11 outubro 2003
122 - O ILDEFONSO
Frequentei o ensino primário numa escola pública, na qual tive a oportunidade de conviver com crianças das mais variadas origens étnicas e sociais. Entre essas crianças, havia uma que eu admirava muito. Era o Ildefonso. Fomos colegas até à terceira classe. Depois, o Ildefonso foi forçado a interromper os estudos.
Foi uma pena, não só pelos motivos óbvios, mas também porque o Ildefonso era um prodígio do cálculo mental. Ainda hoje recordo a minha professora a confirmar (à mão) os resultados dos cálculos mentais do Ildefonso. Mas eu (e as outras crianças) já sabíamos que o Ildefonso acertava sempre.
À tarde, depois das aulas, era comum irmos brincar. Podíamos fazê-lo por todo o lado. É uma das vantagens de se crescer numa pequena cidade, como Faro. Infelizmente, o Ildefonso não aproveitava essa vantagem e não nos acompanhava nas tardes de brincadeira. Não podia fazê-lo porque estava a trabalhar com os pais (que eram feirantes). Foi assim que ele aprendeu a "fazer contas".
Foi numa dessas tardes de brincadeira que encontrei o Ildefonso a ajudar os pais. Foi na feira de Santa Iria, quando esta ainda tinha lugar no Largo de S. Francisco. Nessa tarde de Outubro, o Ildefonso conduziu-me numa visita guiada pela feira, com direito a experimentar todas as diversões (carrosséis, carros de choque, etc...) e guloseimas (farturas, algodão-doce, etc...). Também pude ver o pessoal do circo a preparar o espectáculo dessa noite. Foi uma das melhores tardes da minha infância. Desde esse dia, nunca mais vi o Ildefonso.
Neste momento, o leitor deve estar a interrogar-se sobre o interesse destas recordações de infância. Tem razão. São recordações que, aparentemente, só me interessam a mim. Mas a verdade é que estas recordações, entre outras, contribuiram muito para que, hoje, eu abomine o racismo. É que o meu amigo Ildefonso era cigano. E, por esse motivo, não terá gostado nada de ouvir dizer, no Telejornal de ontem (minuto 56:40), que "as crianças ciganas de Rebordinho podem ir à escola desde que se comportem como gente, como gente portuguesa..."
Infelizmente, estas afirmações (que reflectem um racismo enraizado) não foram comentadas no Telejornal. Infelizmente, estas afirmações surgem como a conclusão (será?) de uma história que começou na sexta-feira da semana passada, quando o Jornal de Notícias revelou que, na quinta-feira (2 de Outubro), "algumas dezenas de populares e encarregados de educação da povoação de Teivas, na freguesia de S. João de Lourosa, nos arredores de Viseu, fecharam a cadeado" a escola do 1º Ciclo do Ensino Básico daquela localidade. De acordo com a notícia, "o protesto, que impediu a abertura da escola e o acesso de professores e auxiliares de acção educativa, ficou a dever-se à alegada intenção, das estruturas educativas, de transferir para aquele estabelecimento de ensino" catorze crianças (de etnia cigana) da vizinha povoação de Rebordinho.
Aparentemente, o protesto foi aceite e as catorze crianças foram transferidas para a escola "primária" de Rebordinho, o que obrigou o Centro da Área Educativa de Viseu a reforçar o quadro docente daquela escola com mais duas professoras e uma auxiliar de acção educativa. Entretanto, na última quinta-feira (9 de Outubro), o Jornal de Notícias revelou que, na quarta-feira (8 de Outubro), dia em que as crianças deveriam começar a frequentar as aulas, o portão da escola, além de estar trancado com arames, tinha vários cartazes com a frase: "Não queremos cá os ciganos".
ANS
10 outubro 2003
121 - E O PSD? O QUE É?
Verifiquei agora que CAA, do Mata-Mouros, publicou uma parte de um e-mail que lhe enviei, no dia 27 de Setembro, como resposta a este e-mail:
"Caro Carimbo,
Sigo com muita atenção os seus textos. Concordo com quase tudo o que diz sobre o PS [post 91 do Carimbo, de 19 de Setembro]. Mas, pergunto-lhe, e o PSD? Defina-o, por favor, que eu já não sei o que são, o que querem e o que os faz correr...
Um abraço,
CAA
P.S. - Segue um pequena provocaçãozinha: [post Os vários PSD's que conheço (I), de 15 de Setembro]"
A minha resposta, completa e já desactualizada, é a que a seguir transcrevo, excluindo apenas uma parte do parágrafo inicial (mais pessoal):
"Caro CAA,
É com muita satisfação que respondo ao seu e-mail, o qual li (ou reli) com muita atenção. Em primeiro lugar quero agradecer-lhe por seguir os posts do Carimbo, o que, para mim, é uma surpresa. [...]
Quanto à questão que coloca sobre a definição (ou indefinição) do PSD, confesso que me apanha de surpresa. Eu já tinha lido (em devido tempo, porque acompanho “fielmente” o Mata-Mouros) o post que anexou ao e-mail que me enviou e admito que as posições assumidas por António Nazaré Pereira (não nos esqueçamos que se trata de um membro, ainda que suplente, da Convenção Europeia) não me surpreenderam muito. No entanto, penso que a forma encontrada por António Nazaré Pereira para justificar a necessidade de um Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (MNE) não foi a mais feliz (eu não me identifico com essa justificação) e espero que a maioria dos simpatizantes do PSD pense da mesma forma.
Não sou militante do PSD e, por esse motivo, as minhas opiniões resumem-se àquilo que posso perceber como observador externo. Desse ponto de vista, parece-me que o PSD sempre favoreceu o debate político e ideológico interno, sempre admitiu as mais diversas opiniões e, de uma forma muito pragmática, sempre conseguiu encontrar um rumo ideológico aglutinador dos desejos da maioria dos seus simpatizantes. É por isso que encaro com dificuldade a hipótese de existirem, no seio do PSD, comunistas ou socialistas “mal encaminhados” a promoverem um “estatismo militante”. Não me parece que estas ideologias encontrem eco nas orientações políticas dominantes no PSD. A diversidade político-ideológica que existe no PSD não é assim tão extremada. Esta é, para mim, a regra.
A excepção à regra é a questão da União Europeia (UE). Talvez esta seja uma das matérias onde se verificam (só agora...) mais e maiores divergências. Talvez a divergência aconteça porque o PSD é hoje um partido de largo espectro político, abrangendo todo o centro-direita e absorvendo até o espaço ocupado pelo CDS, o qual se assume agora como “euro-calmo” e deixa os “euro-cépticos” no limbo da irresponsabilidade (entrevista de hoje de Nuno Magalhães ao Diário de Notícias). Talvez a divergência aconteça porque, até há bem pouco tempo, nunca se verificaram divisões significativas entre PSD e PS relativamente à forma de encarar a UE. Isto implicou uma confrangedora ausência de debate que deixou a população portuguesa num estado de ignorância total face a esta questão. Felizmente, alguns acontecimentos recentes despertaram (ou ainda irão despertar) a população para a importante questão da UE.
Entre esses acontecimentos saliento a crise económica mundial e as consequentes dificuldades associadas ao cumprimento, na Europa, do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Estas dificuldades, que os portugueses sentem fortemente, levam alguns grandes países (como a Alemanha e, principalmente, a França) a desejar e a promover a alteração dos critérios de controlo orçamental. Será um sinal de um futuro funcionamento da UE em sistema de directório?
Outro acontecimento importante foi a crise institucional provocada pela oposição francesa e alemã à intervenção militar no Iraque. Esta crise dividiu a Europa e presenteou os “cidadãos” europeus com a chantagem de Jacques Chirac aos futuros Estados-Membros da UE. Será um sinal da fantasia que é, actualmente, acreditar numa Constituição Europeia que garanta a igualdade entre os Estados-Membros da UE?
O acontecimento que, mais recentemente, alertou a população para o problema da UE foi a rejeição sueca à adesão à moeda única europeia. As pessoas questionam as razões subjacentes a essa rejeição, as quais, embora sendo essencialmente económicas, também são políticas. Será este um sinal evidente, dado por um povo instruído e informado como é o sueco, dos perigos inerentes a um avanço demasiado rápido na construção europeia? A dúvida que eu tenho, tal como a maioria dos simpatizantes do PSD (pelo menos essa é a posição oficial do partido), é se a integração europeia e a coesão entre os Estados-Membros são já suficientes? Será que a população europeia já interiorizou a noção de cidadania europeia? Será que os pequenos Estados-Membros da UE irão, na sua maioria, ratificar o Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa que resultará da Conferência Intergovernamental [CIG]?
A estas questões podem ainda acrescentar-se outras. Um exemplo é a questão da Política Externa e de Segurança Comum (PESC). A posição oficial do PSD, na linha do que consta na proposta de Constituição Europeia (para simplificar a linguagem), assume que a NATO é pedra basilar da nossa arquitectura de defesa e segurança e que isso nunca será colocado em causa pela PESC. Gostaria de poder acreditar nisto, mas a verdade é que a PESC baseia-se na Agência Europeia de Armamento, Investigação e Capacidades Militares (AEA) para organizar e promover a melhoria das capacidades militares dos Estados-Membros com o objectivo de fornecer à UE uma capacidade operacional apoiada em meios civis e militares que poderão ser empregues em missões, no exterior, de manutenção de paz, prevenção de conflitos, combate ao terrorismo e reforço da segurança internacional, de acordo com os princípios da Carta das Nações Unidas. Será que os Estados-Membros terão liberdade para optar por contratos de reequipamento militar que não envolvam a AEA? Lembro que o actual Governo, na sequência da aplicação da Lei de Programação Militar, já foi acusado de subserviência às companhias americanas. Porque têm os Estados-Membros de melhorar as suas capacidades militares no âmbito da PESC se apenas a França e o Reino Unido têm assento no Conselho de Segurança da ONU? Outra questão associada à PESC é a da representação. De acordo com a proposta de Constituição Europeia, as matérias da PESC serão representadas externamente pelo Presidente do Conselho Europeu, sem prejuízo das competências do MNE. Para mim, isto é um sinal claro de que o Presidente da União Europeia será o Presidente do Conselho Europeu, ficando o Presidente da Comissão Europeia a funcionar como um “Primeiro-Ministro” limitado nos seus poderes. Parece-me que esta estruturação de poderes viola o princípio de igualdade dos Estados, visto que, embora se verifique um relativo equilíbrio entre os grandes Estados (Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Polónia) e os pequenos Estados na ponderação de votos do Conselho Europeu e do Conselho de Ministros, a representatividade dos cidadãos acaba sempre por falar mais alto. Daí a importância de garantir mais poderes ao Presidente da Comissão Europeia. Este é o órgão executivo principal e deverá ter uma presença equilibrada de nacionais de todos os Estados-Membros (já agora, também não concordo com a fórmula de quinze comissários com direito de voto e outros tantos sem esse direito).
Perante tantas dúvidas, questiono-me também se não serei, eu próprio, um “euro-céptico”. Não sou. Acredito na integração europeia, assim como acredito que, depois da Europa, outros blocos de países serão criados noutros continentes. Apenas penso que Valéry Giscard d’Estaing (para personalizar a questão) está a avançar demasiado depressa. Os Estados europeus têm muitos séculos de história atrás de si, com conflitos horríveis pelo meio e com um sentido de patriotismo (para não utilizar a palavra “nacionalismo”) muito enraizado, o que torna muito complicada, para já, a constituição do tal Super-Estado Europeu desejado pelos federalistas. O problema maior será garantir a igualdade entre os Estados-Membros e, simultaneamente, eliminar as desconfianças existentes face a grandes países como a França e a Alemanha.
Será este repertório de dúvidas um bom retrato do PSD? Espero que sim. Estas dúvidas reflectem preocupação e responsabilidade. O problema reside nos partidos, como o PS, que estão cheios de certezas.
Um abraço,
ANS"
Este e-mail já está, obviamente, desactualizado. Entretanto, alguns dos chamados países "grandes" já vieram ameaçar os países "pequenos" com o corte de fundos de coesão no caso de estes forçarem demasiadas alterações à proposta de Constituição Europeia em discussão na CIG.
ANS
09 outubro 2003
120 - A VOLTA AO BLOG EM 80 DIAS
O Carimbo completa hoje oitenta dias de existência. Tem sido uma aventura interessante, mas não acaba aqui, ao contrário do que aconteceu na aventura de Phileas Fogg (contada por Jules Verne).
Entretanto, penso que a história destes oitenta dias merece ser contada e a melhor forma de o fazer é através da publicação dos números do Carimbo:
Idade: 80 dias
Posts: 120
Média de posts por cada dois dias: 3
Palavras: 58.593
Média de palavras por post: 488
Visitantes: 4.257
Média de visitantes por dia: 53
Tempo médio gasto por visita: 6 minutos e 40 segundos
Page views: 9.553
Média de page views por dia: 119
Média de page views por visitante: 2,24
Blogs que recomedaram o Carimbo: 57
Blogs que têm (ou tiveram) o Carimbo nas suas listas de recomendações: 52
Blogs que se referiram ao Carimbo: 67
Total de referências ao Carimbo: 140
Já que menciono as referências ao Carimbo, basta comparar os números que aqui apresento com os do Technorati para concluir que alguma coisa está errada. Talvez os números do Technorati não estejam correctos porque não contabilizam as referências que constam dos arquivos desaparecidos de diversos blogs (a opção "Republish Entire Site" do Blogger deve ser utilizada de vez em quando).
ANS
119 - MEDICAMENTOS
O Anarca Constipado está curado da constipação. O problema é que, como a constipação era crónica, deve ter sido curada à custa de doses massivas de medicamentos, o que deixou o Anarca completamente alucinado. É por isso que não se nota que o Anarca já não está constipado. Ainda bem que é assim.
O Pintainho também se deve ter enchido de medicamentos e, depois de ter estado às portas da "morte", finalmente piou. O problema é que ficou amnésico e esqueceu-se de todos os blogs que costumava acompanhar. Não faz mal, pelo menos está "vivo".
ANS
118 - MAIS AGRADECIMENTOS IX
Como publiquei um post de agradecimentos no passado sábado, pensei que poderia aguardar mais algum tempo antes de o voltar a fazer. No entanto, para evitar acumular agradecimentos, prefiro fazê-lo já.
Assim, agradeço a Paulo Gorjão pelo eco que fez, no post 483 (que produtividade!) do Bloguítica Nacional, dos posts 108 e 109 do Carimbo.
Agradeço também a João Carvalho Fernandes, do Fumaças, pela resposta ao e-mail que lhe enviei.
Agradeço ainda ao Gatopardo pelo seu comentário ao post 112 do Carimbo e aproveito para esclarecer que o título "A preparação para o referendo é urgente" se refere não só ao número do post (112), mas também à necessidade urgente de informar a população e debater o problema. A questão das alternativas colocada pelo Gatopardo seria sempre considerada, desde que existisse debate e informação.
O Irreflexões atribui ao Carimbo uma quota-parte da responsabilidade pela sua subida nesta classificação. Agradeço, mas, infelizmente, temo que a contribuição do Carimbo tenha sido insignificante.
Aproveito ainda para agradecer ao Fórum Cidade e ao Crítico por colocarem O Carimbo nas suas listas de blogs. Quanto ao Crítico, espero que o seu estudo do Carimbo seja proveitoso e agradável.
Finalmente, agradeço a Ricardo Melim, um madeirense (o seu blog chama-se "Portugal aos Pedacinhos") adepto do Nacional da Madeira, por incluir O Carimbo na sua pequeníssima lista de blogs que "valem mesmo a pena". Obrigado.
ANS
117 - CANÇÕES DE 1973 (XIII)
Esta série já vai longa (ainda está na quarta letra do alfabeto), mas isso só significa que a produção musical do ano de 1973 foi, de facto, enorme. A canção The Cover Of The Rolling Stone da banda Dr. Hook & The Medicine Show (que passou a chamar-se apenas Dr. Hook em 1975) é mais um exemplo dessa elevada produção.
COVER OF THE ROLLING STONE
Well we're big rock singers
We got golden fingers
And we're loved everywhere we go
We sing about beauty and we sing about truth
At ten thousand dollars a show
We take all kinda pills
That give us all kinda thrills
But the thrill we've never known
Is the thrill that'll getcha
When you get your picture
On the cover of the Rollin' Stone
Wanna see my picture on the cover
Wanna buy five copies for my mother
Wanna see my smilin' face
On the cover the cover of the Rollin' Stone
I got a freaky old lady
Name a Cocaine Katie
Who embroideries on my jeans
I got my poor ol' grey haired Daddy
Drivin' my limousine
Now it's all designed
To blow our minds
But our minds won't really be blown
Like the blow that'll getcha
When you get your picture
On the cover of the Rollin' Stone
Wanna see my pictures on the cover
Wanna buy five copies for my mother
Wanna see my smiling face
On the cover the cover of the Rollin' Stone
We gotta lotta little teenage blue-eyed groupies
Who'll do anything we say
We got a genuine Indian guru
Who's teachin' us a better way
We got all the friends that money can buy
So we never have to be alone
And we keep gettin' richer, but we can't get our picture
On the cover of the Rollin' Stone
Wanna see my picture on the cover
Wanna buy five copies for my mother
Wanna see my smilin' face
On the cover of the Rollin' Stone
On the cover of the Rollin' Stone
Gonna see my picture on the cover
Gonna buy five copies for my mother
Gonna see my smiling face
On the cover of the Rollin' Stone ...
By Dr. Hook & The Medicine Show (Shel Silverstein)
ANS
116 - AS BIRRAS DE PINTO DA COSTA
De acordo com a TSF, o presidente do Futebol Clube do Porto (FCP) garantiu que Rui Rio não vai assistir à inauguração do novo Estádio do Dragão, prevista para 16 de Novembro. Pinto da Costa terá dito que só se estivesse maluco é que convidaria o presidente da Câmara do Porto a estar presente nessa cerimónia. Pinto da Costa terá ainda acrescentado que Rui Rio não vai ter hipótese nenhuma de assistir à inauguração do estádio.
Tem piada, pensava que para ter acesso aos eventos que acontecerão no Estádio do Dragão bastaria adquirir um bilhete. Pelos vistos no Porto as coisas não são bem assim. Será que Pinto da Costa instruiu os seguranças e porteiros do Estádio para não deixarem entrar Rui Rio, nem que este possua um bilhete?
É óbvio que Rui Rio não vai assistir à inauguração do Estádio. Mas não irá porque não quer e nunca porque Pinto da Costa o proíbe.
Convém lembrar que estas atitudes inócuas de Pinto da Costa não são originais. Há poucos anos atrás, o anterior presidente do Sport Lisboa e Benfica (SLB) também não foi convidado por Pinto da Costa e, por esse motivo, foi filmado nas bancadas do Estádio das Antas entre os adeptos benfiquistas, a assistir a um FCP-SLB debaixo de chuva.
Já que escrevo sobre esse jogo (ao qual tive a infelicidade de assistir "ao vivo"), aproveito para recordar o que se passou no final (algo que as câmaras de televisão não mostraram). Os adeptos do SLB foram obrigados a permanecer no estádio durante mais três quartos de hora (uma medida de segurança muito duvidosa), debaixo de uma chuva de água e de pedras (oriundas do exterior do estádio). Essa foi a última vez que assisti a um jogo de futebol nas bancadas reservadas para os adeptos benfiquistas nos estádios das equipas adversárias. Prefiro apoiar silenciosamente o SLB entre os adeptos adversários. Apesar de tudo, é mais seguro.
O que mais me entristeceu nesta história desagradável foi a hipocrisia demonstrada por Pinto da Costa, poucas semanas depois daquele jogo, quando os adeptos do FCP (retidos no interior de um estádio após um jogo com uma equipa nortenha) foram também apedrejados. Para Pinto da Costa, apedrejar os adeptos indefesos no interior do estádio era uma acção brutal e desumana que jamais seria praticada pelos adeptos do FCP no Estádio das Antas. Este tipo de declarações hipócritas (e nada inócuas), tal como o tratamento dos adeptos como gado, só contribuem para afastar os espectadores dos estádios.
Espero que tudo isto mude com os novos estádios, ou então Pinto da Costa e os presidentes dos outros clubes ainda vão ser obrigados a convidar toda a gente para ir ver os jogos das suas equipas. Ninguém paga para ser maltratado.
Já que escrevo sobre a afluência de público aos estádios, aproveito para lembrar que no último jogo do FCP para a Liga dos Campeões, contra o Real Madrid, o Estádio das Antas não encheu. Será porque as pessoas não gostam do futebol praticado pela melhor equipa do mundo e pela melhor equipa portuguesa?
ANS
115 - PRIORIDADES
Depois de dois dias exigentes e sem tempo para receber notícias de Portugal, decidi retomar o contacto com a actualidade portuguesa através da edição on-line do Telejornal de ontem. Este programa abriu com a notícia do acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, o qual determinou que a medida de coacção aplicada a Paulo Pedroso no âmbito do Processo Casa Pia deveria ser o termo de identidade e residência e não a prisão preventiva. Para transmitir esta informação foram necessários quarenta minutos, na primeira parte do Telejornal, mais quinze minutos de repetição na segunda parte. Para mim, o que esta notícia vem lembrar (mais uma vez) é o abuso que, em Portugal, se faz da prisão preventiva como medida de coacção. Mas esta questão já foi largamente debatida e parece que existe um consenso generalizado relativamente à necessidade terminar com esse abuso. Porém, o noticiário da RTP até nem foi dominado por esta questão (que é importante). O que ocupou tanto tempo de televisão foi o mediatismo da libertação de Paulo Pedroso. É esse mediatismo que eu não consigo compreender. Também nunca compreendi o mediatismo da sua detenção.
Como já escrevi, no dia 25 de Julho, no post 15 do Carimbo, “o PS não é Paulo Pedroso, nem Paulo Pedroso personifica o PS. Paulo Pedroso é apenas um cidadão (que por acaso era [e já voltou a ser] deputado pelo PS) que foi constituído arguido num processo crime (que podia ser de pedofilia ou de outro tipo qualquer). Se houver mais pessoas no PS (ou num outro Partido) nestas condições, só há uma coisa a fazer: levá-las a julgamento como aconteceria com qualquer outro cidadão. As instituições não podem ser afectadas pelos crimes eventualmente cometidos por indivíduos a elas ligados”. Apesar disto, é óbvio que fico contente por saber que afinal os indícios de abusos sexuais de crianças reunidos pelo Ministério Público (MP) e pela Polícia Judiciária contra Paulo Pedroso são insuficientes. Compreendo, deste ponto de vista, que os amigos e colegas de Paulo Pedroso tivessem, ontem, uma vontade genuína de o felicitar pela sua libertação. Só essa vontade pode justificar a enorme comoção, excitação e até alguma histeria que se verificaram quando Paulo Pedroso saiu do Estabelecimento Prisional de Lisboa, quando chegou ao parque de estacionamento da Assembleia da República e, depois, quando chegou à sede do Partido Socialista (PS) no Largo do Rato.
Porém, se a situação for observada com alguma racionalidade, a verdade é que Paulo Pedroso ainda é um dos arguidos do processo Casa Pia. Como José Manuel Fernandes e Mário Bettencourt Resendes já escreveram, convém recordar que Paulo Pedroso é, agora, tão inocente como no dia da sua detenção e isso só mudará se os factos que eventualmente sustentarem a acusação forem provados em tribunal. É por isto que a recepção triunfal a Paulo Pedroso transmitida e exaustivamente repetida pela comunicação social me parece desajustada da realidade. É por isto que duvido da espontaneidade da recepção a Paulo Pedroso. Ainda que Paulo Pedroso tenha afirmado sempre que se deslocou à Assembleia da República e à sede do PS apenas para agradecer a solidariedade dos seus amigos e colegas, tudo me pareceu demasiado forçado pelo aparelho socialista com o objectivo de criar um herói que resistiu à tal “cabala” montada contra o PS. Ainda que Paulo Pedroso tenha afirmado sempre que irá lutar pela sua inocência e pelo apuramento de toda a verdade relativa à pedofilia, a qual constitui um crime horrendo, nunca se referindo ao seu regresso (como deputado) à Assembleia da República, tudo me pareceu demasiado dirigido nesse sentido.
Assim, o facto de Paulo Pedroso já ter reassumido o seu mandato não é surpreendente, mas é, no mínimo, polémico. De fato, embora esta seja uma questão do foro interno do grupo parlamentar do PS, parece-me que a decisão tomada é totalmente oposta àquela que seria de esperar por parte de quem tanto criticou o envolvimento (apenas como testemunha) de Paulo Portas no processo Moderna.
É claro que estas questões não foram focadas durante os cinquenta e cinco minutos que o Telejornal de ontem dedicou a Paulo Pedroso. Outras notícias, como a nomeação da nova Ministra dos Negócios Estrangeiros, a coligação PSD/PP nas eleições para o Parlamento Europeu (PE), a proposta de realização do referendo sobre o Tratado de Constituição Europeia em simultâneo com as eleições para o PE (já comentada por Pacheco Pereira, Teresa de Sousa e Miguel Portas) e a revisão constitucional, mereceram apenas quinze minutos de programa. Será que hoje o Telejornal vai dedicar a estes temas o tempo que a sua importância justifica? Só o poderei saber quando a edição on-line estiver disponível (daqui a algumas horas).
ANS
06 outubro 2003
114 - CANÇÕES DE 1973 (XII)
O ano de 1973 foi o ano de lançamento do álbum The Captain And Me, um dos melhores dos Doobie Brothers. Uma das canções desse álbum que obteve mais sucesso foi The Long Train Runnin', cuja letra é transcrita a seguir:
THE LONG TRAIN RUNNIN'
Down around the corner
Half a mile from here
See them coal trains runnin'
And you watch them disappear
Without love
Where would you be now
Without love
You know I saw Miss Lucy
Down along the tracks
She lost her home and her family
And she won't be comin' back
Without love
Where would you be now
Without love
Well the Illinois Central
And the Southern Central freight
You gotta to keep on pushin' mamma
'Cause you know they're runnin' late
Without love
Where would you be now, na, na, na
Without love
Well the Illinois Central
And the Southern Central Freight
Gotta to keep on pushin' mamma
You know they're runnin' late
Without love
Where would you be now
Without love
Well the pistons keep on churnin'
And the wheels go round and round
And the steel rails are cold and hard
Every mile that they go down
Without love
Where would you be right now
Without love, ooooooh
Where would you be now
Mmm .. got to get you baby baby
Won't you move it down
Won't you move it down
Baby, baby, baby, baby
Won't you move it down
Without love
Without love
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Won't you keep on movin' on
On on down the track
With the big train runnin'
With the pain of movin' on
We got to keep on movin'
By the Doobie Brothers
ANS
113 - A INFORMALIDADE
No sábado passado, a TSF noticiou a participação de Bagão Félix num Seminário sobre Competitividade e Emprego, promovido pelos Trabalhadores Social Democratas. Essa notícia é acompanhada de um registo áudio com alguns comentários (informais) de Bagão Félix sobre a informalidade. Nesses comentários (que mereciam ter sido transcritos pela comunicação social), Bagão Félix diz o seguinte:
“A informalidade está tão enraizada nas nossas cabeças que eu, quando vou a um restaurante comer com a minha mulher e as minhas filhas, no fim o empregado normalmente pergunta-me:
- O Sr. Ministro quer uma facturinha? Quer um recibo, quer uma facturinha?
Perguntam isto ao Ministro [da Segurança Social e] do Trabalho. Eu acho que está tudo dito... Quer dizer, a naturalidade da informalidade é total!
Eu, há dias, até perguntei à Sr.ª Ministra das Finanças:
- Consigo também é assim?
[E ela respondeu:]
- É!
Eu achei ainda mais grave...
Há uns meses atrás fiz umas obrazinhas na minha casa do Alentejo. Coisa pequena porque o ordenado de ministro não dá para mais. E no fim, o senhor, que é um senhor que eu conheço há já muito tempo, enfim que já não via há muitos anos mas foi lá fazer umas pinturas, diz assim:
- Ó Sôtor... o Sôtor quer com IVA ou sem IVA?
É uma coisa espantosa, espantosa!”
O problema é que existem provas mais do que suficientes que a informalidade não atinge apenas os empregados dos restaurantes e os pintores de casas. Ainda recentemente, o Governo perdeu um ministro devido a essa informalidade que está enraizada na população portuguesa.
ANS
112 - A PREPARAÇÃO PARA O REFERENDO É URGENTE
Parece que a eventual realização de um referendo sobre a ratificação do Tratado para uma Constituição Europeia está, finalmente, na ordem do dia. De acordo com o Público, Durão Barroso anunciou, no arranque da Conferência Intergovernamental (CIG), que, em Portugal, a ratificação do Tratado que resultar da CIG deverá depender dos resultados de um referendo.
Ainda de acordo com a mesma notícia, "Durão Barroso considera que a realização do referendo «é um facto adicional para reforçar a posição» negocial de Portugal nas negociações constitucionais dos vinte e cinco países da União Europeia. Esta afirmação traduz um cálculo simples, que é aliás muitas vezes invocado por vários outros países mais pequenos, sobretudo quando querem evitar que os governos mais ambiciosos em termos de integração lhes «forcem a mão»: quanto maiores forem as alterações introduzidas no texto fundamental europeu, maiores serão os riscos de rejeição por parte dos eleitores. Ora, basta o voto de um único país contra a Constituição para a tornar caduca, um cenário que todos os governos se esforçarão por evitar".
Entretanto, de acordo com o Diário de Notícias, o Presidente da República alertou "para o facto de um referendo à Constituição europeia feito de forma precipitada poder resultar num «desastre» em termos de participação nas urnas". Jorge Sampaio considera que é extemporâneo falar numa consulta popular sem que antes se debatam as implicações da futura Constituição europeia em termos das novas regras que irá impor e, nomeadamente, das implicações que poderá ter na Constituição portuguesa.
Concordo com Jorge Sampaio mas penso que as suas declarações são pouco corajosas. Por um lado, não se comprometem com a realização de um referendo e, por isso, não dão força às declarações (em tom de ameaça) de Durão Barroso. Ou seja, as delarações de Jorge Sampaio tentam apenas evitar criar expectativas que podem ser defraudadas pela possibilidade (que muitos julgam ser a mais provável) de não vir a existir qualquer referendo. Por outro lado, as declarações do Presidente da República parecem-me um pouco contraditórias. De facto, se a generalidade da população portuguesa apresenta uma ignorância visível relativamente à Constituição portuguesa e ao funcionamento das instituições nacionais e europeias, parece-me fundamental começar o mais depressa possível (e já será tarde) uma campanha de informação e educação da população. Se a transição para a moeda única implicou uma campanha tão intensa, como esperam Jorge Sampaio, o Governo e a oposição conseguir explicar à generalidade dos portugueses, em menos de seis meses, tudo o que eles já deveriam saber sobre o Estado português e a União Europeia e sobre o que irá mudar a nível nacional e ao nível da União?
Se a campanha de informação e educação não começar já, serão muitos os portugueses que, no caso de o referendo se realizar, preferirão ir para a praia ou ficar em casa a ver os jogos do Euro 2004.
ANS
05 outubro 2003
111 - LIGA DOS CAMPEÕES (II)
No post 102 referi uma notícia do Público sobre a eventual criação, pela Comissão Europeia, de fundos de "competitividade", os quais implicariam o fim dos fundos estruturais. De acordo com a edição de sexta-feira do Público, essa proposta foi veementemente rejeitada pela Comissão Europeia e, por isso, parece que já não vamos ter nenhuma Liga dos Campeões.
Parece-me que foi uma boa decisão, mas isso não significa que Portugal pode continuar a encarar a União Europeia apenas como fonte de fundos de coesão (considero estes fundos como uma aplicação especial dos fundos estruturais). Penso que Portugal deve aplicar, da melhor forma, os fundos a que tem direito, com a intenção de criar as tais condições de igualdade, capacidade e competitividade que lhe permitirão, posteriormente, candidatar-se a algo semelhante aos fundos de "competitividade" (não acredito que esta ideia seja totalmente abandonada).
ANS
110 - CANÇÕES DE 1973 (XI)
Uma canção de amor (interpretada por Diana Ross) que constituiu um dos maiores sucessos do ano de 1973 foi Touch Me In The Morning. A letra desta canção, lançada no álbum com o mesmo nome, é aqui reproduzida:
TOUCH ME IN THE MORNING
Touch me in the morning then just walk away
We don't have tomorrow but we had yesterday
Hey wasn't it me who said that nothin' good's gonna last forever
And wasn't it me who said let's just be glad for the time together
Must've been hard to tell me
That you've given all you had to give
I can understand your feelin' that way
Ev'rybody's got their life to live
Well I can say goodbye in the cold morning light
But I can't watch love die in the warmth of the night
If I've got to be strong don't you know I need to have tonight
When you're gone till you go I need to lie here and
Think about the last time you'll touch me in the morning
Then just close the door leave me as you found me
Empty like before
Hey wasn't it yesterday we used to laugh at the wind behind us
Didn't we run away and hope that time wouldn't try to find us
Didn't we take each other to a place where no one's ever been
Yeah I realy need you near me tonight
'Cause you'll never take me there again
Let me watch you go with the sun in my eyes
We've seen how love can grow now we'll see how it dies
If I've got to be strong don't you know I need to have tonight
When you're gone till you go I need to hold you until the tie
Your hands reach out and
Touch me in the morning then just walk away
We don't have tomorrow but we had yesterday
We're blue and gold and we could feel one another living
We walked with a dream to hold and we could take what the world was giving
There's no tomorrow here there's only love and the time to chase it
Yesterday's gone my love there's only now and it's time to face it
By Ron Miller and Michael Masser
Não sei se esta canção já foi incluída na série "Early Morning Blogs" do Abrupto.
ANS
109 - PRAXES
As praxes académicas aos caloiros universitários têm dado muito que falar nos últimos anos. A última demonstração da imbecilidade das praxes aconteceu, na passada sexta-feira, quando alguns caloiros foram "obrigados" a simular um assalto a um banco.
O Blogue dos Marretas tem abordado esta questão e, no post com o título "Meditação sobre as praxes - Part Five (Epitáfio)", lembrou aos caloiros o seu direito (consignado na Constituição portuguesa) de resistência a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repulsa, pela força, a qualquer agressão (quando não seja possível recorrer à autoridade pública).
No mesmo post é ainda lembrado que "a iniciação e integração dos caloiros pode ser feita de outras formas, mais próximas daquilo que os futuros doutores querem parecer socialmente: inteligentes, civilizados, cultos, divertidos, mundanos".
Concordo plenamente com estas afirmações, mas o problema é que as praxes académicas já não têm como objectivo a iniciação e integração dos caloiros. O seu único objectivo é a satisfação de alguns grupos de estudantes imbecis, a qual é conseguida através da humilhação de caloiros ignorantes. O problema é que, após o período de praxes académicas, não é criado qualquer laço de amizade e solidariedade entre os estudantes mais velhos e os caloiros. Estes sentem que foram usados e, alguns deles, desejarão vingar-se dessa afronta. Infelizmente, escolhem o alvo mais fácil, ou seja, os caloiros do ano seguinte. Outros, mais conscientes, adquirem um desprezo enorme pelas praxes académicas e por aqueles que as praticam, o que contribui para um maior afastamento entre os estudantes. Perante isto, parece-me óbvio que as praxes académicas não contribuem nada para a integração dos estudantes.
Então, se as praxes académicas não cumprem os seus objectivos mais nobres, porque razão continuamos nós a permitir que elas ocorram? Só porque é uma tradição?
Esta justificação já não serve. Actualmente, a generalidade dos estudantes são ignorantes no que respeita ao funcionamento da sociedade, das instituições, do Estado, etc... A maior parte dos estudantes são ignorantes no que respeita aos seus próprios direitos enquanto cidadãos. A maior parte dos estudantes são ignorantes no que respeita às regras de comportamento cívico.
Assim, enquanto o ensino básico não incluir uma disciplina obrigatória sobre o funcionamento da sociedade e das suas instituições, sobre o civismo e a moral, sobre a Constituição e os direitos humanos, não podemos cometer a irresponsabilidade de deixar os estudantes continuarem a praticar as praxes académicas.
Para sessões de humilhação em público já chegam os Reality Shows.
ANS
108 - SOLTO DE BASES IDEOLÓGICAS
Hoje, no Público, foi publicada uma entrevista a Carlos Monjardino, na qual foi revelado o seu entendimento do que deve ser um Presidente da República (PR). Para Carlos Monjardino, o próximo PR terá de "arbitrar muita coisa, pelo que deveria estar solto" (ou, por outras palavras, deveria ser independente). Porém, "as pessoas que estão ligadas aos partidos acabam sempre por ter uma ligação à sua base ideológica". Conclui-se assim que, para Carlos Monjardino, os independentes não têm uma base ideológica para fundamentar o seu arbítrio. Vá-se lá saber como conseguirão eles tomar as suas decisões.
Apesar disto, Carlos Monjardino tentou evitar que as suas palavras fossem consideradas como uma crítica à actuação de Jorge Sampaio, afirmando que, "se até aqui as coisas não têm corrido mal, nada garante que, no futuro, assim seja e que venhamos a ter um PR isento e que não seja influenciado por uma base partidária ou ideológica".
Por outro lado, Carlos Monjardino, que assume (durante a entrevista) uma base ideológica de centro-esquerda, afirmou que, no caso de Cavaco Silva se candidatar, ele gostaria de o convidar para almoçar para lhe manifestar o seu apoio. Porém, apesar da sua preferência por esta candidatura (a qual não seria, obviamente, independente de uma base partidária), Carlos Monjardino também indicou Vasco Vieira de Almeida como um "potencial candidato da sociedade civil". Para Carlos Mojardino, Vasco Vieira de Almeida é uma daquelas "pessoas que estão preocupadas com o país, que não têm muito a ganhar com o seu envolvimento numa campanha e que terão de abdicar de muita coisa, pois tiveram uma vida profissional completa e querem, por exemplo, estar com os netos". Carlos Monjardino acrescentou ainda que "se, para os políticos, a Presidência é um objectivo, isto já não acontece para alguém da sociedade civil, pelo que se torna mais difícil dar o salto".
Esta foi a segunda referência, em poucos dias, à eventual candidatura de Vasco Vieira de Almeida à Presidência da República. De facto, na passada segunda-feira, Baptista-Bastos publicou, no Diário de Notícias, um artigo de opinião que termina com estes dois parágrafos:
"Penso que, neste momento, só há um candidato que pode reunir a esquerda, e vencer os que à direita se alinham: Vasco Vieira de Almeida. É um advogado de grande prestígio, um intelectual de linhagem, culto, lido, informado, corajoso, cuja integridade e firmeza de espírito são quase lendárias. Além do mais, Vasco Vieira de Almeida [11 de Abril de 1932] está rodeado do respeito dos empresários, teve uma actividade admirável na Resistência, e um comportamento invejável em governos saídos do 25 de Abril. [Como seria de esperar, Baptista-Bastos, não podendo fazer a sua pergunta preferida («Onde é que você estava no 25 de Abril?»), optou por antecipar a resposta.]
É preciso e urgente convencê-lo. Ele [Vasco Vieira de Almeida] não gosta dos gafanhotos dos media nem do regabofe que se tornou comum na política e a aviltou. Ele é outra coisa, porque, rigorosamente, é outro homem. O homem que nos pode restituir a esperança. E continuar a atribuir à Presidência a dignidade que lhe pode ser roubada."
De acordo com esta descrição, é difícil encarar Vasco Vieira de Almeida como alguém completamente solto de bases ideológicas.
ANS
04 outubro 2003
107 - MAIS AGRADECIMENTOS VIII
Desde o post 86 que não fazia agradecimentos, os quais se foram acumulando de uma forma inadmissível. Aqui fica o meu pedido de desculpas (aos interessados), ao qual junto os agradecimentos devidos (mais vale tarde do que nunca).
Em primeiro lugar quero agradecer a João Noronha do Valete Fratres! por ter esclarecido (com um e-mail simpático) as dúvidas que coloquei no post 86 (relativas aos seus comentários ao post 82 do Carimbo). Aproveito para agradecer também a Ana Amaral por ter considerado que parte do post 82 do Carimbo merecia ser transcrito no seu blog Amostra de Arquitectura, o qual, infelizmente, já terminou.
Também tenho de agradecer a resposta (por e-mail) do Anarca Constipado à dúvida colocada no post 89 do Carimbo relativa à Gestalt Theory.
Ao Ter Voz devo um agradecimento especial pela forma intensa como respondeu ao post 91 do Carimbo. Aproveito para felicitar os editores do Ter Voz pela decisão que tomaram de continuar a preencher um espaço útil na blogosfera.
Agradeço também ao Paulo Gorjão do Bloguítica Nacional por me obrigar a justificar as afirmações (vagas) que coloquei no post 91 do Carimbo sobre a administração de Lisboa. Aproveito também para agradecer o eco (post 402 do Bloguítica Nacional) que Paulo Gorjão deu ao post 98 do Carimbo, o que deveria ter acontecido no Bloguítica Internacional (blog que, felizmente, vai recomeçar).
Agradeço também a Rui A. (do Cataláxia - post "Impostos úteis"), a João Miranda (do Liberdade de Expressão - post "Ecotaxas"), a Rui Branco (do Adufe.pt - post "O lixo") e, já agora, ao Católico e de Direita (post "Ecotaxas"), pela manutenção do debate em torno das taxas sobre as emissões de gases com efeito estufa.
Agradeço ainda ao Irreflexões pela promessa de retaliação. Cá estarei para cobrar essa promessa.
Agradeço também a Miguel Nogueira, do blog A Origem do Amor, por classificar definitivamente O Carimbo como um Picanço Real. Gostei da explicação.
Também tenho de agradecer a João Carvalho Fernandes, do Fumaças, por considerar que O Carimbo merece ser seguido diariamente.
Finalmente, agradeço a ASM (do Salmoura) e ao Quarta Vaga por incluirem O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados. Também agradeço a Zacarias Ribeiro, do blog A Pantera Cor de Rosa, pelo mesmo motivo, o qual adquire maior importância pelo facto de a lista de blogs recomendados pelo blog A Pantera Cor de Rosa ser muito pequena.
ANS
106 - CANÇÕES DE 1973 (X)
Uma das canções mais conhecidas de David Bowie é The Jean Genie, a qual foi lançada, em 1973, com o álbum Aladdin Sane. Esta canção está envolta em algum mistério. Se alguns pensam que esta canção foi inspirada em Cyrinda Foxe Tyler, outros acreditam que a canção é dedicada a Jean Genet ou a Iggy Pop. Também existem aqueles que julgam que a canção é sobre extraterrestres.
THE JEAN GENIE
A small Jean Genie
snuck off to the city
Strung out on lasers
and slash back blazers
Ate all your razors
while pulling the waiters
Talking bout Monroe
and walking on Snow White 19
New York's a go-go 19
and everything tastes right
Poor little Greenie
[CHORUS]
The Jean Genie lives on his back
The Jean Genie loves chimney stacks
He's outrageous, he screams and he bawls
Jean Genie let yourself go!
Sits like a man
but he smiles like a reptile
She loves him, she loves him but
just for a short while
She'll scratch in the sand,
won't let go his hand
He says he's a beautician
and sells you nutrition
And keeps all your dead hair
for making up underwear
Poor little Greenie
[CHORUS]
He's so simple minded
he can't drive his module
He bites on the neon and sleeps in the capsule
Loves to be loved, loves to be loved
[CHORUS (x2)]
By David Bowie
ANS
03 outubro 2003
105 - IMPOSTOS ÚTEIS (II)
João Miranda, do Liberdade de Expressão também comentou a eventual introdução de taxas sobre as emissões de dióxido de carbono (CO2) e de metano (CH4), entre outros (N2O, HFC's, PFC's e SF6)
Em geral, concordo com os seus comentários, mas penso que os pontos 5, 6, 10 e 11 (os quais aqui transcrevo) merecem algumas correcções.
5 - O sistema de comércio de quotas só é adequado para grandes poluidores. Não é adequado para pequenos poluidores porque as pequenas emissões não podem ser quantificadas.
6 - Sendo assim, os pequenos emissores têm que ser taxadas com base em métodos indiciários.
10 - O transporte ferroviário também consome energia e também é responsável por emissões de CO2. Portugal não tem centrais nucleares. As necessidades extra de energia eléctrica têm que ser satisfeitas a partir da queima de combustíveis fósseis.
11 - O protocolo de Quioto não serve para nada, mas os seus custos devem ser tão visíveis quanto possível. As modas ecológicas têm custos e o público tem que saber disso.
Quanto aos pontos 5 e 6, embora os métodos indiciários (pela sua simplicidade) me pareçam apropriados para os pequenos poluidores, na verdade não seria difícil quantificar a contribuição de cada um dos pequenos poluidores para o efeito de estufa.
Quanto ao ponto 10, devo lembrar que a grande vantagem do transporte ferroviário é a sua capacidade de transporte de carga e passageiros. Um comboio pode ser equivalente a vários camiões e autocarros. Quanto ao facto de o transporte ferroviário também consumir energia e, por esse motivo, contribuir para a poluição, devo lembrar que, em Portugal, cerca de 30 % da energia eléctrica é produzida a partir de fontes renováveis e não poluentes, o que, aliado à maior capacidade de transporte dos comboios, é uma garantia de redução da poluição. A este respeito, devo ainda lembrar que o sector dos transportes é o que mais energia consome (gasóleo e gasolinas), correspondendo a mais do dobro da energia total consumida no sector industrial e a mais do triplo da energia total consumida nos sectores domésticos e de serviços. A agravar a situação, a contribuição da energia eléctrica (que, apesar de tudo, é menos poluente) no sector dos transportes é praticamente nula, enquanto que no sector industrial essa contribuição é de cerca de 30 %. Nos sectores domésticos e de serviços, a contribuição da energia eléctrica é superior a 60 %. Estas razões já deveriam ser suficientes para justificar as vantagens do transporte ferroviário, mas ainda pode ser acrescentado que nas cidades portuguesas o consumo energético atribuído aos transportes é mais do dobro do consumo equivalente nas cidades europeias.
São estas as razões que me levam a escrever que o Estado (incluindo as autarquias) têm responsabilidades na actual situação de impossibilidade de incumprimento do Protocolo de Quioto. A componente ferroviária dos sistemas de transportes públicos municipais, bem como dos sistemas de transporte de carga e passageiros a grande distância, deveria ter um peso muito maior. Ao mesmo tempo, a contribuição das fontes de energia renováveis e não poluentes para a produção de energia eléctrica poderia ser muito maior do que é actualmente. A tendência, verificada durante o último Governo socialista, para a diminuição da importância das energias renováveis tem de ser invertida.
Para acabar, não concordo com João Miranda quando ele escreve, no ponto 11, que o Protocolo de Quioto não serve para nada. Penso que as medidas constantes deste protocolo são muito importantes para todos nós. Não se trata de uma moda ecologista. Trata-se de um assunto sério que tem custos importantes, os quais nós devemos assumir com responsabilidade. O Protocolo de Quioto só não é eficiente porque os países mais poluidores do Mundo não o subscrevem. De acordo com este ponto de vista, eu prefiro escrever que o Protocolo de Quioto poderia servir para muito mais do que, actualmente, serve.
ANS
02 outubro 2003
104 - OS TAXISTAS E O AEROPORTO DE LISBOA
Só agora li a notícia do Público (publicada a 24 de Setembro) sobre o eventual aumento da "bandeirada" para os táxis "apanhados" na zona das chegadas do Aeroporto de Lisboa. Essa notícia já foi convenientemente comentada pelo The Amazing Trout Blog, ao qual cheguei através do Assembleia.
Não quero insistir no assunto, mas para quem, como eu, utiliza o Aeroporto de Lisboa muitas vezes por ano, esta notícia é importante. Para o provar, conto-vos uma história que se passou comigo recentemente.
Tinha acabado de chegar a Lisboa, depois de um voo longo (com um atraso inadmissível na partida do aeroporto de escala). Cheguei a Lisboa e, enquanto esperava (mais de meia hora) pela bagagem (que era pesada), pude perceber que se quisesse um "carrinho" para a transportar, teria de pagar a módica quantia (não reembolsável) de um euro. Fiquei indignado pela originalidade espertalhona da ANA e recusei-me a pagar (também é verdade que não tinha um único euro comigo), sendo, por isso, obrigado a carregar com as malas até à zona dos táxis. Esperei cerca de meia hora na fila até que, finalmente, "apanhei" um táxi. O condutor, ainda antes de me perguntar para onde é que eu queria ir, arrancou e avançou cerca de cinco metros, ao fim dos quais travou bruscamente. Virou-se para mim e avisou-me que, como era dia de greve, não poderia utilizar o taxímetro. Eu disse-lhe que, se era assim, então eu iria sair imediatamente, não pagaria a "bandeirada" e iria apresentar queixa a um dos elementos da polícia que se encontrava na zona dos táxis. Assim que abri a porta e fiz menção se sair, o senhor taxista iniciou o taxímetro (afinal já funcionava) e arrancou bruscamente. Até pensei que estivesse a ser raptado. Perguntei-lhe se sabia para onde me estava a levar. A resposta foi, obviamente, negativa. Expliquei-lhe para onde queria ir e por onde queria ir. Quando o taxista percebeu que se tratava de um trajecto muito curto espumou de raiva (juro que vi a espuma a sair-lhe da boca). Para o irritar um pouco mais, disse-lhe que estava a ser transportado contra a minha vontade e que me iria queixar da sua atitude desonesta, para o que precisava dos números da sua licença e do seu táxi. Quando disse isto arrependi-me imediatamente porque o homem guinou o volante duas ou três vezes, como se estivesse a sofrer um ataque cardíaco. Depois acelerou imenso e fez o percurso final (na sua maior parte, na 2ª Circular) como um louco. Felizmente, chegámos ao destino sãos e salvos. Aí, foi-me entregue um recibo (o qual eu não pedira) acompanhado do seguinte comentário (verbal): "Agora, com recibo e tudo, vá-se lá queixar para ver se alguém acredita..."
Por acaso, nunca me queixei. Não sei se teria servido para alguma coisa. Talvez tenha sido egoísta. Como vivo em Lisboa (embora, neste momento, passe muito tempo longe), sei como lidar com taxistas desonestos. Mas receio que os turistas não saibam.
ANS
103 - IMPOSTOS ÚTEIS
Uma notícia do Público, sobre a eventual introdução de taxas sobre as emissões de dióxido de carbono e de metano (os dois principais gases que estão a acelerar o aquecimento global), foi comentada por Rui no post "Mais Impostos" do Cataláxia. Desse comentário, transcrevo o seguinte parágrafo:
«... mais do que evitar um mal, o Governo pretende taxar esse mal e ganhar dinheiro com ele. Em vez de obrigar as empresas a investirem em tecnologias não poluentes ou de baixa poluição, o Governo pretende ir lá buscar uns "cobres". Para tapar o défice e para sustentar a sua pesada, improdutiva e dispendiosa máquina burocrática.»
Se, por um lado, concordo com estas afirmações, por outro lado também penso que estes impostos até constituem uma boa forma de "obrigar" as empresas dos sectores dos transportes e da agricultura "a investirem em tecnologias" de redução/eliminação da poluição.
De acordo com a notícia do Público, Portugal não tem, neste momento, condições para cumprir o Protocolo de Quioto. De acordo com a mesma notícia, parece que as indústrias poluidoras portuguesas têm preferido não investir nas tais tecnologias de redução da emissão de gases causadores de efeito de estufa. As indústrias portuguesas que emitem este tipo de gases parecem esperar que o Estado venha, mais tarde, a pagar pelas "licenças de poluição" indipensáveis para o funcionamento dessas indústrias.
Nestas condições, talvez a implementação de um imposto sobre as emissões de gases poluentes possa despertar as empresas para este problema e para os compromissos do Estado português. Talvez as empresas possam concluir que é mais vantajoso investir ocasionalmente em sistemas de redução da poluição do que pagar impostos ambientais todos os anos.
Por outro lado, no que se refere às empresas do sector dos transportes (que são das que mais contribuem, e continuarão a fazê-lo, para a emissão de gases causadores de efeito de estufa), embora me pareça correcto obrigá-las a participar (através do pagamento de um imposto ambiental) no esforço de redução das emissões de gases poluentes, não nos devemos esquecer das responsabilidades que o Estado também tem na actual dependência dessas empresas relativamente ao transporte rodoviário. O transporte ferroviário (que seria uma alternativa muito atractiva em termos ambientais) foi esquecido como consequência das cedências constantes ao lobby do petróleo.
ANS
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