27 setembro 2003
92 – SOU BLOGO-CALMO
Já aqui referi as características extremamente viciantes dos blogs. São características que eu sinto fortemente e, por esse motivo, foi muito difícil não poder escrever durante toda a semana. Pois é, fui obrigado a trabalhar todos os dias até tarde e, por isso, não sobrou muito tempo para blogar. Ainda consegui ir acompanhando o que foi sendo escrito nos blogs que fazem parte da (já muito longa) lista que podem ver na coluna da esquerda do Carimbo, mas não consegui arranjar tempo para escrever. É que eu tenho esta incorrigível tendência para escrever posts muito longos, os quais consomem um tempo considerável. Como o ritmo de trabalho não irá diminuir tão cedo, apenas poderei escrever nos fins-de-semana (e apenas naqueles que forem passados em casa).
Enfim, adaptando as auto-denominações de Paulo Portas (o “euro-calmo”) e António Costa (o “luso-calmo”), eu assumo-me como blogo-calmo durante os dias úteis. Nos fins-de-semana, pelo contrário, serei um blogador inveterado ou, como diriam Paulo Portas e António Costa, um blogo-nervoso ou um blogo-stressado, ou ainda um blogo-inquieto ou até mesmo um blogo-animado. Aceitam-se outras sugestões.
ANS
19 setembro 2003
91 – EXISTE OPOSIÇÃO?
Parece que o post 84 do Carimbo sobre a questão da liderança do Partido Socialista (PS) causou alguma surpresa entre os editores do Ter Voz. Essa surpresa é demonstrada em pelo menos quatro posts (“PS – Partido Português”; “O discurso!”; “As manigâncias de P.S.L.” e “Motes”) aos quais julgo dever responder, mesmo que nem todos os posts referidos sejam dirigidos ao Carimbo.
Em primeiro lugar, devo lembrar como surgiu o post 84 do Carimbo. Tudo começou com alguns comentários (post 70) que fiz às previsões de Marcelo Rebelo de Sousa para as próximas eleições presidenciais. Nessas previsões, Marcelo Rebelo de Sousa incluiu também alguns cenários para a liderança do PS. Limitei-me a referir (de uma forma marginal) outros cenários e nunca expressei preferência por nenhum deles (nem tinha de o fazer, visto não ser simpatizante do PS). Voltei a discutir esta questão no post 84 quando foi anunciado que António Vitorino não tinha formalizado a sua candidatura ao cargo de Secretário-Geral da NATO. Fi-lo para responder a um comentário de Paulo Gorjão e, mais uma vez, não expressei qualquer tipo de preferência por nenhum dos enumerados candidatos hipotéticos à liderança do PS. Paulo Gorjão continuou a debater o assunto nos posts 310, 311, 313 e 314 do Bloguítica Nacional, (cuja leitura recomendo) e envolveu-se posteriormente numa polémica (posts 329 e 331) com o Irreflexões (posts da série “A mim interessa-me” I, II e III) sobre a alegada demagogia dos que criticam o PS.
Uma vez terminada a introdução do tema em discussão, passo à explicação das minhas posições sobre este tema que tanto incomoda os simpatizantes e militantes do PS.
Para o Ter Voz, é uma surpresa constatar que os cidadãos afinal discutem o que se passa no interior do PS, mesmo quando este é apenas o maior partido da oposição e quando esses cidadãos não são militantes e nem sequer são simpatizantes do partido. Para o Ter Voz, o post 84 do Carimbo (bem como outros textos do género) são verdadeiros tratados sobre quem deverá assumir a liderança do PS, o que só prova (para surpresa do Ter Voz) a grandeza do PS.
Pois agora é a minha vez de me revelar surpreendido. Eu não sou, de facto, simpatizante do PS. Não me identifico com as orientações políticas do PS. Mas, como cidadão português, tenho (e terei sempre) de reconhecer a importância deste partido. Nunca nos poderemos esquecer que o PS formou o anterior Governo de Portugal e, numa lógica de alternância democrática, voltará certamente a formar Governo (embora isso não deva acontecer em 2006). Não é porque o PS se encontra agora na oposição que deixa de ter enormes responsabilidades nos destinos do país. Tal como o PS gosta de lembrar, “nunca um partido de oposição o foi partindo de uma base eleitoral tão alargada”. Nestas condições, é natural que eu possa demonstrar interesse pelo que se passa no interior do PS e não consigo perceber qual é a surpresa do Ter Voz quando se discutem algumas hipotéticas movimentações no interior do partido. Será porque essas discussões apenas resultam da constatação óbvia de que o PS tem, neste momento, uma liderança a prazo?
É o próprio PS que assume que “as condições que levaram à demissão do Governo [socialista] a meio de uma legislatura e a forma extremamente rápida de escolha de um novo Secretário Geral constituíram factores de adversidade de enorme importância”. Para mim, há outros “factores de adversidade” que ainda não foram ultrapassados.
Um deles é a dependência política que Ferro Rodrigues entretanto criou para si próprio e para o PS relativamente aos desenvolvimentos do caso Casa Pia e que traz problemas ao PS na elaboração de um projecto alternativo de governo (a longo prazo), o qual dependerá sempre (não completamente, mas em parte) do líder em exercício. Mas não está já interiorizado que Ferro Rodrigues é um líder de transição? Quanto tempo durará o período de transição? Quando poderemos discutir um projecto global de governo?
Pois é, o PS não tem, neste momento, um projecto alternativo de governo (que não seja apenas uma superficial declaração de princípios) e é por isso que eu escrevo que não existe oposição. Na ausência de tal projecto, a oposição socialista limita-se a intervenções esporádicas para exploração demagógica dos casos mais mediáticos. Só a ausência de um projecto alternativo de governo explica a colagem (muito) à esquerda que se tem verificado durante a liderança de Ferro Rodrigues, a qual só vem retirar importância ao maior partido da oposição assim colocado a reboque do Partido Comunista Português e do Bloco de Esquerda. O PS nega as suas insuficiências actuais e justifica a colagem à esquerda com uma atitude de vitimização perante os partidos da direita que “pretenderam fazer passar a ideia que o PS não podia mais aspirar a afirmar-se como grande partido nacional, como permanente e credível alternativa de governo”. A atitude de vitimização e radicalização do discurso não é de agora (não é uma novidade da “rentrée” socialista). Esta atitude tem sido adoptada desde a tomada de posse de Ferro Rodrigues como Secretário-Geral do partido.
O PS sempre acusou o actual Governo de fazer “anúncios artificiais” e “propostas demagógicas e populistas”, típicas de “uma actuação, sem rumo, demasiado próxima duma verdadeira ditadura da maioria”. Ainda hoje, o Público noticia um argumento deste tipo (mediaticamente) explorado por parte do Presidente da República (que assim revela a sua actual independência do PS) durante uma visita oficial à Turquia. O PS sempre acusou o Governo de procurar a “radicalização e crispação” para encobrir o alegado incumprimento das promessas eleitorais.
Parece-me que existe aqui um equívoco. Na realidade, nunca um Governo revelou tanta coragem e determinação na tentativa de cumprir o seu programa eleitoral. Penso que, à excepção do aumento da taxa máxima de IVA e do tempo de serviço necessário para obtenção das pensões de reforma por inteiro, o programa eleitoral tem sido cumprido, não havendo lugar a acusações de política eleitoral demagógica e populista.
Quanto à questão da radicalização, penso que é o PS quem o faz através da colagem (muito) à esquerda. É o PS quem afirma ter manifestado “ao Governo a sua disponibilidade para pactos de regime em torno de questões decisivas para o futuro do país, de modo a criar um clima de governabilidade propício a reformas com bases sociais e políticas de apoio tão alargadas quanto possível”. E qual é a contrapartida? Não será a dissolução da coligação de Governo? Será que é esta a única forma que o PS encontra para fazer oposição? Será que a presença do Partido Popular (PP) no actual Governo conseguiu a incrível façanha de dar maioria absoluta ao Governo na Assembleia da República e, ao mesmo tempo, anular a independência do maior partido da oposição relativamente aos outros partidos da esquerda radical? Se assim for, está explicada a obsessão socialista com o PP (leia-se como se quiser).
Para que não se afirme que eu estou a defender Paulo Portas, remeto desde já os leitores para a leitura dos posts 61 e 66 do Carimbo, nos quais demonstrei o meu desacordo com a associação entre imigração e desemprego. No entanto, chamo à atenção para a notícia hoje divulgada pelo Diário de Notícias, segundo a qual cerca de 4 % dos imigrantes estão desempregados.
Estarei a ser injusto quando escrevo que o PS tem feito uma oposição demagógica? Não me parece. Para o PS, com o “Governo dos partidos da direita, a situação económica, política e social agravou-se significativamente em Portugal”. De acordo com o ponto de vista socialista, tal aconteceu porque o actual Governo dramatizou “desnecessariamente a situação nacional”, o que “gerou uma brutal queda das expectativas e provocou um profundo desalento em quase todos os sectores mais dinâmicos da sociedade portuguesa” e deteriorou “a situação económica muito para além do que a situação nacional e internacional justificaria”. Claro que o PS tem razão. Aliás, se o Governo tivesse adoptado uma atitude de optimista irresponsabilidade a recessão económica portuguesa seria muito menor. Agora a sério: convém aqui lembrar que o optimismo, relativamente a uma rápida recuperação da economia, esteve sempre presente nos EUA e em muitos países da Europa durante os últimos dois anos e, como é óbvio, não foi por isso que a recessão foi atenuada ou travada. Só muito recentemente começaram (muito timidamente) a aparecer os sinais da recuperação económica.
O PS orgulha-se de se ter empenhado na luta “contra a política do Governo de corte dos juros bonificados no Crédito à Habitação”. Para mim, isto é apenas mais demagogia. Basta olhar para as actuais taxas de juro de referência, para os níveis de endividamento das famílias (e principalmente dos jovens) e para o estado do mercado de arrendamento.
O PS afirma que “mantém a sua adesão plena aos objectivos de estabilidade e crescimento no seio da União Europeia” mas acha que “a Europa tem a obrigação de entender os sinais de mudança da conjuntura de forma profunda e assumida, e de adaptar as suas políticas, quer a essa realidade mutável (e o mundo de hoje é bem diferente do que era nos anos 90), quer à diversidade das situações das diferentes economias”. Permitam-me que pergunte a que economias se refere o PS? À espanhola e à grega? Talvez o Público de hoje dê a resposta.
Como as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento não se irão alterar (talvez graças aos suecos), o PS prefere esquecê-las e esquecer também que Portugal beneficia dos fundos de coesão para, demagogicamente, afirmar que, principalmente em épocas de recessão, “os mercados e o seu dinamismo devem ser estimulados através de políticas públicas que facilitem o investimento”. Não. Minto. Para o PS, “o controlo das finanças públicas assume cada vez mais um papel de relevo não como um fim em si, mas porque, quanto mais equilibradas forem as contas públicas do ponto de vista estrutural, mais viável se torna recorrer à despesa e ao investimento públicos como instrumentos de mobilização de recursos em contexto de abrandamento económico". Pois é. Mas as contas herdadas do Governo socialista não estavam equilibradas. Ou estavam? O actual Governo só tomou posse em Abril de 2002 e cortou na despesa onde pôde (só poderá cortar mais quando a reforma do Estado e da sua administração se iniciar a sério) e inventou as receitas que pôde.
Afirma o PS que “importa perceber que, se para esse esforço [de controlo orçamental] há que contar com um importante contributo da racionalização da despesa pública e especialmente da despesa corrente, o papel decisivo terá de vir duma maior eficácia no combate à fraude e à evasão fiscal”. A este respeito, o PS faz o “acto de contrição” afirmando que “foi uma incompleta compreensão dessa necessidade que agravou a situação orçamental no passado recente da gestão do PS”. Para mim, está tudo dito. Isto é, se sete anos não chegaram, seria difícil cumprir este objectivo em ano e meio.
Finalmente, o PS vem agora contestar os prazos delimitados pelo actual governo para a aproximação da economia portuguesa à média europeia. No entanto, esse prazo parece-me legítimo, até porque há um “objectivo, firmado [no Conselho Europeu] em Lisboa em 2000, de transformar a economia europeia na mais competitiva do Mundo em 10 anos”.
Queixa-se o PS de que “a política de substituições nas chefias das instituições do Estado obedece a critérios que são, na maioria dos casos, os das clientelas partidárias”. Não me lembro de ter assistido a uma política diferente durante o Governo socialista. Ferro Rodrigues afirmou que “A inscrição partidária ou a simpatia pessoal não podem subverter os critérios de competência, a parcialidade do mandante não pode derrogar a imparcialidade dos concursos, porque a qualidade da Administração exige dirigentes qualificados e com perfil adequado ao cargo concursado”. A conclusão é correctíssima, mas se isto não é demagogia, o que é então?
Para o PS, o reforço do papel dos sistemas privados nos serviços públicos tem sido feito de “forma aventureira”, “não numa saudável lógica de complementaridade, mas numa lógica agressiva de invasão do espaço da segurança social pública”. Parece que o PS se esquece (deve ser por desatenção) de alguns bons exemplos que já ocorreram, nomeadamente na área da saúde.
Diz também o PS que o actual governo introduziu um “conjunto de alterações que diminuem drasticamente o potencial de inserção social” do Rendimento Mínimo Garantido. Acrescenta o PS que “estas alterações, em muitos casos, tecnicamente erradas, estão enformadas por uma moral de Estado retrógrada, culpabilizadora dos mais pobres. O avanço inequívoco em matéria de política social constitui um dos mais importantes legados dos governos do PS. Nos últimos seis anos, Portugal aproximou-se decisivamente do modelo social europeu, e a solidariedade foi uma prioridade da governação, como talvez nunca tenha sido”. Pelo contrário, julgo que o novo Rendimento de Inserção Social é atribuído a quem, de facto, dele necessita. Não me parece que seja errado obrigar os jovens (até aos vinte e cinco anos de idade) a terem mais iniciativa e a procurarem um emprego onde ele estiver. Os imigrantes fazem-no com sucesso. Quanto à questão da propaganda demagógica que o PS tem feito dos resultados do último relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, remeto o leitor para o post 12 do Carimbo. Se “existe hoje um risco sério de retrocesso nesse domínio”, como afirma o PS, isso deve-se em grande parte à forma como o PS conduziu a economia portuguesa durante os anos em que formou Governo.
Para acabar esta já longa lista de exemplos de oposição demagógica, ou inexistente, falta apenas referir esta afirmação: “O nosso passado no combate pela participação de Portugal na U.E. dá-nos um lugar único e distintivo no quadro político nacional. Somos o partido que melhor protagoniza a vocação europeia de Portugal”. A resposta está no post 313 do Bloguítica Nacional.
Para acabar, da mesma forma que me sinto no direito (como cidadão) de comentar as movimentações internas do PS, também acho que os simpatizantes e militantes do PS podem e devem comentar a actuação de Pedro Santana Lopes enquanto dirigente do PSD, Presidente da Câmara de Lisboa e comentador político. O Ter Voz fê-lo e talvez tenha razão quando escreve que a candidatura presidencial de Pedro Santana Lopes enfrenta a concorrência activa de Marcelo Rebelo de Sousa (no seu espaço televisivo da TVI) e o silêncio de Cavaco Silva. No entanto, para além do facto de Marcelo Rebelo de Sousa já ter garantido que não seria candidato, também não me parece que o Ter Voz tenha razão quando escreve que “entretanto, é Lisboa que paga, por estes tempos, a factura da ambição pessoal do seu Presidente. Por muito que diga que a cidade o preocupa, ele só pensa num espaço do concelho que lidera, o palácio cor-de-rosa, situado na Praça Afonso de Albuquerque”. Penso que Pedro Santana Lopes, tal como os hipotéticos futuros líderes do PS, pode lutar pelas suas ambições enquanto continua a fazer o seu trabalho. O problema é que, ao contrário do que escreve o Ter Voz, parece-me que Pedro Santana Lopes tem um projecto para Lisboa (embora com alguns erros pelo meio) enquanto que o PS não tem um projecto para o país. Ou seja, não há oposição.
ANS
90 - CANÇÕES DE 1973 (VI)
Aqui está um cantor que para quem o ano de 1973 também significa muito. De facto, foi há trinta anos atrás que Bruce Springsteen arrancou definitivamente para uma grande carreira com o álbum Greetings From Asbury Park, N.J.. Das canções deste álbum, julgo que devo destacar Blinded By The Light, a qual foi também utilizada pelos Manfred Mann três anos mais tarde.
BLINDED BY THE LIGHT
Madman drummers bummers and Indians in the summer with a teenage diplomat
In the dumps with the mumps as the adolescent pumps his way into his hat
With a boulder on my shoulder feelin' kinda older I tripped the merry-go-round
With this very unpleasing sneezing and wheezing the calliope crashed to the ground
Some all-hot half-shot was headin' for the hot spot snappin' his fingers clappin' his hands
And some fleshpot mascot was tied into a lover's knot with a whatnot in her hand
And now young Scott with a slingshot finally found a tender spot and throws his lover in the sand
And some bloodshot forget-menot whispers daddy's within earshot save the buckshot turn up the band
And she was blinded by the light. Cut loose like a deuce
Another runner in the night. Blinded by the light
She got down but she never got tight, but she'll make it alright
Some brimstone baritone anticyclone rolling stone preacher from the east
He says: ";Dethrone the dictaphone, hit it in its funny bone, that's where they expect it least";
And some new-mown chaperone was standin' in the corner all alone watchin' the young girls dance
And some fresh-sown moonstone was messin' with his frozen zone to remind him of the feeling of romance
Yeah he was blinded by the light. Cut loose like a deuce
Another runner in the night. Blinded by the light
He got down but she never got tight, but he's gonna make it tonight
Some silicone sister with her manager's mister told me I got what it takes
She said I'll turn you on sonny to something strong if you play that song with the funky break
And go-cart Mozart was checkin' out the weather chart to see if it was safe to go outside
And little Early-Pearly came in by her curly-wurly and asked me if I needed a ride
Oh, some hazard from Harvard was skunked on beer playin' backyard bombardier
Yes and Scotland Yard was trying hard, they sent a dude with a calling card,
he said, do what you like, but don't do it here
Well I jumped up, spit in the air, fell on the ground, asked wich was the way back home
He said take a right at the light, keep going straight until right, and then boy you're on your own
And now in Zanzibar a shootin' star was ridin' in a side car hummin' a lunar tune
Yes, and the avatar said blow the bar but first remove the cookie jar, we're gonna teach those boys to laugh too soon
And some kidnapped handicap was complaining that he caught the clap from some mousetrap he bought last night
Well I unsnapped his skull cap and between his ears I saw a gap but he'd figured he'd be all right
He was just blinded by the light. Cut loose like a deuce
Another runner in the night. Blinded by the light
Mama always told me not to look into the sights of the sun
Oh but mama that's where the fun is
By Bruce Springsteen
Amanhã passo para a letra C.
ANS
89 - GESTALT THEORY
Escreve o Anarca Constipado que afinal a teoria referida no post 87 do Carimbo não é assim tão fácil de rebater. Talvez. Mas a questão que eu coloco é se a nossa capacidade de transformar o que não faz sentido (ou que nos é desconhecido) em algo conhecido (e que faça sentido) é aplicável quando estamos perante inúmeras pistas (falsas) para "coisas" que conhecemos. É o caso das "palavras" "adroco", "psiuq", "sea", "udadis", "revine", "iselgna", etc. Estas "palavras" não significam nada em português, mas podem ser lidas e incluem, elas próprias, palavras que fazem sentido, o que torna muito mais difícil a tal dedução do significado global do texto.
ANS
18 setembro 2003
88 - CANÇÕES DE 1973 (V)
Depois de Bob Dylan, só mesmo outro Bob. Refiro-me a Bob Marley. Das suas canções, escolhi I Shot The Sheriff, do álbum Burnin', porque, curiosamente, esta canção também foi interpretada por Eric Clapton.
I SHOT THE SHERIFF
(I shot the sheriff
But I didn't shoot no deputy, oh no! Oh!
I shot the sheriff
But I didn't shoot no deputy, ooh, ooh, oo-ooh.)
Yeah! All around in my home town,
They're tryin' to track me down;
They say they want to bring me in guilty
For the killing of a deputy,
For the life of a deputy.
But I say:
Oh, now, now. Oh!
(I shot the sheriff.) - the sheriff.
(But I swear it was in selfdefence.)
Oh, no! (Ooh, ooh, oo-oh) Yeah!
I say: I shot the sheriff - Oh, Lord! -
(And they say it is a capital offence.)
Yeah! (Ooh, ooh, oo-oh) Yeah!
Sheriff John Brown always hated me,
For what, I don't know:
Every time I plant a seed,
He said kill it before it grow -
He said kill them before they grow.
And so:
Read it in the news:
(I shot the sheriff.) Oh, Lord!
(But I swear it was in self-defence.)
Where was the deputy? (Oo-oo-oh)
I say: I shot the sheriff,
But I swear it was in selfdefence. (Oo-oh) Yeah!
Freedom came my way one day
And I started out of town, yeah!
All of a sudden I saw sheriff John Brown
Aiming to shoot me down,
So I shot - I shot - I shot him down and I say:
If I am guilty I will pay.
(I shot the sheriff,)
But I say (But I didn't shoot no deputy),
I didn't shoot no deputy (oh, no-oh), oh no!
(I shot the sheriff.) I did!
But I didn't shoot no deputy. Oh! (Oo-oo-ooh)
Reflexes had got the better of me
And what is to be must be:
Every day the bucket a-go a well,
One day the bottom a-go drop out,
One day the bottom a-go drop out.
I say:
I - I - I - I shot the sheriff.
Lord, I didn't shot the deputy. Yeah!
I - I (shot the sheriff) -
But I didn't shoot no deputy, yeah! No, yeah!
By Bob Marley
Para amanhã está reservado outro autor cujo nome começa por B.
ANS
87 - ALGUMAS TEORIAS SÃO FÁCEIS DE REBATER
Tenho recebido alguns e-mails com o seguinte texto, o qual já tinha lido nalguns blogs:
“De acordo com uma pesquisa de uma universidade inglesa, não importa a ordem pela qual as letras de uma palavra estão, a única coisa importante é que a primeira e última letras estejam no lugar certo. O resto pode ser uma total confusão que você pode ainda ler sem grandes problemas. Isto porque nós não lemos cada letra isolada, mas a palavra como um todo.”
O exemplo de aplicação desta teoria é dado pelo seguinte conjunto de “palavras”:
“De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra a odrem plea qaul as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol csãofnuo que vcoê pdoe anida ler sem gnderas pobrlmeas. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.”
Parece que a teoria está correcta, não é? Mudemos então mais uma vez a posição das letras e vejamos o que acontece:
De adroco com uma psiuqsea de uma udadisrevine iselgna, não itropma a oedrm plea qaul as lartes de uma prvalaa eãtso, a úcina csioa itnatropme é que a priemira e úmitla lartes eajetsm no lagur ctreo. O rtseo pdoe ser uma tatol cãsufnoo que vcoê pdoe adnia ler sem gednars pamelbors. Itso puqroe nós não lomes cdaa lrtea idalosa, mas a prvalaa cmoo um tdoo.
A compreensão de algumas palavras torna-se mais difícil, não é? Imaginem que não conhecíamos o texto original. Talvez fosse ainda mais difícil de entender. Infelizmente, parece que a teoria está errada e, por isso, teremos de continuar a corrigir as palavras que tantas vezes teclamos com letras trocadas.
ANS
17 setembro 2003
86 – MAIS AGRADECIMENTOS VII
Parece que o post 82 do Carimbo, com as minhas impressões sobre o meu último fim-de-semana, gerou alguns comentários. Além dos e-mails que recebi, tenho ainda de agradecer os comentários colocados no Adufe (post “E o prémio vai para...”) e no Valete Fratres!.
Rui Branco (do Adufe) atribui ao Carimbo o “Prémio para a melhor crónica lida nos últimos 5 minutos”. Já sei que Rui Branco avisou que quem agradecesse os seus prémios se arriscaria a “levar com outro”. Pois como nunca ninguém me atribuiu nenhum prémio na blogosfera, eu agradeço e corro o risco de “levar com outro” prémio engraçado como esse. Aproveito para tranquilizar Rui Branco quanto à eventual queimadura na mão. Foi só um pequeno (mas irritante) choque eléctrico (a voltagem era muito baixa). Quanto aos meus longos posts, só posso afirmar que esse é um defeito que não consigo corrigir. De qualquer forma, agradeço a todos os que têm a paciência de ler os meus posts até ao fim, se é que alguém o faz.
João Noronha (do Valete Fratres!) opõe o post 82 do Carimbo (que não é apenas uma descrição de um fim-de-semana em Oxford) à frase de apresentação deste blog (“Blog que pretende marcar mas não ferretear...”). Não percebi se João Noronha escolheu o post 82 do Carimbo como um bom exemplo de aplicação da referida frase, ou se, pelo contrário, o fez para mostrar que essa frase foi esquecida. Acredito mais na primeira hipótese e, por isso, agradeço a João Noronha pelo destaque que dá ao post 82. De qualquer forma, para aqueles que, porventura, possam pensar o contrário, devo lembrar que, no post inaugural do Carimbo, escrevi que o objectivo deste blog é marcar (com a minha modesta opinião) qualquer assunto que o justifique. Foi o que tentei fazer no post 82. Já que estou a escrever um web log (ou seja, um diário), porque não adoptar um estilo descritivo (idêntico ao que se encontra nos diários) para fazer os mesmos comentários que, normalmente, seriam feitos de uma forma seca e directa? Repito que foi isto que tentei fazer no post 82. Dentro do relato do fim-de-semana, refiro a abordagem que os ingleses fazem das questões de segurança, refiro o custo de vida neste país, refiro as assimetrias que nele existem, refiro as razões que os ingleses apontam para a sua recusa de adesão à moeda única europeia. Refiro ainda, com exemplos concretos, como funciona o sistema político inglês e como a atitude empreendedora dos ingleses perante os projectos de grande envergadura contrasta com a atitude portuguesa. É o caso dos trabalhos de preparação (que já se iniciaram) da cidade de Liverpool (uma cidade com inúmeros problemas) para, em 2008, assumir o estatuto de Capital Europeia da Cultura.
Já que refiro o destaque dado a posts do Carimbo, aproveito para agradecer a Paulo Gorjão por divulgar, no post 288 do Bloguítica Nacional, as minhas reflexões sobre a liderança do Partido Socialista.
Agradeço também a Pedro Mexia por concordar comigo em incluir O Carimbo na sua lista de blogs conservadores, liberais e afins.
Agradeço também a Miguel Nogueira pelo simpático post “Ornitologia” do blog A Origem do Amor. Meu caro Miguel Nogueira, acredito que acabará por encontrar a classificação mais correcta para o Carimbo. Até lá, esperarei pacientemente, o que, para um “Carimbador” que gosta de classificar tudo e mais alguma coisa, não será nada fácil.
Entretanto, apareceram mais dois blogs que incluíram O Carimbo na sua lista de blogs recomendados. Trata-se do Tolentino e do Começou Em Trezentos, Vai Em Quatrocentos E Não Se Sabe Em Quantas Centenas De Milhares Acabará. O Tolentino também já foi acrescentado à lista de blogs recomendados pelo Carimbo. Quanto ao outro blog, aqui ficam os meus parabéns pelo início sensacional (quase tão bom como o início do Causa Vossa) e o desejo de ler os posts que justificam tamanho sucesso.
ANS
85 - CANÇÕES DE 1973 (IV)
Tal como ontem prometi, aqui está um pouco da história do Far West. Na realidade deveria escrever Old West, porque é isso que retrata o western Pat Garrett And Billy The Kid, cuja banda sonora pode ser ouvida no álbum de Bob Dylan com o mesmo nome. Uma das curiosidades deste filme é a participação de Bob Dylan como actor, no papel de Alias.
Escolhi a canção Knockin' On Heaven's Door porque é aquela que ilustra uma das melhores cenas do filme e também porque outros a cantaram, nomeadamente Eric Clapton e os Guns N' Roses.
KNOCKIN' ON HEAVEN'S DOOR
Mama, take this badge off of me
I can't use it anymore.
It's gettin' dark, too dark for me to see
I feel like I'm knockin' on heaven's door.
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Mama, put my guns in the ground
I can't shoot them anymore.
That long black cloud is comin' down
I feel like I'm knockin' on heaven's door.
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Knock, knock, knockin' on heaven's door
Knock, knock, knockin' on heaven's door
By Bob Dylan
Ainda não sei o que vai sair no capítulo V desta série. No entanto, amanhã recordarei certamente mais uma canção de 1973.
ANS
16 setembro 2003
84 - A LIDERANÇA DO PARTIDO SOCIALISTA
No post 263 do Bloguítica Nacional, Paulo Gorjão comentou o post 79 do Carimbo. Paulo Gorjão duvida do interesse de António Vitorino em assumir a liderança do Partido Socialista (PS) após a saída de Ferro Rodrigues e fundamenta a sua opinião nos elogios (conhecidos) que são endereçados a António Vitorino no seio da Comissão Europeia.
Devo esclarecer que concordo com Paulo Gorjão. Já o tinha escrito no post 70 do Carimbo. Concordo que, para António Vitorino, não será muito aliciante substituir Ferro Rodrigues antes das próximas eleições legislativas. As possibilidades de vitória do PS nessas eleições são reduzidas e Durão Barroso já se apercebeu disso. É também por isso que já começou a pedir à população que vote no Partido Social Democrata (PSD) em Março de 2006. Durão Barroso avisa que as reformas iniciadas pelo actual governo deverão ser avaliadas no prazo de duas legislaturas.
Por outro lado, após as eleições do próximo ano para o Parlamento Europeu, o Governo terá todo o interesse em manter António Vitorino na Comissão Europeia. As vantagens são várias. Se António Vitorino continuar o excelente trabalho na Comissão Europeia ao invés de assumir a liderança do PS, as eleições legislativas de 2006 serão mais fáceis para o PSD. Ao mesmo tempo, o Governo transmitirá uma imagem de desinteresse partidário (e interesse nacional) ao apoiar um membro do Partido Socialista (é membro, não é?). E o interesse nacional será, de facto, muito grande quando a nova Comissão Europeia começar o seu trabalho, em 2005, após a ratificação, pelos Estados membros, do Tratado para a Constituição Europeia e após o alargamento da União Europeia a mais dez países. Penso que terá sido por estes motivos que António Vitorino não formalizou a sua candidatura ao cargo de Secretário-Geral da NATO (e também porque as hipóteses de sucesso dessa candidatura eram pequenas). Outras razões poderão ser as avançadas pela revista The Economist relativamente à possibilidade de António Vitorino ambicionar "voos mais altos" em Bruxelas. O Governo sabia, com toda a certeza, que António Vitorino não iria formalizar a sua candidatura e, por isso, expressou o seu apoio à candidatura do Ministro dos Negócios Estrangeiros holandês.
As razões que indico para a permanência de António Vitorino em Bruxelas servem também para contestar algumas notícias que o apontam como única alternativa a António Guterres para representar a esquerda nas próximas eleições presidenciais de Janeiro de 2006. Parece que já ninguém conta com Mário Soares. Poderá haver uma surpresa?
Independentemente do destino de António Vitorino, o PS não poderá continuar refém do processo Casa Pia e terá de assumir a liderança da oposição. A acção governativa precisa de um PS capaz de conduzir uma oposição interventiva e construtiva. O próprio PS, se quiser apresentar-se nas próximas eleições legislativas com um projecto de governo, tem de começar a trabalhar agora. No entanto, parece que já todos no PS esperam uma derrota nas eleições legislativas de 2006. Parece que existe alguma falta de imaginação na forma de fazer oposição. Da mesma forma que o PS se limita, actualmente, a fazer oposição através de ataques demagógicos ao partido mais pequeno do Governo, também a estratégia futura se resume a tirar partido de um Presidente da República eventualmente eleito pela esquerda com a "função" de desgastar o Governo.
Tal como escrevi no post 79, o PS até pode conseguir um resultado aceitável nas eleições europeias do próximo ano e nas eleições autárquicas de 2005, as quais servem normalmente para fazer avisos ao Governo em exercício. No entanto, mesmo que isso aconteça e que os desenvolvimentos do processo Casa Pia não obriguem Ferro Rodrigues a demitir-se da liderança do partido, não me parece que o PS esteja em condições de formar Governo em 2006. Penso que é por este motivo que os possíveis candidatos à liderança do PS preferem esperar. De preferência, até depois das legislativas de 2006. Resta saber em que estado estará a imagem do PS (indissociável da imagem de Ferro Rodrigues) por essa altura.
No post 70 referi, como possíveis candidatos à liderança do PS, José Sócrates, João Soares, António Costa e António Vitorino. Poderia ter incluído ainda Manuel Maria Carrilho e outros. Estes candidatos terão de lutar internamente para evitar serem enviados para o Parlamento Europeu ou para uma Câmara Municipal importante e, assim, permanecerem em condições de assumirem a liderança do PS. Parece que afinal os conflitos internos motivados pela questão da liderança do PS serão (ou talvez já o sejam) muito mais complicados do que os eventuais conflitos que José Sócrates prevê ocorrerem no PSD aquando da escolha do candidato presidencial. Infelizmente, isto significa que, durante os próximos anos, o PS estará muito mais preocupado com estas questões internas do que com o Governo do país. Como vivemos em democracia, perdemos todos. O actual Governo não agradece (ou, pelo menos, não devia agradecer).
ANS
83 - CANÇÕES DE 1973 (III)
Tal como ontem prometi, cá está um exemplo de rock'n'roll californiano concebido na Europa. Trata-se de uma canção dos The Beach Boys lançada no álbum Holland. Escolhi esta canção por causa da sua história. Aparentemente, os The Beach Boys gastaram "rios de dinheiro" para produzir o álbum Holland numa quinta na Holanda e, apesar do montante investido, a Warner Brothers rejeitou o álbum por considerar que este não tinha nenhuma canção que fornecesse garantias de sucesso. Assim, sem a participação de Brian Wilson, uma das canções que originalmente fazia parte do álbum foi substituída por esta:
SAIL ON SAILOR
I sailed an ocean, unsettled ocean
Through restful waters and deep commotion
Often frightened, unenlightened
Sail on, sail on sailor
I wrest the waters, fight Neptune's waters
Sail through the sorrows of life's marauders
Unrepenting, often empty
Sail on, sail on sailor
Caught like a sewer rat alone but I sail
Bought like a crust of bread, but oh do I wail
Seldom stumble, never crumble
Try to tumble, life's a rumble
Feel the stinging I've been given
Never ending, unrelenting
Heartbreak searing, always fearing
Never caring, persevering
Sail on, sail on, sailor
I work the seaways, the gale-swept seaways
Past shipwrecked daughters of wicked waters
Uninspired, drenched and tired
Wail on, wail on, sailor
Always needing, even bleeding
Never feeding all my feelings
Damn the thunder, must I blunder
There's no wonder all I'm under
Stop the crying and the lying
And the sighing and my dying
Sail on, sail on sailor
Sail on, sail on sailor
Sail on, sail on sailor
Sail on, sail on sailor
Sail on, sail on sailor
Sail on, sail on sailor
Sail on, sail on sailor
By Brian Wilson, Tandyn Almer, Jack Rieley and Ray Kennedy
Para amanhã está reservado um pouco da história do Far West.
ANS
15 setembro 2003
82 – RETRATO DE UM FIM-DE-SEMANA
Fui passar o fim-de-semana a Oxford. Saí de Liverpool na sexta-feira à tarde e, desta vez, tive sorte com o comboio (post 50 do Carimbo). Não houve atrasos e o comboio era novo, limpo e confortável. Também tive sorte porque apanhei o comboio numa estação terminal (Lime Street Station). Os passageiros que apanharam o comboio nas estações seguintes (Runcorn, Crewe, Wolverhampton, Birmingham e Banbury) viajaram em pé ("apenas" duas horas meia) até Oxford. No entanto, devem ter pago pouco menos do que eu (75 euros). Esta situação deve ser normal porque não ouvi ninguém reclamar.
Fiquei em casa de um amigo, nos arredores de Oxford, numa zona rural, onde todas as pessoas se conhecem e gostam de falar do tempo. Principalmente quando o tempo está como esteve neste fim-de-semana, ou seja, óptimo. Aproveitei para conhecer o local e fiz algumas caminhadas agradáveis através dos campos de cereais e das pastagens. Só não gostei do choque que apanhei quando, desprevenido, me agarrei a uma cerca de arame. Às vezes não percebo estes ingleses. Parecem estar sempre muito preocupados com a segurança, mas depois permitem que se possa entrar e sair dos autocarros quando estes estão em andamento, permitem que os passageiros dos comboios excedam largamente a lotação das carruagens em viagens longas e não avisam as pessoas quando colocam cercas electrificadas a delimitar as suas propriedades.
Irritado, voltei para casa, ou melhor, para a cottage. Esta é uma daquelas casas com telhados de colmo protegidos por uma rede metálica. As paredes são muito espessas e são feitas com uma argamassa (mistura de lama, cal, estrume, canas, palha, saibro, areia e pedra) que cobre pranchas de madeira. Segundo o meu amigo, a casa original (com mais de quatro séculos de existência) foi aumentada e remodelada há cerca de trinta anos. Desde então, a manutenção da casa tem implicado custos consideráveis. Mas, pelo que eu vi, vale a pena. De facto, se esquecer o facto de ter batido com a cabeça na verga das portas mais de dez vezes (mais um problema de segurança), posso garantir que a casa é muito confortável e convidativa. O mais estranho é ouvir, durante a noite, os animais que vivem no interior do telhado de colmo (thatch). Ainda bem que as obras de remodelação incluíram a construção de um tecto falso.
O dia seguinte (sábado) foi dedicado à cultura. A tarde foi passada com um grupo de amigos no Kassam Stadium (Estádio do Oxford United Football Club) a assistir ao jogo da Third Division (corresponde à quarta divisão, se incluirmos a Premier League) entre o Oxford United e o Mansfield Town. O jogo foi mau (como seria de esperar) e não justificou os 25 euros pagos pelo bilhete. O mais interessante foi verificar que os clubes da quarta divisão inglesa de futebol já encaram, desde há alguns anos, a sua actividade de uma forma empresarial. O estádio do Oxford United é novo, está apoiado por um centro comercial bastante grande e situa-se numa zona limítrofe da cidade, junto a diversos hotéis.
À noite, depois de uma “bela” refeição num restaurante chinês (as outras opções disponíveis eram um indiano, paquistanês ou tailandês), fomos assistir a uma peça de Shakespeare (The Tempest) ao ar livre. Os actores não eram maus e, à excepção de um que era péssimo, mereceram os 40 euros pagos pelo bilhete. Depois da peça fomos para um pub irlandês, cujas paredes estão totalmente revestidas com imagens de Collins e de De Vallera. A vantagem dos pubs irlandeses é que ficam a funcionar (com as portas fechadas) até às duas ou três da manhã.
A tarde de domingo foi também passada entre amigos num pub (com esplanada) perto do cruzamento da Broad Street com a Cattle Street, ou seja, perto da Ponte dos Suspiros e da espectacular Radcliffe Camera (sala de leitura da Bodleian Library). A conversa, bem regada por inúmeras pints de bitter e stout, durou até às seis horas da tarde (hora da partida do comboio de regresso a Liverpool). Falámos de inúmeros assuntos e o referendo para a adesão da Suécia à unidade monetária da União Europeia também esteve presente. Este é um tema com o qual os britânicos se identificam, até na preferência pelo “Não”. A sua desconfiança relativamente às implicações políticas da adesão à união monetária é enorme. Além da desconfiança política, os britânicos, tal como os suecos, estão contentes com as políticas monetárias que têm. De facto, nestes países, a inflação está controlada. O desemprego é bem menor do que a média da zona Euro e o crescimento do Produto Interno Bruto é também maior do que a média da zona Euro. Em equipa que ganha não se mexe, dizem eles. Por outro lado, os sinais de fraqueza que a Comissão Europeia vem demonstrando perante o desrespeito francês (e, talvez, alemão) pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento também não ajudam. De uma forma pragmática, os suecos e os britânicos acabarão por aderir ao Euro quando a economia da zona Euro apresentar um desempenho médio igual ou melhor do que o apresentado pelas suas próprias economias. Nessa altura, as pressões económicas farão esquecer os receios políticos, os quais continuarão a existir.
Foi com esta conclusão que regressei a Liverpool. É impressionante a forma como a paisagem muda entre Oxford e Liverpool. Essas mudanças não são naturais. De facto, o dinheiro consegue dar à região entre Oxford e Birmingham uma beleza que é impossível encontrar nos arredores de Liverpool. A pobreza desta região a norte de Gales é muito acentuada e isso reflecte-se na paisagem e nas pessoas. Estava a pensar nisto quando encontrei, na revista The Economist, um artigo com o título “The politics of behaviour”.
Neste artigo, é referido que, antigamente, a maioria dos problemas colocados aos deputados do Partido Trabalhista pelos seus constituintes relacionava-se com questões de segurança social, habitação, emprego. Estes problemas, embora complicados, acabavam por ter solução. Hoje em dia já não é assim. O deputado Frank Field (representante de Birkenhead, que fica junto a Liverpool, do outro lado do rio Mersey) queixa-se da dificuldade em encontrar soluções para os problemas actuais, os quais se baseiam em comportamentos anti-sociais como a falta de civismo, a desordem e o incómodo provocados por um cada vez maior número de pessoas. Como diria Shakespeare na sua peça The Tempest, “O brave new world, That has such people in’t.”
Não me parece nada extraordinário que isto tenha acontecido. Para mim, os problemas de hoje são exactamente os mesmos de ontem. A população do Merseyside continua a lutar por segurança social, habitação e emprego. No entanto, após anos de queixas infrutíferas, é natural que muitas pessoas (já desesperadas) tenham desistido de escrever aos deputados que as representam. Será que os comportamentos anti-sociais não são apenas um reflexo dos mesmos problemas básicos que, desde os anos 70, afectam estas populações? Não sei. O que eu sei é que os comportamentos anti-sociais são evidentes para quem, como eu, vive em Liverpool. A imagem da cidade ressente-se deles. A destruição dos equipamentos urbanos é constante. A degradação também. Vai ser difícil transformar a imagem de Liverpool até 2008, ano em que esta cidade será a Capital Europeia da Cultura. No entanto, os trabalhos já começaram. Até parece o Porto.
ANS
81 - O PODEROSO BATER DE ASAS DA BORBOLETA
Um leitor do Carimbo, a quem desde já agradeço, enviou um e-mail com uma hiperligação para uma notícia do Diário de Notícias, na qual se pode ler que o IEP sugeriu a teoria do caos para explicar a queda da passagem superior de peões no IC19.
Se a estrutura colapsou devido ao bater de asas de uma borboleta em Pequim, então isso aconteceu porque a estrutura estava muito, mas mesmo muito fragilizada. Se a estrutura foi submetida a trabalhos de reparação/alteamento do tabuleiro, então isso aconteceu porque antes dos referidos trabalhos a passagem superior de peões se encontrava ainda em piores condições de segurança. Mas não caiu. Talvez porque a borboleta não bateu as asas em Pequim. Que sorte...
Como é óbvio, a estrutura colapsou como resultado das obras realizadas. Não sei se os trabalhos de alteamento envolveram a reparação e/ou reforço da estrutura. Mas como todos afirmam que a estrutura estava visivelmente danificada como consequência de vários embates de veículos, assumo que uma intervenção de reparação foi também efectuada.
Li algures que o empreiteiro não terá entendido completamente a solução estrutural daquela passagem superior de peões. Talvez. Mas o projecto era suficientemente explícito? Apontava os cuidados a ter? Existiu acompanhamento técnico da obra? Se o risco de colapso era tão grande, será que se justificava a reparação? Não teria sido melhor substituir a estrutura por uma mais nova? Será que estas questões foram contempladas pelo dono de obra, pelo projectista e pelo empreiteiro? Como foi realizada a fiscalização da obra? Estas são outras questões que deveriam ser abordadas no relatório do Instituto de Estradas de Portugal. Não sei se o foram. O que eu já sei (e os portugueses, em geral, também já sabem) é que o bater de asas das borboletas pode ser muito poderoso.
Só espero que nenhuma borboleta voe perto da "ponte" (um cabo) com cerca de 100.000 quilómetros de comprimento que o The Guardian anunciou no passado sábado. Este cabo funcionará como um carril vertical (elevador) que permitirá uma mais fácil e barata colocação de satélites, veículos e pessoas no Espaço. O cabo será constituído por nanotubos de carbono e será construído a partir de uma estação orbital geo-estacionária (localizada a uma altura de cerca de 36.000 quilómetros). Nas extremidades do cabo existirão contrapesos que manterão o cabo tenso. No Espaço, esse contrapeso deverá ser um satélite. Na Terra, existirá uma plataforma flutuante localizada algures no Oceano Pacífico.
Além do bater de asas da borboleta em Pequim, este projecto enfrenta outras dificuldades, como os ventos, as ondas e as rotas de tráfego aéreo (na Terra) e o lixo espacial (no Espaço).
"... [Arthur C.] Clarke - who once said a space elevator would only be built "about 50 years after everyone stops laughing" - was due to address the scientists at the Santa Fe conference today by satellite link from his home in Sri Lanka.
The American space agency Nasa is no longer laughing. It is putting several million dollars into the project under its advanced concepts programme. "
ANS
80 - NASCIMENTO: UM ACONTECIMENTO MUITO TRAUMÁTICO
O The Guardian publicou, no passado sábado, uma notícia com o título "New hi-tech scans show babies smiling and crying before birth".
Transcrevo três parágrafos da notícia, nos quais percebemos que as nossas primeiras seis semanas de vida (após o nascimento) devem ser muito difíceis de ultrapassar.
"Images published for the first time yesterday seem to suggest that unborn babies can smile, blink and cry weeks before they leave the womb.
The pictures of foetuses about 26 weeks after conception have been captured by state-of-the-art scanning equipment now being employed at some clinics and teaching hospitals.
...
Obstetrician Stuart Campbell, who has been using the Austrian-developed equipment at the private Create Health Clinic, London, for two years, said: It is remarkable that a newborn baby does not smile for about six weeks after birth. But before birth, most babies smile frequently. This may indicate the baby's trouble-free existence in the womb and the relatively traumatic first few weeks after birth when the baby is reacting to a strange environment."
Imagem emprestada pelo Valete Fratres!.
Por muito traumático que o nascimento possa ser, está provado (ou talvez não) que é um trauma facilmente ultrapassável. Talvez a experiência do nascimento não seja mais do que um primeiro contacto com a adversidade, provocado com o objectivo de nos preparar melhor para o futuro. Seria bom que os pais não se esquecessem disto e evitassem proteger os filhos de tudo e mais alguma coisa.
ANS
79 - AGRADECIMENTOS E NÃO SÓ
Antes de mais, aqui ficam os agradecimentos a Paulo Varela Gomes (post "Acabou a Guerra do Meu Avô. Aleluia!") por voltar a reconhecer a participação do Carimbo (blog pacífico e não beligerante) na discussão (é apenas isso e nunca será uma batalha) sobre o sufrágio universal.
Agradeço também ao Alfacinha a solidariedade demonstrada no e-mail que me enviou. Também o Jiminy Cricket, talvez preocupado com a reduzida quantidade de informação sobre Portugal que eu recebo aqui em Liverpool, enviou um e-mail que eu agradeço imenso. Fiquei a saber que, actualmente, é possível ver as emissões da SIC e da TVI on-line, praticamente "em directo" e sem encargos. É uma pena que o serviço público garantido pela RTP não explore esta possibilidade técnica de difusão da cultura portuguesa.
Constatei que Miguel Nogueira de A Origem do Amor ainda conserva o Carimbo no seu grupo de aves por classificar. Devo referir que não me importo nada de ser, como ele já escreveu, um cuco (a companhia dos outros cucos é óptima), desde que tal não seja associado a estes versos de Shakespeare:
When daisies pied and violets blue
And lady-smocks all silver white,
And cuckoo-buds of yellow hue,
Do paint the meadows with delight,
The cuckoo, then on every tree
Mocks married men, for thus sings he,
Cuckoo,
Cuckoo, cuckoo: o word of fear,
Unpleasing to a married ear.
Pois é, posso ser um cuckoo, mas nunca um cuckold. Já agora, acho que o Desejo Casar nunca discutiu esta questão. Ou já?
Agradeço também a João Carvalho Fernandes do Fumaças por considerar o post "Os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001" do Carimbo digno de constar na sua excelente compilação com o título "Blogs de 11 de Setembro de 2003".
Paulo Gorjão, comentou o post 70 do Carimbo (sobre as eleições presidenciais) nos posts 130/09 e 131/09 do Bloguítica Nacional. Agradeço os comentários e respondo (mais vale tarde do que nunca) que, neste caso, talvez uma oposição renovada corresponda, necessariamente, a uma melhor oposição. Penso que uma nova liderança do Partido Socialista (PS), cujo futuro político não esteja hipotecado ao caso Casa Pia, poderá ser capaz de realizar uma oposição mais construtiva e empreendedora. Enquanto isso não acontece, são os pequenos partidos da esquerda quem vai conduzindo a oposição, limitando-se o PS a repetir o mote. Não sei se os resultados que o PS obterá nas próximas eleições serão melhores ou piores do que os obtidos em 2002. No entanto, penso que, em qualquer dos casos, o partido sairá a perder por atrasar a renovação da sua liderança. De facto, se o PS piorar os seus resultados eleitorais, Ferro Rodrigues deixará o partido numa situação de difícil recuperação. Se, pelo contrário, o PS melhorar os seus resultados estará criado um problema interno no partido. Quem terá legitimidade para substituir o corajoso Ferro Rodrigues (o único que, mesmo sabendo que iria ser "queimado", aceitou liderar o partido durante o sempre complicado período de oposição que se sucede a um ciclo governativo terminado)? Será que Ferro Rodrigues só depende de bons resultados eleitorais para manter a liderança do PS?
No post 70 do Carimbo referi a possibilidade de António Vitorino vir a reclamar para si a liderança do PS. Hoje, leio o aviso de Paulo Gorjão (post 235/09) sobre uma notícia do Público onde se pode ler que o Governo Português não apoiará a candidatura de António Vitorino ao cargo se Secretário-Geral da NATO. Concordo com Paulo Gorjão. As desculpas apresentadas por Martins da Cruz não convencem ninguém.
Após esta breve incursão pela política nacional, regresso aos agradecimentos, desta vez dirigidos aos blogs Replicar , Artista Anónimo e Campo de Afectos, os quais incluiram O Carimbo nas respectivas listas de blogs recomendados. Só gostaria de saber porque razão Carlos Alberto Machado incluiu O Carimbo no grupo dos blogs que fornecem "serviços"? Sei que a minha lista de blogs recomendados é muito longa, mas não creio que possa funcionar como um apontador de blogs. Um blog que pode ter essa função é o Blogo Esfera, o qual incluiu O Carimbo no grupo dos blogs in da blogosfera. Agradeço a colocação do Carimbo entre tão ilustre companhia, mas espero que "ser in" não signifique "estar na moda".
O Amostra de Arquitectura e o Causidicus agradecem ao Carimbo. Não quero criar aqui um ciclo infinito de agradecimentos e, por isso, respondo com um simples "de nada".
ANS
78 - CANÇÕES DE 1973 (II)
Depois de Al Green, só mesmo um pouco mais de soul. Que tal Aretha Franklin com Until You Come Back To Me (That’s What I’m Gonna Do)?
UNTIL YOU COME BACK TO ME
Though you don´t call anymore
I sit and wait in vain
I guess I´ll rap on your door
Tap on your window pane
I want to tell you Baby
The changes I´ve been going through
Missing you.
Listen you
´till you come back to me
That´s what I´m gonna do
Why did you have to decide
You had to set me free
I´m gonna swallow my pride
I´m gonna beg you to (please baby please) see me
I´m gonna walk by myself
Just to prove that my love is true
Oh, for you baby
´till you come back to me
That´s what I´m gonna do
Living for you my dear
Is like living in a world of constant fear
In my plea, I´ve got to make you see
That our love is dying
Although your phone you ignore
Somehow I must explain
I´m gonna rap on your door
Tap on your window pane
I´m gonna camp on your step
Until I get through to you
I´ve got to change your view baby
´till you come back to me
That´s what I´m gonna do
By Stevie Wonder, Clarence Paul and Morris Broadnax
Para amanhã está reservado um pouco de rock'n'roll californiano concebido na Europa.
ANS
11 setembro 2003
77 - OS ATAQUES TERRORISTAS DE 11 DE SETEMBRO DE 2001
Tinha decidido não escrever sobre o segundo aniversário dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001. No entanto, tenho estado a ver o documentário da CNN sobre o que se passou naquele dia (e durante os últimos dois anos) e não é possível ficar indiferente a tamanha brutalidade e violência.
Já há dois anos atrás, quando os ataques aconteceram, tinha sentido a mesma incredulidade. Pensei que, por já conhecer os factos e a violência das imagens, poderia agora assistir ao programa da CNN sem me emocionar. Puro engano. Parece que estou a assistir a tudo pela primeira vez. Não, minto. Estou consciente de já ter visto as imagens. Mas, na primeira vez que as vi, as explosões e a nuvem de pó causada pela queda do World Trade Center dominavam as imagens (que eu "via"). Agora é pior. Agora consigo ver os pormenores. Consigo ver as pessoas.
No início do programa pensei ser redundante a repetição de imagens tão violentas. Puro engano. Não é, nem nunca será redundante. São estas imagens que nos mostram as terríveis possibilidades do terrorismo. São estas imagens que nos lembram porque razão temos de combater o terrorismo. Temos apenas de ser cuidadosos e evitar repeti-las com demasiada frequência. Isso poderia gerar uma indesejada insensibilidade (defensiva) perante estas imagens.
Só espero que muitos futuros terroristas suicidas possam ver este documentário. Talvez eles acabem por perceber que existem outros caminhos (pacíficos) para resolver os problemas, por mais desesperados que estes sejam.
ANS
76 – CANÇÕES DE 1973 (I)
Aqui começa mais uma série do Carimbo: Canções de 1973.
É verdade que a primeira série (“Os estrangeiros que eu conheço”) nunca mais foi actualizada. No entanto, essa série não está esquecida e brevemente conhecerá novos desenvolvimentos. Entretanto, aqui fica a recomendação do livro “The English” de Jeremy Paxton, para o caso de quererem confirmar algumas das características que atribuí aos ingleses que eu conheço.
Esta nova série que hoje se inicia pretende recordar algumas canções (apenas as letras para não violar os direitos de autor) lançadas no “glorioso” ano de 1973, como eu e muitos dos meus amigos (principalmente os benfiquistas) gostamos de dizer.
De facto, o ano de 1973, além de ser o ano de nascimento de todos aqueles que atingem os trinta anos de idade em 2003, foi também o melhor ano de sempre do Benfica no campeonato nacional de futebol. Nessa época (1972/73), o Benfica conseguiu terminar o campeonato sem qualquer derrota, tendo cedido apenas dois empates. Marcou 101 golos e sofreu apenas 13 em apenas 30 jogos. O segundo classificado, o Belenenses, ficou a 18 pontos de distância, o que, hoje em dia, corresponderia a “apenas” 32 pontos. Notável. O ano de 1973 foi também o ano da despedida de Eusébio dos jogos da selecção nacional, o que aconteceu no Estádio da Luz num jogo contra a Bulgária para apuramento para o Campeonato Europeu de 1974. Foi também em 1973 que Eusébio marcou o seu último golo, pelo Benfica, em jogos da Taça dos Campeões Europeus. Foi nesse ano que Borges Coutinho (o presidente do clube) homenageou Eusébio perante um Estádio da Luz completamente cheio.
Confesso que sinto inveja da geração dos meus pais (agora entre os cinquenta e os sessenta anos de idade) porque eles tiveram oportunidade de assistir a jogos de um Benfica realmente glorioso. Eles podem recordar esses momentos sempre que algum portista ou sportinguista se diverte a comentar o actual Benfica. Eu não posso recorrer a essa estratégia de defesa. Não consigo recordar nada do que me aconteceu antes dos três anos de idade, mas não preciso de recorrer a qualquer hipnose regressiva para saber que sou benfiquista desde que nasci.
Enfim, não posso recordar os jogos do Glorioso mas posso recordar as canções da época. Ouço muitas delas de vez em quando, como é o caso das canções de Al Green. Escolhi este cantor do estilo soul para iniciar esta série musical apenas com base em critérios alfabéticos, embora tenha “esquecido” os Abba e os Aerosmith, entre outros, os quais também já tinham discos editados em 1973.
Entre as canções de Al Green lançadas em 1973, seleccionei Call Me (Come Back Home) por razões que já aqui expliquei mais do que uma vez.
CALL ME (COME BACK HOME)
Call me...
Call me...
Call me...
What a beautiful time we had together,
now it's getting late and we must leave each other,
just remember the time we had,
and how right I tried to be,
it's all in a day's work,
Call me...
Losing your love, acting foolishly,
go on and take your time,
you're already losing me,
love is a long ways from here,
'cause it's all in the way you feel,
If love is real, come to me.
Call me...
Call me...
Call me... (Come back home)
The best thing I can do is give you your love,
that you're going away feeling as free as a dove,
And if you find you's a long way from home,
and if somebody's doin' you wrong,
Just call me baby... (Come back home)
Call me...
Call me...
Call me... (Come back home)
...Ain't things going right.
It's all in a day's work
Call me...
You can call me when you're feelin' sad, baby...
It's all in a day's work...
Come back home...
By Mitchell, Green and Jackson
Amanhã há mais.
ANS
10 setembro 2003
75 – TRINTA ANOS
Na passada terça-feira (dia 2 de Setembro), uma prima minha completou trinta anos de idade. Telefonei-lhe para a felicitar e constatei que ela não estava nada contente. Fiquei surpreendido. Não consegui perceber porque estava ela tão triste por se transformar numa jovem de trinta anos de idade. O que mudou na vida dela no seu dia de aniversário? O que desapareceu nesse dia? O que temos aos vinte e nove anos de idade que deixamos de ter aos trinta?
Eu também completei trinta anos durante este ano e nem sequer pensei no assunto. Uma outra prima nossa também atingiu esta idade durante este Verão e não me pareceu ter ficado triste por isso. A maior parte dos meus amigos e amigas têm celebrado os seus trinta anos de idade durante os últimos dois anos e marcaram a data com pompa e circunstância. Uma pessoa que me é muito especial também já tem trinta anos e sente-se muito bem com essa idade.
Pensei que a minha prima estava a evidenciar receios exagerados (e infundados) do envelhecimento. Na sexta-feira (dia 5 de Setembro) fui a casa dela e verifiquei, com satisfação, que ela estava muito bem disposta. No entanto, como não queria que ela voltasse a ficar triste, receei perguntar-lhe se já gostava da sua nova idade. O problema é que fiquei sem saber porque razão o número trinta a incomodava tanto.
No dia seguinte voei para Manchester e, durante a viagem, li a crónica de Faíza Hayat na revista XIS do Público. O título (A arte de fazer anos) era sugestivo e as primeiras frases também: “Faço amanhã, domingo, trinta anos. Ao contrário de muitas das minhas amigas, igualmente balzaquianas, cada vez gosto mais de fazer anos. Faço-os melhor agora do que nunca. Quando era criança aquilo que mais apreciava na festa do meu aniversário era, claro está, a própria festa.”
Faíza Hayat explica que a idade não se vence simplesmente, ela constrói-se dia a dia e é feita de histórias e de conquistas.
O outro argumento de Faíza Hayat baseia-se na ideia do desconforto das constantes mutações dos corpos jovens. Tem razão. Embora continuemos a envelhecer, para nós que temos trinta anos de idade, esse envelhecimento será menos nítido durante os próximos vinte anos.
Mesmo que a minha prima tenha lido esta crónica, ela nunca passará a gostar da sua festa de aniversário. Nunca gostou. Nem quando era criança ou adolescente. Eu, pelo contrário, sempre adorei festas de aniversário. Não me importo nada de ver a idade a avançar desde que a possa celebrar com festas de arromba.
ANS
74 - CONFIANÇA NAS OBRAS PÚBLICAS
Enquanto esperava pela divulgação do relatório sobre as causas da queda do tabuleiro de uma passagem superior de peões sobre o IC19, li diversas notícias e comentários sobre esse acidente.
No Público de ontem pude ler que as “pontes pedonais do tipo da que caiu são estruturas relativamente frágeis e com um coeficiente de segurança baixo. Calculadas para permitir apenas a travessia de peões, estas pontes funcionam por gravidade: o tabuleiro é assente sobre os pilares, não estando preso a eles por estruturas solidárias construídas de raiz. Para esta opção de construção muito contribui o facto destas pontes se situarem em estradas de grande movimento e de terem de ser construídas perturbando o menos possível o trânsito. Por isso, os pilares de apoio são construídos primeiro e, quando ficam prontos, as vigas pré-fabricadas que constituem a ponte em si mesma são meramente ‘pousadas’ sobre esses pilares. Por vezes procura reforçar-se a estrutura ligando o tabuleiro aos pilares com a ajuda de parafusos, mas essa solução é sempre de alguma fragilidade.
A obra determinada pelo Instituto das Estradas de Portugal destinava-se não apenas a reparar a passagem superior dos danos provocados pelo embate de uma grua, mas a elevá-la cerca de vinte centímetros. Esta elevação do tabuleiro visava minorar o risco de novos embates, já que situando-se a passagem a uma altura superior à permitida aos veículos pesados, há muitos que não cumprem a lei e circulam com cargas que acabam por embater em estruturas como aquela ponte.
O Instituto das Estradas de Portugal considerou ontem prematuro dar qualquer explicação sobre o que terá ocorrido, preferindo esperar pelo resultado do inquérito em curso. No entanto, testemunhos recolhidos no local dão algumas pistas para as causas do acidente. Aparentemente, o empreiteiro encarregue da obra terá começado por desprender o tabuleiro dos pilares, tirando os parafusos, e, depois, utilizado macacos hidráulicos para altear a estrutura, que pesava 52 toneladas. Os novos apoios não terão sido concluídos durante a intervenção, ficando por isso o tabuleiro assente numa estrutura provisória que apenas aguentou seis [horas?] de trepidação. Esta possível explicação para o ocorrido levanta a questão de saber em que condições foi autorizada a reabertura do trânsito e qual o responsável técnico por ter considerado suficientemente sólida uma estrutura cujos restos, visíveis no local, aparentavam evidente fragilidade.
O problema ocorrido com a passagem superior do IC 19 deverá chamar a atenção para a circunstância de existirem muitas pontes semelhantes em todo o país, construídas também em vias de grande movimento e com base em estruturas que parecem bem preparadas para os esforços verticais a que são sujeitas (a passagem de peões), mas que não terão a necessária solidez para resistir a vibrações, ao embate de viaturas ou a sismos que as sujeitem a fortes abanões.”
Confesso que fiquei impressionado com tanto conhecimento técnico. No entanto, sinto que devo prestar alguns esclarecimentos adicionais.
1 – As pontes pedonais não são estruturas relativamente frágeis com um coeficiente de segurança baixo. As pontes pedonais, como qualquer outra estrutura, são calculadas com um coeficiente de segurança adequado, o qual é aliás imposto pelas normas e regulamentos em vigor.
2 – As pontes pedonais não “funcionam por gravidade”. Se não existisse gravidade não precisaríamos de pontes e estas nunca cairiam.
3 – As pontes pedonais, como inúmeras outras estruturas (entre as quais se incluem pontes rodoviárias e ferroviárias), podem ser projectadas e construídas de modo a funcionarem com tabuleiros simplesmente apoiados (em pilares ou encontros). Nem sempre as ligações monolíticas (expressão utilizada no caso de pontes de betão armado) são as mais indicadas.
4 – Não estou a ver a que “parafusos” se refere a notícia do Público. Nos apoios simples são geralmente utilizados dentes em betão armado (nos encontros), aparelhos de apoio ou simples ferrolhos (em aço) para evitar os deslocamentos transversais do tabuleiro. Os deslocamentos longitudinais do tabuleiro podem ser permitidos ou não, dependendo da solução estrutural adoptada. Se forem permitidos, têm de existir apoios de largura compatível.
5 – O recurso a tabuleiros pré-fabricados e simplesmente apoiados justifica-se, de facto, pela maior rapidez de execução.
6 – Se existem veículos pesados que não cumprem o que está legislado relativamente à altura máxima permitida, porque não são os seus condutores responsabilizados pela reparação das estruturas danificadas? Porque tem de ser o Estado a pagar as reparações e a altear tabuleiros que já satisfazem o “gabarit” mínimo (ou seja, cumprem a lei)?
7 – Como já estava em Liverpool quando ocorreu o acidente, não pude ver imagens do tabuleiro que caiu. Também não consegui ler qualquer notícia que explicasse como caiu o tabuleiro. Caiu lateralmente? Rodou? Caiu só de um lado? Os apoios ficaram em bom estado ou também partiram? Estas são pistas importantes para averiguar as causas da queda. Espero que a velocidade com que os bombeiros desobstruíram a via para permitir a circulação rodoviária no IC19 não tenha impossibilitado a recolha destas pistas por parte da comissão de inquérito constituída pelo IEP.
8 – Não me parece que a queda desta passagem superior de peões esteja relacionada com falta de resistência a vibrações, choques ou sismos. Estas acções são normalmente consideradas no dimensionamento destas estruturas. As normas e regulamentos em vigor obrigam a tal procedimento. Aproveito para lembrar que as pontes são, muitas vezes, estruturas muito flexíveis, pelo que se tornam muito mais sensíveis à acção do vento do que à acção dos sismos ou das vibrações introduzidas pelo tráfego. Se a passagem superior de peões caiu imediatamente após a conclusão da obra de reparação, o mais natural é que tal tenha acontecido na sequência de uma falha do projecto de alteamento/reparação/reforço ou de uma falha do empreiteiro na execução da obra.
Ainda na mesma edição do Público, José Manuel Fernandes faz comparações com a queda da ponte de Entre-os-Rios. Recordo que, após a queda dessa ponte, se verificou uma extensa campanha de inspecções coordenada pelo extinto Instituto para a Conservação e Exploração da Rede Rodoviária (ICERR), a qual tem sido continuada pelo IEP. Na sequência dessas inspecções foram realizadas diversas intervenções inicialmente coordenadas pelo ICERR e também pelo extinto ICOR (Instituto para a Construção Rodoviária) e agora coordenadas pelo IEP. Não posso acreditar que as inspeções às passagens desniveladas de peões tenham sido esquecidas.
José Manuel Fernandes refere também um passado glorioso da Engenharia Civil portuguesa, transmitindo a ideia de que as empresas portuguesas de projectistas e de construção já não são capazes de executar grandes obras e, por isso, não são reconhecidas internacionalmente. Não posso concordar com esta afirmação.
Já que José Manuel Fernandes refere a obra do Eng. Edgar Cardoso, lembro aqui a Ponte da Arrábida, no Porto, a qual constituiu na altura da sua construção (1963) o maior arco de betão armado e pré-esforçado do mundo (270 metros). Hoje, podemos olhar para a Ponte do Infante e admirar o seu arco abatido de 380 metros. Esta ponte foi construída por um consórcio luso-espanhol.
Parece que José Manuel Fernandes também desconhece que a Ponte Vasco da Gama (que é a maior da Europa) foi projectada por um consórcio de quatro empresas (duas das quais portuguesas). O projecto foi verificado por outro consórcio de quatro empresas (duas das quais portuguesas). A obra foi executada pelo consórcio Lusoponte constituído por empresas portuguesas (50,4 %), francesas (24,8 %) e inglesas (24,8 %).
Outras pontes famosas construídas durante a última década são a Ponte da Amizade (nova ligação entre Macau e Taipa, construída por um consórcio liderado por empresas portuguesas) e a Ponte Internacional do Guadiana (ligação entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, em Espanha), as quais foram projectadas pelo Eng. Câncio Martins.
A Ponte do Freixo, no Porto, e a Ponte José Gomes (com pilares de 105 metros de altura), no Funchal, projectadas pelo Eng. António Reis, também são obras marcantes.
A Ponte do Arade (em Portimão) e a Ponte Miguel Torga (na Régua), da autoria do Eng. Armando Rito, também não devem ser esquecidas.
Finalmente, lembro a obra de ampliação do Aeroporto Internacional do Funchal, da autoria do Eng. Segadães Tavares, a qual foi construída por um consórcio de três empresas (uma portuguesa, uma francesa e uma brasileira).
Penso que estes exemplos são suficientes para ilustrar a saúde da Engenharia Civil portuguesa, pelo menos no domínio das Estruturas (em geral) e das Pontes (em particular). Será que José Manuel Fernandes pensa que os portugueses confiariam mais nas obras públicas se elas fossem projectadas e executadas exclusivamente por estrangeiros?
Li agora na TSF que, de acordo com os resultados do relatório do IEP, "os riscos nas obras da ponte pedonal do IC19 não terão sido avaliados convenientemente". Já o esperava.
ANS
73 – DIÁLOGO REVELADOR
O Telejornal de ontem abriu com notícias sobre a pedofilia. Essas notícias ocuparam apenas vinte e seis minutos do programa. Talvez isto seja uma consequência directa da notícia do Expresso sobre as duradouras ligações da empresa à rede de pedofilia da Casa Pia. Por arrasto, outras situações de envolvimento da RTP com a pornografia são agora lembradas. É o caso das cassetes didácticas sobre o 25 de Abril que continham também imagens pornográficas. Este caso ocorreu há quatro anos atrás e mereceu ontem uma entrevista de José Rodrigues dos Santos a Alfredo Trofa (um antigo responsável pelos arquivos da RTP). A parte final do diálogo (que a seguir transcrevo) apresenta algumas curiosidades.
JRS: Alfredo Trofa, viu as imagens?
AT: Eu não vi mas suponho, porque mandei ver e esse é o motivo porque não vi, que se tratava de uma gravação de uma emissão de cabo que se chamava Canal 18 ou... suponho que era assim.
JRS: E, portanto, não envolvia crianças...
AT: Não, não envolvia crianças.
JRS: Então nós temos uma situação em que o vídeo não é de pedofilia. Foi feito um inquérito. Foi despedido um responsável. Tudo se passou fora da RTP. Porque é que, na sua opinião, este caso se levanta agora?
AT: Eu tenho a impressão, mas isto é a minha impressão e não é mais do que isso, que a RTP é exímia em dar tiros nos pés. (A expressão facial de José Rodrigues dos Santos, ao minuto 13:40 do Telejornal, merece ser vista.) Eu não percebo porque é que se está a levantar este problema dentro da RTP. Porque é que juntaram agora este problema ao caso da pedofilia? Este é um problema que devia ter sido sanado. Digamos [que houve] mau trabalho de um trabalhador, que nem sequer era da RTP, mas que a empresa sanou. E agora porque é que juntam a história da pedofilia? Eu não consigo perceber.
JRS: Alfredo Trofa, muito obrigado.
Para mim, este pequeno diálogo revela muito sobre a nossa sociedade.
ANS
Subscrever:
Mensagens (Atom)