15 setembro 2003
78 - CANÇÕES DE 1973 (II)
Depois de Al Green, só mesmo um pouco mais de soul. Que tal Aretha Franklin com Until You Come Back To Me (That’s What I’m Gonna Do)?
UNTIL YOU COME BACK TO ME
Though you don´t call anymore
I sit and wait in vain
I guess I´ll rap on your door
Tap on your window pane
I want to tell you Baby
The changes I´ve been going through
Missing you.
Listen you
´till you come back to me
That´s what I´m gonna do
Why did you have to decide
You had to set me free
I´m gonna swallow my pride
I´m gonna beg you to (please baby please) see me
I´m gonna walk by myself
Just to prove that my love is true
Oh, for you baby
´till you come back to me
That´s what I´m gonna do
Living for you my dear
Is like living in a world of constant fear
In my plea, I´ve got to make you see
That our love is dying
Although your phone you ignore
Somehow I must explain
I´m gonna rap on your door
Tap on your window pane
I´m gonna camp on your step
Until I get through to you
I´ve got to change your view baby
´till you come back to me
That´s what I´m gonna do
By Stevie Wonder, Clarence Paul and Morris Broadnax
Para amanhã está reservado um pouco de rock'n'roll californiano concebido na Europa.
ANS
11 setembro 2003
77 - OS ATAQUES TERRORISTAS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001
Tinha decidido não escrever sobre o segundo aniversário dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. No entanto, tenho estado a ver o documentário da CNN sobre o que se passou naquele dia (e durante os últimos dois anos) e não é possível ficar indiferente a tamanha brutalidade e violência.
Já há dois anos atrás, quando os ataques aconteceram, tinha sentido a mesma incredulidade. Pensei que, por já conhecer os factos e a violência das imagens, poderia agora assistir ao programa da CNN sem me emocionar. Puro engano. Parece que estou a assistir a tudo pela primeira vez. Não, minto. Estou consciente de já ter visto as imagens. Mas, na primeira vez que as vi, as explosões e a nuvem de pó causada pela queda do World Trade Center dominavam as imagens (que eu "via"). Agora é pior. Agora consigo ver os pormenores. Consigo ver as pessoas.
No início do programa pensei ser redundante a repetição de imagens tão violentas. Puro engano. Não é, nem nunca será redundante. São estas imagens que nos mostram as terríveis possibilidades do terrorismo. São estas imagens que nos lembram porque razão temos de combater o terrorismo. Temos apenas de ser cuidadosos e evitar repeti-las com demasiada frequência. Isso poderia gerar uma indesejada insensibilidade (defensiva) perante estas imagens.
Só espero que muitos futuros terroristas suicidas possam ver este documentário. Talvez eles acabem por perceber que existem outros caminhos (pacíficos) para resolver os problemas, por mais desesperados que estes sejam.
ANS
76 – CANÇÕES DE 1973 (I)
Aqui começa mais uma série do Carimbo: Canções de 1973.
É verdade que a primeira série (“Os estrangeiros que eu conheço”) nunca mais foi actualizada. No entanto, essa série não está esquecida e brevemente conhecerá novos desenvolvimentos. Entretanto, aqui fica a recomendação do livro “The English” de Jeremy Paxton, para o caso de quererem confirmar algumas das características que atribuí aos ingleses que eu conheço.
Esta nova série que hoje se inicia pretende recordar algumas canções (apenas as letras para não violar os direitos de autor) lançadas no “glorioso” ano de 1973, como eu e muitos dos meus amigos (principalmente os benfiquistas) gostamos de dizer.
De facto, o ano de 1973, além de ser o ano de nascimento de todos aqueles que atingem os trinta anos de idade em 2003, foi também o melhor ano de sempre do Benfica no campeonato nacional de futebol. Nessa época (1972/73), o Benfica conseguiu terminar o campeonato sem qualquer derrota, tendo cedido apenas dois empates. Marcou 101 golos e sofreu apenas 13 em apenas 30 jogos. O segundo classificado, o Belenenses, ficou a 18 pontos de distância, o que, hoje em dia, corresponderia a “apenas” 32 pontos. Notável. O ano de 1973 foi também o ano da despedida de Eusébio dos jogos da selecção nacional, o que aconteceu no Estádio da Luz num jogo contra a Bulgária para apuramento para o Campeonato Europeu de 1974. Foi também em 1973 que Eusébio marcou o seu último golo, pelo Benfica, em jogos da Taça dos Campeões Europeus. Foi nesse ano que Borges Coutinho (o presidente do clube) homenageou Eusébio perante um Estádio da Luz completamente cheio.
Confesso que sinto inveja da geração dos meus pais (agora entre os cinquenta e os sessenta anos de idade) porque eles tiveram oportunidade de assistir a jogos de um Benfica realmente glorioso. Eles podem recordar esses momentos sempre que algum portista ou sportinguista se diverte a comentar o actual Benfica. Eu não posso recorrer a essa estratégia de defesa. Não consigo recordar nada do que me aconteceu antes dos três anos de idade, mas não preciso de recorrer a qualquer hipnose regressiva para saber que sou benfiquista desde que nasci.
Enfim, não posso recordar os jogos do Glorioso mas posso recordar as canções da época. Ouço muitas delas de vez em quando, como é o caso das canções de Al Green. Escolhi este cantor do estilo soul para iniciar esta série musical apenas com base em critérios alfabéticos, embora tenha “esquecido” os Abba e os Aerosmith, entre outros, os quais também já tinham discos editados em 1973.
Entre as canções de Al Green lançadas em 1973, seleccionei Call Me (Come Back Home) por razões que já aqui expliquei mais do que uma vez.
CALL ME (COME BACK HOME)
Call me...
Call me...
Call me...
What a beautiful time we had together,
now it's getting late and we must leave each other,
just remember the time we had,
and how right I tried to be,
it's all in a day's work,
Call me...
Losing your love, acting foolishly,
go on and take your time,
you're already losing me,
love is a long ways from here,
'cause it's all in the way you feel,
If love is real, come to me.
Call me...
Call me...
Call me... (Come back home)
The best thing I can do is give you your love,
that you're going away feeling as free as a dove,
And if you find you's a long way from home,
and if somebody's doin' you wrong,
Just call me baby... (Come back home)
Call me...
Call me...
Call me... (Come back home)
...Ain't things going right.
It's all in a day's work
Call me...
You can call me when you're feelin' sad, baby...
It's all in a day's work...
Come back home...
By Mitchell, Green and Jackson
Amanhã há mais.
ANS
10 setembro 2003
75 – TRINTA ANOS
Na passada terça-feira (dia 2 de Setembro), uma prima minha completou trinta anos de idade. Telefonei-lhe para a felicitar e constatei que ela não estava nada contente. Fiquei surpreendido. Não consegui perceber porque estava ela tão triste por se transformar numa jovem de trinta anos de idade. O que mudou na vida dela no seu dia de aniversário? O que desapareceu nesse dia? O que temos aos vinte e nove anos de idade que deixamos de ter aos trinta?
Eu também completei trinta anos durante este ano e nem sequer pensei no assunto. Uma outra prima nossa também atingiu esta idade durante este Verão e não me pareceu ter ficado triste por isso. A maior parte dos meus amigos e amigas têm celebrado os seus trinta anos de idade durante os últimos dois anos e marcaram a data com pompa e circunstância. Uma pessoa que me é muito especial também já tem trinta anos e sente-se muito bem com essa idade.
Pensei que a minha prima estava a evidenciar receios exagerados (e infundados) do envelhecimento. Na sexta-feira (dia 5 de Setembro) fui a casa dela e verifiquei, com satisfação, que ela estava muito bem disposta. No entanto, como não queria que ela voltasse a ficar triste, receei perguntar-lhe se já gostava da sua nova idade. O problema é que fiquei sem saber porque razão o número trinta a incomodava tanto.
No dia seguinte voei para Manchester e, durante a viagem, li a crónica de Faíza Hayat na revista XIS do Público. O título (A arte de fazer anos) era sugestivo e as primeiras frases também: “Faço amanhã, domingo, trinta anos. Ao contrário de muitas das minhas amigas, igualmente balzaquianas, cada vez gosto mais de fazer anos. Faço-os melhor agora do que nunca. Quando era criança aquilo que mais apreciava na festa do meu aniversário era, claro está, a própria festa.”
Faíza Hayat explica que a idade não se vence simplesmente, ela constrói-se dia a dia e é feita de histórias e de conquistas.
O outro argumento de Faíza Hayat baseia-se na ideia do desconforto das constantes mutações dos corpos jovens. Tem razão. Embora continuemos a envelhecer, para nós que temos trinta anos de idade, esse envelhecimento será menos nítido durante os próximos vinte anos.
Mesmo que a minha prima tenha lido esta crónica, ela nunca passará a gostar da sua festa de aniversário. Nunca gostou. Nem quando era criança ou adolescente. Eu, pelo contrário, sempre adorei festas de aniversário. Não me importo nada de ver a idade a avançar desde que a possa celebrar com festas de arromba.
ANS
74 - CONFIANÇA NAS OBRAS PÚBLICAS
Enquanto esperava pela divulgação do relatório sobre as causas da queda do tabuleiro de uma passagem superior de peões sobre o IC19, li diversas notícias e comentários sobre esse acidente.
No Público de ontem pude ler que as “pontes pedonais do tipo da que caiu são estruturas relativamente frágeis e com um coeficiente de segurança baixo. Calculadas para permitir apenas a travessia de peões, estas pontes funcionam por gravidade: o tabuleiro é assente sobre os pilares, não estando preso a eles por estruturas solidárias construídas de raiz. Para esta opção de construção muito contribui o facto destas pontes se situarem em estradas de grande movimento e de terem de ser construídas perturbando o menos possível o trânsito. Por isso, os pilares de apoio são construídos primeiro e, quando ficam prontos, as vigas pré-fabricadas que constituem a ponte em si mesma são meramente ‘pousadas’ sobre esses pilares. Por vezes procura reforçar-se a estrutura ligando o tabuleiro aos pilares com a ajuda de parafusos, mas essa solução é sempre de alguma fragilidade.
A obra determinada pelo Instituto das Estradas de Portugal destinava-se não apenas a reparar a passagem superior dos danos provocados pelo embate de uma grua, mas a elevá-la cerca de vinte centímetros. Esta elevação do tabuleiro visava minorar o risco de novos embates, já que situando-se a passagem a uma altura superior à permitida aos veículos pesados, há muitos que não cumprem a lei e circulam com cargas que acabam por embater em estruturas como aquela ponte.
O Instituto das Estradas de Portugal considerou ontem prematuro dar qualquer explicação sobre o que terá ocorrido, preferindo esperar pelo resultado do inquérito em curso. No entanto, testemunhos recolhidos no local dão algumas pistas para as causas do acidente. Aparentemente, o empreiteiro encarregue da obra terá começado por desprender o tabuleiro dos pilares, tirando os parafusos, e, depois, utilizado macacos hidráulicos para altear a estrutura, que pesava 52 toneladas. Os novos apoios não terão sido concluídos durante a intervenção, ficando por isso o tabuleiro assente numa estrutura provisória que apenas aguentou seis [horas?] de trepidação. Esta possível explicação para o ocorrido levanta a questão de saber em que condições foi autorizada a reabertura do trânsito e qual o responsável técnico por ter considerado suficientemente sólida uma estrutura cujos restos, visíveis no local, aparentavam evidente fragilidade.
O problema ocorrido com a passagem superior do IC 19 deverá chamar a atenção para a circunstância de existirem muitas pontes semelhantes em todo o país, construídas também em vias de grande movimento e com base em estruturas que parecem bem preparadas para os esforços verticais a que são sujeitas (a passagem de peões), mas que não terão a necessária solidez para resistir a vibrações, ao embate de viaturas ou a sismos que as sujeitem a fortes abanões.”
Confesso que fiquei impressionado com tanto conhecimento técnico. No entanto, sinto que devo prestar alguns esclarecimentos adicionais.
1 – As pontes pedonais não são estruturas relativamente frágeis com um coeficiente de segurança baixo. As pontes pedonais, como qualquer outra estrutura, são calculadas com um coeficiente de segurança adequado, o qual é aliás imposto pelas normas e regulamentos em vigor.
2 – As pontes pedonais não “funcionam por gravidade”. Se não existisse gravidade não precisaríamos de pontes e estas nunca cairiam.
3 – As pontes pedonais, como inúmeras outras estruturas (entre as quais se incluem pontes rodoviárias e ferroviárias), podem ser projectadas e construídas de modo a funcionarem com tabuleiros simplesmente apoiados (em pilares ou encontros). Nem sempre as ligações monolíticas (expressão utilizada no caso de pontes de betão armado) são as mais indicadas.
4 – Não estou a ver a que “parafusos” se refere a notícia do Público. Nos apoios simples são geralmente utilizados dentes em betão armado (nos encontros), aparelhos de apoio ou simples ferrolhos (em aço) para evitar os deslocamentos transversais do tabuleiro. Os deslocamentos longitudinais do tabuleiro podem ser permitidos ou não, dependendo da solução estrutural adoptada. Se forem permitidos, têm de existir apoios de largura compatível.
5 – O recurso a tabuleiros pré-fabricados e simplesmente apoiados justifica-se, de facto, pela maior rapidez de execução.
6 – Se existem veículos pesados que não cumprem o que está legislado relativamente à altura máxima permitida, porque não são os seus condutores responsabilizados pela reparação das estruturas danificadas? Porque tem de ser o Estado a pagar as reparações e a altear tabuleiros que já satisfazem o “gabarit” mínimo (ou seja, cumprem a lei)?
7 – Como já estava em Liverpool quando ocorreu o acidente, não pude ver imagens do tabuleiro que caiu. Também não consegui ler qualquer notícia que explicasse como caiu o tabuleiro. Caiu lateralmente? Rodou? Caiu só de um lado? Os apoios ficaram em bom estado ou também partiram? Estas são pistas importantes para averiguar as causas da queda. Espero que a velocidade com que os bombeiros desobstruíram a via para permitir a circulação rodoviária no IC19 não tenha impossibilitado a recolha destas pistas por parte da comissão de inquérito constituída pelo IEP.
8 – Não me parece que a queda desta passagem superior de peões esteja relacionada com falta de resistência a vibrações, choques ou sismos. Estas acções são normalmente consideradas no dimensionamento destas estruturas. As normas e regulamentos em vigor obrigam a tal procedimento. Aproveito para lembrar que as pontes são, muitas vezes, estruturas muito flexíveis, pelo que se tornam muito mais sensíveis à acção do vento do que à acção dos sismos ou das vibrações introduzidas pelo tráfego. Se a passagem superior de peões caiu imediatamente após a conclusão da obra de reparação, o mais natural é que tal tenha acontecido na sequência de uma falha do projecto de alteamento/reparação/reforço ou de uma falha do empreiteiro na execução da obra.
Ainda na mesma edição do Público, José Manuel Fernandes faz comparações com a queda da ponte de Entre-os-Rios. Recordo que, após a queda dessa ponte, se verificou uma extensa campanha de inspecções coordenada pelo extinto Instituto para a Conservação e Exploração da Rede Rodoviária (ICERR), a qual tem sido continuada pelo IEP. Na sequência dessas inspecções foram realizadas diversas intervenções inicialmente coordenadas pelo ICERR e também pelo extinto ICOR (Instituto para a Construção Rodoviária) e agora coordenadas pelo IEP. Não posso acreditar que as inspeções às passagens desniveladas de peões tenham sido esquecidas.
José Manuel Fernandes refere também um passado glorioso da Engenharia Civil portuguesa, transmitindo a ideia de que as empresas portuguesas de projectistas e de construção já não são capazes de executar grandes obras e, por isso, não são reconhecidas internacionalmente. Não posso concordar com esta afirmação.
Já que José Manuel Fernandes refere a obra do Eng. Edgar Cardoso, lembro aqui a Ponte da Arrábida, no Porto, a qual constituiu na altura da sua construção (1963) o maior arco de betão armado e pré-esforçado do mundo (270 metros). Hoje, podemos olhar para a Ponte do Infante e admirar o seu arco abatido de 380 metros. Esta ponte foi construída por um consórcio luso-espanhol.
Parece que José Manuel Fernandes também desconhece que a Ponte Vasco da Gama (que é a maior da Europa) foi projectada por um consórcio de quatro empresas (duas das quais portuguesas). O projecto foi verificado por outro consórcio de quatro empresas (duas das quais portuguesas). A obra foi executada pelo consórcio Lusoponte constituído por empresas portuguesas (50,4 %), francesas (24,8 %) e inglesas (24,8 %).
Outras pontes famosas construídas durante a última década são a Ponte da Amizade (nova ligação entre Macau e Taipa, construída por um consórcio liderado por empresas portuguesas) e a Ponte Internacional do Guadiana (ligação entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, em Espanha), as quais foram projectadas pelo Eng. Câncio Martins.
A Ponte do Freixo, no Porto, e a Ponte José Gomes (com pilares de 105 metros de altura), no Funchal, projectadas pelo Eng. António Reis, também são obras marcantes.
A Ponte do Arade (em Portimão) e a Ponte Miguel Torga (na Régua), da autoria do Eng. Armando Rito, também não devem ser esquecidas.
Finalmente, lembro a obra de ampliação do Aeroporto Internacional do Funchal, da autoria do Eng. Segadães Tavares, a qual foi construída por um consórcio de três empresas (uma portuguesa, uma francesa e uma brasileira).
Penso que estes exemplos são suficientes para ilustrar a saúde da Engenharia Civil portuguesa, pelo menos no domínio das Estruturas (em geral) e das Pontes (em particular). Será que José Manuel Fernandes pensa que os portugueses confiariam mais nas obras públicas se elas fossem projectadas e executadas exclusivamente por estrangeiros?
Li agora na TSF que, de acordo com os resultados do relatório do IEP, "os riscos nas obras da ponte pedonal do IC19 não terão sido avaliados convenientemente". Já o esperava.
ANS
73 – DIÁLOGO REVELADOR
O Telejornal de ontem abriu com notícias sobre a pedofilia. Essas notícias ocuparam apenas vinte e seis minutos do programa. Talvez isto seja uma consequência directa da notícia do Expresso sobre as duradouras ligações da empresa à rede de pedofilia da Casa Pia. Por arrasto, outras situações de envolvimento da RTP com a pornografia são agora lembradas. É o caso das cassetes didácticas sobre o 25 de Abril que continham também imagens pornográficas. Este caso ocorreu há quatro anos atrás e mereceu ontem uma entrevista de José Rodrigues dos Santos a Alfredo Trofa (um antigo responsável pelos arquivos da RTP). A parte final do diálogo (que a seguir transcrevo) apresenta algumas curiosidades.
JRS: Alfredo Trofa, viu as imagens?
AT: Eu não vi mas suponho, porque mandei ver e esse é o motivo porque não vi, que se tratava de uma gravação de uma emissão de cabo que se chamava Canal 18 ou... suponho que era assim.
JRS: E, portanto, não envolvia crianças...
AT: Não, não envolvia crianças.
JRS: Então nós temos uma situação em que o vídeo não é de pedofilia. Foi feito um inquérito. Foi despedido um responsável. Tudo se passou fora da RTP. Porque é que, na sua opinião, este caso se levanta agora?
AT: Eu tenho a impressão, mas isto é a minha impressão e não é mais do que isso, que a RTP é exímia em dar tiros nos pés. (A expressão facial de José Rodrigues dos Santos, ao minuto 13:40 do Telejornal, merece ser vista.) Eu não percebo porque é que se está a levantar este problema dentro da RTP. Porque é que juntaram agora este problema ao caso da pedofilia? Este é um problema que devia ter sido sanado. Digamos [que houve] mau trabalho de um trabalhador, que nem sequer era da RTP, mas que a empresa sanou. E agora porque é que juntam a história da pedofilia? Eu não consigo perceber.
JRS: Alfredo Trofa, muito obrigado.
Para mim, este pequeno diálogo revela muito sobre a nossa sociedade.
ANS
72 – REGRESSO
A palavra “regresso” tem-me acompanhado nos últimos dias. Regressei a Liverpool, regressei ao trabalho e regressaram as saudades. Só cá estou há quatro dias e já é muito difícil estancar a vontade de regressar a Portugal.
O clima de Inglaterra não ajuda a contrariar este desejo. Enquanto que, em Portugal, estão cerca de 30 ºC, em Liverpool, a chuva e o frio já regressaram (a temperatura máxima prevista para hoje é de apenas 15 ºC).
Talvez eu queira apenas “regressar” ao período de férias que gozei em Portugal e esquecer que já estou em Liverpool (a trabalhar). Infelizmente, a realidade é cruel e não me permite esse luxo. Pelo contrário, força-me a regressar às aventuras burocráticas (às vezes penso que a burocracia inglesa é pior do que a nossa) e à chatice dos compromissos. Foram a obrigações do trabalho (longas reuniões que se estenderam pela noite dentro) que me impediram de ir ontem ao Goodison Park para assistir ao jogo de futebol entre a selecção nacional portuguesa de sub-21 e a sua congénere inglesa. Fiquei triste por não ter assistido ao regresso dos rapazes às vitórias.
Já que não posso regressar fisicamente a Portugal, faço-o virtualmente através do Carimbo. Depois de um mês, durante o qual apenas publiquei vinte e três posts (antes tinha publicado quarenta e oito posts em apenas dezanove dias), regresso à blogosfera com a promessa de contribuições regulares durante as próximas seis semanas.
Já agora, aproveito para vos avisar a todos que o ornitólogo da blogosfera já identificou definitivamente (num bonito post com o título Die Voëgel) a que espécie zoológica pertence o Carimbo. Espero que não se trate de uma espécie rara e em vias de extinção para que me possam ver a "voar" pelos vossos blogs e a regressar com frequência.
ANS
04 setembro 2003
71 - COM SORTE, ESTAREMOS CÁ PARA VER (II)
70 - COM SORTE, ESTAREMOS CÁ PARA VER (I)
No Independente da passada sexta-feira (29 de Agosto), Vítor Cunha (VC) escreveu que o representante da direita portuguesa nas próximas eleições presidenciais será Cavaco Silva. Segundo VC, Santana Lopes apenas “entrará na corrida” se Cavaco Silva recusar candidatar-se às presidenciais. Para VC, uma candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) será dificilmente aceite pelos partidos que formam o actual governo de coligação. Para tal contribuem os episódios que ditaram, há quatro anos atrás, o fim da Aliança Democrática.
Ainda de acordo com a última edição do Independente, Fernando Ruas tem uma posição oposta à de VC, admitindo que, entre Cavaco Silva e Santana Lopes, talvez o último tenha a vantagem de “dificilmente sair de moda”. Fernando Ruas descartou a hipótese de uma candidatura de MRS às presidenciais mas não negou que MRS daria um bom cabeça-de-lista nas eleições para o Parlamento Europeu.
Na edição do Expresso de Sábado passado (30 de Agosto), José Sócrates não mencionou a hipótese de uma candidatura de MRS às presidenciais mas previu uma disputa interna no Partido Social Democrata, nomeadamente entre Cavaco Silva e Santana Lopes.
José Sócrates assumiu ainda que António Guterres, recentemente convidado pela Organização das Nações Unidas para actuar como consultor para a política social junto do governo brasileiro, é o melhor candidato do centro-esquerda. Desta forma, José Sócrates respondeu às propostas de Mário Soares relativamente a uma viragem à esquerda do Partido Socialista (PS) e tentou enquadrar a melhor posição do PS numa luta contra a “direita radical” imaginada por Ferro Rodrigues. As declarações de José Sócrates funcionaram também como uma resposta à proposta de João Cravinho relativamente à possibilidade de uma candidatura de António Guterres como cabeça-de-lista nas eleições para o Parlamento Europeu. Convém lembrar que esta proposta já tinha merecido uma resposta de João Soares, o qual afirmou (no dia 28 de Agosto) que António Guterres será o candidato do centro-esquerda às presidenciais de 2006. Será que aqueles que vislumbravam a hipótese de uma nova candidatura presidencial de Mário Soares esperavam uma afirmação deste tipo por parte do filho do ex-Presidente da República?
A conclusão desta série de afirmações e previsões sobre o tema dos candidatos presidenciais foi efectuada por MRS, na sua habitual intervenção na emissão de Domingo do Jornal Nacional da TVI.
MRS eliminou as hipotéticas candidaturas presidenciais de Mota Amaral e de Freitas do Amaral e contou que “olhou para o espelho mas não descortinou um Presidente da República”. Com estas palavras, MRS assumiu que não tem perfil para o cargo e descartou a hipótese da sua própria candidatura. MRS afirmou ainda que, quando um político recomenda outro para o Parlamento Europeu, está apenas a tentar afastá-lo da cena política nacional. Parece que foi isso que lhe fizeram José Luís Arnaut (o “careca”) e, talvez, Fernando Ruas. Finalmente, MRS aceitou a tese de que os únicos candidatos possíveis à direita são Cavaco Silva e Santana Lopes. No entanto, para MRS, Cavaco Silva tem algumas vantagens sobre Santana Lopes (tem um “timing” mais adequado para o lançamento da sua eventual candidatura, tem um perfil político “menos ambicioso”, tem menos a perder e tem maior probabilidade de vencer António Guterres).
Quanto aos candidatos da esquerda, MRS entendeu as afirmações de João Soares como uma evidência de que Mário Soares desistiu de uma eventual candidatura às eleições presidenciais. Desta forma, MRS voltou a mostrar-se convicto de que António Guterres é o único candidato provável da esquerda porque “é o que mais facilmente entrará no eleitorado de direita”. Será esta outra forma de dizer que António Guterres é um candidato do centro-esquerda?
Enfim, parece que, a dois anos e quatro meses de distância das eleições presidenciais, já está tudo decidido no que se refere aos dois candidatos principais, os quais serão Cavaco Silva e António Guterres. Como disse MRS, “estaremos cá para ver” se assim será. No entanto, “não lembra nem ao careca” que a esta distância daquelas eleições se possam fazer cenários tão precisos. A não ser que estes cenários definam algo mais do que o Presidente da República.
De facto, estes cenários são de extrema importância para a definição da próxima liderança do PS. MRS afirmou que João Soares já demonstrou, com as suas manifestações de apoio a António Guterres, a sua vontade de liderar o partido. José Sócrates (que perdeu recentemente a capacidade de expor semanalmente as suas opiniões na RTP) não quis ficar atrás de João Soares e imitou-o nas suas declarações. Será que também está na corrida pela liderança do PS? De acordo com o Expresso, António Costa não quer continuar a ser líder da bancada parlamentar socialista (apesar de, segundo o Independente, Ferro Rodrigues já ter anunciado a sua continuidade nessas funções) e parece estar a “ser afastado da cena política nacional” pois poderá ser o cabeça-de-lista do PS nas eleições para o Parlamento Europeu. De acordo com o Público, António Vitorino, o actual Comissário Europeu da Justiça e Assuntos Internos, só sairá da Comissão Europeia por vontade própria. Uma vez que as possibilidades de António Vitorino vir a ser o próximo secretário-geral da NATO parecem remotas, Durão Barroso parece preferir manter este “desejado” do PS na Comissão Europeia, ou seja, “afastado da cena política nacional” (como diria MRS).
Será que se o tema da liderança do PS passasse a ser discutido abertamente na comunicação social, sem o disfarce das eleições europeias e presidenciais, poderíamos assistir a uma renovação mais rápida do PS? Era importante que assim fosse porque, neste momento, não há oposição.
ANS
69 - OPUS GAY: CONOTAÇÕES
Se ONG é a sigla para Organização Não Governamental, então OG é a sigla para... Organização Governamental (ou Opus Gay). Será que está correcta a (já velha) tese de Alberto João Jardim sobre o "lobby gay"?
ANS
68 - MAIS AGRADECIMENTOS VI
Antes de mais, aqui ficam os meus agradecimentos ao Cristovão-de-Moura por voltar atrás nas suas promessas.
Agradeço as intervenções do Alfacinha, de Carlos Vaz Marques e de Jiminy Cricket na questão do sufrágio universal (ver post 65 do Carimbo) e de António Torres na questão do desemprego (ver post 66 do Carimbo).
Agradeço o elogio que Manuel Alçada faz ao nome que escolhi para o meu blog (O Carimbo). Até tenho vergonha de contar que este era, talvez, o décimo nome da lista. Os outros nove já estavam atribuídos.
Agradeço também os “pius” que O Pintainho dedica ao Carimbo.
Aproveito para agradecer também a alguns novos blogs que já incluíram O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados. São eles o Gatopardo (mais um gato para fazer companhia ao Fedorento), o Bugue, o Oliveira de Figueira (só tem um post publicado) e o Blogdemocracia (que é apenas uma semana mais novo do que O Carimbo). Agradeço também ao Inventário de Web Logs pela inclusão do Carimbo na secção dos “Fazedores de Palavras”, embora me pareça que essa é uma classificação lisonjeira para O Carimbo.
Finalmente aqui fica um agradecimento ao Grupo de Amigos de Olivença pelos e-mails que todos os dias enviam para O Carimbo. Peço-lhes apenas que abrandem o ritmo porque a conta hotmail do Carimbo tem pouca capacidade de armazenamento. Obrigado.
ANS
67 - OS PERIGOS DAS ANÁLISES SUPERFICIAIS II
No post anterior referi a necessidade de evitar as análises de âmbito geral e superficial. Apontei, como exemplo, a questão do desemprego. No entanto, existem outros exemplos onde este tipo de análises é frequente. É o que acontece com os acidentes rodoviários.
Fala-se constantemente do número de mortos e feridos na totalidade das estradas nacionais. As conclusões são sempre as mesmas. A culpa é sempre dos condutores que circulam ébrios ou em excesso de velocidade. De vez em quando, são apontadas algumas estradas perigosas. No entanto, todas estas explicações apresentam o mesmo defeito. Generalizam o que não deve ser generalizado.
Mesmo que muitos acidentes tenham sido provocados por condutores que beberam “em excesso”, que ultrapassaram o limite de velocidade estabelecido para a estrada em que circulavam ou que infringiram qualquer outra regra de trânsito, não se pode afirmar que a culpa é sempre dos condutores. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes comprovadamente provocados por excesso de álcool ou velocidade.
Mesmo que muitos acidentes tenham ocorrido em troços de estrada mal concebidos ou mal sinalizados, não se deve afirmar que há estradas perigosas (pois esta afirmação engloba a totalidade do traçado). Durante anos assisti a inúmeros acidentes na Estrada Nacional 125 e no Itinerário Complementar nº 1. Entretanto, foram construídas a Via do Infante e a Auto-Estrada do Sul (A2) e deixei de assistir à ocorrência de acidentes. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes ocorridos em estradas nacionais e em auto-estradas.
Mesmo que todos os veículos sejam submetidos a inspecções anuais obrigatórias, não se pode ignorar a possibilidade de os acidentes ocorrerem como consequência de falhas mecânicas dos automóveis. Se os acidentes aéreos podem ocorrer devido a problemas mecânicos ou electrónicos, porque razão serão os automóveis imunes a esse tipo de problemas? Que eu saiba, os aviões são inspeccionados várias vezes por ano e isso não elimina a probabilidade de acidente. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes com pesados, automóveis ou motociclos. Seria útil ver (sempre) discriminado o número de acidentes envolvendo veículos sujeitos a inspecção há mais de seis meses.
Se os órgãos de comunicação social divulgassem este tipo de dados seria possível discutir a questão dos acidentes rodoviários com maior racionalidade, sem generalizações e sem demagogias como as que levaram à criação de “estradas com tolerância zero”. Os portugueses gostam de encarar as leis como simples indicações dos caminhos que devem ser seguidos, mas sem muito rigor porque há sempre uma larga margem de tolerância. As consequências desta atitude são o incumprimento do código da estrada e a evasão fiscal, entre outras. As autoridades não ajudam e criam estradas sem tolerância zero e perdões fiscais.
Já que menciono o código da estrada, lembro que há uma regra (que aprendi nos últimos anos de condução em Lisboa) que não está referida no código. De facto, se o condutor puder escolher entre estacionar o veículo numa zona com parquímetro ou numa zona de estacionamento proibido, deve optar pela última hipótese. Não pagará o estacionamento e não será multado. Os empregados da EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento de Lisboa), mesmo quando são polícias (fardados e, supostamente, em serviço) contratados por aquela empresa, não têm autoridade para multar os veículos estacionados em zonas proibidas. Isto é Portugal no seu melhor.
ANS
66 - OS PERIGOS DAS ANÁLISES SUPERFICIAIS I
O Faccioso, no post “Novamente o desemprego...”, parte do exposto no post 61 do Carimbo para tecer algumas considerações sobre o desemprego. Para o Faccioso, apesar do tão discutido aumento do desemprego, a oferta de emprego em Portugal ainda é considerável. No entanto, são os imigrantes (menos exigentes do que os desempregados portugueses) que acabam por ocupar os postos de trabalho disponíveis (e dignos).
Lembro que não gosto de generalizar e que acredito na existência de inúmeros casos de cidadãos nacionais que querem trabalhar, que estão disponíveis para qualquer trabalho (digno) e que, mesmo assim, não conseguem arranjar trabalho. São esses que merecem as pensões sociais, os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção.
Os outros desempregados, aqueles que não querem trabalhar (não são a maioria, mas também existem), devem, como recomenda o Faccioso, seguir o exemplo dos imigrantes que têm vindo para o nosso país.
Para que não me acusem de falta de humanidade para com os desempregados por afirmar que existe gente que não quer trabalhar, permitam-me que ilustre a minha posição com um pequeno exemplo (o qual não pretende ser generalizador).
Os meus pais possuem uma quinta no sul do país. Para a manutenção dessa quinta, com uma área de cerca de 10 hectares, foi necessário contratar um trabalhador a tempo inteiro. Durante alguns anos, os meus pais procuraram (sem sucesso) alguém que aceitasse aquele emprego, até que, há cerca de dois anos, apareceu um imigrante ucraniano a perguntar se podia trabalhar. Claro que podia. Esse imigrante conseguiu fugir à acção das "máfias" (que ainda tentaram controlá-lo) e agora (já completamente legalizado) tem casa (na quinta), alimentação e um ordenado superior a mais do dobro do ordenado mínimo nacional (o que equivale a vários salários médios ucranianos). A família deste imigrante (mulher, filha e neto) vive bastante bem, na Ucrânia, com o dinheiro que lhe é enviado todos os meses de Portugal e, daqui a um ano ou dois, virá para Portugal.
Será que este emprego não era suficientemente bom (e digno) para os desempregados portugueses?
Parece-me que não se deve falar do desemprego focando apenas o número total de desempregados inscritos no Instituto de Emprego e Formação Profissional. É muito importante que se diga à população qual a distribuição do desemprego por distritos, ou até por concelhos. A mobilidade das populações deve ser estimulada. Esta mobilidade não tem que estar sempre associada ao “êxodo rural”. Talvez tenha chegado a hora de estimular um “êxodo urbano”, para o que será necessário mostrar à população desempregada que existe trabalho à sua espera no interior do país.
ANS
65 - POSTS APAGADOS
Parece que Paulo Varela Gomes (PVG), do Cristovão-de-Moura, se arrependeu de ter considerado o tema do sufrágio universal “uma grande chatice” e de ter prometido declarar “uma verdadeira guerra” ao Carimbo. É assim que interpreto o facto de PVG ter apagado o post em que fazia essas afirmações. Para não parecer que ando a colocar palavras fictícias nos blogs dos outros, recomendo uma leitura do post “Voto” de Carlos Vaz Marques.
Se o leitor quiser seguir as discussões sobre o direito de voto, sobre o significado da abstenção e do voto em branco e, de uma forma mais geral, sobre as questões da cidadania, recomendo uma leitura do post “Breve incursão pelos blogs” do Ter Voz, onde encontrará várias hiperligações a outros blogs que têm vindo a discutir estes temas.
ANS
64 - O VÍCIO BLOGUÍSTICO
Já não blogo desde o dia 30 de Agosto. Hoje não resisti ao vício e aqui estou eu, pronto para publicar uma série de posts.
Estes posts devem ser encarados como uma espécie de terapia de grupo, na qual exponho o meu problema aos outros “blogoólicos” que fazem parte da ABA (Associação dos Blogoólicos Anónimos, vulgarmente conhecida por blogosfera). Como escreveu JPN do Complot, “admitir o problema é o primeiro passo para a cura”.
ANS
30 agosto 2003
63 - SUFRÁGIO UNIVERSAL II
Parece que o tema que abordei no post anterior é, para Paulo Varela Gomes (PVG), uma "grande chatice". Como não fui eu quem trouxe o tema para a blogosfera, espero que PVG esteja apenas a ser irónico. De qualquer modo, como O Carimbo não existe para "chatear" ninguém, lembro que PVG não é obrigado a responder ao meu post. Aliás, se a resposta de PVG constituir uma "declaração de guerra", então prefiro que PVG opte por não responder. Para mim, O Carimbo é apenas um meio fantástico para discutir com outras pessoas sobre temas que me interessam (uns mais, outros menos). No entanto, essas discussões têm de ser pacíficas porque O Carimbo é um dos meus passatempos e, como tal, tem de me deixar bem disposto.
Entretanto, o Alfacinha (post "Alternativa II") continua a achar que não existem "alternativas" para o problema focado no post anterior e, por essa razão, tenta "destruir" a proposta que fiz relativamente ao sistema eleitoral, o qual deveria prever a perda do direito de voto no caso dos eleitores que se abstivessem por duas vezes consecutivas (por exemplo).
O Alfacinha começa por referir que não descortina qualquer vantagem em retirar o direito de voto a quem já decidiu não votar. Insisto que o espectro da perda de um direito (qualquer um) é suficiente para que as pessoas se esforcem por mantê-lo. No post anterior, referi o caso das pessoas que não se interessam por política. Essas pessoas teriam duas possibilidades de escolha. Poderiam procurar informação para votar conscientemente ou poderiam assumir o seu desinteresse e prescindir do seu direito de voto, reduzindo dessa forma os cadernos eleitorais. No caso de uma acentuada diminuição do número de eleitores, a televisão poderia perder o interesse no espectáculo da política demagógica.
O Alfacinha chama a atenção para a necessidade de prever um sistema para justificar possíveis abstenções involuntárias. Eu não referi essa possibilidade porque penso que ela é totalmente desnecessária. Os actos eleitorais são programados com muita antecedência, pelo que existe tempo mais do que suficiente para que os eleitores possam activar os mecanismos necessários para poderem exercer o seu direito de voto, estejam eles (eleitores) doentes, ausentes do país ou numa outra situação limitativa.
O Alfacinha prevê, como consequência do sistema que eu proponho, a generalização do voto em branco (ou de algo semelhante). Concordo com o Alfacinha e com o Mar Salgado (post "Responsabilidade e Política III") no que se refere à impossibilidade de interpretação do significado do voto em branco. No entanto, ao contrário do que pensa o Alfacinha, julgo que o número de votos em branco não cresceria muito. Não há nenhuma razão para pensar que, num universo de eleitores mais largo, o número de votos em branco seria maior (em proporção) do que é actualmente. O Alfacinha parece acreditar que a maioria dos actuais abstencionistas continuaria a viver na ignorância política e, por esse motivo, apenas votaria (em branco) para não perder um direito adquirido. Talvez o Alfacinha tenha razão quando faz esta suposição. Porém, se essa situação se verificasse, a classe política teria de se comprometer a não atribuir qualquer significado ao voto em branco (agora sou eu quem está a ser demagogo) de modo a incutir um sentimento de estúpida inutilidade naqueles que tivessem optado por essa solução fácil.
Uma solução mais radical (a qual eu não defendo) poderia passar por aplicar a mesma penalização (perda do direito de voto) àqueles que votassem em branco (ou que optassem pelo voto nulo, por exemplo). Como é óbvio, esta solução implicaria o fim do voto secreto, o que seria muito perigoso e arriscado. Não me parece que as democracias estejam suficientemente maduras para um passo tão grande.
ANS
28 agosto 2003
62 - SUFRÁGIO UNIVERSAL
No post anterior referi o poder educativo da televisão. Paulo Varela Gomes (PVG) do Cristovão-de-Moura também refere este poder da televisão para justificar a sua oposição ao sufrágio universal.
De acordo com o que PVG escreveu nos posts da série “O meu avô” do Cristovão-de-Moura, “os homens não são iguais em direitos”, existindo “gente de qualidade” com “mais direitos do que gente sem qualidade”. Para PVG, os bens “de qualidade” devem estar ao alcance apenas de alguns de modo a garantir a manutenção da referida qualidade, a qual se perde quando há generalização do acesso a tais bens. PVG suaviza estas afirmações escrevendo que “precisamos de igualdade de direitos”, mas também precisamos “de diferenciação no acesso a esses direitos”.
Para particularizar estes conceitos gerais, PVG recorre ao direito ao voto. Este direito deveria ser diferenciado, existindo um voto “de qualidade” reservado a “gente de qualidade”, a qual poderia corresponder à população com o ensino secundário completo (pelo menos). Esta “gente de qualidade” teria a função de “interpretar, traduzir, filtrar e mediar a vontade popular”. O povo menos instruído também teria “direito ao voto”, mas a um voto menor e destinado apenas à escolha dos seus intérpretes instruídos. PVG julga que a maior vantagem deste sistema de “voto indirecto” seria aumentar o nível do debate político e impedir a actual “era de demagogia” e “estupidificação” política. Para PVG, esta situação decorre do “acesso universal aos espaços colectivos”, cujo símbolo de maior expressão é a televisão. Este meio de comunicação social funciona actualmente como suporte para “um contacto quase directo” “entre os eleitores (ou as massas populares) e os seus representantes” políticos, os quais são assim obrigados a “cortejar” a televisão enquanto “mundo do espectáculo” e “da cultura de massas”.
Embora não concorde com as soluções propostas por PVG, as quais me parecem totalmente anti-democráticas e discriminatórias, sou obrigado a aceitar a análise que faz da dependência do sistema político relativamente aos meios de comunicação social.
De acordo com PVG, a transformação da política num espectáculo mediático baseado na disputa demagógica de votos acaba, porém, por ter um efeito perverso que é a abstenção. Para PVG, a abstenção funciona como um “filtro” que “separa o povo da política”.
De facto, a abstenção traduz o afastamento da população relativamente à condução política do país. A abstenção é, como a própria palavra indica, uma renúncia ou uma privação. É comum, nas análises aos resultados eleitorais, atribuir à abstenção um significado de descontentamento com o estado da nação, com o governo em exercício ou com as alternativas políticas sujeitas a sufrágio. Para mim, estas análises são totalmente ficcionistas e, portanto, demagógicas. É por isso que me parece que PVG não tem razão quando interpreta a abstenção como o resultado de uma filtragem que separa o povo (em geral) da política mediática. No entanto, a teoria da filtragem pode funcionar para separar os eleitores interessados (em política) daquelas pessoas que, independentemente do seu nível de formação, da sua classe social, da sua idade e do seu sexo, não se interessam por política.
Recordo-me de uma campanha contra a abstenção que nos lembrava que o voto é, não só um direito, mas também um dever. Aplique-se esta máxima e retire-se o direito de voto àqueles que optarem sistematicamente (duas vezes seguidas, por exemplo) pela abstenção. Desta forma reduzem-se os cadernos eleitorais à população efectivamente interessada e, por isso, informada e capaz de entender um debate político de nível mais elevado. O que eu defendo é que todas as pessoas tenham, à partida, os mesmos direitos, sendo, no entanto, obrigadas a esforçar-se por mantê-los. Penso que uma solução deste género seria muito mais justa do que aquele sistema de “voto indirecto” que PVG propôs.
Esta forma de abordar o problema da representatividade política e da abstenção permite-me, por exemplo, introduzir uma questão que me incomodou bastante quando eu tinha quinze anos de idade. Nessa altura eu já me julgava capaz de votar com consciência mas não o podia fazer porque, em Portugal, tal como nos restantes países da União Europeia, só é permitido votar aos dezoito anos de idade. Actualmente, a Comissão Eleitoral do Reino Unido estuda a possibilidade de antecipação da idade mínima de voto para os dezasseis anos de idade. De acordo com alguns estudos já efectuados, tem-se verificado uma baixa participação eleitoral por parte da faixa etária situada entre os 18 e os 24 anos de idade. São mais os jovens entre os 15 e os 17 anos de idade (30 %) que se afirmam interessados em política do que os jovens entre os 18 e os 24 anos de idade. Penso que seria muito interessante dar o direito de voto aos jovens interessados e com uma palavra a dizer. Eles não desperdiçariam a oportunidade de serem “ouvidos” pois saberiam que a abstenção sistemática implicaria a perda definitiva do direito de voto.
Quanto à generalidade da população, julgo que o espectro da perda de um direito adquirido poderia funcionar como um estímulo para uma participação política mais activa e informada. Desta forma seria possível elevar o nível do debate político e, assim, aperfeiçoar o sistema democrático em que vivemos.
ANS
61 - SERÁ INTENCIONAL?
Este post tem dois objectivos principais. Um deles é lembrar o fim do Guerra e Pas e o outro é endereçar uma crítica ao Telejornal (da RTP). Nenhum destes temas é original na blogosfera, pelo que me sinto obrigado a comentar também os posts da série “Os blogues” do Bloguítica Nacional.
No primeiro post dessa série, Paulo Gorjão (a quem agradeço a resposta ao post “Que saudades da Guerra Fria” sobre a Coreia do Norte e o Japão) refere o seu descontentamento com a blogosfera. Segundo Paulo Gorjão, os bloggers (em geral) apenas comentam os temas que estão na moda. Parece-me, porém, que esta constatação não é inteiramente correcta. De facto, a maioria dos bloggers tem uma lista de blogs recomendados, os quais reflectem os temas que têm interesse para si (blogger) e para o seu blog. Os blogs que constam na tal lista de recomendações participam frequentemente em discussões entre si. Isto obriga os bloggers a debaterem o mesmo tema, investindo algum tempo e trabalho para fundamentar as suas opiniões (porque ninguém sabe tudo). Desta forma, sobra pouco tempo para discorrer sobre outros assuntos. No entanto, se observarmos com atenção, todos os bloggers têm uma particularidade que os distingue dos outros. Isto é, cada blogger tem um interesse particular sobre o qual raciocina ocasionalmente no respectivo blog. Cabe aos leitores evitar saltar por cima dos posts que fazem a diferença. Se estes posts mais raros interessarem ao leitor (o qual se presume não querer ler apenas generalidades), então é conveniente analisar as tais listas de recomendações em busca de outros blogs que se dediquem a tais particularidades. Somos assim conduzidos em direcção a outras sub-blogosferas, as quais podem ser muito diferentes daquela em que nos movimentamos. Esta é uma das razões que me leva a encarar com seriedade a minha lista de blogs recomendados.
Com base neste raciocínio, espero agora poder mencionar o fim do Guerra e Pas e também poder criticar o Telejornal (da RTP) sem correr o risco de ser incluído num qualquer rebanho conduzido pela “actualidade bloguística” ou pela actualidade referida na imprensa.
É verdade. O Guerra e Pas acabou. Acontece… a quase tudo. Espero que P. ainda volte à blogosfera e, por isso, manterei este blog na minha lista de recomendações
(na secção dos “Blogs a recordar”).
Nos últimos posts (168 a 170) do Guerra e Pas (com o título “Porque é que os nossos telejornais são tão compridos?”), P. critica o formato tablóide e a duração dos noticiários transmitidos pelas televisões. No Público de segunda-feira (dia 25 de Agosto), Eduardo Cintra Torres aponta críticas semelhantes. Também Fernando Ilharco, na mesma edição do Público, aponta algumas críticas aos noticiários televisivos.
Não quero “bater no ceguinho” mas julgo dever criticar a emissão de segunda-feira do Telejornal (da RTP). Sublinho o facto de me referir especificamente à emissão de segunda-feira e não ao formato do Telejornal (o qual já foi criticado por outros). Foi com surpresa que assisti à divulgação de uma notícia sobre o aumento do desemprego no mês de Julho logo seguida de uma notícia sobre o aumento da população residente no Alentejo como consequência da imigração.
A RTP citou as estimativas do Instituto Nacional de Estatística sobre o aumento do número de desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional de 414.145 no mês de Junho para 419.375 no mês de Julho, destacando o crescimento de 28,4 % relativamente a Julho de 2002 (o que corresponde à maior variação homóloga dos últimos dois anos). A notícia também destacou o facto de o desemprego ter aumentado durante o Verão (contrariando o frequente aumento da oferta de emprego que é sazonalmente motivado pelo turismo de Verão).
Logo a seguir, a RTP emitiu uma pequena reportagem sobre a imigração em Portugal. A frase de abertura da notícia foi: “E está a aumentar a população residente no Alentejo.”
A seguir, a notícia referiu que o aumento da população residente naquela zona do país (mais de 10.000 habitantes em 5 anos) se deve à imigração de cidadãos do Leste da Europa. Depois, para ilustrar a notícia, foi entrevistado um casal de ucranianos (originários de Kiev) já instalado, com emprego e com alguma qualidade de vida. No final da notícia, a RTP explica que afinal a população residente no Alentejo até tem diminuído (na última década deu-se uma redução de cerca de 15.400 habitantes) e que, por esse motivo, “quem vem de longe é bem-vindo”.
Penso que estas duas as notícias são interessantes e até importantes. Penso que qualquer pessoa de bom-senso evitará fazer uma associação do tipo causa-efeito (imigração-desemprego) entre estas notícias. Mas também penso que Portugal não é um país ideal, daqueles onde só habitam pessoas de bom-senso. Infelizmente, também vivem em Portugal, como em qualquer outro lugar, pessoas com pouca educação e com pouco sentido de tolerância. Quando estas pessoas vivem situações desesperadas de desemprego, o bom-senso desaparece imediatamente e qualquer pequeno pretexto serve para estimular preconceitos, ódios e injustos desejos de vingança.
Será que os responsáveis pelo Telejornal não conhecem esta triste realidade? Com certeza que a conhecem. É por isso que não percebo como é possível estruturar a apresentação das duas notícias em causa de uma forma tão insinuante (e perigosa). Será intencional? Haverá falta de notícias sobre a intolerância, a xenofobia e a discriminação? Será que é necessário estimular esse tipo de situações?
A resposta para estas três perguntas é, obviamente, negativa. No entanto, temos de chamar a atenção da RTP para este tipo de distracções. Todas as estações de televisão têm a obrigação de evitar a transmissão de mensagens (ainda que indirectas) que possam estimular a injustiça, a intolerância e a violência. A RTP, como estação obrigada a prestar serviço público, deve dar o exemplo nessa matéria. Não nos esqueçamos do efeito que a televisão (em geral) tem na educação da população.
ANS
60 – PUBLICIDADE
Recebi dois e-mails publicitários. Um do Perguntador (um blog na idade dos porquês) e outro do Ruim (um blog demasiado modesto).
ANS
59 - MAIS AGRADECIMENTOS V
Parece um paradoxo, mas é muito mais fácil acompanhar a blogosfera quando não se está de férias. No entanto, esta noite fiz um esforço e cá estou eu a “blogar”.
Foi com enorme satisfação que constatei que O Carimbo também já consta da lista de blogs recomendados pelo Assembleia, Epicurtas, Jaquinzinhos, Musana, Pintainho e Vastulec.
Agradeço também as simpáticas referências ao Carimbo que pude ler nos blogs A Origem do Amor, Assembleia, Epicurtas e Fumaças.
Segundo Miguel Nogueira, O Carimbo “voa” como um “bonito cuco”. Deve ser por isso que não percebo nenhum dos “pius” do Pintainho...
Finalmente, aproveito para agradecer os simpáticos e-mails enviados pelos blogs A Origem do Amor, Assembleia e Causa Liberal.
ANS
Subscrever:
Mensagens (Atom)