enquadrar a melhor posição do PS numa luta contra a “direita radical” imaginada por Ferro Rodrigues. As declarações de José Sócrates funcionaram também como uma resposta à proposta de João Cravinho relativamente à possibilidade de uma candidatura de António Guterres como cabeça-de-lista nas eleições para o Parlamento Europeu. Convém lembrar que esta proposta já tinha merecido uma resposta de João Soares, o qual afirmou (no dia 28 de Agosto) que António Guterres será o candidato do centro-esquerda às presidenciais de 2006. Será que aqueles que vislumbravam a hipótese de uma nova candidatura presidencial de Mário Soares esperavam uma afirmação deste tipo por parte do filho do ex-Presidente da República?
A conclusão desta série de afirmações e previsões sobre o tema dos candidatos presidenciais foi efectuada por MRS, na sua habitual intervenção na emissão de Domingo do Jornal Nacional da TVI.
MRS eliminou as hipotéticas candidaturas presidenciais de Mota Amaral e de Freitas do Amaral e contou que “olhou para o espelho mas não descortinou um Presidente da República”. Com estas palavras, MRS assumiu que não tem perfil para o cargo e descartou a hipótese da sua própria candidatura. MRS afirmou ainda que, quando um político recomenda outro para o Parlamento Europeu, está apenas a tentar afastá-lo da cena política nacional. Parece que foi isso que lhe fizeram José Luís Arnaut (o “careca”) e, talvez, Fernando Ruas. Finalmente, MRS aceitou a tese de que os únicos candidatos possíveis à direita são Cavaco Silva e Santana Lopes. No entanto, para MRS, Cavaco Silva tem algumas vantagens sobre Santana Lopes (tem um “timing” mais adequado para o lançamento da sua eventual candidatura, tem um perfil político “menos ambicioso”, tem menos a perder e tem maior probabilidade de vencer António Guterres).
Quanto aos candidatos da esquerda, MRS entendeu as afirmações de João Soares como uma evidência de que Mário Soares desistiu de uma eventual candidatura às eleições presidenciais. Desta forma, MRS voltou a mostrar-se convicto de que António Guterres é o único candidato provável da esquerda porque “é o que mais facilmente entrará no eleitorado de direita”. Será esta outra forma de dizer que António Guterres é um candidato do centro-esquerda?
Enfim, parece que, a dois anos e quatro meses de distância das eleições presidenciais, já está tudo decidido no que se refere aos dois candidatos principais, os quais serão Cavaco Silva e António Guterres. Como disse MRS, “estaremos cá para ver” se assim será. No entanto, “não lembra nem ao careca” que a esta distância daquelas eleições se possam fazer cenários tão precisos. A não ser que estes cenários definam algo mais do que o Presidente da República.
De facto, estes cenários são de extrema importância para a definição da próxima liderança do PS. MRS afirmou que João Soares já demonstrou, com as suas manifestações de apoio a António Guterres, a sua vontade de liderar o partido. José Sócrates (que perdeu recentemente a capacidade de expor semanalmente as suas opiniões na RTP) não quis ficar atrás de João Soares e imitou-o nas suas declarações. Será que também está na corrida pela liderança do PS? De acordo com o Expresso, António Costa não quer continuar a ser líder da bancada parlamentar socialista (apesar de, segundo o Independente, Ferro Rodrigues já ter anunciado a sua continuidade nessas funções) e parece estar a “ser afastado da cena política nacional” pois poderá ser o cabeça-de-lista do PS nas eleições para o Parlamento Europeu. De acordo com o Público, António Vitorino, o actual Comissário Europeu da Justiça e Assuntos Internos, só sairá da Comissão Europeia por vontade própria. Uma vez que as possibilidades de António Vitorino vir a ser o próximo secretário-geral da NATO parecem remotas, Durão Barroso parece preferir manter este “desejado” do PS na Comissão Europeia, ou seja, “afastado da cena política nacional” (como diria MRS).
Será que se o tema da liderança do PS passasse a ser discutido abertamente na comunicação social, sem o disfarce das eleições europeias e presidenciais, poderíamos assistir a uma renovação mais rápida do PS? Era importante que assim fosse porque, neste momento, não há oposição.
ANS
69 - OPUS GAY: CONOTAÇÕES
Se ONG é a sigla para Organização Não Governamental, então OG é a sigla para... Organização Governamental (ou Opus Gay). Será que está correcta a (já velha) tese de Alberto João Jardim sobre o "lobby gay"?
ANS
68 - MAIS AGRADECIMENTOS VI
Antes de mais, aqui ficam os meus agradecimentos ao Cristovão-de-Moura por voltar atrás nas suas promessas.
Agradeço as intervenções do Alfacinha, de Carlos Vaz Marques e de Jiminy Cricket na questão do sufrágio universal (ver post 65 do Carimbo) e de António Torres na questão do desemprego (ver post 66 do Carimbo).
Agradeço o elogio que Manuel Alçada faz ao nome que escolhi para o meu blog (O Carimbo). Até tenho vergonha de contar que este era, talvez, o décimo nome da lista. Os outros nove já estavam atribuídos.
Agradeço também os “pius” que O Pintainho dedica ao Carimbo.
Aproveito para agradecer também a alguns novos blogs que já incluíram O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados. São eles o Gatopardo (mais um gato para fazer companhia ao Fedorento), o Bugue, o Oliveira de Figueira (só tem um post publicado) e o Blogdemocracia (que é apenas uma semana mais novo do que O Carimbo). Agradeço também ao Inventário de Web Logs pela inclusão do Carimbo na secção dos “Fazedores de Palavras”, embora me pareça que essa é uma classificação lisonjeira para O Carimbo.
Finalmente aqui fica um agradecimento ao Grupo de Amigos de Olivença pelos e-mails que todos os dias enviam para O Carimbo. Peço-lhes apenas que abrandem o ritmo porque a conta hotmail do Carimbo tem pouca capacidade de armazenamento. Obrigado.
ANS
67 - OS PERIGOS DAS ANÁLISES SUPERFICIAIS II
No post anterior referi a necessidade de evitar as análises de âmbito geral e superficial. Apontei, como exemplo, a questão do desemprego. No entanto, existem outros exemplos onde este tipo de análises é frequente. É o que acontece com os acidentes rodoviários.
Fala-se constantemente do número de mortos e feridos na totalidade das estradas nacionais. As conclusões são sempre as mesmas. A culpa é sempre dos condutores que circulam ébrios ou em excesso de velocidade. De vez em quando, são apontadas algumas estradas perigosas. No entanto, todas estas explicações apresentam o mesmo defeito. Generalizam o que não deve ser generalizado.
Mesmo que muitos acidentes tenham sido provocados por condutores que beberam “em excesso”, que ultrapassaram o limite de velocidade estabelecido para a estrada em que circulavam ou que infringiram qualquer outra regra de trânsito, não se pode afirmar que a culpa é sempre dos condutores. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes comprovadamente provocados por excesso de álcool ou velocidade.
Mesmo que muitos acidentes tenham ocorrido em troços de estrada mal concebidos ou mal sinalizados, não se deve afirmar que há estradas perigosas (pois esta afirmação engloba a totalidade do traçado). Durante anos assisti a inúmeros acidentes na Estrada Nacional 125 e no Itinerário Complementar nº 1. Entretanto, foram construídas a Via do Infante e a Auto-Estrada do Sul (A2) e deixei de assistir à ocorrência de acidentes. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes ocorridos em estradas nacionais e em auto-estradas.
Mesmo que todos os veículos sejam submetidos a inspecções anuais obrigatórias, não se pode ignorar a possibilidade de os acidentes ocorrerem como consequência de falhas mecânicas dos automóveis. Se os acidentes aéreos podem ocorrer devido a problemas mecânicos ou electrónicos, porque razão serão os automóveis imunes a esse tipo de problemas? Que eu saiba, os aviões são inspeccionados várias vezes por ano e isso não elimina a probabilidade de acidente. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes com pesados, automóveis ou motociclos. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes envolvendo veículos sujeitos a inspecção há mais de seis meses.
Se os órgãos de comunicação social divulgassem este tipo de dados seria possível discutir a questão dos acidentes rodoviários com maior racionalidade, sem generalizações e sem demagogias como as que levaram à criação de “estradas com tolerância zero”. Os portugueses gostam de encarar as leis como simples indicações dos caminhos que devem ser seguidos, mas sem muito rigor porque há sempre uma larga margem de tolerância. As consequências desta atitude são o incumprimento do código da estrada e a evasão fiscal, entre outras. As autoridades não ajudam e criam estradas sem tolerância zero e perdões fiscais.
Já que menciono o código da estrada, lembro que há uma regra (que aprendi nos últimos anos de condução em Lisboa) que não está referida no código. De facto, se o condutor puder escolher entre estacionar o veículo numa zona com parquímetro ou numa zona de estacionamento proibido, deve optar pela última hipótese. Não pagará o estacionamento e não será multado. Os empregados da EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento de Lisboa), mesmo quando são polícias (fardados e, supostamente, em serviço) contratados por aquela empresa, não têm autoridade para multar os veículos estacionados em zonas proibidas. Isto é Portugal no seu melhor.
ANS
66 - OS PERIGOS DAS ANÁLISES SUPERFICIAIS I
O Faccioso, no post “Novamente o desemprego...”, parte do exposto no post 61 do Carimbo para tecer algumas considerações sobre o desemprego. Para o Faccioso, apesar do tão discutido aumento do desemprego, a oferta de emprego em Portugal ainda é considerável. No entanto, são os imigrantes (menos exigentes do que os desempregados portugueses) que acabam por ocupar os postos de trabalho disponíveis (e dignos).
Lembro que não gosto de generalizar e que acredito na existência de inúmeros casos de cidadãos nacionais que querem trabalhar, que estão disponíveis para qualquer trabalho (digno) e que, mesmo assim, não conseguem arranjar trabalho. São esses que merecem as pensões sociais, os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção.
Os outros desempregados, aqueles que não querem trabalhar (não são a maioria, mas também existem), devem, como recomenda o Faccioso, seguir o exemplo dos imigrantes que têm vindo para o nosso país.
Para que não me acusem de falta de humanidade para com os desempregados por afirmar que existe gente que não quer trabalhar, permitam-me que ilustre a minha posição com um pequeno exemplo (o qual não pretende ser generalizador).
Os meus pais possuem uma quinta no sul do país. Para a manutenção dessa quinta, com uma área de cerca de 10 hectares, foi necessário contratar um trabalhador a tempo inteiro. Durante alguns anos, os meus pais procuraram (sem sucesso) alguém que aceitasse aquele emprego, até que, há cerca de dois anos, apareceu um imigrante ucraniano a perguntar se podia trabalhar. Claro que podia. Esse imigrante conseguiu fugir à acção das "máfias" (que ainda tentaram controlá-lo) e agora (já completamente legalizado) tem casa (na quinta), alimentação e um ordenado superior a mais do dobro do ordenado mínimo nacional (o que equivale a vários salários médios ucranianos). A família deste imigrante (mulher, filha e neto) vive bastante bem, na Ucrânia, com o dinheiro que lhe é enviado todos os meses de Portugal e, daqui a um ano ou dois, virá para Portugal.
Será que este emprego não era suficientemente bom (e digno) para os desempregados portugueses?
Parece-me que não se deve falar do desemprego focando apenas o número total de desempregados inscritos no Instituto de Emprego e Formação Profissional. É muito importante que se diga à população qual a distribuição do desemprego por distritos, ou até por concelhos. A mobilidade das populações deve ser estimulada. Esta mobilidade não tem que estar sempre associada ao “êxodo rural”. Talvez tenha chegado a hora de estimular um “êxodo urbano”, para o que será necessário mostrar à população desempregada que existe trabalho à sua espera no interior do país.
ANS
65 - POSTS APAGADOS
Parece que Paulo Varela Gomes (PVG), do Cristovão-de-Moura, se arrependeu de ter considerado o tema do sufrágio universal “uma grande chatice” e de ter prometido declarar “uma verdadeira guerra” ao Carimbo. É assim que interpreto o facto de PVG ter apagado o post em que fazia essas afirmações. Para não parecer que ando a colocar palavras fictícias nos blogs dos outros, recomendo uma leitura do post “Voto” de Carlos Vaz Marques.
Se o leitor quiser seguir as discussões sobre o direito de voto, sobre o significado da abstenção e do voto em branco e, de uma forma mais geral, sobre as questões da cidadania, recomendo uma leitura do post “Breve incursão pelos blogs” do Ter Voz, onde encontrará várias hiperligações a outros blogs que têm vindo a discutir estes temas.
ANS
64 - O VÍCIO BLOGUÍSTICO
Já não blogo desde o dia 30 de Agosto. Hoje não resisti ao vício e aqui estou eu, pronto para publicar uma série de posts.
Estes posts devem ser encarados como uma espécie de terapia de grupo, na qual exponho o meu problema aos outros “blogoólicos” que fazem parte da ABA (Associação dos Blogoólicos Anónimos, vulgarmente conhecida por blogosfera). Como escreveu JPN do Complot, “admitir o problema é o primeiro passo para a cura”.
ANS
30 agosto 2003
63 - SUFRÁGIO UNIVERSAL II
Parece que o tema que abordei no post anterior é, para Paulo Varela Gomes (PVG), uma "grande chatice". Como não fui eu quem trouxe o tema para a blogosfera, espero que PVG esteja apenas a ser irónico. De qualquer modo, como O Carimbo não existe para "chatear" ninguém, lembro que PVG não é obrigado a responder ao meu post. Aliás, se a resposta de PVG constituir uma "declaração de guerra", então prefiro que PVG opte por não responder. Para mim, O Carimbo é apenas um meio fantástico para discutir com outras pessoas sobre temas que me interessam (uns mais, outros menos). No entanto, essas discussões têm de ser pacíficas porque O Carimbo é um dos meus passatempos e, como tal, tem de me deixar bem disposto.
Entretanto, o Alfacinha (post "Alternativa II") continua a achar que não existem "alternativas" para o problema focado no post anterior e, por essa razão, tenta "destruir" a proposta que fiz relativamente ao sistema eleitoral, o qual deveria prever a perda do direito de voto no caso dos eleitores que se abstivessem por duas vezes consecutivas (por exemplo).
O Alfacinha começa por referir que não descortina qualquer vantagem em retirar o direito de voto a quem já decidiu não votar. Insisto que o espectro da perda de um direito (qualquer um) é suficiente para que as pessoas se esforcem por mantê-lo. No post anterior, referi o caso das pessoas que não se interessam por política. Essas pessoas teriam duas possibilidades de escolha. Poderiam procurar informação para votar conscientemente ou poderiam assumir o seu desinteresse e prescindir do seu direito de voto, reduzindo dessa forma os cadernos eleitorais. No caso de uma acentuada diminuição do número de eleitores, a televisão poderia perder o interesse no espectáculo da política demagógica.
O Alfacinha chama a atenção para a necessidade de prever um sistema para justificar possíveis abstenções involuntárias. Eu não referi essa possibilidade porque penso que ela é totalmente desnecessária. Os actos eleitorais são programados com muita antecedência, pelo que existe tempo mais do que suficiente para que os eleitores possam activar os mecanismos necessários para poderem exercer o seu direito de voto, estejam eles (eleitores) doentes, ausentes do país ou numa outra situação limitativa.
O Alfacinha prevê, como consequência do sistema que eu proponho, a generalização do voto em branco (ou de algo semelhante). Concordo com o Alfacinha e com o Mar Salgado (post "Responsabilidade e Política III") no que se refere à impossibilidade de interpretação do significado do voto em branco. No entanto, ao contrário do que pensa o Alfacinha, julgo que o número de votos em branco não cresceria muito. Não há nenhuma razão para pensar que, num universo de eleitores mais largo, o número de votos em branco seria maior (em proporção) do que é actualmente. O Alfacinha parece acreditar que a maioria dos actuais abstencionistas continuaria a viver na ignorância política e, por esse motivo, apenas votaria (em branco) para não perder um direito adquirido. Talvez o Alfacinha tenha razão quando faz esta suposição. Porém, se essa situação se verificasse, a classe política teria de se comprometer a não atribuir qualquer significado ao voto em branco (agora sou eu quem está a ser demagogo) de modo a incutir um sentimento de estúpida inutilidade naqueles que tivessem optado por essa solução fácil.
Uma solução mais radical (a qual eu não defendo) poderia passar por aplicar a mesma penalização (perda do direito de voto) àqueles que votassem em branco (ou que optassem pelo voto nulo, por exemplo). Como é óbvio, esta solução implicaria o fim do voto secreto, o que seria muito perigoso e arriscado. Não me parece que as democracias estejam suficientemente maduras para um passo tão grande.
ANS
28 agosto 2003
62 - SUFRÁGIO UNIVERSAL
No post anterior referi o poder educativo da televisão. Paulo Varela Gomes (PVG) do Cristovão-de-Moura também refere este poder da televisão para justificar a sua oposição ao sufrágio universal.
De acordo com o que PVG escreveu nos posts da série “O meu avô” do Cristovão-de-Moura, “os homens não são iguais em direitos”, existindo “gente de qualidade” com “mais direitos do que gente sem qualidade”. Para PVG, os bens “de qualidade” devem estar ao alcance apenas de alguns de modo a garantir a manutenção da referida qualidade, a qual se perde quando há generalização do acesso a tais bens. PVG suaviza estas afirmações escrevendo que “precisamos de igualdade de direitos”, mas também precisamos “de diferenciação no acesso a esses direitos”.
Para particularizar estes conceitos gerais, PVG recorre ao direito ao voto. Este direito deveria ser diferenciado, existindo um voto “de qualidade” reservado a “gente de qualidade”, a qual poderia corresponder à população com o ensino secundário completo (pelo menos). Esta “gente de qualidade” teria a função de “interpretar, traduzir, filtrar e mediar a vontade popular”. O povo menos instruído também teria “direito ao voto”, mas a um voto menor e destinado apenas à escolha dos seus intérpretes instruídos. PVG julga que a maior vantagem deste sistema de “voto indirecto” seria aumentar o nível do debate político e impedir a actual “era de demagogia” e “estupidificação” política. Para PVG, esta situação decorre do “acesso universal aos espaços colectivos”, cujo símbolo de maior expressão é a televisão. Este meio de comunicação social funciona actualmente como suporte para “um contacto quase directo” “entre os eleitores (ou as massas populares) e os seus representantes” políticos, os quais são assim obrigados a “cortejar” a televisão enquanto “mundo do espectáculo” e “da cultura de massas”.
Embora não concorde com as soluções propostas por PVG, as quais me parecem totalmente anti-democráticas e discriminatórias, sou obrigado a aceitar a análise que faz da dependência do sistema político relativamente aos meios de comunicação social.
De acordo com PVG, a transformação da política num espectáculo mediático baseado na disputa demagógica de votos acaba, porém, por ter um efeito perverso que é a abstenção. Para PVG, a abstenção funciona como um “filtro” que “separa o povo da política”.
De facto, a abstenção traduz o afastamento da população relativamente à condução política do país. A abstenção é, como a própria palavra indica, uma renúncia ou uma privação. É comum, nas análises aos resultados eleitorais, atribuir à abstenção um significado de descontentamento com o estado da nação, com o governo em exercício ou com as alternativas políticas sujeitas a sufrágio. Para mim, estas análises são totalmente ficcionistas e, portanto, demagógicas. É por isso que me parece que PVG não tem razão quando interpreta a abstenção como o resultado de uma filtragem que separa o povo (em geral) da política mediática. No entanto, a teoria da filtragem pode funcionar para separar os eleitores interessados (em política) daquelas pessoas que, independentemente do seu nível de formação, da sua classe social, da sua idade e do seu sexo, não se interessam por política.
Recordo-me de uma campanha contra a abstenção que nos lembrava que o voto é, não só um direito, mas também um dever. Aplique-se esta máxima e retire-se o direito de voto àqueles que optarem sistematicamente (duas vezes seguidas, por exemplo) pela abstenção. Desta forma reduzem-se os cadernos eleitorais à população efectivamente interessada e, por isso, informada e capaz de entender um debate político de nível mais elevado. O que eu defendo é que todas as pessoas tenham, à partida, os mesmos direitos, sendo, no entanto, obrigadas a esforçar-se por mantê-los. Penso que uma solução deste género seria muito mais justa do que aquele sistema de “voto indirecto” que PVG propôs.
Esta forma de abordar o problema da representatividade política e da abstenção permite-me, por exemplo, introduzir uma questão que me incomodou bastante quando eu tinha quinze anos de idade. Nessa altura eu já me julgava capaz de votar com consciência mas não o podia fazer porque, em Portugal, tal como nos restantes países da União Europeia, só é permitido votar aos dezoito anos de idade. Actualmente, a Comissão Eleitoral do Reino Unido estuda a possibilidade de antecipação da idade mínima de voto para os dezasseis anos de idade. De acordo com alguns estudos já efectuados, tem-se verificado uma baixa participação eleitoral por parte da faixa etária situada entre os 18 e os 24 anos de idade. São mais os jovens entre os 15 e os 17 anos de idade (30 %) que se afirmam interessados em política do que os jovens entre os 18 e os 24 anos de idade. Penso que seria muito interessante dar o direito de voto aos jovens interessados e com uma palavra a dizer. Eles não desperdiçariam a oportunidade de serem “ouvidos” pois saberiam que a abstenção sistemática implicaria a perda definitiva do direito de voto.
Quanto à generalidade da população, julgo que o espectro da perda de um direito adquirido poderia funcionar como um estímulo para uma participação política mais activa e informada. Desta forma seria possível elevar o nível do debate político e, assim, aperfeiçoar o sistema democrático em que vivemos.
ANS
61 - SERÁ INTENCIONAL?
Este post tem dois objectivos principais. Um deles é lembrar o fim do Guerra e Pas e o outro é endereçar uma crítica ao Telejornal (da RTP). Nenhum destes temas é original na blogosfera, pelo que me sinto obrigado a comentar também os posts da série “Os blogues” do Bloguítica Nacional.
No primeiro post dessa série, Paulo Gorjão (a quem agradeço a resposta ao post “Que saudades da Guerra Fria” sobre a Coreia do Norte e o Japão) refere o seu descontentamento com a blogosfera. Segundo Paulo Gorjão, os bloggers (em geral) apenas comentam os temas que estão na moda. Parece-me, porém, que esta constatação não é inteiramente correcta. De facto, a maioria dos bloggers tem uma lista de blogs recomendados, os quais reflectem os temas que têm interesse para si (blogger) e para o seu blog. Os blogs que constam na tal lista de recomendações participam frequentemente em discussões entre si. Isto obriga os bloggers a debaterem o mesmo tema, investindo algum tempo e trabalho para fundamentar as suas opiniões (porque ninguém sabe tudo). Desta forma, sobra pouco tempo para discorrer sobre outros assuntos. No entanto, se observarmos com atenção, todos os bloggers têm uma particularidade que os distingue dos outros. Isto é, cada blogger tem um interesse particular sobre o qual raciocina ocasionalmente no respectivo blog. Cabe aos leitores evitar saltar por cima dos posts que fazem a diferença. Se estes posts mais raros interessarem ao leitor (o qual se presume não querer ler apenas generalidades), então é conveniente analisar as tais listas de recomendações em busca de outros blogs que se dediquem a tais particularidades. Somos assim conduzidos em direcção a outras sub-blogosferas, as quais podem ser muito diferentes daquela em que nos movimentamos. Esta é uma das razões que me leva a encarar com seriedade a minha lista de blogs recomendados.
Com base neste raciocínio, espero agora poder mencionar o fim do Guerra e Pas e também poder criticar o Telejornal (da RTP) sem correr o risco de ser incluído num qualquer rebanho conduzido pela “actualidade bloguística” ou pela actualidade referida na imprensa.
É verdade. O Guerra e Pas acabou. Acontece… a quase tudo. Espero que P. ainda volte à blogosfera e, por isso, manterei este blog na minha lista de recomendações
(na secção dos “Blogs a recordar”).
Nos últimos posts (168 a 170) do Guerra e Pas (com o título “Porque é que os nossos telejornais são tão compridos?”), P. critica o formato tablóide e a duração dos noticiários transmitidos pelas televisões. No Público de segunda-feira (dia 25 de Agosto), Eduardo Cintra Torres aponta críticas semelhantes. Também Fernando Ilharco, na mesma edição do Público, aponta algumas críticas aos noticiários televisivos.
Não quero “bater no ceguinho” mas julgo dever criticar a emissão de segunda-feira do Telejornal (da RTP). Sublinho o facto de me referir especificamente à emissão de segunda-feira e não ao formato do Telejornal (o qual já foi criticado por outros). Foi com surpresa que assisti à divulgação de uma notícia sobre o aumento do desemprego no mês de Julho logo seguida de uma notícia sobre o aumento da população residente no Alentejo como consequência da imigração.
A RTP citou as estimativas do Instituto Nacional de Estatística sobre o aumento do número de desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional de 414.145 no mês de Junho para 419.375 no mês de Julho, destacando o crescimento de 28,4 % relativamente a Julho de 2002 (o que corresponde à maior variação homóloga dos últimos dois anos). A notícia também destacou o facto de o desemprego ter aumentado durante o Verão (contrariando o frequente aumento da oferta de emprego que é sazonalmente motivado pelo turismo de Verão).
Logo a seguir, a RTP emitiu uma pequena reportagem sobre a imigração em Portugal. A frase de abertura da notícia foi: “E está a aumentar a população residente no Alentejo.”
A seguir, a notícia referiu que o aumento da população residente naquela zona do país (mais de 10.000 habitantes em 5 anos) se deve à imigração de cidadãos do Leste da Europa. Depois, para ilustrar a notícia, foi entrevistado um casal de ucranianos (originários de Kiev) já instalado, com emprego e com alguma qualidade de vida. No final da notícia, a RTP explica que afinal a população residente no Alentejo até tem diminuído (na última década deu-se uma redução de cerca de 15.400 habitantes) e que, por esse motivo, “quem vem de longe é bem-vindo”.
Penso que estas duas as notícias são interessantes e até importantes. Penso que qualquer pessoa de bom-senso evitará fazer uma associação do tipo causa-efeito (imigração-desemprego) entre estas notícias. Mas também penso que Portugal não é um país ideal, daqueles onde só habitam pessoas de bom-senso. Infelizmente, também vivem em Portugal, como em qualquer outro lugar, pessoas com pouca educação e com pouco sentido de tolerância. Quando estas pessoas vivem situações desesperadas de desemprego, o bom-senso desaparece imediatamente e qualquer pequeno pretexto serve para estimular preconceitos, ódios e injustos desejos de vingança.
Será que os responsáveis pelo Telejornal não conhecem esta triste realidade? Com certeza que a conhecem. É por isso que não percebo como é possível estruturar a apresentação das duas notícias em causa de uma forma tão insinuante (e perigosa). Será intencional? Haverá falta de notícias sobre a intolerância, a xenofobia e a discriminação? Será que é necessário estimular esse tipo de situações?
A resposta para estas três perguntas é, obviamente, negativa. No entanto, temos de chamar a atenção da RTP para este tipo de distracções. Todas as estações de televisão têm a obrigação de evitar a transmissão de mensagens (ainda que indirectas) que possam estimular a injustiça, a intolerância e a violência. A RTP, como estação obrigada a prestar serviço público, deve dar o exemplo nessa matéria. Não nos esqueçamos do efeito que a televisão (em geral) tem na educação da população.
ANS
60 – PUBLICIDADE
Recebi dois e-mails publicitários. Um do Perguntador (um blog na idade dos porquês) e outro do Ruim (um blog demasiado modesto).
ANS
59 - MAIS AGRADECIMENTOS V
Parece um paradoxo, mas é muito mais fácil acompanhar a blogosfera quando não se está de férias. No entanto, esta noite fiz um esforço e cá estou eu a “blogar”.
Foi com enorme satisfação que constatei que O Carimbo também já consta da lista de blogs recomendados pelo Assembleia, Epicurtas, Jaquinzinhos, Musana, Pintainho e Vastulec.
Agradeço também as simpáticas referências ao Carimbo que pude ler nos blogs A Origem do Amor, Assembleia, Epicurtas e Fumaças.
Segundo Miguel Nogueira, O Carimbo “voa” como um “bonito cuco”. Deve ser por isso que não percebo nenhum dos “pius” do Pintainho...
Finalmente, aproveito para agradecer os simpáticos e-mails enviados pelos blogs A Origem do Amor, Assembleia e Causa Liberal.
ANS
21 agosto 2003
58 - A SEGUNDA OPORTUNIDADE
Do muito que já foi escrito (e dito) sobre o atentado de anteontem ao quartel-general da ONU em Bagdad, subscrevo as mensagens de pesar pelo assassínio de vários funcionários da ONU e presto também uma homenagem póstuma (e obrigatória) a Sérgio Vieira de Mello. Faço-o, porém, sem esquecer as pessoas que, quase todos os dias, são alvo de outros atentados terroristas no Médio Oriente ou noutras partes no mundo. Também não me parece que este atentado tenha sido mais violento, estúpido e desumano do que qualquer outro ataque terrorista. No entanto, este atentado reveste-se de algumas características que devem ser debatidas.
Uma das particularidades do ataque ao quartel-general da ONU em Bagdad reside no facto de a explosão do camião-bomba ter sido filmada, o que nos forneceu uma imagem perturbadoramente realista da violência e crueldade deste tipo de ataques. Algo semelhante já tinha acontecido com os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. Estas imagens, apesar de serem sensacionalistas, podem ter a vantagem de humanizar o debate em torno dos ataques terroristas. Actualmente discutem-se as acções terroristas como jogos de futebol. Descreve-se o método utilizado para o assassínio de inocentes tal como se descrevem tácticas de futebol. Faz-se a contagem de mortos e feridos tal como se contam os golos marcados num jogo de futebol. Até as ameaças de ataques terroristas são encaradas com naturalidade, como se fossem simples ameaças de desforra num jogo de futebol. Quando lemos uma notícia sobre um ataque terrorista, facilmente nos esquecemos das pessoas que foram brutalmente assassinadas. Também nos esquecemos da obrigação de capturar esses assassinos e levá-los a julgamento como deverá acontecer com qualquer outro criminoso. Esta obrigação devia ser suficiente para justificar o apoio mundial à intervenção militar no Médio Oriente. Mas parece que não é, ou não foi.
Outra particularidade deste ataque reside no facto de o alvo ter sido a ONU, que é a organização que representa todas as nações do mundo. Por este motivo, este atentado foi violenta e unanimemente criticado e chorado no mundo inteiro. Os atentados de 11 de Setembro de 2001 provocaram o mesmo efeito, embora por razões diferentes (muito mais ligadas à dimensão e brutalidade dos ataques). Recordo que após o “11 de Setembro”, muitos afirmaram que aqueles ataques tinham sido perpetrados contra o mundo ocidental e não apenas contra os EUA. Como consequência, o mundo uniu-se em torno dos EUA na sua luta (justa e necessária) contra o terrorismo e formou-se uma vasta coligação de forças para a intervenção militar no Afeganistão e para as consequentes acções de manutenção de paz e reconstrução do país. Infelizmente, a unanimidade no apoio à guerra contra o terrorismo desapareceu quando foi proposta à ONU uma intervenção militar no Iraque. Será que hoje ainda há quem pense ser possível eliminar o problema do terrorismo sem desenvolver o Médio Oriente em termos económicos e humanos? Será que hoje ainda há quem pense ser possível desenvolver o Médio Oriente mantendo os regimes ditatoriais que lá existem? Será que hoje ainda há quem acredite na possibilidade de ocorrência de levantamentos populares que possam levar à introdução de verdadeiras democracias naquela região do globo?
Houve muita desinformação relativamente às motivações americanas para a intervenção militar no Iraque e, por essa razão, nunca se discutiu convenientemente a necessidade de estabilização do Médio Oriente e de aplicação do Roteiro para a Paz. Penso que os EUA e o Reino Unido cometeram um erro enorme ao utilizarem exclusivamente as armas de destruição maciça iraquianas para justificar a intervenção militar naquele país, embora este fosse um argumento válido e, aparentemente, mais fácil por já existirem resoluções do Conselho de Segurança da ONU sobre o problema. Relembro que a desinformação foi muito grande, mas mesmo assim poderia ter sido possível manter a unanimidade no apoio à intervenção militar no Iraque (com a autorização da ONU). Porque não se tentou, simplesmente, condicionar a estabilização do Médio Oriente e a aplicação do Roteiro para a Paz à eliminação dos regimes de Saddam Hussein e de outros? Isto teria sido possível através da utilização de um dos argumentos que mais se ouve dos oposicionistas à intervenção militar no Iraque, o qual se refere à necessidade de combater o terrorismo nas suas fontes (pobreza generalizada, restrições no acesso à informação e à educação, existência de minorias favorecidas pelos regimes autoritários, os quais promovem a propaganda anti-ocidental).
O ataque terrorista de anteontem ao quartel-general da ONU foi dirigido a uma organização que tinha uma missão humanitária fundamental, distribuindo comida e prestando assistência médica, entre outras ajudas. Não se pode compreender este ataque quando os iraquianos aparecem todos os dias a criticar a manifesta incapacidade das forças de manutenção de paz na reconstrução do país e na criação de condições mínimas de sobrevivência das populações. Seguindo o raciocínio daqueles que afirmaram que o “11 de Setembro” foi um ataque dirigido a todo o mundo ocidental, então o ataque de anteontem terá sido dirigido ao mundo inteiro, incluindo os países que condenaram a intervenção militar no Iraque. A quem é que isto serve? Não é, com certeza, à população iraquiana. Isto serve a outros países do Médio Oriente com interesses num Iraque destruído e abandonado. Se isto acontecesse, esses países poderiam promover o regresso de Saddam Hussein ou de um outro ditador, poderiam patrocinar uma guerra civil no território ou poderiam tentar conquistar directamente o território disponível. Isto serve aos interessados num Médio Oriente explosivo, com uma população extremamente pobre e sem educação, para a qual o fundamentalismo religioso é o escape psicológico mais óbvio. A julgar por algumas declarações idiotas e irresponsáveis que já ouvi, mesmo aqui em Portugal, estes grupos organizados (e obviamente patrocinados por governos de outros países do Médio Oriente) estavam certos se pensaram que um ataque à ONU poderia gerar uma onda de manifestações clamando o abandono do Iraque pelas forças de manutenção de paz lideradas pela coligação anglo-americana. No entanto, talvez o tiro lhes tenha saído pela culatra.
Eu tenho uma atitude positiva sobre o sucedido e acredito que, agora que foi recuperado o espírito do pós “11 de Setembro”, estão criadas as condições para reunir um apoio consensual em torno da formação de uma vasta coligação (a nível mundial) de forças de manutenção de paz que deverão actuar no Iraque sob a égide das Nações Unidas. O atentado às instalações da ONU em Bagdad vem devolver importância a esta organização e vem lembrar que o terrorismo é um problema de todos nós, o qual tem de ser combatido por todos. Os EUA e o Reino Unido não desperdiçarão esta oportunidade de responsabilização do resto do mundo.
Sinto orgulho num governo português que, desde o início, percebeu que não podia deixar de apoiar incondicionalmente os EUA e o Reino Unido no combate ao terrorismo. Utilizando uma linguagem que a esquerda nacional domina bem, sinto orgulho num governo português que percebeu que Saddam Hussein e o seu regime formavam um tumor com várias metástases (outros regimes autoritários do Médio Oriente). A cura requeria (e requer) a extirpação através de várias intervenções cirúrgicas (acções militares) seguidas de uma recuperação do corpo do doente (Médio Oriente) com recurso a tratamentos que abrangem várias especialidades (empenhamento político e económico de todos os países do mundo, representados pela ONU).
Se o “11 de Setembro” obrigou a administração americana a empenhar-se num Roteiro para a Paz no Médio Oriente, então o ataque terrorista à ONU irá obrigar o mundo inteiro ao mesmo empenho. O anti-americanismo ganhou adeptos nos últimos tempos à custa de slogans demagógicos que exploravam a sensibilidade das pessoas às questões de carácter humanitário. Chegou a hora de mostrarem que acreditam realmente nesses slogans. E despachem-se porque convém resolver o problema do Médio Oriente antes que África se torne a principal fonte de terrorismo mundial.
ANS
20 agosto 2003
57 - QUE SAUDADES DA GUERRA FRIA
No post “Os EUA, o Japão e a Coreia do Norte” do Bloguítica Internacional, é comentado um artigo de opinião do presidente da Academia de Defesa Nacional japonesa, publicado no Washington Post. De acordo com o Bloguítica Internacional, os EUA acabarão, mais tarde ou mais cedo, por aceitar parte das reivindicações norte-coreanas (assinando um pacto de não-agressão). Esta situação tem dado origem, no Japão, a naturais receios face a uma perda de capacidade defensiva (motivada por uma redução drástica do contingente de tropas norte-americanas na Coreia do Sul e no Japão) relativamente a uma Coreia do Norte que possui armas químicas e bacteriológicas e um programa nuclear (nada fáceis de controlar através de um qualquer regime de inspecções).
Estes receios têm provocado um afastamento do pacifismo que, durante décadas, dominou as opções do Governo japonês relativamente à Defesa. De acordo com The Daily Telegraph, o Japão possui neste momento 240.000 soldados integrados em forças de defesa. A única função destas forças militares é a defesa do território japonês. No entanto, estas forças já foram autorizadas a participar em acções de manutenção de paz no Cambodja (em 1992), a fornecer apoio logístico aos aliados no Afeganistão (em 2001) e a participar (actualmente) na reconstrução do Iraque. A constitucionalidade destas missões é discutível. Ainda durante este ano, terá início um programa de treinos para tropas especializadas no combate urbano, em acções de guerrilha e na resposta ao terrorismo (incluindo ataques com armas químicas). Dentro de três anos, deverá ser formada uma unidade de comandos de elite composta por cinco a seis mil soldados. A Marinha japonesa planeia a construção de dois navios que podem ser rapidamente convertidos em porta-aviões permitindo a utilização da aviação em ataques preventivos fora do seu território.
Embora as memórias da devastação provocada pelos ataques de Hiroshima e Nagasaki ainda estejam bem presentes na opinião pública japonesa, o número de apoiantes de um programa de nuclear japonês (um tema tabu até há bem pouco tempo) tem vindo a aumentar. São já várias as figuras políticas que defendem esta opção, entre as quais se destaca Shingo Nishimura. Em 1999, este político sugeriu a aquisição de armas nucleares e, por esse motivo, foi obrigado a demitir-se da posição de destaque que ocupava no Ministério da Defesa. Actualmente, Shingo Nishimura é regularmente convidado para debater o programa nuclear japonês em programas televisivos.
Parece que o Japão aposta no equilíbrio de forças para lidar com a ameaça norte-coreana, recriando uma espécie de “Guerra Fria” a nível regional. O problema é que, infelizmente, o equilíbrio de forças só será eficaz enquanto a ameaça norte-coreana não incluir o terrorismo. É esta a lição do Médio Oriente.
ANS
56 - NOTÍCIA FICTÍCIA II
Há uns meses atrás, Rudolph Giuliani sugeriu a realização do primeiro Dia Mundial Sem Energia. O “ex-Mayor” de Nova Iorque inspirou-se no actual modelo do Dia Europeu Sem Carros (DESC). Rudolph Giuliani ficou fascinado com a melhoria ambiental que se tem verificado na Europa desde a primeira realização do DESC em Setembro de 2000. De acordo com vários autarcas europeus, o DESC tem contribuído de uma forma espantosa para o cumprimento dos objectivos do Protocolo de Quioto. Rudolph Giuliani confessou estar farto de ouvir comentários negativos sobre a atitude dos EUA face às questões ambientais, pelo que sugeriu uma forma eficaz de cumprir o Protocolo de Quioto.
O actual “Mayor” de Nova Iorque (Michael R. Bloomberg) e outros autarcas dos EUA e Canadá gostaram tanto da ideia de Giuliani que resolveram testar a sua aplicação, sem aviso prévio, na passada quinta-feira. Este teste foi um estrondoso sucesso e, por esse motivo, a data de 14 de Agosto está agora reservada para a realização anual do Dia Mundial Sem Energia. Este evento conta já com a participação de mais de cem países, nos quais serão provocados “blackouts” (ou “apagões”) entre as sete horas da manhã e as dez horas da noite.
Entretanto, em Portugal (um dos primeiros países a aderir à medida) já se ouvem vozes esclarecidas a sugerir a alteração do DESC de 20 de Setembro para 14 de Agosto.
ANS
18 agosto 2003
55 - SEGUROS DE VIDA
Na coluna de opinião que mencionei no post anterior, Mário Soares refere-se também ao clima de caos e insegurança que se vive “no triângulo sunita de Bagdad, Faluja e Baaquba”. Quando li isto, lembrei-me (outra vez!) da edição de sábado (9 de Agosto) do The Daily Telegraph, na qual se podia ler que os chefes tribais da cidade de Faluja (que se situa cerca de 100 quilómetros a oeste de Bagdad) se comprometeram a controlar a população no sentido de terminar com as pilhagens e com os ataques (com mísseis e granadas) às tropas americanas (e aliadas) instaladas na região. Como retribuição do favor, as tropas americanas prometeram a instalação de geradores capazes de fornecer energia a toda a cidade, a redução do número de postos de controlo, a transferência de mais poderes para a polícia local e a redução do número de rusgas, as quais passarão a ser efectuadas com mais respeito pelos suspeitos.
Parece justo e suficiente? Julgo que sim, mas existem mais contrapartidas. Se um iraquiano for ferido “por engano”, deverá receber 500 dólares, mas se o engano for maior e o infeliz morrer, então a sua família deverá receber 2.000 dólares.
Acredito que estas indemnizações possam convencer os iraquianos das boas intenções das tropas americanas e aliadas. A confiança é fundamental para a paz na região. No entanto, a avaliação do custo de uma vida humana sempre me incomodou. Fico sempre deprimido com apólices de seguro que envolvam a possibilidade de morte do titular. Em tempo de guerra não se pode evitar falar em “danos colaterais”, o que implica assumir que a perda de vidas inocentes será o preço a pagar pela obtenção de um futuro melhor para a maioria sobrevivente. Este discurso apresenta uma dureza implacável, mas é a única forma de ultrapassar os conflitos morais pelos quais passam aqueles que têm de iniciar uma guerra que pode ser um caminho para a paz. O problema é que, no Iraque, a guerra já acabou. Ou será que não? O objectivo das tropas americanas (e aliadas) no Iraque é, neste momento, a manutenção da paz possível. Ou será que não? Assim, as contrapartidas financeiras a pagar pela morte inadvertida de um iraquiano só podem ser entendidas como seguros de vida.
O valor seguro (menos de 2.000 euros) pode representar uma elevada maquia no Iraque de hoje, mas, a julgar pelo que aconteceu no Afeganistão (em Cabul já existem bairros onde as casas são mais caras do que no Reino Unido), não faltará muito para que essa indemnização passe a valer pouco. Será que os iraquianos (aqueles que forem inocentes) que vierem a morrer em “tempo de manutenção de paz” serão recordados pelas suas famílias como heróis que morreram para garantir um futuro melhor ao país? Ou serão recordados como alguém que morreu num acidente que, por acaso, estava coberto por um seguro muito mau.
Só espero que isto não venha a ser aproveitado por grupos fundamentalistas para simularem acidentes mortais. É que, mesmo para um terrorista suicida, valem mais os 2.000 dólares de indemnização (aos quais a sua família poderá ter direito) pagos pela administração americana do que a “protecção” divina que Alá concede aos familiares dos “mártires”.
ANS
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