27 novembro 2003
141 – TERROR A ESMO
Desde o princípio do mês que queria voltar a escrever sobre o terrorismo. Tudo começou com a divulgação dos resultados de um inquérito efectuado em meados de Outubro para o Eurobarómetro. Nesta sondagem, com o título "O Iraque e a paz no mundo", foram inquiridos 7515 cidadãos de países da União Europeia. De acordo com o Público de 9 de Novembro, os inquiridos foram confrontados com uma lista de países, dos quais deveriam seleccionar aqueles que pensavam constituir uma "ameaça à paz no mundo". Israel, seleccionado por 59 % dos inquiridos, foi o país mais escolhido, seguindo-se o Irão, a Coreia do Norte e os EUA, os quais foram escolhidos por 53 % dos inquiridos. Apenas cerca de 30 % dos inquiridos escolheram a China e a Rússia.
Estes resultados já foram comentados por António Ribeiro Ferreira, num artigo publicado a 6 de Novembro no Diário de Notícias, e por Miguel Sousa Tavares (MST), num artigo publicado no dia seguinte no Público. MST assumiu que se identifica totalmente com os resultados do inquérito e que, portanto, concorda com a maioria dos europeus que encaram o terrorismo e os conflitos no Médio Oriente como uma consequência directa da ocupação israelita dos territórios palestinianos. MST foi mais longe e afirmou que já há vinte anos que pensa assim. Pois é. MST é mais um daqueles que já sabe a causa e a solução de todos os males desde há vinte anos. MST pede ainda desculpa por pensar que «se houver terceira guerra mundial, ela surgirá por causa de Israel e da sua continuada cegueira e tentação de resolver o problema palestiniano, não através de um qualquer acordo de paz, mas através [...] da "solução final" - do extermínio político, cívico e, se necessário, humano dos palestinianos». Pois é. Há vinte anos atrás, MST já pensava assim. Parece que MST se apercebeu do "perigo israelita" durante as invasões do Líbano, em 1978 (para garantir a segurança fronteiriça) e entre 1982 e 1985 (para eliminar as infraestruturas da ainda assumidamente terrorista OLP). Nessa altura, MST tinha trinta e poucos anos. Se MST fosse aí um vinte anos mais velho, talvez pudesse afirmar que já pensava assim desde 1948, quando a Liga Árabe iniciou a Guerra da Independência; ou desde 1951, quando o Egipto recusou o acesso israelita ao Canal do Suez e quando os palestinianos começaram a lançar ataques a partir da Faixa de Gaza e da Cisjordânia (o que levou à ocupação israelita destes territórios em 1956); ou desde 1965, quando a OLP/Fatah iniciou as suas actividades de guerrilha/terrorismo com o apoio do Egipto, da Síria e da Jordânia (o que conduziu, em 1967, à Guerra dos 6 Dias, da qual resultou a ocupação israelita da Península de Sinai, do que restava da Faixa de Gaza, dos Montes Golan, do leste de Jerusalém e do que restava da Cisjordânia); ou desde 1970, quando a OLP tentou assumir o poder na Jordânia; ou desde 1972, quando o Grupo Setembro Negro assassinou barbaramente 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique; ou desde 6 de Outubro de 1973 (feriado do Yom Kippur), quando a Síria e o Egipto organizaram um ataque simultâneo nos Montes Golan e na Faixa de Gaza, respectivamente; ou desde 1976, quando terroristas palestinianos sequestraram um Airbus da Air France com 98 judeus a bordo; ou desde 1981, quando o presidente egípcio Anwar Sadat foi assassinado depois de, menos de três anos antes, ter assinado os acordos de Camp David. Esta “pequena” lista de eventos ilustra bem o “perigo israelita”! De facto, MST tem razão. Se o Mundo quiser evitar a "terceira guerra mundial", apenas terá de impedir que Israel responda aos ataques militares ou terroristas que os palestinianos e alguns países árabes vizinhos têm vindo a perpetrar desde há mais de cinco décadas. Esta é, aliás, a atitude que MST esperaria de qualquer outro país do mundo. Aqueles que, como MST, advogam para Israel (e só para Israel) uma política santa como a de Jesus Cristo (“Amai os vossos inimigos. Se alguém vos bater, oferecei a outra face.”), estão na verdade a negar a legitimidade do Estado de Israel, a qual, recorde-se, foi reconhecida pelos próprios palestinianos, pela voz de Yasser Arafat, em 1988 (há menos de vinte anos). Porque será que MST e os que pensam como ele não advogam os mesmos princípios cristãos (que não seriam aplicados por nenhum Estado cristão) para os árabes e palestinianos que, segundo esses cristãos exemplares, têm toda a legitimidade em responder com ataques terroristas à opressão israelita?
MST acha que os acordos de paz só não resultam porque «Israel seguiu sempre a táctica leninista de um passo atrás, dois à frente. Primeiro, dá dois passos à frente, depois aceita recuar um. Com isso, leva os incautos, informados pela imprensa pró-israelita americana, a acreditar que Israel também está disposto a fazer concessões para a paz». Tem piada que MST se tenha referido apenas à imprensa pró-israelita americana. Será que não existe imprensa pró-israelita europeia? Pois é. Embora MST não concorde com a forma como António Ribeiro Ferreira cataloga a imprensa europeia, ele aceita (por omissão) que a maioria das notícias e comentários divulgados pela comunicação social europeia têm, de facto, um cariz "pacifista, anti-americano e anti-semita". Parece que MST se encontra entre os que ostentam aquilo a que o Público de ontem se referia como um visível anti-semitismo de esquerda que se mistura com o anti-americanismo como fundamento para uma teoria da conspiração (é uma verdadeira “kabbala”), segundo a qual os judeus constituem uma superpotência económica que controla os EUA e as suas políticas de domínio mundial.
MST acha que a política israelita das últimas quatro décadas se tem baseado em alargar as áreas ocupadas e em aumentar o número de colonatos instalados em território palestiniano, com um consequente aumento do número e da gravidade dos atentados cometidos contra os direitos humanos dos palestinianos. Para MST, esta é a razão do terrorismo, porque, «quando levados ao desespero e ao limite da humilhação», é natural que os adolescentes ou as jovens mulheres palestinianas se envolvam num cordão de granadas e se façam explodir num autocarro ou num café de Jerusalém. Para MST, isto é tudo lógico e natural. O que não é lógico nem natural é que Israel responda aos inocentes ataques terroristas. Não, para MST as respostas militares israelitas são uma violação dos acordos de Oslo e de qualquer esperança de paz. Para MST, os únicos terroristas são os israelitas e a prova é o assassinato de Yitzhak Rabin por um judeu ultra-ortodoxo, o qual foi imediatamente associado por MST à extrema-direita que agora está no poder em Israel.
Em primeiro lugar, acho que MST está enganado quando afirma que os judeus ultra-ortodoxos estão no poder em Israel. Ou muito me engano ou o Governo israelita é composto por uma coligação entre o Likud (partido conservador com 38 lugares no Knesset e que defende a existência do Estado da Palestina separado de Israel por um muro), o Shinui (partido secular centrista com 15 lugares no Knesset e que também defende o Estado da Palestina desde que os palestinianos recusem voltar a Israel), a União Nacional (coligação de três partidos de direita que recusam retirar dos territórios ocupados e que, no seu conjunto, ocupam 7 lugares no Knesset) e o Partido Nacional Religioso (partido religioso com 6 lugares no Knesset e que também recusa retirar dos territórios ocupados). Não me parece que este Governo seja extremista (80% dos seus membros defendem o Estado da Palestina). E não é, com certeza, mais extremista do que o anterior Governo de Unidade Nacional, onde apenas cerca de 60% dos seus membros defendiam o Estado palestiniano. Esse Governo era formado pelo Partido Trabalhista (partido que tinha 24 lugares no Knesset e que defende a retirada imediata dos territórios ocupados e a construção de um muro ao longo da “Linha Verde”, ou seja, das fronteiras existentes em 1967), pelo Likud (que tinha 19 lugares), pelo Shas (partido religioso ultra-ortodoxo que tinha 17 lugares no Knesset e que defende o aumento do número de colonatos), pela União Nacional (que tinha 7 lugares), pelo Yisrael Ba’alyia (partido associado aos imigrantes russos do centro-direita que tinha 4 lugares no Knesset e que defende, antes de mais, uma democratização da Palestina supervisionada por Israel e pelos EUA), pelo Am Ehad (partido de esquerda que tinha 2 lugares no Knesset e que, pasme-se, se opõe ao Estado Palestinano). Aliás, ao contrário do que aconteceu durante o anterior Governo de Unidade Nacional, onde não existiam partidos árabes no Knesset, na actual composição do Knesset têm assento três partidos árabes, os quais ocupam, no seu conjunto, 8 lugares. Será que isto seria possível num Estado árabe com uma minoria judaica? Claro que sim. Tenho a certeza que MST consegue identificar facilmente uma série de exemplos de tratamento democrático das minorias nos Estados árabes do Médio Oriente...
Em segundo lugar, MST parece esquecer-se que todas as ideologias e religiões têm seguidores fundamentalistas. Um desses fundamentalistas foi o assassino de Yitzhak Rabin e deve ser considerado apenas como um assassino e não como um terrorista. Ou será que o assassino do Rei D. Carlos I de Portugal era um terrorista? Ou será que o assassino de J. F. Kennedy era um terrorista? Ou será que os assassinos de Olof Palme e de Anna Lindh eram terroristas? Tanto o assassínio de políticos como o terrorismo contra alvos civis inocentes são crimes horrendos, mas são diferentes e não devem ser confundidos. De qualquer forma, MST é obrigado (pelos factos) a concordar que o principal culpado pelo insucesso dos acordos de Oslo foi Yasser Arafat «por não ter imposto esse acordo às várias fracções palestinianas». Mas claro que, para MST, isso foi apenas um desvio temporário e desculpável de Yasser Arafat nos seus inegáveis esforços pela paz. A Autoridade Palestiniana continua a não fazer nada para impedir a Intifada ou os ataques de grupos terroristas sediados em países árabes vizinhos, mas MST prefere condenar os «assassinatos selectivos, com a destruição das casas dos suspeitos de colaborarem com o Hamas ou a Jihad Islâmica». MST culpa Sharon e Shimon Peres (a quem apelida de «verdadeiro traidor dos ideais de Yitzhak Rabin») pela escalada de violência, pelo «isolamento e ocupação prolongada de povoações palestinianas» e pela «construção do muro» que, segundo ele, «substituiu a ideia inicial de separação física das duas comunidades por razões de segurança por uma oportunidade, mais uma, de redesenhar as fronteiras do Estado de Israel à custa de território palestiniano, desviando-se quando necessário do seu traçado original para englobar, dentro do território israelita, toda a miríade de colonatos constituídos à revelia dos acordos de Oslo e das resoluções da ONU». Talvez MST devesse culpar também os Estados árabes vizinhos que patrocinam o terrorismo com o objectivo de criar instabilidade na região. Essa instabilidade é, para esses países, o melhor disfarce para as suas ditaduras, para o seu fundamentalismo religioso e para o seu desrespeito pelos direitos humanos. Essa instabilidade (que esses Estados, tal como MST, associam ao "perigo israelita") é a melhor desculpa para se investir em mais armamento e para se continuar a roubar fundos estatais que seguem directamente para as fortunas pessoais dos governantes. É claro que esse armamento pode sempre ser usado como forma de pressão sobre outros países do Médio Oriente que produzem petróleo, os quais, por sua vez, têm de se armar para se defenderem. Com tudo isto, quem perde são as populações árabes. Tal como escrevi no post 21 do Carimbo, os únicos que têm uma visão global para o Médio Oriente são os israelitas e Shimon Peres é um dos que mais tem lutado por esse objectivo. Tal como ele descreve no seu livro O Novo Médio Oriente (1993), ele luta por uma efectiva cooperação entre Estados e povos, a qual deverá trazer desenvolvimento económico e humano. É muito importante para as populações do Médio Oriente que se invista numa utilização inteligente dos recursos do petróleo daquela região, garantindo (como sugere Shimon Peres) por exemplo uma equitativa distribuição de água e, portanto, de riqueza. MST acha que Shimon Peres não tem razão quando afirma que "o terror está condenado porque não traz quaisquer sinais de futuro, alimenta-se do ódio do passado". Para MST, é precisamente ao contrário: «o terror a que os palestinianos lançam mão alimenta-se do ódio do presente, causado pelo terror israelita, e subsiste exactamente porque não há, para os palestinianos, qualquer sinal de esperança no futuro». Então e o terror dos árabes dos países vizinhos? Também é provocado pelo “terror israelita”? O que é que leva um saudita, um iraquiano, um sírio, um libanês, um turco ou um iraniano a cometer um atentado suicida do qual pode até resultar a morte de compatriotas? Será pelo que sofreram às mãos dos israelitas? Mais uma vez, MST não tem sucesso na sua tentativa de desculpabilização do terrorismo. Esta é a via errada para resolver o problema pois só o agrava. Se os israelitas cedessem ao terrorismo, estariam a ceder a uma chantagem muito violenta e criariam um precedente para futuros ressurgimentos do terrorismo sempre que se verificasse um desentendimento político entre Israel e os vizinhos árabes (incluindo a Palestina).
Infelizmente, MST acha que devemos todos ceder às chantagens, por mais violentas e desumanas que estas sejam. Por isso é que MST insiste na tal “kabbala” e associa a política externa americana aos interesses israelitas. Para MST, a agenda para a política externa de Bush consistia em «apoiar Israel em qualquer circunstância e demitir-se de forçar qualquer acordo de paz no Médio Oriente; invadir o Iraque, ocupá-lo e exercer um direito de controlo sobre as suas reservas de petróleo, como salvaguarda perante uma eventual instabilidade declarada na Arábia Saudita; e levar até ao extremo necessário o confronto do Ocidente com o mundo árabe e muçulmano, sob pretexto de combate ao terrorismo, mesmo correndo o risco de o agravar». Volto a fazer a pergunta que já fiz no post 21 do Carimbo: será que se a Operação Tempestade no Deserto (1ª Guerra do Golfo, em 1991) tivesse sido continuada por uma segunda operação militar do género daquela a que estamos agora a assistir no Iraque, teria sido possível evitar o alastramento do fundamentalismo islâmico? Será que teria sido possível aplicar as ideias de Shimon Peres? Não nos esqueçamos que, nessa altura, a França e a Alemanha não teriam tido a possibilidade de inviabilizar uma decisão americana de ocupação do Iraque. Será que não dar sequência à Operação Tempestade no Deserto não foi uma oportunidade perdida por uma cedência de Bush (pai) à chantagem do terrorismo?
MST e Vital Moreira, entre outros, adoptam a solução mais fácil (e que, normalmente, não é solução) e defendem a cedência à chantagem do terrorismo, condenando a política americana e culpando-a pelos novos ataques terroristas. Para eles, os EUA foram os primeiros culpados do 11 de Setembro de 2001. Para eles, os EUA não têm feito o suficiente para pressionar Israel a ceder na questão do traçado do muro de segurança. Para eles, a tentativa de derrube da ditadura de Saddam Hussein, seguida de uma rápida transição para um governo iraquiano apoiado militarmente pelos EUA, é um mero pormenor. O que interessa é insistir em afirmar que os americanos estão a ocupar ilegalmente o Iraque (o que dá sempre a ideia de que a ocupação é definitiva) e que ainda não encontraram armas de destruição maciça. Esquecem-se que se a França e a Alemanha não tivessem criado tantos problemas aos americanos e não tivessem feito o jogo de Saddam Hussein e de Tarek Aziz, talvez os americanos pudessem ter entrado mais cedo no Iraque e talvez pudessem ter encontrado alguma coisa. Eu não desejo outra guerra no Médio Oriente, mas continuo a achar que o que está agora a acontecer relativamente ao programa nuclear iraniano é, de certa forma, parecido com o que aconteceu com o Iraque. Talvez o desfecho seja semelhante e talvez os líderes iranianos o saibam. Talvez por isso continuem a ser os principais patrocinadores do terrorismo na tentativa de chantagear (pelo medo) os europeus anti-americanos.
Como escreveu José Manuel Fernandes, seria melhor que se fizessem grandes manifestações contra o terrorismo. Seria melhor que se apoiasse o combate americano ao já incontrolável terrorismo antes que este se transforme num ainda mais incontrolável “terror a esmo”.
ANS
21 novembro 2003
140 – POSSO ASSOBIAR?
Não pude ver os últimos jogos de preparação da selecção nacional de futebol. Na verdade, mesmo que tivesse tido a possibilidade de ver esses jogos, não o teria feito porque, para mim, os únicos jogos de carácter amigável (ou particular) que interessam são aqueles que eu disputo com os meus amigos (e dos quais resulta invariavelmente pelo menos um jogador lesionado). No entanto, agora que a fase final do Euro2004 se aproxima, tenho mais interesse em ler os comentários que a imprensa não desportiva faz aos jogos da selecção. Tenho a curiosidade de saber se a selecção está preparada para a fase final. É mais do que uma simples curiosidade, é uma expectativa. É a mesma expectativa que devem ter as pessoas que foram ao Estádio Municipal de Aveiro para ver o jogo contra a selecção da Grécia. É uma expectativa frágil porque a memória da desilusão do Mundial de 2002 ainda está muito fresca. É uma expectativa tão frágil que assim que se notam algumas dificuldades no futebol praticado pela selecção nacional, imediatamente começam os protestos e os assobios. Deve ter sido isto que aconteceu em Aveiro.
Parece que alguns jogadores ainda não compreenderam isto e, por esse motivo, queixaram-se das injustiças cometidas pelos adeptos portugueses no jogo de sábado. Foi o que fizeram o Pauleta, o Figo e o Rui Costa. De acordo com a TSF, o Figo acha que «se as pessoas vão ao estádio é para apoiar a sua equipa» e que se não for assim, então mais vale disputar a fase final do Euro2004 noutro país. O Figo revelou ainda que os assobios do público talvez sejam apenas uma libertação do stress acumulado durante a semana de trabalho. Esta hipótese também foi defendida pelo seleccionador nacional Luiz Felipe Scolari, o qual particularizou o actual contexto económico e social como factores que agravam o stress. Hoje em dia, o futebol profissional é um sector importante da indústria do espectáculo, a qual vende à população formas de libertação do stress acumulado. Os profissionais da área do futebol entenderam bem esta situação. Mas se é assim, então os frequentadores dos estádios deveriam ser encarados como meros espectadores que pagam para assistir a um espectáculo e que têm uma legítima expectativa de qualidade. Se essa expectativa for satisfeita, o público responderá aplaudindo. Se, pelo contrário, a expectativa do público for defraudada, então este terá toda a legitimidade para protestar. Isto é completamente diferente de ir ao estádio apoiar uma equipa. Se o futebol é apenas um espectáculo, os espectadores não têm de ser necessariamente apoiantes de uma das equipas em campo. Por outro lado, o Figo tem razão quando afirma que as pessoas vão ao estádio para apoiar a sua equipa. O problema é que isso significa que afinal o futebol não pode ser encarado como um espectáculo com a inerente função social de entretenimento e alívio do stress. Quando eu vivia em Portugal, costumava ver todos os jogos do Sport Lisboa e Benfica no antigo Estádio da Luz. Muitas vezes o jogo do Benfica era tão mau que o melhor espectáculo acontecia nas bancadas com as reacções dos adeptos antes, durante e após o jogo. Estas reacções reflectiam um aumento nítido dos índices de stress dos espectadores. Pois é. Há muitos portugueses adeptos de futebol que andam preocupados com os efeitos da crise económica nas suas vidas, mas mesmo assim ainda conseguem poupar o suficiente para acompanharem as suas equipas nos estádios. Outros ainda conseguem poupar para assistir também aos jogos da selecção. Como bons adeptos, quando a selecção não joga bem ou não ganha, regressam a casa "stressados" e ainda têm de ouvir o Figo dizer-lhes que as dúvidas que eles têm sobre a capacidade do Estado de recuperar os cerca de trezentos milhões de euros (sessenta milhões de contos) que gastou em estádios novos (incluindo acessos directos e estacionamentos) para o Euro2004 são irrelevantes e que os jogadores portugueses, habituados a jogar no estrangeiro, talvez até preferissem disputar o Euro2004 longe do assobio crítico dos portugueses. Tal como fizeram na Coreia do Sul...
O Figo mostrou-se ainda muito preocupado com a estabilidade dos mais jovens jogadores da selecção, pelo que pediu que o assobiem a ele e não à selecção. O Figo já joga há alguns anos em Espanha e, por isso, já se deve ter esquecido das características dos adeptos portugueses. Infelizmente (ou talvez não), os adeptos portugueses nunca culpam os jogadores individualmente e raramente culpam a equipa. Os culpados das más exibições são sempre o treinador, o árbitro ou a relva. Há outros países onde os adeptos são mais exigentes e são capazes de passar anos a assobiar um jogador por um erro cometido num jogo da selecção. Estou a lembrar-me, por exemplo, de dois jogadores da selecção inglesa que foram alvo de discriminação por parte dos adeptos. Um deles foi Gareth Southgate por ter falhado um pontapé de grande penalidade, o que deu a vitória à selecção alemã (por 6-5) no desempate da meia-final do Euro96 (em Inglaterra). O outro jogador a sofrer a ira dos adeptos ingleses foi David Beckham por ter sido expulso num jogo dos oitavos-de-final do Mundial de 1998 (em França), no qual a selecção inglesa acabaria por ser derrotada pela sua congénere argentina. Também poderia escrever sobre Chris Waddle, Stuart Pearce e David Batty, mas creio que os dois exemplos referidos são suficientes para ilustrar o grau de exigência dos adeptos ingleses. Será que os adeptos portugueses deveriam ser assim?
O Rui Costa atribui os assobios à frustração do público português com os resultados dos seus clubes, mas esquece-se que este incidente aconteceu na cidade de Aveiro e que o clube mais importante desta cidade é o Beira-Mar, o qual está a fazer uma excelente carreira na presente edição da Super Liga. O Rui Costa também parece esquecer que a eventual frustração dos adeptos portugueses está muito diluída agora que mais de metade dos clubes que competem na Super Liga têm estádios novos. A não ser que a frustração esteja relacionada com o elevado preço dos bilhetes para os jogos nos novos estádios e com a constatação de que os jogos acontecem com os estádios meio cheios e com milhares de adeptos à porta depois de terem desperdiçado horas numa fila interminável para tentar comprar um simples bilhete. O Rui Costa ainda se lamentou pelo facto de o país entender as vitórias da selecção como conquistas nacionais, alheando-se das dificuldades dos jogadores quando as coisas não estão bem («somos a selecção nacional quando tudo corre bem e aqueles gajos quando as coisas não estão bem»). Penso que o Rui Costa está equivocado. Infelizmente, os portugueses adeptos de futebol não se alheiam das suas equipas nem da selecção nacional e é por isso que continuam a ir ver os jogos, a assobiar e a regressar a casa mais "stressados" do que estavam antes dos jogos.
O Pauleta foi mais sensato e, depois de tentar refrear a expectativa dos portugueses com uma boa dose de realismo («não somos os melhores [...], há quatro ou cinco selecções melhores do que nós [...]»), afirmou que não admite que as pessoas comecem a assobiar logo aos cinco minutos de jogo. Eu também acho que o público poderia ter esperado um pouco mais para fundamentar a sua crítica, até porque não nos devemos esquecer que a selecção grega terminou em primeiro lugar no seu grupo de apuramento para a fase final do Euro 2004, obrigando a selecção espanhola (que, tradicionalmente, cumpre as fases de apuramento sem dificuldades) a disputar os “play-offs” com a selecção da Noruega.
Depois dos assobios de sábado, veio de jogo de quarta-feira contra o Kuwait com uma vitória folgada da selecção portuguesa por 8-0. Desta vez ficaram todos contentes. Os adeptos aplaudiram em vez de assobiar e os jogadores portugueses mostraram que sabem fazer do futebol um verdadeiro espectáculo. Só têm de lhes arranjar os adversários certos. Espero que as selecções da França, da Suécia, da República Checa, da Itália, da Espanha, da Inglaterra, da Alemanha, da Holanda, da Croácia, da Rússia, da Dinamarca, da Bulgária, da Suíça, da Grécia e da Letónia se enquadrem no que os nossos jogadores e o universo de adeptos entendem por adversário apropriado.
ANS
16 novembro 2003
139 - CANÇÕES DE 1973 (XVIII)
Foi em 1973 que a banda Derek & The Dominos, da qual fazia parte Eric Clapton, lançou o álbum Derek & The Dominos Live At The Fillmore. Uma das canções deste álbum era Got To Get Better In A Little While, da autoria de Eric Clapton.
GOT TO GET BETTER IN A LITTLE WHILE
Don't you know what's wrong with me?
I'm seeing things I don't want to see.
Sniffing things that ain't no good for me.
I'm going down fast, won't you say a prayer for me?
It's got to get better in a little while.
It's got to get better in a little while.
It's got to get better in a little while.
It's got to get better in a little while.
The sun's got to shine on my guitar someday.
Revolution all across the land.
Just like Sly, you got to take a stand.
Please don't hurt nobody, don't knock them down;
Give them a helping hand to get off the ground.
[Chorus]
Bridge
Still one thing that you can do;
Fall down on your knees and pray.
I know the Lord's gonna answer you.
Don't do it tomorrow, do it today.
[Chorus]
By Eric Clapton
ANS
14 novembro 2003
138 - DIA NACIONAL DA LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA
No dia 4 de Outubro, o Rui, do blog 3tesas não pagam dívidas, enviou um e-mail para diversos bloggers, entre os quais me incluía. Nesse e-mail, o Rui reproduzia o seu post com o título "O forro da gaiola dos hamsters, ou como fazer cair uma reclamação em saco roto". Esse post chamava a atenção para a insistência de alguns jornalistas do Expresso em utilizarem a expressão surdo-mudo para designar as pessoas que sofrem de surdez profunda desde a nascença ou desde uma idade muito jovem. Confesso que também me senti incomodado com essa forma de tratamento quando li a notícia do Expresso sobre o Café des Signes, mas penso que esse não é um motivo suficiente para deixar de saudar a sua publicação.
Este artigo descrevia um novo café de Paris, o Café des Signes, no qual, aparentemente, apenas trabalham pessoas com deficiências auditivas. Acho esta ideia brilhante porque constitui uma excelente forma de chamar a atenção para as dificuldades que a nossa sociedade coloca à integração dos surdos. De facto, para os clientes ouvintes, ir àquele café será como ir a um café no estrangeiro. Terão de se adaptar à língua gestual utilizada pelos empregados para fazerem os seus pedidos. Não me admiraria se muitos desses clientes saíssem do café com o desejo de aprender a língua gestual. Segundo o Público de hoje, já existem muitos jovens ouvintes portugueses com este desejo. Acho muito bem porque, embora a língua gestual não seja fundamental para uma conversa entre um surdo e um ouvinte, ela pode adquirir esse estatuto quando a conversa acontece entre um ouvinte (ou mais) e alguns surdos ou mesmo apenas entre surdos. É por isso que estranhei o facto de apenas se verem mesas rectangulares na fotografia que ilustrava o artigo online do Expresso sobre o Café des Signes. Esta geometria não favorece o diálogo em língua gestual. Na verdade, as mesas rectangulares não favorecem o diálogo em nenhuma língua, mas imagino que as dificuldades criadas sejam maiores quando a conversa decorre em língua gestual.
Amanhã é o dia nacional da Língua Gestual Portuguesa (LGP). Segundo o Público, a Associação Portuguesa de Surdos pretende assinalar o evento chamando a atenção para os problemas dos estudantes surdos que frequentam as escolas regulares portuguesas. Nestas escolas não é feita a tradução do português falado pelo professor para a LGP entendida pelo estudante surdo, o qual fica assim em desvantagem perante os alunos ouvintes.
Eu concordo com a existência de tradução para LGP nas escolas, mas acho que deve existir algum cuidado para não transformar esta língua na única língua dos surdos. Não nos devemos esquecer da importância da oralização dos surdos. Os surdos oralizados têm muito mais garantias de uma integração com sucesso na nossa sociedade. A prova desta afirmação reside em todos os casos de sucesso de pessoas que, tendo nascido com surdez profunda, hoje são capazes de comunicar oralmente, falando como os ouvintes (embora com algumas dificuldades compreensíveis) e entendendo o outro por leitura labial. Parece-me que se a LGP for encarada como a forma mais importante de comunicação dos surdos com a sociedade ouvinte, corre-se o risco de dificultar a integração dos surdos nessa mesma sociedade. Ainda que existam muitas pessoas ouvintes com desejo de aprender a LGP, a grande maioria da população nunca conhecerá essa língua. Como é que essa parte da população "falará" com os surdos?
De vez em quando assisto à repetição nocturna do See Hear (um programa da BBC sobre surdos e ouvintes e dirigido a surdos e ouvintes). Nesse programa é utilizada a linguagem gestual em simultâneo com tradução oral ou escrita (legendas). Numa das emissões desse programa, ocorreu um debate em BSL (British Sign Language) sobre a existência de intérpretes em todos os programas da BBC. Alguns dos participantes defendiam a sua existência. Outros afirmavam que era mais importante a existência de legendas porque, uma vez que existem vários tipos de língua gestual (BSL, ASL - American Sign Language, SEE - Signing Exact English, etc...), a escrita surge como uma forma de comunicação entendida por todos. No fim, todos concordaram que as legendas eram úteis, mas apenas quando não fosse possível ler nos lábios do orador. Ou seja, os próprios surdos atribuem uma enorme importância à comunicação oral.
Como conclusão aqui fica a hiperligação para o manifesto dos surdos oralizados brasileiros.
A título de curiosidade, refiro ainda uma outra emissão do See Hear, na qual se salientava a importância da língua gestual, associada à linguagem corporal, como forma de tradução da música. Eu já sabia que os surdos, tal como os ouvintes, eram capazes de sentir o som no corpo. Isso acontece para níveis sonoros muito elevados a frequências muito baixas (200 Hz: pernas; 12,5 a 16 Hz: peito; 10 Hz: peito e abdómen; 8 Hz: ouvido, peito e nádegas). Mas nunca supus que os surdos fossem capazes de traduzir melodias de uma forma tão clara. Foi uma surpresa quando vi aquele Deaf Idol (era mesmo assim que se chamava o concurso) com excelentes interpretações dos ABBA e de Michael Jackson, entre outros.
ANS
137 - O TESTE
Já vi resultados do teste do Ludwig Von Mises Institute publicados em diversos blogs. Este teste permite-nos averiguar qual é a teoria económica com que mais nos identificamos. O teste consiste em vinte cinco perguntas, para cada uma das quais existem quatro respostas possíveis. Essas respostas correspondem a quatro teorias fundamentais: a Escola de Viena, a Escola de Chicago (ou Neoclássica), a Escola Neo-Keynesiana (que é diferente da Escola Keynesiana de Cambridge) e, finalmente, o sistema Socialista.
Fiquei curioso e também fiz o teste. Sem surpresa, o resultado colocou-me alinhado com a Escola de Chicago. De facto, obtive 53 pontos (em 100 possíveis) distribuídos por 5 respostas típicas da Escola de Viena, 13 respostas típicas da Escola de Chicago e 7 respostas típicas da Escola Neo-Keynesiana. Ficaria muito surpreendido (e assustado) se alguma das respostas fosse considerada tipicamente socialista. Também me surpreenderia se os resultados do teste me colocassem alinhado com o total laissez-faire da Escola Austríaca.
ANS
13 novembro 2003
136 - CANÇÕES DE 1973 (XVII)
Em 1973, quatro anos antes da sua morte, Elvis Presley lançou o single Separate Ways, no qual se incluíam as canções Separate Ways e Always On My Mind. Existe uma versão anterior desta última canção, a qual foi gravada em 1972 por Brenda Lee. No entanto, a versão que aqui se apresenta é a de Elvis Presley:
ALWAYS ON MY MIND
Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You were always on my mind
Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times
And I guess I never told you
I'm so happy that you're mine
If I make you feel second best
Girl, I'm so sorry I was blind
You were always on my mind
You were always on my mind
Tell me, tell me that your sweet love hasn't died
Give me, give me one more chance
To keep you satisfied, satisfied
Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind
You are always on my mind
You are always on my mind
Maybe I didn't treat you
Quite as good as I should have
Maybe I didn't love you
Quite as often as I could have
Maybe I didn't hold you
All those lonely, lonely times
By Wayne Thompson, Mark James, Johnny Christopher
ANS
12 novembro 2003
135 - SÃO MARTINHO
Há alguns meses atrás (no Verão), Carlos Cruz presenteou os portugueses com estas afirmações: «Gosto de saber que este ano há Verão de São Martinho em Novembro. Alguém irá à prova da água-pé fazer novos amigos.»
Não estou em Portugal e, por isso, só posso confirmar o estado do tempo através das informações do Instituto de Meteorologia. Segundo essas informações, parece-me que afinal este ano não houve Verão de São Martinho. No entanto, o tempo também não está mau, pelo que é provável que a tal prova da água-pé se tenha realizado (ontem nalguma festa de São Martinho). Como ontem e hoje não surgiram notícias sobre o processo da Casa Pia que pudessem ser associadas às afirmações de Carlos Cruz, talvez estas não se referissem a esse processo. Ou será que Carlos Cruz se estava a referir aos arguidos do processo Casa Pia que estiveram em prisão preventiva durante todo o Verão e que foram entretanto libertados a tempo de gozarem o Verão de São Martinho? Talvez esteja na altura de Carlos Cruz revelar quem é esse "alguém" que terá feito "novos amigos" através dessa "prova da água-pé".
Estava à espera que Ana Gomes agisse relativamente a este assunto da mesma forma que o fez relativamente ao artigo da Le Point, vindo exigir publicamente uma investigação profunda das misteriosas afirmações de Carlos Cruz. Como não o fez, parece que Ana Gomes aprendeu a lição que recebeu dos seus "camaradas" de partido. Ainda bem. Agora só falta que "alguém" venha dar uma lição sobre o combate ao populismo a todo o Partido Socialista (começando por Ana Gomes e terminando no secretário-geral do partido). De facto, as recentes declarações do PS relativamente ao envio de um contingente de tropas da GNR para o Iraque são um exemplo da forma populista como este partido encara o seu escasso trabalho de oposição.
ANS
134 - UMA AGRADÁVEL ATITUDE NARCISISTA
Sei que se trata de uma evidência de narcisismo, mas gosto muito de ler opiniões que são coincidentes com as minhas. Foi o que aconteceu hoje quando li a entrevista a Paulo Teixeira Pinto (PTP) revelada pela TSF. As opiniões de PTP vêm reforçar as minhas próprias opiniões sobre a proposta de Tratado de Constituição para a Europa, as quais podem ser lidas no post 121 do Carimbo.
Também gostei de ler o editorial do Diário de Notícias de hoje, o qual reforça o que escrevi no post 132 do Carimbo relativamente à necessidade de informar a população quanto ao conteúdo do Tratado de Constituição Europeia em discussão na Conferência Intergovernamental. Aproveito para lembrar e saudar o esforço que o Diário de Notícias já fez nesse sentido através da publicação de pequenas fichas informativas. Foi um esforço, mas é preciso mais.
Lembro que também gosto muito de ler opiniões (bem fundamentadas) que são contrárias às minhas. É pena que, no que se refere ao Tratado proposto pela Convenção Europeia, essas opiniões não apareçam. Assim não é possível debater nada...
ANS
11 novembro 2003
133 - CANÇÕES DE 1973 (XVI)
Um dos cantores com mais sucesso no ano de 1973 foi Elton John. A causa desse sucesso foram as canções Crocodile Rock e Daniel. Estas canções surgiram com o álbum Don't Shoot Me, I'm Only The Piano Player, o qual, embora tenha sido lançado em 1973, foi gravado um ano antes. Outro álbum lançado em 1973 (cujas canções foram gravadas nesse mesmo ano) foi o Goodbye Wellow Brick Road, do qual se destacam as canções Goodbye Yellow Brick Road e Candle In The Wind. Esta última canção viria a conhecer duas novas versões, sendo a última um tributo à Princesa Diana lançado, em 1997, num single que foi o mais vendido de todos os tempos.
CANDLE IN THE WIND
Goodbye Norma Jean
Though I never knew you at all
You had the grace to hold yourself
While those around you crawled
They crawled out of the woodwork
And they whispered into your brain
They set you on the treadmill
And they made you change your name
And it seems to me you lived your life
Like a candle in the wind
Never knowing who to cling to
When the rain set in
And I would have liked to have known you
But I was just a kid
Your candle burned out long before
Your legend ever did
Loneliness was tough
The toughest role you ever played
Hollywood created a superstar
And pain was the price you paid
Even when you died
Oh the press still hounded you
All the papers had to say
Was that Marilyn was found in the nude
Goodbye Norma Jean
From the young man in the 22nd row
Who sees you as something as more than sexual
More than just our Marilyn Monroe
Lyrics by Bernie Taupin
ANS
10 novembro 2003
132 - SERÁ QUE O REFERENDO É MESMO ÚTIL?
No dia 6 de Outubro, escrevi (no post 112 do Carimbo), que era (e continua a ser) urgente informar a população portuguesa sobre o conteúdo da proposta do Tratado de Constituição para a Europa que se encontra actualmente em discussão na Conferência Intergovernamental (CIG). Só com base numa campanha de informação será possível promover um debate sério sobre este tema. Só assim os portugueses poderão afirmar, com legitimidade, que desejam referendar esta questão. Só assim se evitam os paradoxos como os divulgados hoje pelo Público, onde é revelado que, embora 54 % da população portuguesa desconheça totalmente o que está em discussão na CIG, 90 % dos portugueses consideram ser útil realizar o tal referendo. Se a amostra que foi utilizada para esta sondagem for mesmo representativa da população nacional, então os resultados de um eventual referendo não terão qualquer significado. Nesse caso, será preferível não avançar para o referendo.
É por esta razão, associada ao receio que o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Socialista (PS) revelam face a uma eventual vitória do “não”, que muitos acreditam que não haverá qualquer referendo. Porém, já todos os partidos com assento na Assembleia da República manifestaram o seu apoio (nem sempre sincero) à realização do referendo. Agora que se sabe que uma enorme maioria da população deseja o referendo, não vejo como conseguirão o PSD e o PS evitar a sua realização. A revisão da Constituição da República Portuguesa não é fundamental para a realização do referendo, desde que este incida apenas sobre questões concretas do eventual Tratado Constitucional. A questão da data do referendo também é de fácil resolução. Se excluirmos as semanas de campanha para as eleições para o Parlamento Europeu e o dia das eleições, ainda sobram muitos dias possíveis para fazer o referendo. Por estes motivos, os eventuais atrasos na revisão constitucional não servirão como desculpa para não realizar o referendo. Aliás, como escreveu Vital Moreira, na eventualidade de uma vitória do “sim”, será necessária outra revisão constitucional para permitir a ratificação do Tratado Constitucional (que deverá instituir a primazia interna do direito europeu).
Vital Moreira tem defendido a realização do referendo após a conclusão da CIG. O Presidente da República, embora nunca se tenha referido ao referendo, parece concordar com Vital Moreira e vai afirmando que só faz sentido discutir o Tratado que resultar da CIG.
Se, por um lado, concordo com Jorge Sampaio, por outro lado, parece-me que o Tratado proposto pela Convenção Europeia não será muito alterado na CIG, pelo que não seria desperdiçado o tempo gasto a debater o assunto enquanto esta decorre. Porque não começar já a informar a população para que esta esteja em condições de discutir o tema quando a CIG terminar?
Já se perdeu muito tempo. As campanhas de informação e o debate sobre as matérias do Tratado Constitucional já deveriam ter começado há muito tempo (os trabalhos da Convenção Europeia terminaram em Julho deste ano). Se isso tivesse sido feito, teria sido possível referendar questões concretas do Projecto de Tratado Constitucional agora em discussão na CIG. Os resultados desse referendo dariam a Portugal mais poder de negociação na CIG. Jorge Miranda acredita que isto ainda poderia ser conseguido se o referendo fosse feito já. Duvido. Não houve nem informação nem o subsequente debate, pelo que os resultados do referendo seriam de difícil interpretação (ainda que se tratassem apenas de questões concretas sobre a proposta de Tratado Constitucional).
Eu gostaria que houvesse referendo, mas como penso que acontece com Esther Mucznik, gostaria ainda mais de saber que os portugueses entendem como funciona a sua cidadania europeia (com ou sem Tratado de Constituição).
ANS
131 - PONTUALIDADE
Na passada quarta-feira, eu avisei que estava de volta à blogosfera. Entretanto, passaram mais quatro dias sem qualquer post novo no Carimbo. Isto significa que o post de quarta-feira deve ser encarado da mesma forma que aqueles telefonemas de pessoas que, quando estão atrasadas para um compromisso, telefonam a avisar que já estão mesmo a chegar e se esquecem de dizer que vão levar mais trinta minutos.
Infelizmente, eu sou uma dessas pessoas. Por mais que tente corrigir este defeito, os meus dias continuam a ser uma acumulação de atrasos. Quando vim viver para Inglaterra, já estava avisado da famosa pontualidade britânica. Pensei que seria obrigado a alterar os meus hábitos, mas estava enganado. Como já comentei em posts anteriores, os ingleses são tão pontuais como os portugueses. Mas como não há regra sem excepção, aqui vos deixo um episódio interessante. Há cerca de um ano atrás, um colega prometeu-me uma boleia para uma conferência em Manchester. Combinámos um ponto de encontro em Liverpool, onde deveríamos aparecer às sete horas da manhã. No dia combinado, quando cheguei ao ponto de encontro, tive a “agradável” surpresa de ver o carro do meu colega a afastar-se do local. Olhei para o relógio e este marcava sete horas e quarenta e cinco segundos. Será que os promotores da petição para a pontualidade teriam a coragem de agir assim?
ANS
05 novembro 2003
130 - MAIS AGRADECIMENTOS X
Regressei ontem a Liverpool e agora regresso à blogosfera. Depois deste "interregno", penso que um post de agradecimentos constitui a melhor forma de reiniciar a actividade bloguística. Peço apenas aos interessados que me desculpem pelo enorme atraso destes merecidos agradecimentos.
Em primeiro lugar, agradeço a João Carvalho Fernandes por ter colocado O Carimbo na secção "Os Imprescindíveis do Momento" do Fumaças durante o dia 13 de Outubro. Terá sido por causa da canção dos Eagles (post 123 do Carimbo) ou por causa de algum post anterior?
Também agradeço a Nélson Faria, do Veto Político, por ter recomendado a leitura do post 125 do Carimbo.
Agradeço ainda aos blogs Abaixo de Cão, A falar para o Boneco, Ai Jasus!, A Monarquia Portuguesa (relatada por um jovem de treze anos de idade), Analiticamente Incorrecto, Blog@Uni, Encapuzado Extrovertido, Janela para o Rio PT, Memória Virtual, Mephistopheles, Pensativa, Pessoal "in" Transmissível, O Projecto e Substrato por terem colocado O Carimbo nas suas listas de blogs recomendados.
Aproveito para registar os agradecimentos que os blogs AAANumberOne, A falar para o Boneco, Memória Virtual, O Bugue e The Amazing Trout Blog endereçaram ao Carimbo. No entanto, lembro que as referências do Carimbo a estes blogs foram mais do que merecidas e, por esse motivo, não careciam de agradecimento.
ANS
17 outubro 2003
129 - AMBIENTE DE FESTA
Hoje, ao fim da tarde, voarei para Lisboa. Ficarei em Portugal durante as próximas duas semanas. Infelizmente, não poderei assistir ao jogo de inauguração do Estádio da Luz (não quis obrigar ninguém a ir para aquelas filas intermináveis só para comprar um bilhete). Não faz mal. Assistirei, com certeza, ao próximo jogo a contar para a Super Liga.
Espero que o novo estádio contribua para a melhoria do espectáculo, fora e dentro do campo (por esta ordem). Espero que as claques benfiquistas estejam mais activas do que é habitual no apoio à equipa. Espero encontrar um ambiente de festa. Espero que exista segurança. Espero que seja vedada a entrada aos três indivíduos dos No Name Boys que, depois de terem sido apanhados na posse de armas, explosivos e droga, foram apenas sujeitos a termo de identidade e residência, ficando a aguardar o seu julgamento em liberdade. Espero que isto não volte a acontecer. Se estes indivíduos não são perigosos, então ninguém o é!
ANS
128 - ANFIELD ROAD OU PENNY LANE?
Na quarta-feira fui, mais uma vez, ao estádio do Liverpool Football Club (LFC), em Anfield Road. Fui assistir ao encontro entre este clube e o NK Olimpija Ljubljana (NKOL). O jogo terminou com uma vitória fácil dos “Reds” por 3-0, existindo pouco para contar além de algumas excelentes defesas do guarda-redes da equipa eslovena. O jogo decorreu, em ambas as partes, junto à área do NKOL, o que, para mim, foi conveniente. É que eu estava na chamada Main Stand do estádio do LFC, onde existem quatro pilares que suportam a cobertura e que não permitem que os espectadores sentados no seu enfiamento vejam a totalidade do campo. No meu caso, a parte escondida era precisamente a zona do meio campo.
Na última vez que tinha estado neste estádio assisti ao jogo a partir da Kop, a qual se situa atrás de uma das balizas e, por esse motivo, não oferece uma boa visibilidade da baliza oposta. No entanto, a Kop (que se distingue pelas enormes letras “LFC” que, quando o estádio está vazio, sobressaem do fundo de cadeiras vermelhas) é uma bancada exclusiva dos adeptos caseiros, os quais criam sempre um ambiente fantástico e convidativo. É por isso que a Kop é tão conhecida. Se nunca ouviram falar da Kop, vejam (ou revejam) o filme The 51st State, com Samuel L. Jackson no papel do “escocês” Elmo McElroy e Robert Carlyle no papel de Felix DeSouza (um scouser fanático pelo LFC).
A dedicação dos adeptos deste clube é, de facto, incrível. A forma como apoiam sempre a sua equipa e como, em simultâneo, tentam moralizar cada jogador é exemplar. O jogo de quarta-feira, apesar do empate a uma bola no jogo da primeira mão, era considerado como uma tarefa simples para os futebolistas do LFC. Mesmo assim, com os seus níveis de entusiasmo relativamente baixos, os adeptos do LFC entoaram uma série de cânticos e não se cansaram de comentar as jogadas da sua equipa. A expressão “Well dsone!” foi uma das que mais se ouviu. Esta expressão revela que a equipa jogou bem e que os adeptos eram scousers (post 124 do Carimbo).
À saída do estádio (por volta das dez horas da noite) tive outra demonstração da dedicação dos adeptos, os quais formaram um fila enorme em frente à loja do clube (que estava cheia). A minha surpresa ainda foi maior quando constatei que a maioria desses adeptos já vestia camisolas, cachecóis e chapéus do LFC. O que iriam eles comprar?
Ontem, li num jornal local que estão a decorrer negociações com vista à construção de um novo estádio na cidade. Este estádio ficaria do outro lado da cidade, junto a Sefton Park, num dos extremos de Penny Lane (lembram-se da canção dos Beatles?), e seria utilizado pelo LFC e pelo Everton Football Club. Isto significaria o fim da Kop, o que seria uma pena. Por outro lado, o novo estádio deverá permitir aos espectadores uma visibilidade adequada do campo (desde que não coloquem cadeiras atrás do ecrã gigante...). Outra vantagem do novo estádio será a sua localização. Os turistas que vierem a Liverpool não deixarão de aproveitar para ver Penny Lane e o estádio dos maiores clubes da cidade. Já estou a imaginar as filas à porta das lojas do estádio. Penny Lane ficará um pouco diferente da descrição que os Beatles nos deixaram:
PENNY LANE
In Penny Lane there is a barber showing photographs
Of every head he's had the pleasure to know
And all the people that come and go
Stop and say hello
On the corner is a banker with a motorcar
The little children laugh at him behind his back
And the banker never wears a mack
In the pouring rain, very strange
Penny Lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit, and meanwhile back
In Penny Lane there is a fireman with an hourglass
And in his pocket is a portrait of the queen
He likes to keep his fire engine clean
It's a clean machine
Penny Lane is in my ears and in my eyes
A four of fish and finger pies
In summer, meanwhile back
Behind the shelter in the middle of a roundabout
The pretty nurse is selling poppies from a tray
And though she feels as if she's in a play
She is anyway
In Penny Lane the barber shaves another customer
We see the banker sitting waiting for a trim
And then the fireman rushes in
From the pouring rain, very strange
Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit, and meanwhile back
Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny Lane
By John Lennon and Paul McCartney
ANS
127 - CANÇÕES DE 1973 (XV)
Foi no ano de 1973 que os Electric Light Orchestra lançaram o álbum On The Third Day, do qual se destacam as canções Ma-Ma-Ma Belle e, principalmente, Showdown. Há quem acredite que foi esta canção, cuja letra é aqui reproduzida, que lançou a carreira desta banda até ao final dos anos setenta.
SHOWDOWN
She cried to the southern wind
About a love that was sure to end
Every dream in her heart was gone
Headin' for a showdown
Bad dreamer, what's your name
Looks like we're ridin' on the same train
Looks as though there'll be more pain
There's gonna be a Showdown
And it's rainin' all over the world
It's raining all over the world
Tonight, the longest night
She came to me like a friend
She blew in on a southern wind
Now my heart is turned to stone again
There's gonna be a Showdown
Save me, oh save me
It's unreal, the suffering
There's gonna be a Showdown
And it's rainin' all over the world
It's raining all over the world
Tonight, the longest night
By the ELO
ANS
15 outubro 2003
126 - COERÊNCIA
De acordo com o Público, Durão Barroso anunciou, ontem, que o Orçamento do Estado (OE) para 2004 terá como meta um défice nominal máximo de 2,8 % do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com a RTP, o OE para 2004 deverá assentar, em parte, no crescimento da actividade económica, o qual se deve situar entre 0,5 % e 1,5 %, após um ano (2003) que se estima vir a ser de recessão. Convém lembrar que, de acordo com as previsões da OCDE, de Abril do corrente ano, o PIB português deveria crescer 0,3 % em 2003 e 2,3% em 2004.
Esta situação de discrepância entre os valores apresentados pelo Governo e os valores apresentados pela OCDE é bem diferente da que ocorreu no ano passado. Recordo que segundo os valores apresentados, em Novembro de 2002, pela OCDE, o crescimento do PIB deveria situar-se em cerca de 2,5 % em 2003. No ano passado, o Governo foi muito menos prudente do que este ano e apresentou no OE uma estimativa de crescimento do PIB entre 1,25 e 2,25 % (valor máximo próximo do previsto pela OCDE). O mesmo OE estabelecia o valor de 2,4 % do PIB como meta para o défice orçamental. Já este ano, o défice orçamental foi revisto em alta para os famosos 2,9447 % do PIB.
Será que o Governo está, este ano, a revelar mais prudência ou será mesmo falta de confiança na recuperação da economia? Embora ambas as leituras sejam possíveis, o Governo tem afirmado repetidamente que 2004 será o ano da recuperação. Se é assim, então a estimativa do Governo para o crescimento do PIB parece realista e prudente. Por outro lado, o objectivo para o défice orçamental parece muito arriscado. Se acontecer o mesmo que aconteceu este ano, o Governo não terá margem de manobra. Se, pelo contrário, a execução orçamental não se desviar do estimado, um défice de 2,8 % ainda é muito alto para quem defende que se deve poupar quando a economia cresce para que seja possível estimulá-la quando esta se retrai. Espero que não se esqueçam que o objectivo a médio prazo é o défice orçamental nulo. É que, mesmo que a recuperação económica se verifique, nada garante que o crescimento não será efémero.
ANS
125 – A TALENTOSA MISS RIPLEY E A IMAGEM DE PORTUGAL
Está toda a gente escandalizada com o artigo da edição europeia da Time sobre as “meninas” de Bragança. O facto de Portugal aparecer na capa dessa revista pelos piores motivos parece envergonhar toda a gente . Deve ser impressão minha, mas não me pareceu que este assunto fosse motivo de vergonha quando a notícia foi divulgada pelos jornais e revistas nacionais. Como sempre, o que vem de fora é que conta (artigo da Le Point sobre a pedofilia). Infelizmente, conta mal.
O artigo da Time é muito fraco e revela uma qualidade de jornalismo que, de facto, não justifica que o Governo português ali invista em publicidade para o Euro 2004. O artigo começa por revelar que Bragança representa uma parte (aparentemente importante) de um negócio total de 50 mil milhões de dólares, o qual consiste na utilização de Portugal como porta de entrada de centenas de milhares de mulheres brasileiras no mercado europeu da prostituição. Eu sabia que o negócio da prostituição, como qualquer negócio ilegal, era lucrativo, mas nunca imaginei que pudesse atingir 40 % do Produto Interno Bruto nacional (só no que diz respeito às prostitutas de origem brasileira!). Quanto às centenas de milhares de mulheres brasileiras que entram em Portugal para o negócio da prostituição, parece-me que a Sr.ª Amanda Ripley (autora do artigo da Time) volta a exagerar descaradamente. A população estrangeira residente em Portugal atinge um valor total de cerca de 390.000 habitantes, dos quais cerca de 50.000 são brasileiros. Mesmo quando se contabiliza a imigração ilegal oriunda do Brasil, obtém-se, de acordo com as estimativas mais recentes, um valor de 80.000 brasileiros residentes em Portugal. Acreditando nos valores apresentados pelo artigo da Time para o rendimento médio de uma prostituta brasileira de Bragança, seriam necessárias cerca de 800.000 prostitutas para manter um negócio de 50 mil milhões de dólares.
De acordo com a Time, em Bragança, o negócio da prostituição é suportado por sete clubes de strip e vários bordéis (são tantos que o artigo os define como “incontáveis”). Ainda de acordo com a Time, Bragança deve ser uma das capitais europeias do sexo, do bem-estar económico e da insatisfação sexual no matrimónio. É por isso que têm ocorrido tantos divórcios naquele concelho do país. O concelho de Bragança tem uma população de cerca de 34.750 habitantes, dividida em cerca de 16.750 homens e 18.000 mulheres, das quais 12.750 são casadas. Em 2001, a taxa de divórcios neste concelho era de 1,7 por cada mil habitantes, o que correspondeu a cerca de 60 divórcios num universo de 12.750 famílias. É possível que a taxa de divórcios tenha crescido muito, mas daí a associar a generalidade dos divórcios ao aumento da prostituição em Bragança vai uma distância enormíssima. A população nacional é, actualmente, de cerca de 10.320.000 habitantes. Se, de acordo com a Sr.ª Amanda Ripley, existem cerca de 800.000 prostitutas em Portugal (residentes ou de passagem), assumindo uma distribuição de prostitutas proporcional à população de cada concelho do país, existiriam em Bragança cerca de 2.700 prostitutas, ou seja, uma prostituta para cada 6,2 homens. No entanto, Bragança é uma das capitais europeias do sexo, pelo que a concentração de prostitutas por habitante deve ser ainda maior! Por este andar, devem existir, em Bragança, mais prostitutas do que homens. Se assim for, concordo com a Sr.ª Paula (nome fictício da esposa traída cuja história é contada no artigo). Trata-se, efectivamente, de concorrência desleal com as “mães de Bragança”. Já agora, se o número de bordéis em Bragança é incontável, como é que a Sr.ª Paula conseguia sempre encontrar o seu marido quando ele se atrasava? Admitamos que não devia ser uma tarefa fácil para quem andava a pé e com a filha ao colo.
Espero que este artigo da Time sirva de lição (mais uma) aos jornalistas nacionais. Os jornais mais importantes do país (e a televisão) não devem fazer tanto eco das notícias de âmbito local, as quais devem ser deixadas aos jornais regionais. São estes jornais que, juntamente com as populações, devem pressionar as autarquias para resolver os problemas locais. Os jornais de grande tiragem devem focar problemas de âmbito nacional ou, quando muito, relativos às grandes cidades do país. Desta forma, estas notícias (que não representam o país) não são constantemente oferecidas à imprensa estrangeira. Isto não significa que as más notícias devem ser escondidas. As notícias devem ser todas reveladas, nos locais próprios e com a seriedade devida. No entanto, devemos resistir à tentação de nos vermos sempre como os desgraçadinhos da Europa, onde tudo o que é mau acontece. Isso não é verdade. Não consigo esconder a minha irritação perante esta forma de ser português. Os britânicos, os alemães, os franceses e os espanhóis, por exemplo, não são assim. Em todos estes países vi sinais de pobreza extrema. Em todos eles vi prostituição nas ruas. Em todos eles vi droga a circular. Em todos eles vi violência nas ruas. No preciso momento em que escrevo estas linhas, basta-me assomar à janela para ver algumas prostitutas que, enquanto esperam pelos seus clientes, vão discutindo com os respectivos proxenetas. Na rua onde vivo, a dez minutos a pé do centro de Liverpool, o som de carros e helicópteros da polícia é frequente. Acreditem que nunca vi qualquer notícia sobre isto nos grandes jornais britânicos ou na televisão. No entanto, trata-se de um assunto amplamente discutido nos jornais locais. Pelo contrário, as notícias que surgem sobre países pequenos, como Portugal, são sempre más ou tristemente caricatas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com uma reportagem sobre a adesão à moeda única, com uma reportagem sobre o aborto e com outra sobre o turismo. Nestas três reportagens, Portugal foi apresentado com um país de bairros de lata, como se nada mais existisse. Por outro lado, as reportagens sobre o Reino Unido, a Alemanha, a França e até a Espanha, mostram, na grande maioria das vezes, países muito desenvolvidos, como se a pobreza, a droga e a prostituição não existissem. Na televisão portuguesa podemos ver publicidade ao turismo noutros países. Aqui em Inglaterra, também vejo esse tipo de publicidade, mas Portugal nunca aparece. Porque razão está o Governo a promover (só agora...) o Euro 2004 em revistas conceituadas, quando poderia promover o país (independentemente da realização do campeonato europeu de futebol) ao longo de todo o ano em canais de televisão? Por exemplo, a Grécia, a Croácia e o Egipto, entre outros, recorrem à CNN para a promoção turística dos seus países. Tenho a certeza que esse tipo de promoção é muito mais eficaz.
A conclusão deste texto é que a imagem de um país, tal como a imagem de qualquer outra coisa, é aquela que nós somos capazes de vender. O nosso objectivo é vender um Portugal um pouco melhor do que o real e utilizar os lucros para aproximar a realidade da imagem vendida. Se não o fizermos, os outros criarão a sua própria imagem de Portugal, a qual será certamente pior do que a realidade portuguesa, servindo assim os interesses de países que, como o Reino Unido, parecem ter um prazer sádico na existência de países menos desenvolvidos em termos económicos e sociais.
Como não sabemos vender Portugal, a nossa imagem no Reino Unido continua a ser a da velhinha vestida de negro, com bigodes e sem dentes, que caminha com as pernas arqueadas atrás de um burro em direcção a uma casa em ruínas. Será que alguém tem esta imagem de Inglaterra? Claro que não. Mas podem ter a certeza que também se encontra.
Como não sabemos vender Portugal, o Algarve (o paraíso do turista de pé-descalço britânico) continua a ser vendido como um dos pacotes turísticos espanhóis. É verdade. Os empregados das agências de viagens insistem que o Algarve pertence a Espanha. Isto já aconteceu comigo e com outros portugueses que tentaram comprar pacotes turísticos para o Algarve (o que, muitas vezes, sai mais barato do que comprar apenas um bilhete de avião).
A promoção turística do país é uma responsabilidade nacional. Não podemos esperar que o Governo faça tudo. As empresas têm de ajudar e a comunicação social também. Quanto a Bragança, penso que já contribuiu demasiado para esta promoção.
ANS
14 outubro 2003
124 - SER ONE OF THEM
Na passada sexta-feira, a Charlotte, do blog Bomba Inteligente, recordou a forma como costumava testar o seu grego com os taxistas de Atenas. Para a Charlotte, os dias eram perfeitos quando os taxistas lhe falavam como se ela fosse “one of them”.
Aqui em Liverpool é ao contrário. Os dias maus acontecem quando os scousers (naturais de Liverpool) falam comigo como se eu fosse one of them. Quando isso acontece, eles carregam no sotaque e usam todas aquelas expressões que, em conjunto, constituem um autêntico dialecto (scouse) cuja compreensão é quase impossível (até os britânicos têm dificuldades).
Para que tenham uma ideia mais precisa do que é o scouse, aqui ficam algumas dicas sobre a pronúncia:
Os scousers falam como se tivessem bronquite, ou seja, fazem-no de uma forma nasalada e com vestígios de um catarro permanente. Outra consequência dessa “bronquite crónica” é facilmente observada na entoação que os scousers dão às frases, as quais começam sempre num lamento para terminarem num tom muito agudo (como se fosse uma canção).
Nas palavras com “t” ou “th”, estes são pronunciados como “d” (o que, para os portugueses, até é conveniente). Quando o “th” vem no início das palavras, os scousers optam por adicionar um “d” ou por pronunciar apenas o “t” (influência irlandesa).
As palavras terminadas em “y” são pronunciadas como se terminassem em “ee” (este som parece que não acaba, principalmente quando a palavra em causa aparece no final da frase).
As vogais no meio das palavras mudam frequentemente de som.
Quando as letras “d” e “t” estão no início das palavras são pronunciadas de uma forma aspirada, o que resulta na adição de um “s”.
Nas situações em que o inglês da BBC omite a letra “t”, os scousers substituem-na por um “r”.
As palavras terminadas em “t” são pronunciadas como se terminassem em “tch”.
As terminações “ing” são, simplesmente, reduzidas para “n”.
A palavra “its” é pronunciada como “’s”
Quando as letras “l” e “m” aparecem juntas numa palavra, os scousers introduzem uma vogal entre elas.
Quando as palavras terminam em “k”, este pode ser substituído por “ch”.
A dupla negação é utilizada sempre que possível.
Mas o scouse não se distingue apenas pela pronúncia. Também existe uma grande variedade de vocábulos que são exclusivos do scouse. Para que tenham uma ideia do que é falar inglês em Liverpool, aqui fica um exemplo do que poderia ser uma conversa com um taxista que me considerasse um scouser:
Taxista: Dso yer see dat broken window?
Eu: Yes, I dso.
Taxista: Id was broken yesterdaee nightch. Some divvy fellers dsid id. Dthey waaire baaivvied. Dthese boys are woollybacks. ‘s like… dthey dson’t like dthe bewks. Dthey are allus in dthe boozers gett’n chaaimicked. And dthe baairds dso dthe same. Dat’s why dthey are allus boxed.
Eu: Why?
Taxista: I dsunno. Dson’t axe me. Last nightch, me and me wife… we found ahr kid in dthe streets look’n for loosies. ‘e was ask’n everybodee: “Gorranee ciggies? Gorranee ciggies?”. Dekko, I’m a jockey but I give me kid a doddle life. Eorta be a good college pud. Last nightch ‘e was so daairty dat I couldn’t crack on ‘im. Last mond dthe filth tooch ‘im tso dthe cop shop. ‘e spent tswo nights in nich. After dat ‘e spent some tsime ad gaff watch’n dthe filums. I asked ‘im tso ‘elp me digg’n oud dthe gaff and ‘e didn’t dso nutt’n. ‘s like… a ghost. Dthen I tsold ‘im: “Yer gotta ged outch. Lemme tsake yer tso dthe togga. We’ll 'ave some baaivvy and chippy.” ‘e allus gets tizzie wid footy. Whaain we god daaire, ‘e met dem mates dat are allus rotten and left me tod. After dat ‘e broke one mitt in a straightener. Worra ‘appen wid dat kid?
Eu: Ad leasd ‘e’s not on tabs…
Taxista: Zarrafact?… Dekko. ‘ere we are. Dat's Lime Street station.
Eu: What’s dthe dsamage?
Taxista: Four quid, mate.
Eu: Keep dthis flim.
Taxista: Ta.
Eu: Ta-ra.
Espero que consigam entender este diálogo. Se tiverem dúvidas, podem perguntar-me ou podem tentar encontrar a tradução neste glossário.
Felizmente, nunca conseguirei falar assim. É que além de ser horrível quando comparado com o inglês da BBC, o scouse é também um estigma que acompanha os scousers por toda a sua vida, criando-lhes sérias dificuldades.
ANS
13 outubro 2003
123 - CANÇÕES DE 1973 (XIV)
Hoje, esta série muda de capítulo , ou seja, passa para a quinta letra do alfabeto. Para estrear este capítulo, recorro ao álbum Desperado, dos Eagles, do qual saliento as canções Tequila Sunrise, Desperado e Doolin-Dalton. A seguir transcrevo a letra de Tequila Sunrise - um shot de coragem:
TEQUILA SUNRISE
It's another tequila sunrise
Starin' slowly 'cross the sky, said goodbye
He was just a hired hand
Workin' on the dreams he planned to try
The days go by
Ev'ry night when the sun goes down
Just another lonely boy in town
And she's out runnin' 'round
She wasn't just another woman
And I couldn't keep from comin' on
It's been so long
Oh, and it's a hollow feelin' when
It comes down to dealin' friends
It never ends
Take another shot of courage
Wonder why the right words never come
You just get numb
It's another tequila sunrise,this old world
still looks the same,
Another frame, mm...
By the Eagles
ANS
11 outubro 2003
122 - O ILDEFONSO
Frequentei o ensino primário numa escola pública, na qual tive a oportunidade de conviver com crianças das mais variadas origens étnicas e sociais. Entre essas crianças, havia uma que eu admirava muito. Era o Ildefonso. Fomos colegas até à terceira classe. Depois, o Ildefonso foi forçado a interromper os estudos.
Foi uma pena, não só pelos motivos óbvios, mas também porque o Ildefonso era um prodígio do cálculo mental. Ainda hoje recordo a minha professora a confirmar (à mão) os resultados dos cálculos mentais do Ildefonso. Mas eu (e as outras crianças) já sabíamos que o Ildefonso acertava sempre.
À tarde, depois das aulas, era comum irmos brincar. Podíamos fazê-lo por todo o lado. É uma das vantagens de se crescer numa pequena cidade, como Faro. Infelizmente, o Ildefonso não aproveitava essa vantagem e não nos acompanhava nas tardes de brincadeira. Não podia fazê-lo porque estava a trabalhar com os pais (que eram feirantes). Foi assim que ele aprendeu a "fazer contas".
Foi numa dessas tardes de brincadeira que encontrei o Ildefonso a ajudar os pais. Foi na feira de Santa Iria, quando esta ainda tinha lugar no Largo de S. Francisco. Nessa tarde de Outubro, o Ildefonso conduziu-me numa visita guiada pela feira, com direito a experimentar todas as diversões (carrosséis, carros de choque, etc...) e guloseimas (farturas, algodão-doce, etc...). Também pude ver o pessoal do circo a preparar o espectáculo dessa noite. Foi uma das melhores tardes da minha infância. Desde esse dia, nunca mais vi o Ildefonso.
Neste momento, o leitor deve estar a interrogar-se sobre o interesse destas recordações de infância. Tem razão. São recordações que, aparentemente, só me interessam a mim. Mas a verdade é que estas recordações, entre outras, contribuiram muito para que, hoje, eu abomine o racismo. É que o meu amigo Ildefonso era cigano. E, por esse motivo, não terá gostado nada de ouvir dizer, no Telejornal de ontem (minuto 56:40), que "as crianças ciganas de Rebordinho podem ir à escola desde que se comportem como gente, como gente portuguesa..."
Infelizmente, estas afirmações (que reflectem um racismo enraizado) não foram comentadas no Telejornal. Infelizmente, estas afirmações surgem como a conclusão (será?) de uma história que começou na sexta-feira da semana passada, quando o Jornal de Notícias revelou que, na quinta-feira (2 de Outubro), "algumas dezenas de populares e encarregados de educação da povoação de Teivas, na freguesia de S. João de Lourosa, nos arredores de Viseu, fecharam a cadeado" a escola do 1º Ciclo do Ensino Básico daquela localidade. De acordo com a notícia, "o protesto, que impediu a abertura da escola e o acesso de professores e auxiliares de acção educativa, ficou a dever-se à alegada intenção, das estruturas educativas, de transferir para aquele estabelecimento de ensino" catorze crianças (de etnia cigana) da vizinha povoação de Rebordinho.
Aparentemente, o protesto foi aceite e as catorze crianças foram transferidas para a escola "primária" de Rebordinho, o que obrigou o Centro da Área Educativa de Viseu a reforçar o quadro docente daquela escola com mais duas professoras e uma auxiliar de acção educativa. Entretanto, na última quinta-feira (9 de Outubro), o Jornal de Notícias revelou que, na quarta-feira (8 de Outubro), dia em que as crianças deveriam começar a frequentar as aulas, o portão da escola, além de estar trancado com arames, tinha vários cartazes com a frase: "Não queremos cá os ciganos".
ANS
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