14 novembro 2003

138 - DIA NACIONAL DA LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA


No dia 4 de Outubro, o Rui, do blog 3tesas não pagam dívidas, enviou um e-mail para diversos bloggers, entre os quais me incluía. Nesse e-mail, o Rui reproduzia o seu post com o título "O forro da gaiola dos hamsters, ou como fazer cair uma reclamação em saco roto". Esse post chamava a atenção para a insistência de alguns jornalistas do Expresso em utilizarem a expressão surdo-mudo para designar as pessoas que sofrem de surdez profunda desde a nascença ou desde uma idade muito jovem. Confesso que também me senti incomodado com essa forma de tratamento quando li a notícia do Expresso sobre o Café des Signes, mas penso que esse não é um motivo suficiente para deixar de saudar a sua publicação.
Este artigo descrevia um novo café de Paris, o Café des Signes, no qual, aparentemente, apenas trabalham pessoas com deficiências auditivas. Acho esta ideia brilhante porque constitui uma excelente forma de chamar a atenção para as dificuldades que a nossa sociedade coloca à integração dos surdos. De facto, para os clientes ouvintes, ir àquele café será como ir a um café no estrangeiro. Terão de se adaptar à língua gestual utilizada pelos empregados para fazerem os seus pedidos. Não me admiraria se muitos desses clientes saíssem do café com o desejo de aprender a língua gestual. Segundo o Público de hoje, já existem muitos jovens ouvintes portugueses com este desejo. Acho muito bem porque, embora a língua gestual não seja fundamental para uma conversa entre um surdo e um ouvinte, ela pode adquirir esse estatuto quando a conversa acontece entre um ouvinte (ou mais) e alguns surdos ou mesmo apenas entre surdos. É por isso que estranhei o facto de apenas se verem mesas rectangulares na fotografia que ilustrava o artigo online do Expresso sobre o Café des Signes. Esta geometria não favorece o diálogo em língua gestual. Na verdade, as mesas rectangulares não favorecem o diálogo em nenhuma língua, mas imagino que as dificuldades criadas sejam maiores quando a conversa decorre em língua gestual.
Amanhã é o dia nacional da Língua Gestual Portuguesa (LGP). Segundo o Público, a Associação Portuguesa de Surdos pretende assinalar o evento chamando a atenção para os problemas dos estudantes surdos que frequentam as escolas regulares portuguesas. Nestas escolas não é feita a tradução do português falado pelo professor para a LGP entendida pelo estudante surdo, o qual fica assim em desvantagem perante os alunos ouvintes.
Eu concordo com a existência de tradução para LGP nas escolas, mas acho que deve existir algum cuidado para não transformar esta língua na única língua dos surdos. Não nos devemos esquecer da importância da oralização dos surdos. Os surdos oralizados têm muito mais garantias de uma integração com sucesso na nossa sociedade. A prova desta afirmação reside em todos os casos de sucesso de pessoas que, tendo nascido com surdez profunda, hoje são capazes de comunicar oralmente, falando como os ouvintes (embora com algumas dificuldades compreensíveis) e entendendo o outro por leitura labial. Parece-me que se a LGP for encarada como a forma mais importante de comunicação dos surdos com a sociedade ouvinte, corre-se o risco de dificultar a integração dos surdos nessa mesma sociedade. Ainda que existam muitas pessoas ouvintes com desejo de aprender a LGP, a grande maioria da população nunca conhecerá essa língua. Como é que essa parte da população "falará" com os surdos?
De vez em quando assisto à repetição nocturna do See Hear (um programa da BBC sobre surdos e ouvintes e dirigido a surdos e ouvintes). Nesse programa é utilizada a linguagem gestual em simultâneo com tradução oral ou escrita (legendas). Numa das emissões desse programa, ocorreu um debate em BSL (British Sign Language) sobre a existência de intérpretes em todos os programas da BBC. Alguns dos participantes defendiam a sua existência. Outros afirmavam que era mais importante a existência de legendas porque, uma vez que existem vários tipos de língua gestual (BSL, ASL - American Sign Language, SEE - Signing Exact English, etc...), a escrita surge como uma forma de comunicação entendida por todos. No fim, todos concordaram que as legendas eram úteis, mas apenas quando não fosse possível ler nos lábios do orador. Ou seja, os próprios surdos atribuem uma enorme importância à comunicação oral.
Como conclusão aqui fica a hiperligação para o manifesto dos surdos oralizados brasileiros.
A título de curiosidade, refiro ainda uma outra emissão do See Hear, na qual se salientava a importância da língua gestual, associada à linguagem corporal, como forma de tradução da música. Eu já sabia que os surdos, tal como os ouvintes, eram capazes de sentir o som no corpo. Isso acontece para níveis sonoros muito elevados a frequências muito baixas (200 Hz: pernas; 12,5 a 16 Hz: peito; 10 Hz: peito e abdómen; 8 Hz: ouvido, peito e nádegas). Mas nunca supus que os surdos fossem capazes de traduzir melodias de uma forma tão clara. Foi uma surpresa quando vi aquele Deaf Idol (era mesmo assim que se chamava o concurso) com excelentes interpretações dos ABBA e de Michael Jackson, entre outros.

ANS

137 - O TESTE


Já vi resultados do teste do Ludwig Von Mises Institute publicados em diversos blogs. Este teste permite-nos averiguar qual é a teoria económica com que mais nos identificamos. O teste consiste em vinte cinco perguntas, para cada uma das quais existem quatro respostas possíveis. Essas respostas correspondem a quatro teorias fundamentais: a Escola de Viena, a Escola de Chicago (ou Neoclássica), a Escola Neo-Keynesiana (que é diferente da Escola Keynesiana de Cambridge) e, finalmente, o sistema Socialista.
Fiquei curioso e também fiz o teste. Sem surpresa, o resultado colocou-me alinhado com a Escola de Chicago. De facto, obtive 53 pontos (em 100 possíveis) distribuídos por 5 respostas tí­picas da Escola de Viena, 13 respostas tí­picas da Escola de Chicago e 7 respostas tí­picas da Escola Neo-Keynesiana. Ficaria muito surpreendido (e assustado) se alguma das respostas fosse considerada tipicamente socialista. Também me surpreenderia se os resultados do teste me colocassem alinhado com o total laissez-faire da Escola Austríaca.

ANS

13 novembro 2003

136 - CANÇÕES DE 1973 (XVII)


Em 1973, quatro anos antes da sua morte, Elvis Presley lançou o single Separate Ways, no qual se incluíam as canções Separate Ways e Always On My Mind. Existe uma versão anterior desta última canção, a qual foi gravada em 1972 por Brenda Lee. No entanto, a versão que aqui se apresenta é a de Elvis Presley:


ALWAYS ON MY MIND

Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Little things I should have said and done
I just never took the time

You were always on my mind
You were always on my mind

Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times
And I guess I never told you
I'm so happy that you're mine
If I make you feel second best
Girl, I'm so sorry I was blind

You were always on my mind
You were always on my mind

Tell me, tell me that your sweet love hasn't died
Give me, give me one more chance
To keep you satisfied, satisfied

Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You are always on my mind
You are always on my mind

Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times

By Wayne Thompson, Mark James, Johnny Christopher



ANS

12 novembro 2003

135 - SÃO MARTINHO


Há alguns meses atrás (no Verão), Carlos Cruz presenteou os portugueses com estas afirmações: «Gosto de saber que este ano há Verão de São Martinho em Novembro. Alguém irá à prova da água-pé fazer novos amigos.»
Não estou em Portugal e, por isso, só posso confirmar o estado do tempo através das informações do Instituto de Meteorologia. Segundo essas informações, parece-me que afinal este ano não houve Verão de São Martinho. No entanto, o tempo também não está mau, pelo que é provável que a tal prova da água-pé se tenha realizado (ontem nalguma festa de São Martinho). Como ontem e hoje não surgiram notícias sobre o processo da Casa Pia que pudessem ser associadas às afirmações de Carlos Cruz, talvez estas não se referissem a esse processo. Ou será que Carlos Cruz se estava a referir aos arguidos do processo Casa Pia que estiveram em prisão preventiva durante todo o Verão e que foram entretanto libertados a tempo de gozarem o Verão de São Martinho? Talvez esteja na altura de Carlos Cruz revelar quem é esse "alguém" que terá feito "novos amigos" através dessa "prova da água-pé".
Estava à espera que Ana Gomes agisse relativamente a este assunto da mesma forma que o fez relativamente ao artigo da Le Point, vindo exigir publicamente uma investigação profunda das misteriosas afirmações de Carlos Cruz. Como não o fez, parece que Ana Gomes aprendeu a lição que recebeu dos seus "camaradas" de partido. Ainda bem. Agora só falta que "alguém" venha dar uma lição sobre o combate ao populismo a todo o Partido Socialista (começando por Ana Gomes e terminando no secretário-geral do partido). De facto, as recentes declarações do PS relativamente ao envio de um contingente de tropas da GNR para o Iraque são um exemplo da forma populista como este partido encara o seu escasso trabalho de oposição.

ANS

134 - UMA AGRADÁVEL ATITUDE NARCISISTA


Sei que se trata de uma evidência de narcisismo, mas gosto muito de ler opiniões que são coincidentes com as minhas. Foi o que aconteceu hoje quando li a entrevista a Paulo Teixeira Pinto (PTP) revelada pela TSF. As opiniões de PTP vêm reforçar as minhas próprias opiniões sobre a proposta de Tratado de Constituição para a Europa, as quais podem ser lidas no post 121 do Carimbo.
Também gostei de ler o editorial do Diário de Notícias de hoje, o qual reforça o que escrevi no post 132 do Carimbo relativamente à necessidade de informar a população quanto ao conteúdo do Tratado de Constituição Europeia em discussão na Conferência Intergovernamental. Aproveito para lembrar e saudar o esforço que o Diário de Notícias já fez nesse sentido através da publicação de pequenas fichas informativas. Foi um esforço, mas é preciso mais.
Lembro que também gosto muito de ler opiniões (bem fundamentadas) que são contrárias às minhas. É pena que, no que se refere ao Tratado proposto pela Convenção Europeia, essas opiniões não apareçam. Assim não é possível debater nada...

ANS

11 novembro 2003

133 - CANÇÕES DE 1973 (XVI)


Um dos cantores com mais sucesso no ano de 1973 foi Elton John. A causa desse sucesso foram as canções Crocodile Rock e Daniel. Estas canções surgiram com o álbum Don't Shoot Me, I'm Only The Piano Player, o qual, embora tenha sido lançado em 1973, foi gravado um ano antes. Outro álbum lançado em 1973 (cujas canções foram gravadas nesse mesmo ano) foi o Goodbye Wellow Brick Road, do qual se destacam as canções Goodbye Yellow Brick Road e Candle In The Wind. Esta última canção viria a conhecer duas novas versões, sendo a última um tributo à Princesa Diana lançado, em 1997, num single que foi o mais vendido de todos os tempos.


CANDLE IN THE WIND

Goodbye Norma Jean
Though I never knew you at all
You had the grace to hold yourself
While those around you crawled
They crawled out of the woodwork
And they whispered into your brain
They set you on the treadmill
And they made you change your name

And it seems to me you lived your life
Like a candle in the wind
Never knowing who to cling to
When the rain set in
And I would have liked to have known you
But I was just a kid
Your candle burned out long before
Your legend ever did

Loneliness was tough
The toughest role you ever played
Hollywood created a superstar
And pain was the price you paid
Even when you died
Oh the press still hounded you
All the papers had to say
Was that Marilyn was found in the nude

Goodbye Norma Jean
From the young man in the 22nd row
Who sees you as something as more than sexual
More than just our Marilyn Monroe

Lyrics by Bernie Taupin



ANS

10 novembro 2003

132 - SERÁ QUE O REFERENDO É MESMO ÚTIL?


No dia 6 de Outubro, escrevi (no post 112 do Carimbo), que era (e continua a ser) urgente informar a população portuguesa sobre o conteúdo da proposta do Tratado de Constituição para a Europa que se encontra actualmente em discussão na Conferência Intergovernamental (CIG). Só com base numa campanha de informação será possível promover um debate sério sobre este tema. Só assim os portugueses poderão afirmar, com legitimidade, que desejam referendar esta questão. Só assim se evitam os paradoxos como os divulgados hoje pelo Público, onde é revelado que, embora 54 % da população portuguesa desconheça totalmente o que está em discussão na CIG, 90 % dos portugueses consideram ser útil realizar o tal referendo. Se a amostra que foi utilizada para esta sondagem for mesmo representativa da população nacional, então os resultados de um eventual referendo não terão qualquer significado. Nesse caso, será preferível não avançar para o referendo.
É por esta razão, associada ao receio que o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Socialista (PS) revelam face a uma eventual vitória do “não”, que muitos acreditam que não haverá qualquer referendo. Porém, já todos os partidos com assento na Assembleia da República manifestaram o seu apoio (nem sempre sincero) à realização do referendo. Agora que se sabe que uma enorme maioria da população deseja o referendo, não vejo como conseguirão o PSD e o PS evitar a sua realização. A revisão da Constituição da República Portuguesa não é fundamental para a realização do referendo, desde que este incida apenas sobre questões concretas do eventual Tratado Constitucional. A questão da data do referendo também é de fácil resolução. Se excluirmos as semanas de campanha para as eleições para o Parlamento Europeu e o dia das eleições, ainda sobram muitos dias possíveis para fazer o referendo. Por estes motivos, os eventuais atrasos na revisão constitucional não servirão como desculpa para não realizar o referendo. Aliás, como escreveu Vital Moreira, na eventualidade de uma vitória do “sim”, será necessária outra revisão constitucional para permitir a ratificação do Tratado Constitucional (que deverá instituir a primazia interna do direito europeu).
Vital Moreira tem defendido a realização do referendo após a conclusão da CIG. O Presidente da República, embora nunca se tenha referido ao referendo, parece concordar com Vital Moreira e vai afirmando que só faz sentido discutir o Tratado que resultar da CIG.
Se, por um lado, concordo com Jorge Sampaio, por outro lado, parece-me que o Tratado proposto pela Convenção Europeia não será muito alterado na CIG, pelo que não seria desperdiçado o tempo gasto a debater o assunto enquanto esta decorre. Porque não começar já a informar a população para que esta esteja em condições de discutir o tema quando a CIG terminar?
Já se perdeu muito tempo. As campanhas de informação e o debate sobre as matérias do Tratado Constitucional já deveriam ter começado há muito tempo (os trabalhos da Convenção Europeia terminaram em Julho deste ano). Se isso tivesse sido feito, teria sido possível referendar questões concretas do Projecto de Tratado Constitucional agora em discussão na CIG. Os resultados desse referendo dariam a Portugal mais poder de negociação na CIG. Jorge Miranda acredita que isto ainda poderia ser conseguido se o referendo fosse feito já. Duvido. Não houve nem informação nem o subsequente debate, pelo que os resultados do referendo seriam de difícil interpretação (ainda que se tratassem apenas de questões concretas sobre a proposta de Tratado Constitucional).
Eu gostaria que houvesse referendo, mas como penso que acontece com Esther Mucznik, gostaria ainda mais de saber que os portugueses entendem como funciona a sua cidadania europeia (com ou sem Tratado de Constituição).

ANS

131 - PONTUALIDADE


Na passada quarta-feira, eu avisei que estava de volta à blogosfera. Entretanto, passaram mais quatro dias sem qualquer post novo no Carimbo. Isto significa que o post de quarta-feira deve ser encarado da mesma forma que aqueles telefonemas de pessoas que, quando estão atrasadas para um compromisso, telefonam a avisar que já estão mesmo a chegar e se esquecem de dizer que vão levar mais trinta minutos.
Infelizmente, eu sou uma dessas pessoas. Por mais que tente corrigir este defeito, os meus dias continuam a ser uma acumulação de atrasos. Quando vim viver para Inglaterra, já estava avisado da famosa pontualidade britânica. Pensei que seria obrigado a alterar os meus hábitos, mas estava enganado. Como já comentei em posts anteriores, os ingleses são tão pontuais como os portugueses. Mas como não há regra sem excepção, aqui vos deixo um episódio interessante. Há cerca de um ano atrás, um colega prometeu-me uma boleia para uma conferência em Manchester. Combinámos um ponto de encontro em Liverpool, onde deveríamos aparecer às sete horas da manhã. No dia combinado, quando cheguei ao ponto de encontro, tive a “agradável” surpresa de ver o carro do meu colega a afastar-se do local. Olhei para o relógio e este marcava sete horas e quarenta e cinco segundos. Será que os promotores da petição para a pontualidade teriam a coragem de agir assim?

ANS

05 novembro 2003

130 - MAIS AGRADECIMENTOS X


Regressei ontem a Liverpool e agora regresso à blogosfera. Depois deste "interregno", penso que um post de agradecimentos constitui a melhor forma de reiniciar a actividade bloguística. Peço apenas aos interessados que me desculpem pelo enorme atraso destes merecidos agradecimentos.
Em primeiro lugar, agradeço a João Carvalho Fernandes por ter colocado O Carimbo na secção "Os Imprescindíveis do Momento" do Fumaças durante o dia 13 de Outubro. Terá sido por causa da canção dos Eagles (post 123 do Carimbo) ou por causa de algum post anterior?
Também agradeço a Nélson Faria, do Veto Político, por ter recomendado a leitura do post 125 do Carimbo.
Agradeço ainda aos blogs Abaixo de Cão, A falar para o Boneco, Ai Jasus!, A Monarquia Portuguesa (relatada por um jovem de treze anos de idade), Analiticamente Incorrecto, Blog@Uni, Encapuzado Extrovertido, Janela para o Rio PT, Memória Virtual, Mephistopheles, Pensativa, Pessoal "in" Transmissível, O Projecto e Substrato por terem colocado O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados.
Aproveito para registar os agradecimentos que os blogs AAANumberOne, A falar para o Boneco, Memória Virtual, O Bugue e The Amazing Trout Blog endereçaram ao Carimbo. No entanto, lembro que as referências do Carimbo a estes blogs foram mais do que merecidas e, por esse motivo, não careciam de agradecimento.

ANS

17 outubro 2003

129 - AMBIENTE DE FESTA


Hoje, ao fim da tarde, voarei para Lisboa. Ficarei em Portugal durante as próximas duas semanas. Infelizmente, não poderei assistir ao jogo de inauguração do Estádio da Luz (não quis obrigar ninguém a ir para aquelas filas intermináveis só para comprar um bilhete). Não faz mal. Assistirei, com certeza, ao próximo jogo a contar para a Super Liga.
Espero que o novo estádio contribua para a melhoria do espectáculo, fora e dentro do campo (por esta ordem). Espero que as claques benfiquistas estejam mais activas do que é habitual no apoio à equipa. Espero encontrar um ambiente de festa. Espero que exista segurança. Espero que seja vedada a entrada aos três indivíduos dos No Name Boys que, depois de terem sido apanhados na posse de armas, explosivos e droga, foram apenas sujeitos a termo de identidade e residência, ficando a aguardar o seu julgamento em liberdade. Espero que isto não volte a acontecer. Se estes indivíduos não são perigosos, então ninguém o é!

ANS

128 - ANFIELD ROAD OU PENNY LANE?


Na quarta-feira fui, mais uma vez, ao estádio do Liverpool Football Club (LFC), em Anfield Road. Fui assistir ao encontro entre este clube e o NK Olimpija Ljubljana (NKOL). O jogo terminou com uma vitória fácil dos “Reds” por 3-0, existindo pouco para contar além de algumas excelentes defesas do guarda-redes da equipa eslovena. O jogo decorreu, em ambas as partes, junto à área do NKOL, o que, para mim, foi conveniente. É que eu estava na chamada Main Stand do estádio do LFC, onde existem quatro pilares que suportam a cobertura e que não permitem que os espectadores sentados no seu enfiamento vejam a totalidade do campo. No meu caso, a parte escondida era precisamente a zona do meio campo.
Na última vez que tinha estado neste estádio assisti ao jogo a partir da Kop, a qual se situa atrás de uma das balizas e, por esse motivo, não oferece uma boa visibilidade da baliza oposta. No entanto, a Kop (que se distingue pelas enormes letras “LFC” que, quando o estádio está vazio, sobressaem do fundo de cadeiras vermelhas) é uma bancada exclusiva dos adeptos caseiros, os quais criam sempre um ambiente fantástico e convidativo. É por isso que a Kop é tão conhecida. Se nunca ouviram falar da Kop, vejam (ou revejam) o filme The 51st State, com Samuel L. Jackson no papel do “escocês” Elmo McElroy e Robert Carlyle no papel de Felix DeSouza (um scouser fanático pelo LFC).
A dedicação dos adeptos deste clube é, de facto, incrível. A forma como apoiam sempre a sua equipa e como, em simultâneo, tentam moralizar cada jogador é exemplar. O jogo de quarta-feira, apesar do empate a uma bola no jogo da primeira mão, era considerado como uma tarefa simples para os futebolistas do LFC. Mesmo assim, com os seus níveis de entusiasmo relativamente baixos, os adeptos do LFC entoaram uma série de cânticos e não se cansaram de comentar as jogadas da sua equipa. A expressão “Well dsone!” foi uma das que mais se ouviu. Esta expressão revela que a equipa jogou bem e que os adeptos eram scousers (post 124 do Carimbo).
À saída do estádio (por volta das dez horas da noite) tive outra demonstração da dedicação dos adeptos, os quais formaram um fila enorme em frente à loja do clube (que estava cheia). A minha surpresa ainda foi maior quando constatei que a maioria desses adeptos já vestia camisolas, cachecóis e chapéus do LFC. O que iriam eles comprar?
Ontem, li num jornal local que estão a decorrer negociações com vista à construção de um novo estádio na cidade. Este estádio ficaria do outro lado da cidade, junto a Sefton Park, num dos extremos de Penny Lane (lembram-se da canção dos Beatles?), e seria utilizado pelo LFC e pelo Everton Football Club. Isto significaria o fim da Kop, o que seria uma pena. Por outro lado, o novo estádio deverá permitir aos espectadores uma visibilidade adequada do campo (desde que não coloquem cadeiras atrás do ecrã gigante...). Outra vantagem do novo estádio será a sua localização. Os turistas que vierem a Liverpool não deixarão de aproveitar para ver Penny Lane e o estádio dos maiores clubes da cidade. Já estou a imaginar as filas à porta das lojas do estádio. Penny Lane ficará um pouco diferente da descrição que os Beatles nos deixaram:

PENNY LANE

In Penny Lane there is a barber showing photographs
Of every head he's had the pleasure to know
And all the people that come and go
Stop and say hello

On the corner is a banker with a motorcar
The little children laugh at him behind his back
And the banker never wears a mack
In the pouring rain, very strange

Penny Lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit, and meanwhile back

In Penny Lane there is a fireman with an hourglass
And in his pocket is a portrait of the queen
He likes to keep his fire engine clean
It's a clean machine

Penny Lane is in my ears and in my eyes
A four of fish and finger pies
In summer, meanwhile back

Behind the shelter in the middle of a roundabout
The pretty nurse is selling poppies from a tray
And though she feels as if she's in a play
She is anyway

In Penny Lane the barber shaves another customer
We see the banker sitting waiting for a trim
And then the fireman rushes in
From the pouring rain, very strange

Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit, and meanwhile back
Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny Lane

By John Lennon and Paul McCartney



ANS

127 - CANÇÕES DE 1973 (XV)


Foi no ano de 1973 que os Electric Light Orchestra lançaram o álbum On The Third Day, do qual se destacam as canções Ma-Ma-Ma Belle e, principalmente, Showdown. Há quem acredite que foi esta canção, cuja letra é aqui reproduzida, que lançou a carreira desta banda até ao final dos anos setenta.


SHOWDOWN

She cried to the southern wind
About a love that was sure to end
Every dream in her heart was gone
Headin' for a showdown

Bad dreamer, what's your name
Looks like we're ridin' on the same train
Looks as though there'll be more pain
There's gonna be a Showdown

And it's rainin' all over the world
It's raining all over the world
Tonight, the longest night

She came to me like a friend
She blew in on a southern wind
Now my heart is turned to stone again
There's gonna be a Showdown

Save me, oh save me
It's unreal, the suffering
There's gonna be a Showdown

And it's rainin' all over the world
It's raining all over the world
Tonight, the longest night

By the ELO



ANS

15 outubro 2003

126 - COERÊNCIA


De acordo com o Público, Durão Barroso anunciou, ontem, que o Orçamento do Estado (OE) para 2004 terá como meta um défice nominal máximo de 2,8 % do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com a RTP, o OE para 2004 deverá assentar, em parte, no crescimento da actividade económica, o qual se deve situar entre 0,5 % e 1,5 %, após um ano (2003) que se estima vir a ser de recessão. Convém lembrar que, de acordo com as previsões da OCDE, de Abril do corrente ano, o PIB português deveria crescer 0,3 % em 2003 e 2,3% em 2004.
Esta situação de discrepância entre os valores apresentados pelo Governo e os valores apresentados pela OCDE é bem diferente da que ocorreu no ano passado. Recordo que segundo os valores apresentados, em Novembro de 2002, pela OCDE, o crescimento do PIB deveria situar-se em cerca de 2,5 % em 2003. No ano passado, o Governo foi muito menos prudente do que este ano e apresentou no OE uma estimativa de crescimento do PIB entre 1,25 e 2,25 % (valor máximo próximo do previsto pela OCDE). O mesmo OE estabelecia o valor de 2,4 % do PIB como meta para o défice orçamental. Já este ano, o défice orçamental foi revisto em alta para os famosos 2,9447 % do PIB.
Será que o Governo está, este ano, a revelar mais prudência ou será mesmo falta de confiança na recuperação da economia? Embora ambas as leituras sejam possíveis, o Governo tem afirmado repetidamente que 2004 será o ano da recuperação. Se é assim, então a estimativa do Governo para o crescimento do PIB parece realista e prudente. Por outro lado, o objectivo para o défice orçamental parece muito arriscado. Se acontecer o mesmo que aconteceu este ano, o Governo não terá margem de manobra. Se, pelo contrário, a execução orçamental não se desviar do estimado, um défice de 2,8 % ainda é muito alto para quem defende que se deve poupar quando a economia cresce para que seja possível estimulá-la quando esta se retrai. Espero que não se esqueçam que o objectivo a médio prazo é o défice orçamental nulo. É que, mesmo que a recuperação económica se verifique, nada garante que o crescimento não será efémero.

ANS

125 – A TALENTOSA MISS RIPLEY E A IMAGEM DE PORTUGAL


Está toda a gente escandalizada com o artigo da edição europeia da Time sobre as “meninas” de Bragança. O facto de Portugal aparecer na capa dessa revista pelos piores motivos parece envergonhar toda a gente . Deve ser impressão minha, mas não me pareceu que este assunto fosse motivo de vergonha quando a notícia foi divulgada pelos jornais e revistas nacionais. Como sempre, o que vem de fora é que conta (artigo da Le Point sobre a pedofilia). Infelizmente, conta mal.
O artigo da Time é muito fraco e revela uma qualidade de jornalismo que, de facto, não justifica que o Governo português ali invista em publicidade para o Euro 2004. O artigo começa por revelar que Bragança representa uma parte (aparentemente importante) de um negócio total de 50 mil milhões de dólares, o qual consiste na utilização de Portugal como porta de entrada de centenas de milhares de mulheres brasileiras no mercado europeu da prostituição. Eu sabia que o negócio da prostituição, como qualquer negócio ilegal, era lucrativo, mas nunca imaginei que pudesse atingir 40 % do Produto Interno Bruto nacional (só no que diz respeito às prostitutas de origem brasileira!). Quanto às centenas de milhares de mulheres brasileiras que entram em Portugal para o negócio da prostituição, parece-me que a Sr.ª Amanda Ripley (autora do artigo da Time) volta a exagerar descaradamente. A população estrangeira residente em Portugal atinge um valor total de cerca de 390.000 habitantes, dos quais cerca de 50.000 são brasileiros. Mesmo quando se contabiliza a imigração ilegal oriunda do Brasil, obtém-se, de acordo com as estimativas mais recentes, um valor de 80.000 brasileiros residentes em Portugal. Acreditando nos valores apresentados pelo artigo da Time para o rendimento médio de uma prostituta brasileira de Bragança, seriam necessárias cerca de 800.000 prostitutas para manter um negócio de 50 mil milhões de dólares.
De acordo com a Time, em Bragança, o negócio da prostituição é suportado por sete clubes de strip e vários bordéis (são tantos que o artigo os define como “incontáveis”). Ainda de acordo com a Time, Bragança deve ser uma das capitais europeias do sexo, do bem-estar económico e da insatisfação sexual no matrimónio. É por isso que têm ocorrido tantos divórcios naquele concelho do país. O concelho de Bragança tem uma população de cerca de 34.750 habitantes, dividida em cerca de 16.750 homens e 18.000 mulheres, das quais 12.750 são casadas. Em 2001, a taxa de divórcios neste concelho era de 1,7 por cada mil habitantes, o que correspondeu a cerca de 60 divórcios num universo de 12.750 famílias. É possível que a taxa de divórcios tenha crescido muito, mas daí a associar a generalidade dos divórcios ao aumento da prostituição em Bragança vai uma distância enormíssima. A população nacional é, actualmente, de cerca de 10.320.000 habitantes. Se, de acordo com a Sr.ª Amanda Ripley, existem cerca de 800.000 prostitutas em Portugal (residentes ou de passagem), assumindo uma distribuição de prostitutas proporcional à população de cada concelho do país, existiriam em Bragança cerca de 2.700 prostitutas, ou seja, uma prostituta para cada 6,2 homens. No entanto, Bragança é uma das capitais europeias do sexo, pelo que a concentração de prostitutas por habitante deve ser ainda maior! Por este andar, devem existir, em Bragança, mais prostitutas do que homens. Se assim for, concordo com a Sr.ª Paula (nome fictício da esposa traída cuja história é contada no artigo). Trata-se, efectivamente, de concorrência desleal com as “mães de Bragança”. Já agora, se o número de bordéis em Bragança é incontável, como é que a Sr.ª Paula conseguia sempre encontrar o seu marido quando ele se atrasava? Admitamos que não devia ser uma tarefa fácil para quem andava a pé e com a filha ao colo.
Espero que este artigo da Time sirva de lição (mais uma) aos jornalistas nacionais. Os jornais mais importantes do país (e a televisão) não devem fazer tanto eco das notícias de âmbito local, as quais devem ser deixadas aos jornais regionais. São estes jornais que, juntamente com as populações, devem pressionar as autarquias para resolver os problemas locais. Os jornais de grande tiragem devem focar problemas de âmbito nacional ou, quando muito, relativos às grandes cidades do país. Desta forma, estas notícias (que não representam o país) não são constantemente oferecidas à imprensa estrangeira. Isto não significa que as más notícias devem ser escondidas. As notícias devem ser todas reveladas, nos locais próprios e com a seriedade devida. No entanto, devemos resistir à tentação de nos vermos sempre como os desgraçadinhos da Europa, onde tudo o que é mau acontece. Isso não é verdade. Não consigo esconder a minha irritação perante esta forma de ser português. Os britânicos, os alemães, os franceses e os espanhóis, por exemplo, não são assim. Em todos estes países vi sinais de pobreza extrema. Em todos eles vi prostituição nas ruas. Em todos eles vi droga a circular. Em todos eles vi violência nas ruas. No preciso momento em que escrevo estas linhas, basta-me assomar à janela para ver algumas prostitutas que, enquanto esperam pelos seus clientes, vão discutindo com os respectivos proxenetas. Na rua onde vivo, a dez minutos a pé do centro de Liverpool, o som de carros e helicópteros da polícia é frequente. Acreditem que nunca vi qualquer notícia sobre isto nos grandes jornais britânicos ou na televisão. No entanto, trata-se de um assunto amplamente discutido nos jornais locais. Pelo contrário, as notícias que surgem sobre países pequenos, como Portugal, são sempre más ou tristemente caricatas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com uma reportagem sobre a adesão à moeda única, com uma reportagem sobre o aborto e com outra sobre o turismo. Nestas três reportagens, Portugal foi apresentado com um país de bairros de lata, como se nada mais existisse. Por outro lado, as reportagens sobre o Reino Unido, a Alemanha, a França e até a Espanha, mostram, na grande maioria das vezes, países muito desenvolvidos, como se a pobreza, a droga e a prostituição não existissem. Na televisão portuguesa podemos ver publicidade ao turismo noutros países. Aqui em Inglaterra, também vejo esse tipo de publicidade, mas Portugal nunca aparece. Porque razão está o Governo a promover (só agora...) o Euro 2004 em revistas conceituadas, quando poderia promover o país (independentemente da realização do campeonato europeu de futebol) ao longo de todo o ano em canais de televisão? Por exemplo, a Grécia, a Croácia e o Egipto, entre outros, recorrem à CNN para a promoção turística dos seus países. Tenho a certeza que esse tipo de promoção é muito mais eficaz.
A conclusão deste texto é que a imagem de um país, tal como a imagem de qualquer outra coisa, é aquela que nós somos capazes de vender. O nosso objectivo é vender um Portugal um pouco melhor do que o real e utilizar os lucros para aproximar a realidade da imagem vendida. Se não o fizermos, os outros criarão a sua própria imagem de Portugal, a qual será certamente pior do que a realidade portuguesa, servindo assim os interesses de países que, como o Reino Unido, parecem ter um prazer sádico na existência de países menos desenvolvidos em termos económicos e sociais.
Como não sabemos vender Portugal, a nossa imagem no Reino Unido continua a ser a da velhinha vestida de negro, com bigodes e sem dentes, que caminha com as pernas arqueadas atrás de um burro em direcção a uma casa em ruínas. Será que alguém tem esta imagem de Inglaterra? Claro que não. Mas podem ter a certeza que também se encontra.
Como não sabemos vender Portugal, o Algarve (o paraíso do turista de pé-descalço britânico) continua a ser vendido como um dos pacotes turísticos espanhóis. É verdade. Os empregados das agências de viagens insistem que o Algarve pertence a Espanha. Isto já aconteceu comigo e com outros portugueses que tentaram comprar pacotes turísticos para o Algarve (o que, muitas vezes, sai mais barato do que comprar apenas um bilhete de avião).
A promoção turística do país é uma responsabilidade nacional. Não podemos esperar que o Governo faça tudo. As empresas têm de ajudar e a comunicação social também. Quanto a Bragança, penso que já contribuiu demasiado para esta promoção.

ANS

14 outubro 2003

124 - SER ONE OF THEM


Na passada sexta-feira, a Charlotte, do blog Bomba Inteligente, recordou a forma como costumava testar o seu grego com os taxistas de Atenas. Para a Charlotte, os dias eram perfeitos quando os taxistas lhe falavam como se ela fosse “one of them”.
Aqui em Liverpool é ao contrário. Os dias maus acontecem quando os scousers (naturais de Liverpool) falam comigo como se eu fosse one of them. Quando isso acontece, eles carregam no sotaque e usam todas aquelas expressões que, em conjunto, constituem um autêntico dialecto (scouse) cuja compreensão é quase impossível (até os britânicos têm dificuldades).
Para que tenham uma ideia mais precisa do que é o scouse, aqui ficam algumas dicas sobre a pronúncia:

Os scousers falam como se tivessem bronquite, ou seja, fazem-no de uma forma nasalada e com vestígios de um catarro permanente. Outra consequência dessa “bronquite crónica” é facilmente observada na entoação que os scousers dão às frases, as quais começam sempre num lamento para terminarem num tom muito agudo (como se fosse uma canção).
Nas palavras com “t” ou “th”, estes são pronunciados como “d” (o que, para os portugueses, até é conveniente). Quando o “th” vem no início das palavras, os scousers optam por adicionar um “d” ou por pronunciar apenas o “t” (influência irlandesa).
As palavras terminadas em “y” são pronunciadas como se terminassem em “ee” (este som parece que não acaba, principalmente quando a palavra em causa aparece no final da frase).
As vogais no meio das palavras mudam frequentemente de som.
Quando as letras “d” e “t” estão no início das palavras são pronunciadas de uma forma aspirada, o que resulta na adição de um “s”.
Nas situações em que o inglês da BBC omite a letra “t”, os scousers substituem-na por um “r”.
As palavras terminadas em “t” são pronunciadas como se terminassem em “tch”.
As terminações “ing” são, simplesmente, reduzidas para “n”.
A palavra “its” é pronunciada como “’s”
Quando as letras “l” e “m” aparecem juntas numa palavra, os scousers introduzem uma vogal entre elas.
Quando as palavras terminam em “k”, este pode ser substituído por “ch”.
A dupla negação é utilizada sempre que possível.

Mas o scouse não se distingue apenas pela pronúncia. Também existe uma grande variedade de vocábulos que são exclusivos do scouse. Para que tenham uma ideia do que é falar inglês em Liverpool, aqui fica um exemplo do que poderia ser uma conversa com um taxista que me considerasse um scouser:

Taxista: Dso yer see dat broken window?
Eu: Yes, I dso.
Taxista: Id was broken yesterdaee nightch. Some divvy fellers dsid id. Dthey waaire baaivvied. Dthese boys are woollybacks. ‘s like… dthey dson’t like dthe bewks. Dthey are allus in dthe boozers gett’n chaaimicked. And dthe baairds dso dthe same. Dat’s why dthey are allus boxed.
Eu: Why?
Taxista: I dsunno. Dson’t axe me. Last nightch, me and me wife… we found ahr kid in dthe streets look’n for loosies. ‘e was ask’n everybodee: “Gorranee ciggies? Gorranee ciggies?”. Dekko, I’m a jockey but I give me kid a doddle life. Eorta be a good college pud. Last nightch ‘e was so daairty dat I couldn’t crack on ‘im. Last mond dthe filth tooch ‘im tso dthe cop shop. ‘e spent tswo nights in nich. After dat ‘e spent some tsime ad gaff watch’n dthe filums. I asked ‘im tso ‘elp me digg’n oud dthe gaff and ‘e didn’t dso nutt’n. ‘s like… a ghost. Dthen I tsold ‘im: “Yer gotta ged outch. Lemme tsake yer tso dthe togga. We’ll 'ave some baaivvy and chippy.” ‘e allus gets tizzie wid footy. Whaain we god daaire, ‘e met dem mates dat are allus rotten and left me tod. After dat ‘e broke one mitt in a straightener. Worra ‘appen wid dat kid?
Eu: Ad leasd ‘e’s not on tabs…
Taxista: Zarrafact?… Dekko. ‘ere we are. Dat's Lime Street station.
Eu: What’s dthe dsamage?
Taxista: Four quid, mate.
Eu: Keep dthis flim.
Taxista: Ta.
Eu: Ta-ra.

Espero que consigam entender este diálogo. Se tiverem dúvidas, podem perguntar-me ou podem tentar encontrar a tradução neste glossário.
Felizmente, nunca conseguirei falar assim. É que além de ser horrível quando comparado com o inglês da BBC, o scouse é também um estigma que acompanha os scousers por toda a sua vida, criando-lhes sérias dificuldades.

ANS

13 outubro 2003

123 - CANÇÕES DE 1973 (XIV)


Hoje, esta série muda de capítulo , ou seja, passa para a quinta letra do alfabeto. Para estrear este capítulo, recorro ao álbum Desperado, dos Eagles, do qual saliento as canções Tequila Sunrise, Desperado e Doolin-Dalton. A seguir transcrevo a letra de Tequila Sunrise - um shot de coragem:


TEQUILA SUNRISE

It's another tequila sunrise
Starin' slowly 'cross the sky, said goodbye
He was just a hired hand
Workin' on the dreams he planned to try
The days go by

Ev'ry night when the sun goes down
Just another lonely boy in town
And she's out runnin' 'round

She wasn't just another woman
And I couldn't keep from comin' on
It's been so long
Oh, and it's a hollow feelin' when
It comes down to dealin' friends
It never ends

Take another shot of courage
Wonder why the right words never come
You just get numb
It's another tequila sunrise,this old world
still looks the same,
Another frame, mm...

By the Eagles



ANS

11 outubro 2003

122 - O ILDEFONSO


Frequentei o ensino primário numa escola pública, na qual tive a oportunidade de conviver com crianças das mais variadas origens étnicas e sociais. Entre essas crianças, havia uma que eu admirava muito. Era o Ildefonso. Fomos colegas até à terceira classe. Depois, o Ildefonso foi forçado a interromper os estudos.
Foi uma pena, não só pelos motivos óbvios, mas também porque o Ildefonso era um prodígio do cálculo mental. Ainda hoje recordo a minha professora a confirmar (à mão) os resultados dos cálculos mentais do Ildefonso. Mas eu (e as outras crianças) já sabíamos que o Ildefonso acertava sempre.
À tarde, depois das aulas, era comum irmos brincar. Podíamos fazê-lo por todo o lado. É uma das vantagens de se crescer numa pequena cidade, como Faro. Infelizmente, o Ildefonso não aproveitava essa vantagem e não nos acompanhava nas tardes de brincadeira. Não podia fazê-lo porque estava a trabalhar com os pais (que eram feirantes). Foi assim que ele aprendeu a "fazer contas".
Foi numa dessas tardes de brincadeira que encontrei o Ildefonso a ajudar os pais. Foi na feira de Santa Iria, quando esta ainda tinha lugar no Largo de S. Francisco. Nessa tarde de Outubro, o Ildefonso conduziu-me numa visita guiada pela feira, com direito a experimentar todas as diversões (carrosséis, carros de choque, etc...) e guloseimas (farturas, algodão-doce, etc...). Também pude ver o pessoal do circo a preparar o espectáculo dessa noite. Foi uma das melhores tardes da minha infância. Desde esse dia, nunca mais vi o Ildefonso.
Neste momento, o leitor deve estar a interrogar-se sobre o interesse destas recordações de infância. Tem razão. São recordações que, aparentemente, só me interessam a mim. Mas a verdade é que estas recordações, entre outras, contribuiram muito para que, hoje, eu abomine o racismo. É que o meu amigo Ildefonso era cigano. E, por esse motivo, não terá gostado nada de ouvir dizer, no Telejornal de ontem (minuto 56:40), que "as crianças ciganas de Rebordinho podem ir à escola desde que se comportem como gente, como gente portuguesa..."
Infelizmente, estas afirmações (que reflectem um racismo enraizado) não foram comentadas no Telejornal. Infelizmente, estas afirmações surgem como a conclusão (será?) de uma história que começou na sexta-feira da semana passada, quando o Jornal de Notícias revelou que, na quinta-feira (2 de Outubro), "algumas dezenas de populares e encarregados de educação da povoação de Teivas, na freguesia de S. João de Lourosa, nos arredores de Viseu, fecharam a cadeado" a escola do 1º Ciclo do Ensino Básico daquela localidade. De acordo com a notícia, "o protesto, que impediu a abertura da escola e o acesso de professores e auxiliares de acção educativa, ficou a dever-se à alegada intenção, das estruturas educativas, de transferir para aquele estabelecimento de ensino" catorze crianças (de etnia cigana) da vizinha povoação de Rebordinho.
Aparentemente, o protesto foi aceite e as catorze crianças foram transferidas para a escola "primária" de Rebordinho, o que obrigou o Centro da Área Educativa de Viseu a reforçar o quadro docente daquela escola com mais duas professoras e uma auxiliar de acção educativa. Entretanto, na última quinta-feira (9 de Outubro), o Jornal de Notícias revelou que, na quarta-feira (8 de Outubro), dia em que as crianças deveriam começar a frequentar as aulas, o portão da escola, além de estar trancado com arames, tinha vários cartazes com a frase: "Não queremos cá os ciganos".

ANS

10 outubro 2003

121 - E O PSD? O QUE É?


Verifiquei agora que CAA, do Mata-Mouros, publicou uma parte de um e-mail que lhe enviei, no dia 27 de Setembro, como resposta a este e-mail:

"Caro Carimbo,

Sigo com muita atenção os seus textos. Concordo com quase tudo o que diz sobre o PS
[post 91 do Carimbo, de 19 de Setembro]. Mas, pergunto-lhe, e o PSD? Defina-o, por favor, que eu já não sei o que são, o que querem e o que os faz correr...

Um abraço,

CAA

P.S. - Segue um pequena provocaçãozinha:
[post Os vários PSD's que conheço (I), de 15 de Setembro]"

A minha resposta, completa e já desactualizada, é a que a seguir transcrevo, excluindo apenas uma parte do parágrafo inicial (mais pessoal):

"Caro CAA,

É com muita satisfação que respondo ao seu e-mail, o qual li (ou reli) com muita atenção. Em primeiro lugar quero agradecer-lhe por seguir os posts do Carimbo, o que, para mim, é uma surpresa. [...]
Quanto à questão que coloca sobre a definição (ou indefinição) do PSD, confesso que me apanha de surpresa. Eu já tinha lido (em devido tempo, porque acompanho “fielmente” o Mata-Mouros) o post que anexou ao e-mail que me enviou e admito que as posições assumidas por António Nazaré Pereira (não nos esqueçamos que se trata de um membro, ainda que suplente, da Convenção Europeia) não me surpreenderam muito. No entanto, penso que a forma encontrada por António Nazaré Pereira para justificar a necessidade de um Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (MNE) não foi a mais feliz (eu não me identifico com essa justificação) e espero que a maioria dos simpatizantes do PSD pense da mesma forma.
Não sou militante do PSD e, por esse motivo, as minhas opiniões resumem-se àquilo que posso perceber como observador externo. Desse ponto de vista, parece-me que o PSD sempre favoreceu o debate político e ideológico interno, sempre admitiu as mais diversas opiniões e, de uma forma muito pragmática, sempre conseguiu encontrar um rumo ideológico aglutinador dos desejos da maioria dos seus simpatizantes. É por isso que encaro com dificuldade a hipótese de existirem, no seio do PSD, comunistas ou socialistas “mal encaminhados” a promoverem um “estatismo militante”. Não me parece que estas ideologias encontrem eco nas orientações políticas dominantes no PSD. A diversidade político-ideológica que existe no PSD não é assim tão extremada. Esta é, para mim, a regra.
A excepção à regra é a questão da União Europeia (UE). Talvez esta seja uma das matérias onde se verificam (só agora...) mais e maiores divergências. Talvez a divergência aconteça porque o PSD é hoje um partido de largo espectro político, abrangendo todo o centro-direita e absorvendo até o espaço ocupado pelo CDS, o qual se assume agora como “euro-calmo” e deixa os “euro-cépticos” no limbo da irresponsabilidade (entrevista de hoje de Nuno Magalhães ao Diário de Notícias). Talvez a divergência aconteça porque, até há bem pouco tempo, nunca se verificaram divisões significativas entre PSD e PS relativamente à forma de encarar a UE. Isto implicou uma confrangedora ausência de debate que deixou a população portuguesa num estado de ignorância total face a esta questão. Felizmente, alguns acontecimentos recentes despertaram (ou ainda irão despertar) a população para a importante questão da UE.
Entre esses acontecimentos saliento a crise económica mundial e as consequentes dificuldades associadas ao cumprimento, na Europa, do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Estas dificuldades, que os portugueses sentem fortemente, levam alguns grandes países (como a Alemanha e, principalmente, a França) a desejar e a promover a alteração dos critérios de controlo orçamental. Será um sinal de um futuro funcionamento da UE em sistema de directório?
Outro acontecimento importante foi a crise institucional provocada pela oposição francesa e alemã à intervenção militar no Iraque. Esta crise dividiu a Europa e presenteou os “cidadãos” europeus com a chantagem de Jacques Chirac aos futuros Estados-Membros da UE. Será um sinal da fantasia que é, actualmente, acreditar numa Constituição Europeia que garanta a igualdade entre os Estados-Membros da UE?
O acontecimento que, mais recentemente, alertou a população para o problema da UE foi a rejeição sueca à adesão à moeda única europeia. As pessoas questionam as razões subjacentes a essa rejeição, as quais, embora sendo essencialmente económicas, também são políticas. Será este um sinal evidente, dado por um povo instruído e informado como é o sueco, dos perigos inerentes a um avanço demasiado rápido na construção europeia? A dúvida que eu tenho, tal como a maioria dos simpatizantes do PSD (pelo menos essa é a posição oficial do partido), é se a integração europeia e a coesão entre os Estados-Membros são já suficientes? Será que a população europeia já interiorizou a noção de cidadania europeia? Será que os pequenos Estados-Membros da UE irão, na sua maioria, ratificar o Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa que resultará da Conferência Intergovernamental
[CIG]?
A estas questões podem ainda acrescentar-se outras. Um exemplo é a questão da Política Externa e de Segurança Comum (PESC). A posição oficial do PSD, na linha do que consta na proposta de Constituição Europeia (para simplificar a linguagem), assume que a NATO é pedra basilar da nossa arquitectura de defesa e segurança e que isso nunca será colocado em causa pela PESC. Gostaria de poder acreditar nisto, mas a verdade é que a PESC baseia-se na Agência Europeia de Armamento, Investigação e Capacidades Militares (AEA) para organizar e promover a melhoria das capacidades militares dos Estados-Membros com o objectivo de fornecer à UE uma capacidade operacional apoiada em meios civis e militares que poderão ser empregues em missões, no exterior, de manutenção de paz, prevenção de conflitos, combate ao terrorismo e reforço da segurança internacional, de acordo com os princípios da Carta das Nações Unidas. Será que os Estados-Membros terão liberdade para optar por contratos de reequipamento militar que não envolvam a AEA? Lembro que o actual Governo, na sequência da aplicação da Lei de Programação Militar, já foi acusado de subserviência às companhias americanas. Porque têm os Estados-Membros de melhorar as suas capacidades militares no âmbito da PESC se apenas a França e o Reino Unido têm assento no Conselho de Segurança da ONU? Outra questão associada à PESC é a da representação. De acordo com a proposta de Constituição Europeia, as matérias da PESC serão representadas externamente pelo Presidente do Conselho Europeu, sem prejuízo das competências do MNE. Para mim, isto é um sinal claro de que o Presidente da União Europeia será o Presidente do Conselho Europeu, ficando o Presidente da Comissão Europeia a funcionar como um “Primeiro-Ministro” limitado nos seus poderes. Parece-me que esta estruturação de poderes viola o princípio de igualdade dos Estados, visto que, embora se verifique um relativo equilíbrio entre os grandes Estados (Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Polónia) e os pequenos Estados na ponderação de votos do Conselho Europeu e do Conselho de Ministros, a representatividade dos cidadãos acaba sempre por falar mais alto. Daí a importância de garantir mais poderes ao Presidente da Comissão Europeia. Este é o órgão executivo principal e deverá ter uma presença equilibrada de nacionais de todos os Estados-Membros (já agora, também não concordo com a fórmula de quinze comissários com direito de voto e outros tantos sem esse direito).
Perante tantas dúvidas, questiono-me também se não serei, eu próprio, um “euro-céptico”. Não sou. Acredito na integração europeia, assim como acredito que, depois da Europa, outros blocos de países serão criados noutros continentes. Apenas penso que Valéry Giscard d’Estaing (para personalizar a questão) está a avançar demasiado depressa. Os Estados europeus têm muitos séculos de história atrás de si, com conflitos horríveis pelo meio e com um sentido de patriotismo (para não utilizar a palavra “nacionalismo”) muito enraizado, o que torna muito complicada, para já, a constituição do tal Super-Estado Europeu desejado pelos federalistas. O problema maior será garantir a igualdade entre os Estados-Membros e, simultaneamente, eliminar as desconfianças existentes face a grandes países como a França e a Alemanha.
Será este repertório de dúvidas um bom retrato do PSD? Espero que sim. Estas dúvidas reflectem preocupação e responsabilidade. O problema reside nos partidos, como o PS, que estão cheios de certezas.

Um abraço,

ANS
"

Este e-mail já está, obviamente, desactualizado. Entretanto, alguns dos chamados países "grandes" já vieram ameaçar os países "pequenos" com o corte de fundos de coesão no caso de estes forçarem demasiadas alterações à proposta de Constituição Europeia em discussão na CIG.

ANS

09 outubro 2003

120 - A VOLTA AO BLOG EM 80 DIAS


O Carimbo completa hoje oitenta dias de existência. Tem sido uma aventura interessante, mas não acaba aqui, ao contrário do que aconteceu na aventura de Phileas Fogg (contada por Jules Verne).
Entretanto, penso que a história destes oitenta dias merece ser contada e a melhor forma de o fazer é através da publicação dos números do Carimbo:

Idade: 80 dias
Posts: 120
Média de posts por cada dois dias: 3
Palavras: 58.593
Média de palavras por post: 488
Visitantes: 4.257
Média de visitantes por dia: 53
Tempo médio gasto por visita: 6 minutos e 40 segundos
Page views: 9.553
Média de page views por dia: 119
Média de page views por visitante: 2,24
Blogs que recomedaram o Carimbo: 57
Blogs que têm (ou tiveram) o Carimbo nas suas listas de recomendações: 52
Blogs que se referiram ao Carimbo: 67
Total de referências ao Carimbo: 140

Já que menciono as referências ao Carimbo, basta comparar os números que aqui apresento com os do Technorati para concluir que alguma coisa está errada. Talvez os números do Technorati não estejam correctos porque não contabilizam as referências que constam dos arquivos desaparecidos de diversos blogs (a opção "Republish Entire Site" do Blogger deve ser utilizada de vez em quando).

ANS

119 - MEDICAMENTOS


O Anarca Constipado está curado da constipação. O problema é que, como a constipação era crónica, deve ter sido curada à custa de doses massivas de medicamentos, o que deixou o Anarca completamente alucinado. É por isso que não se nota que o Anarca já não está constipado. Ainda bem que é assim.
O Pintainho também se deve ter enchido de medicamentos e, depois de ter estado às portas da "morte", finalmente piou. O problema é que ficou amnésico e esqueceu-se de todos os blogs que costumava acompanhar. Não faz mal, pelo menos está "vivo".

ANS